O Discurso do Rei / The King’s Speech

Nota: ★★★★

Anotação em 2011: Só não se pode dizer que há incontáveis filmes sobre os reis e rainhas da Inglaterra porque, como bem lembrava o Heitor da Luz, tudo, absolutamente tudo é contável, até os grãos de areia do Saara. Mas uma coisa é certa: O Discurso do Rei é um dos melhores de todos os zilhões deles – se não for o melhor.

A Rainha, de Stephen Frears, por exemplo, também é um brilho. Reconta, com precisão cirúrgica e interpretações memoráveis, o episódio da morte da Princesa Diana e os momentos em que a insensibilidade de Elizabeth II ameaçou deixar a maior parte de seus súditos contra a monarquia – e foi preciso a ajuda do então jovem e promissor primeiro-ministro trabalhista, Tony Blair, para fazer a família real dar à princesa morta ao menos parte da importância que ela merecia, e conter a onda de descontentamento sem paralelo nos muitos séculos que duram a fascinação e o respeito do povo inglês por seus soberanos.

A Jovem Rainha Vitória/The Young Victoria, para lembrar outro filme bem recente, de 2009, também é muito bom – até porque o reinado de Victoria foi importantíssimo, e longo, o mais longo até hoje; durou 63 anos, de 1837 até 1901. Se viver mais quatro anos, Elizabeth II, que assumiu o trono em 1952, após a morte do seu pai, o rei George VI, conseguirá bater o recorde de sua tataravó – e tudo indica que ela vai conseguir. São longevas, essas pessoas da Casa de Windsor. A mãe da atual Elizabeth, Elizabeth Bowes-Lyon, que a partir de 1952 passou a ser chamada de A Rainha Mãe, viveu até os 101 anos – morreu em 2002.

Então A Jovem Rainha Vitória é um belo filme entre outros motivos porque a história que conta é fascinante. Tem, como anotei logo depois de vê-lo, todos os ingredientes de uma boa novela: amor, ódio, brigas familiares, intrigas, traições. Além, é claro, de todo o artesanato mais que perfeito que caracteriza o cinema inglês.

Não pode haver história sobre realeza mais fascinante que a de George VI

Mas acho que não pode haver história sobre realeza mais fascinante que a do pai de Elizabeth II, o rei George VI, a história que este O Discurso do Rei conta. É uma história bem recente, muito próxima de nosso próprio tempo – e, no entanto, eu não a conhecia, nem Mary, e imagino que boa parte dos brasileiros também não. Claro: agora, depois do filme, de seu sucesso, de suas premiações todas no Oscar, até as pedras da rua a conhecem de cor e salteado.

Não vou, por isso, me estender sobre ela, mas é preciso registrar as informações básicas.

Albert Frederick Arthur George (1895-1952) virou rei por acaso. E assumiu o trono do que era então o maior império do mundo num momento delicadíssimo da história da humanidade – em 1936, com o nazismo dominando a Alemanha e dando sinais de que uma guerra tão terrível quanto a de 1914-1918 seria inevitável.

E o rei era gago.

George VI era inseguro, traumatizado talvez pelo pai poderoso, inflexível, exigente, e pelo irmão mais velho, o que deveria ser o rei – e, além de inseguro, traumatizado, era gago.

Um ator estupendo em seu melhor momento

Tudo é absolutamente superlativo no filme que conta essa história fascinante. O que é mais superlativo de tudo, seguramente o que marcará para sempre o filme, é a extraordinária atuação de Colin Firth.

Colin Firth é um grande ator; consegue atuar bem até quando aceita papéis em comedinhas românticas idiotas como Hope Springs – Um Lugar para Sonhar e Marido por Acaso/The Accidental Husband. Mais inglês que o chapéu coco, faz bem até um texano, como prova no bom e subestimado Bom Demais Pra Ser Verdade/Main Street. Não fica ridículo nem mesmo quando faz um inglês que vai a Portugal e declara seu amor por uma bela rapariga num português macarrônico, no meio de um restaurante lotado que pára para assistir à cena, como fez no maravilhoso Simplesmente Amor/Love Actually.

Quando tem bons papéis, como em Bons Costumes/Easy Virtue, ou, em especial, em Direito de Amar/A Single Man, Colin Firth nada de braçada, dá show. Sua interpretação neste último filme citado, como o professor de literatura que, após perder o companheiro de 18 anos, perde também a força para continuar vivendo, é extraordinária. E, felizmente, teve o reconhecimento que merecia: Firth foi indicado para o Oscar, o Globo de Ouro, o Independent Spirit Award, o prêmio do Sindicato dos Atores; ganhou o Bafta e o Volpi do Festival de Veneza.

Voltou a ter uma interpretação brilhante neste O Discurso do Rei.

Um nobre revoltado contra si mesmo, acabrunhado – mas sempre esnobe, com ar superior

Dá vontade de rever o filme logo que ele termina para observar melhor a interpretação de Colin Firth. Dá vontade de dar rewind diversas vezes ao longo do filme para rever uma ou outra ou ainda outra fala – ou silêncio.

