O Estudante / El Estudiante

Nota: ★★☆☆

Anotação em 2011: O Estudante, produção mexicana de 2009, é repleto de boas, ótimas, excelentes intenções. Demonstra que foi feito com garra, gana, paixão – e tem alguns bons momentos. Mas tropeça sob o peso de tanta vontade de se fazer uma obra que dê um bom recado, que transmita uma boa mensagem – e na opção de ser de fácil entendimento.

Acaba tendo um gostinho de coisa naïf – ingênua, pura demais. E de panfleto – ainda que em prol de causas nobres.

Quando um filme, ou qualquer obra, vira panfleto demais, deixa de ser filme, de ser arte. Como se dizia antigamente: se você quiser mandar uma mensagem, use o Correio. Ou então: boa política faz teatro ruim.

Boas pessoas, pessoas de bom caráter, de boa índole, seguramente se comoverão com o filme. Aqueles que, depois de se comoverem com o filme, fizerem busca na internet para ver opiniões sobre ele e vierem eventualmente parar aqui ficarão com certeza magoados, ou furiosos, com o tom de crítica presente nesta anotação.

Gostaria muito de estar aqui apenas tecendo elogios ao filme dos diretor Roberto Girault. Admirei suas boas intenções; concordo com quase todos os valores que o filme defende. (O quase aí é porque há a questão do aborto, em que discordo frontalmente do que mostra o filme.) Não sou dono da verdade, de nenhum tipo de verdade – este lugar aqui é apenas onde registro minhas opiniões pessoais a respeito dos filmes que vejo. E minha opinião é esta: acho que O Estudante é um filme muitíssimo bem intencionado, porém fraco.

Uma apaixonada defesa da aprendizagem e do diálogo entre as gerações

É uma defesa apaixonada da aprendizagem, da educação. De que nunca é tarde para aprender. De que as pessoas ficam melhores quando estudam, aprendem. De que os grandes clássicos são eternos, e todos devemos e podemos aprender com eles. É uma defesa apaixonada do diálogo entre as gerações – de que todos podem sair ganhando, quando jovens e velhos conversam, dialogam, convivem.

Tudo, tudo, tudo valores corretíssimos.

Não gostaria de sujar esta anotação com recordações ruins que seria melhor deixar pra lá, mas é impossível deixar de registrar que tudo o que este filme defende é o exato oposto daquilo que o apedeuta que foi presidente do Brasil durante oito tristes anos defendeu. O exato oposto, o contrário das loas à falta de estudo, de preparo, de esforço.

Um velhinho que logo se dá bem com os garotinhos e as garotinhas

Chano, o protagonista da história (interpretado por Jorge Levat), é um homem na faixa dos 70 anos de idade, feliz, realizado; tem uma mulher maravilhosa, Alicia (Norma Lazareno), amam-se profundamente; tem duas filhas, uma neta linda, e está aposentado, sem qualquer tipo de problema de falta de dinheiro – não se diz o que Chano fez na vida, não importa, mas dá para inferir que ele teve seu próprio negócio, um negócio próspero, firme, não gigantesco, mas bom. Poderia então simplesmente se dedicar ao dolce far niente, a curtir a boa vida ao lado da mulher, das filhas e das netas.

Mas Chano quer mais. Quer voltar a estudar, quer aprender, quer ter um diploma universitário, que não teve, porque provavelmente quando jovem cuidou do trabalho em primeiro lugar.

Matricula-se no curso de Letras da Universidade de Guajanuato.

A princípio, haverá um certo estranhamento – os colegas de Chano, um punhado de garotos e garotas ali na faixa dos 20 anos de idade, vão numa primeiro momento demonstrar uma certa rejeição àquele estranho, aquele velhinho.

Essa fase vai passar logo. Rapidamente estarão se dando bem, o velhinho e os garotinhas e as garotinhas.

O filme como que fala devagarinho para ver se o público compreende

Na minha opinião pessoal (não sou dono da verdade, repito 200 vezes se for preciso: estou apenas expressando minha opinião pessoal de espectador, jamais de crítico de cinema, coisa que não sou), o grande problema deste filme cheio de boas intenções é o excesso de obviedade, o excesso de condescendência para com o que os realizadores devem considerar como sendo falta de informação, de educação, de cultura do público.

O filme como que fala muito devagarinho, pausadamente, para ver se o público o compreende. Como se estivesse falando com imbecis. Ao ser óbvio demais, o filme acaba ofendendo a inteligência do público. Subestimar a inteligência do espectador é crime.

Algumas belas tomadas, fotografia de primeira. Mas…

Há belas tomadas, a fotografia é muitíssimo bem cuidada. Num determinado momento, ainda no começo, a câmara, colocada no nível do chão, anda da esquerda para a direita mostrando os calçados usados pelos alunos da fileira em que se senta Chano: tênis, tênis, tênis – e depois os sapatos pretos, caretas, velhos, do senhor de 70 anos de idade. É uma tomada especialmente feliz, engenhosa. Pena que é uma raridade, dentro do filme como um todo. Na imensa maior parte do tempo, a narrativa é naïf, os episódios da trama são naïves. Até a intepretação dos atores é forçadamente óbvia, para que todo o público compreenda a mensagem.

