O Retorno de Tamara / Tamara Drewe

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Este O Retorno de Tamara, no original Tamara Drewe, é baseado em uma história em quadrinhos, ou, como se diz agora, em uma graphic novel, romance gráfico. Mas, como é um romance gráfico inglês, não tem super-heróis. Muitos dos personagens são escritores; um deles está escrevendo um livro sobre Thomas Hardy (1840-1928). E a história tem algumas similaridades com Longe Deste Insensato Mundo/Far from the Maddening Crowd, o quarto romance do escritor inglês.

Stephen Frears, um dos melhores, mais regulares e mais ecléticos cineastas em atuação, fez dessa história em quadrinhos uma comédia deliciosa, malandra, sensual, uma grande gozação do universo dos escritores e da vida na Inglaterra rural, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante da modernidade e do burburinho de Londres.

Para interpretar os diversos personagens – a história focaliza uma galeria de uma dezena de pessoas –, Frears reuniu um elenco afiado, excelente, mas de nomes pouco conhecidos fora da Inglaterra. Aparentemente (a não ser que eu esteja mal informado, o que é bem possível, claro), o nome mais conhecido do elenco é o de Gemma Arterton, que interpreta a Tamara do título.

Temos o casal Nicholas e Beth Hardiment (interpretados por Roger Allam e Tamsim Greig), dono de uma pequena fazenda em Dorset, perto de um vilarejo chamado Ewdown. Nicholas e Beth – muito mais Beth que Nicholas, na verdade – criaram ali um retiro para escritores, uma pousada calma, tranquila, longe deste insensato mundo, lugar ideal para escritores ou aspirantes a enfrentarem a dureza da folha de papel em branco – ou, perdão, a tela em branco.

O marido escreve e trai a mulher; a mulher, por sua vez, trabalha feito uma camela

O próprio Nicholas (de camisa azul na foto) é um escritor; produz novelas policiais em série – já foram mais de dez, e têm bastante sucesso. Nicholas escreve, e trai Beth com garotinhas mais novas, enquanto Beth (à direita) cuida de todo o trabalho da fazenda e da pousada, atende os hóspedes, revisa os originais do marido, trata de todos os seus interesses junto ao agente, à editora, marca seus lançamentos, suas participações em feiras literárias, faz a contabilidade do casal e da pousada.

O principal ajudante de Beth nas tarefas da fazenda, os cuidados com os animais, com os consertos sempre necessários, é Andy Cobb (Luke Evans). Andy, aí pelos 30 e poucos anos, tem uma história de vida rica e um tanto triste. Seus pais tinham uma boa propriedade, uma boa casa, não muito distante da fazenda do casal Hardiment, mas acabaram perdendo tudo. Andy dedicou-se a várias atividades que não deram certo, inclusive uma plantação de maconha cujo principal consumidor tinha sido ele mesmo. Livrou-se do vício, com a ajuda de Beth, a quem é extremamente grato, e agora trabalha como faz-tudo para a amiga.

Uma escritora de histórias de vampiras lésbicas e um biógrafo de Thomas Hardy

Quando a ação começa, há vários hóspedes na pousada-retiro de escritores, inclusive uma especialista em histórias de vampiras lésbicas que jamais conseguiu publicar nada e um professor de literatura americano, Glen (Bill Camp), o tal que está escrevendo um livro sobre Thomas Hardy.

A galeria de personagens inclui um par de adolescentes de uns 13, 14 anos, estudantes da única escola da pequenina Ewedown, Jody (Jessica Barden) e Casey (Charlotte Christie). São amigas inseparáveis, morrem de tédio no vilarejo pequeno onde nunca acontece nada, falam palavrão sem parar, cometem pequenas pilantragens e sonham com os ídolos do rock do momento, em especial com Ben Sergeant, baterista e líder de uma banda famosa. Para absoluta delícia das garotas, a banda de Ben fará uma apresentação ali na região – e irá virar um personagem importante da história.

E, finalmente, temos a Tamara do título do filme – o papel de Gemma Arterton.

Tamara havia deixado Ewedown uns dez anos antes, e nunca mais tinha aparecido por lá. Virou jornalista em Londres. De repente, reaparece. Veremos que o retorno de Tamara se deve ao fato de que sua mãe tinha morrido, deixando como herança para ela a bela propriedade que, décadas antes, tinha pertencido à família de Andy. Tamara não sabe direito o que fazer com a propriedade, com a casa ampla mas mal tratada pelo tempo. Pensa em vendê-la, mas para isso precisará dar uma boa garibada na construção.

A garota Tamara reaparece em grande estilo, meia bunda de fora no campo inglês

Tamara reaparece em grande, gigantesco estilo, num fim de semana de verão em que os Hardiment estão servindo um coquetel para seus hóspedes. Chega com um shortinho extremamente short, com metade da bunda aparecendo – conforme dirá Beth mais tarde –, e a câmara de Stephen Frears mostra as belas pernas e boa parte da bunda de Tamara com imenso prazer.