É comum se dizer que interpretar pessoas que têm alguma deficiência, ou doença, torna mais fácil para um bom ator brilhar. Assim como é comum se dizer que esse tipo de interpretação dá pontos extras para as premiações, em especial o Oscar: Dustin Hoffman ganhou o prêmio por Rain Man interpretando um autista, Anne Bancroft ganhou por O Milagre de Annie Sullivan como uma quase cega, Patty Duke ganhou no mesmo filme como uma cega e surda, Marlee Matlin por Filhos do Silêncio como uma muda. A lista seria interminável.

Pode ser que seja verdade isso que se diz. Pode até ser. Mas não tem a mínima importância. O que importa é que é uma interpretação estupenda, maravilhosa, extraordinária, essa de Colin Firth como o homem que virou rei num momento crucial da História, contra sua própria vontade, e que passou a ter a obrigação, o dever, de, sendo gago, discursar para seus súditos.

Colin Firth nos mostra um Bertie (como era chamado pelos íntimos), e depois um rei George VI inseguro, apavorado diante de seu problema de fala, terrificado diante de suas obrigações, exasperado diante das tentativas infrutíferas de tratar da gagueira, revoltado contra si mesmo, acabrunhado – mas ao mesmo tempo esnobe, sentindo-se muito superior diante do homem que se dispõe a ajudá-lo. Vemos um homem que alterna prepotência e insegurança, fraqueza; um nobre consciente de seu status que no momento seguinte não consegue esconder seus medos, seus pavores, e parece uma criança frágil, desprotegida.

É um brilho absoluto.

Uma história contada em rigorosa ordem cronológica

O roteiro é outro brilho. Ao contrário do que muita gente faria, do que virou quase uma obsessão dos roteiristas, o de abrir a ação com um fato importante, marcante, e depois dar um flashback e vir vindo no tempo até chegar de volta ao grande fato do início – isso que chamo de narrativa-laço -, o roteirista David Seidler optou por contar a história em rigorosa ordem cronológica. Tinha a seu favor a riqueza da própria história de Albert/Bertie/George VI: pôde abrir o filme com um grande fato, importante, marcante – em 1932, Albert, então Duque de York, segundo filho do rei George V, foi incumbido de fazer o discurso de encerramento de uma exposição mundial no Estádio de Wembley, diante de milhares de pessoas e de um microfone da BBC que transmitiria suas palavras para milhões de súditos do Império Britânico no mundo todo.

É uma abertura de imensa beleza visual, de gigantesco impacto – e terrivelmente angustiante, apavorante.

É impossível haver espectador que não sinta, naqueles minutos iniciais do filme, uma tremenda simpatia por aquele homem de quem exigem algo de que ele simplesmente não é capaz. Tem-se uma tremenda simpatia – e dó, pena. É de doer.

Um príncipe que enfrentou muitas desgraças traumatizantes na infância

À medida em que a narrativa avança, o filme, com sutileza, sem precisar carregar demais nas tintas, vai mostrando que:

. o rei George V, o pai de Albert/Bertie (interpretado por Michel Gambon), é, pelo menos em relação ao seu segundo filho, um idiota, um cego, insensível; simplesmente não admite que ele tenha um problema sério de fala. Exige que ele faça discursos nas ocasiões que julga necessárias;

. Albert/Bertie cresceu assombrado, apavorado diante de seu próprio problema; sua gagueira foi alvo de pilhéria dos familiares, em especial do irmão mais velho, o primeiro na linha sucessória, o futuro rei Edward VIII (interpretado por Guy Pearce). Bertie tinha medo do irmão mais velho; diante dele, sua gagueira ficava ainda pior;

. Bertie era canhoto; foi forçado a abandonar essa característica natural e a aprender a usar a mão direita. Hoje se sabe muito bem os efeitos perversos dessa coisa absurda que é não respeitar o fato de uma pessoa ser canhota – e só esse fato, o de que usaram todo tipo de força e pressão para que o garoto passasse a usar a mão direita já demonstra muito do inferno que aquela pessoa deve ter suportado na infância;

. diante de tanta desgraça, Bertie teve uma grande sorte na vida: casou-se com uma mulher extraordinária, que o amava. Elizabeth Bowes-Lyon (uma beleza de interpretação da eclética e sempre ótima Helena Bonham Carter) era o grande apoio, o suporte firme do marido.

Todo o filme se constrói sobre a relação entre o príncipe e o plebeu

É Elizabeth que descobre Lionel Logue, um australiano que tratava de problemas da fala com métodos pouco usuais. Bertie já não agüentava mais ver médicos – já tinha tentado vários, sem qualquer sucesso. Mas aceita ir com a mulher até a casa em que Lionel Logue atendia seus pacientes.