É como se o diretor estivesse se dirigindo a um público emburrecido pela linguagem da televisão, usando a própria linguagem da televisão para tentar passar sua mensagem.

Na sua forma, o filme vai exatamente contra a mensagem que está tentando passar – a de que a aprendizagem é básica, fundamental, é com ela que se vai em frente, se avança. Na sua forma, o filme como que fala com imbecis.

Por exemplo, a música.

A coisa de a música vir muito alta, e feita para parecer sinfonicamente grande, e impressionante, no momento do clímax, para ajudar a fazer o espectador chorar, é profundamente babaca.

Não dá para defender o avanço chamando o público de imbecil.

Isso para não entrar na questão mais áspera, polêmica, do aborto.

Ao fazer a defesa do já que engravidou tem que parir, mesmo que o engravidar tenha sido com a pessoa errada, na hora errada, o filme que pretende passar boas mensagens se torna lastimável, bocó, fundamentalista, a vanguarda do atraso.

O Estudante/El Estudiante

De Roberto Girault, México, 2009

Com Jorge Lavat (Chano), Norma Lazareno (Alicia), José Carlos Ruiz (Don Pedro), Cristina Obregón (Carmen), Pablo Cruz Guerrero (Santiago), Siouzana Melikian (Alejandra), Jorge Luis Moreno (Marcelo), Cuauhtémoc Duque (Eduardo), Jeannine Derbez (Sofía), Daniel Martínez (Héctor)

Roteiro Roberto Girault

Baseado em história de Gaston Pavlovich

Fotografia Gonzalo Amat

Música Juan Manuel Langarica

Produção Halo Studio. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 95 min

**

8 Comentários

  1. Danilo Vicente
    Postado em 4 Abril 2011 às 10:13 pm | Permalink

    Sergio, penso que o filme tem uma boa história, mas exagera no clichê. Gostei a interpretação do protagonista, mas seus colegas apenas quebram o galho. No fim das contas, vale o ingresso. Mas podia ser bem melhor.

    Abs.

  2. Aloysio de Oliveira
    Postado em 21 julho 2011 às 5:24 pm | Permalink

    Sérgio, concordo integralmente com seus comentários.
    Sou louco por filmes mas não tenho a intenção nem competência para julgar. Por isto recorro a sites como o seu; para reforçar – ou não – o que achei, o que senti. Sempre faço isto após assistir ao filme.
    Comecei a assistir o Estudante e me emocionei com o velhinho – até pq tenho 66 anos e encontro alguns paralelos. Mas realmente o filme descanba para a ingenuidade.
    De qualquer forma me diverti.
    Abraços
    P.S. Seu site é fantástico!

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 21 julho 2011 às 11:37 pm | Permalink

    Caro Aloysio, muitíssimo obrigado pelo comentário – e muitíssimo obrigado pelo elogio ao site. É sempre uma surpresa maravilhosa quando vejo que pessoas da minha geração (da nossa) acabam descobrindo este site, e até gostando dele.
    Um abraço.
    Sérgio

  4. Mariana
    Postado em 24 agosto 2011 às 2:41 pm | Permalink

    Sérgio, parabéns, conheci hoje o seu blog e estou me divertindo muito. Parabéns pela coragem em criticar, mas estou aqui para te dar mais coragem ainda. Por que pedir desculpas quando não gosta do que viu? É um direito não gostar, e também ter uma opinião. O tal do politicamente fez tudo ficar chato, não se pode mais criticar. Ora, o blog é seu. Achei sua crítica a Jezebel interessantíssima, tanto é que vou ver o filme assim que puder. Sucesso para você!

  5. Alyne Guimarães
    Postado em 8 novembro 2011 às 5:17 pm | Permalink

    Oi gente. Eu to estudando sobre esse filme. Bom eu achei que no filme eles querem dar uma grande lição de vida. Mostra que mesmo Chano sendo um senhor de idade ele vai em busca de seus sonhos que era estudar e se forma em literatura. Isso mostra que não importa sua idade, vá em busca de seus sonhos, porque eles podem se tornar realidade.

  6. Diego (from Brazil)
    Postado em 21 novembro 2012 às 1:18 pm | Permalink

    A criança que nasceu (que não foi abortada) não achou o filme fundamentalista. Ao contrário, adorou a mensagem!
    Mesmo não apresentando as últimas tecnologias cinematográficas, o filme tem um fotografia muito bonita e bons atores. No geral, ótimo filme! Recomendo.

  7. karina
    Postado em 16 Março 2015 às 3:13 pm | Permalink

    Bom pelo que percebo sua critica se da pelo fato de o autor defender o aporto, você não é obrigado a concorda, mas o autor pode e deve por seu ponto de vista. Não importa quanto o mundo se evoluiu. O que é Sagrado sempre será sagrado, e para mim a vida é sagrada, eu sinto muito se num momento de fraqueza a pessoa erra ou faz algo que não deveria fazer, mas aquela outra vida não tem motivos para parar de existir.

  8. vera
    Postado em 18 novembro 2015 às 4:08 am | Permalink

    Adorei, mesmo por que alguns temas abordados são em partes diferentes da cultura que temos no Brasil atualmente, é claro o filme é mexicano…E como toda arte cinematográfica mexicana, muito doce, sutil, bom filme pra relaxar….

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*