Uma década atrás, antes de sair de Ewedown para tentar a vida na metrópole, Tamara era um patinho feio devido a um único detalhe – tinha um nariz gigantesco. No seu retorno triunfal, chega como um cisne: o nariz horrível havia sido trocado por um bem feitinho, um desses milagres dos bisturis dos cirurgiões plásticos.

Em rapidíssimos flashbacks, veremos que, nos seus tempos de patinho feio, Tamara havia comido Andy – e se insinuado o quanto podia para o então mais jovem e menos gordo Nicholas Hardiment.

Como Bathsheba Everdene do romance de Thomas Hardy, Tamara vai mexer profundamente com a vida de vários homens – inclusive com o roqueiro Ben, na sua passagem pelo campo que era para ser breve e acabará se prolongando mais do que poderia supor sua vã filosofia.

Eclético, à vontade em que qualquer gêneros, Frears parece ter se divertido com este filme

Stephen Frears é cineasta que se dá bem no drama e na comédia, em qualquer gênero pelo qual se aventure – e já se aventurou por quase todos. Fez western (Terra de Paixões/The Hi-Low Country), filmes de época baseados em romances franceses (Ligações Perigosas, Chéri), dramas sérios, pesados (Coisas Belas e Sujas/Dirty Pretty Things, Minha Querida Lavanderia), reconstituição de fatos políticos reais (A Rainha), comédia musical (Mrs. Handserson Apresenta), terror (O Segredo de Mary Reilly), policial (Os Imorais/The Grifters), comédia (Herói por Acidente, A Van).

Parece, pelo que se vê nos especiais do DVD, ter se divertido muito ao fazer este O Retorno de Tamara.

Os especiais mostram um pouco dos desenhos do romance gráfico em que o filme se baseia – e é impressionante como algumas cenas são idênticas ao que a autora desenhou. É como se os quadrinhos fossem o storyboard do filme – os desenhos de cada tomada, feitos a partir do roteiro, para orientar a filmagem.

Ao mesmo tempo, nas entrevistas do making of se diz que a roteirista Moira Buffini e Frears tomaram algumas liberdades, mexeram em algumas coisas da história, inclusive no destino final a alguns dos personagens criados pela escritora Posy Simmonds.

Vejo na Wikipedia que Posy Simmonds, uma inglesa de Berkshire, nascida em 1945, escreveu as histórias de Gemma Bovery e de Tamara Drewe para o jornal The Guardian, esta última entre 2005 e 2006, depois publicada em livro. “Seu estilo gentilmente satiriza as classes médias inglesas, e em especial os meios literários. Seus dois livros publicados apresentam uma heroína bem ao estilo dos romances góticos dos séculos XVIII e XIX, aos quais muitas vezes se refere, mas com um tom irônico, moderno.”

Uma jovem atriz que vai ser difícil segurar

A garota Gemma Arterton, por sua vez, que interpreta Tamara Drewe, é uma atriz em fabulosa ascensão. Nascida em 1986 (estava, portanto, com 24 anos quando fez este filme aqui), interpretou em 2008 a personagem título de uma adaptação para série da BBC de Tess of the D’Urbervilles, o romance de – ele aí de novo – Thomas Hardy, que antes, em 1979, já havia sido filmado por Roman Polanski, com Nastassja Kinski no papel central. E, depois dessa refilmagem de um clássico literário inglês, participou de um filme de James Bond, Quantum of Solace, e de aventuras de grande orçamento, Fúria de Titãs e Príncipe da Pérsia – As Areias do Tempo.

Além de bonita e gostosa, é segura de si: num dos especiais do DVD de O Retorno de Tamara, ela divide uma entrevista com o veterano Stephen Frears, e fala tanto quanto ele, e de maneira muito mais desembaraçada – Frears, mais acostumado ao outro lado das câmaras, não se mostra à vontade nessas jogadas de marketing, escolhe cuidadosamente as palavras, enquanto Gemma Arterton, com a segurança da juventude e a tranquilidade dos atores, fala à vontade.

Vai ser difícil segurar essa moça.

O Retorno de Tamara/Tamara Drewe

De Stephen Frears, Inglaterra, 2010

Com Gemma Arterton (Tamara Drewe), Roger Allam (Nicholas Hardiment), Bill Camp (Glen McCreavy), Dominic Cooper (Ben Sergeant), Luke Evans (Andy Cobb), Tamsin Greig (Beth Hardiment), Jessica Barden (Jody Long), Charlotte Christie (Casey Shaw), James Naughtie (entrevistador)

Roteiro Moira Buffini

Baseado no romance gráfico Tamara Drewe, de Posy Simmonds

Fotografia Ben Davis

Música Alexandre Desplat

Produção Ruby Films, BBC Films, Notting Hill Films, UK Film Council, WestEnd Films. DVD Sony Home Video.

Cor, 111 min

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Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Philomena em 8 dezembro 2014 às 2:01 pm

    […] de Stephen Frears (2013) é um brilho, uma pérola, um filmaço. É absolutamente tudo o que se pode esperar de um […]

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