Todo o filme se faz na relação entre esses dois homens, Bertie, o Duque de York, segundo na linha sucessória do trono britânico, e Lionel Logue, um australiano de métodos nada, mas nada ortodoxos.

E aí vem outro dos brilhos do filme, que é a interpretação de Geoffrey Rush, australiano como seu personagem.

São dois atores maravilhosos contracenando, dois gigantes em luta, recriando o que é seguramente uma das mais fascinantes histórias de paciente-terapeuta. Faz lembrar – as coincidências – a relação entre Annie Sullivan e Helen Keller, que Arthur Penn recriou no já citado O Milagre de Annie Sullivan.

É um deslumbre.

O roteirista – ele mesmo gago – ouviu quando criança o discurso do rei

Há filmes – uns poucos, os melhores que existem – em que tudo dá certo, tudo se encaixa perfeitamente. O Discurso do Rei é assim. A presença de Geoffrey Rush é um achado, por ser australiano como Lionel Logue, por ter se apaixonado pela história, pelo papel. O brilho maior é de Colin Firth, o filme é para isso – e Geoffrey Rush parece não se importar com o papel de sparing. Mas que sparing.

O roteirista David Seidler é um veterano: por este filme, iria se tornar a pessoa mais velha a vencer um Oscar de melhor roteiro original. Por ser veterano, e inglês, conheceu o rei George VI, ouviu, quando criança, discursos do rei. Mais: ele também era gago – e o rei foi uma inspiração para ele, para que enfrentasse o problema, se tratasse, conforme conta em um dos especiais do DVD e Blu-ray do filme.

Nesses especiais, o diretor Tom Hooper diz que uma das coisas que o encantaram, ao fazer o filme sobre a relação entre o inglês duque, filho do rei, e o australiano absolutamente plebeu, foi o fato de ele mesmo, Hooper, ser meio inglês e meio australiano.

Quando é para dar certo, tudo conspira para que dê certo. As filmagens já estavam em vias de começar quando um descendente de Lionel Logue entregou à produção os cadernos em que o terapeuta relatava, com detalhes, as sessões de tratamento do duque/Bertie. “Começamos a reescrever o roteiro para aproveitar aquele material maravilhoso”, conta Tom Hooper, “e algumas das melhores falas do filme foram escritas pelo rei George VI e Lionel Logue”.

Sensacional. Parece um filme.

61 prêmios, inclusive quatro dos cinco Oscars mais importantes

O Discurso do Rei ganhou quatro Oscars – quatro das cinco mais importantes categorias: filme, direção, ator para Colin Firth e roteiro original. Teve ainda outras oito indicações (foram, portanto, 12 no total): ator coadjuvante para Geoffrey Rush, atriz coadjuvante para Helena Bonham Carter, direção de arte, fotografia, figurinos, montagem, trilha sonora original e som.

Foram, no total, 61 prêmios e 89 indicações.

Uma seqüência memorável, que dá inveja mas também uma imensa alegria

Há diálogos memoráveis, tomadas memoráveis, sequências memoráveis, neste O Discurso do Rei. Mas a que mais me impressionou, me deixou quase literalmente babando de prazer diante de tanta beleza, tanto talento, foi aquela, já mais próxima do final, em que a mulher de Logue, Myrtle (Jennifer Ehle, maravilhosa), volta para casa mais cedo, e encontra lá dentro, para sua absoluta surpresa, primeiro a rainha e depois o rei.

Logue, um terapeuta severo, duro, exigente, que fazia questão de tratar o duque depois rei de igual para igual, se desmancha de medo da mulher, de qual seria a reação da mulher. Apavorado, diz ao rei: “Ela não sabe de você!” E, numa sensacional inversão de situação, o paciente cobra do terapeuta: “Coragem, homem, vá lá enfrentá-la”.

A atuação daqueles quatro atores – Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Jennifer Ehle – nessa seqüência, os diálogos, os olhares entre e outro, só isso já valeria o filme. Essa seqüência vale por um curso inteiro sobre a civilização britânica. Dá, por um lado, uma inveja danada daquela civilização. Mas dá também uma imensa alegria, um imenso prazer, ver este momento espetacular de cinema.

O Discurso do Rei/The King’s Speech

De Tom Hooper, Inglaterra, 2010.

Com Colin Firth (rei George VI ),Geoffrey Rush (Lionel Logue), Helena Bonham Carter (Rainha Elizabeth), Michael Gambon (rei George V), Guy Pearce (rei Edward VIII), Derek Jacobi (arcebispo Cosmo Lang), Jennifer Ehle (Myrtle Logue), Claire Bloom (rainha Mary)

Roteiro David Seidler

Fotografia Danny Cohen

Música Alexandre Desplat

Direção de arte Netty Chapman e Leon McCarthy

Produção See-Saw Films e Bedlam Productions. Blu-ray e DVD Paris Filmes.

Cor, 118 min

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Título na França: Le Discours d’un Roi

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