O Assassino em Mim / The Killer Inside Me

Nota: ★½☆☆

Anotação em 2011: O Assassino em Mim, do inglês de fôlego de gato Michael Winterbottom, é um filme estiloso, bem feitíssimo, com uma magnífica direção de arte, uma esplendorosa reconstituição de época – anos 1950, numa cidadezinha do Texas. É também de imensa violência – uma coisa extremamente doentia, asquerosamente doentia.

Para quem gosta disso – muita violência, doença, perversidade, sadomasoquismo –, é um prato cheio. E parece que há muita gente que gosta: o filme tem sido elogiadíssimo pela crítica, como se pode ver pelas frases entusiásticas de diversos jornais, reproduzidas nos especiais que acompanham o filme no Blu-ray e certamente também no DVD.

Baseia-se num livro de Jim Thompson (1906-1977), um autor que já foi comparado a Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Outros livros de Thompson já viraram filmes, como Os Implacáveis – Fuga Perigosa/The Getaway, de Sam Peckinpah, de 1972, com Steve McQueen e Ali McGraw, e Os Imorais/The Grifters, de Stephen Frears, de 1990, com Anjelica Huston, John Cusak e Annette Benning.

O romance The Killer Inside Me, publicado em 1952, é tido como o primeiro trabalho da maturidade do escritor; a partir daí, ele passou a escrever numa velocidade alucinante – entre 1952 e 1954, foram 12 livros. No total, escreveu mais de 30 romances, todos policiais, sobre crimes, criminosos. Se a produção era vasta, prolífica, a reação a ela não era tão boa; Thompson só passou a ser considerado um escritor de fato importante após sua morte.

Em 1955, logo após aqueles anos de atividade febril, o escritor mudou-se para Los Angeles. Foi um dos autores dos roteiros de O Grande Golpe/The Killing, de 1956, e Glória Feita de Sangue/Paths of Glory, de 1957, dois dos primeiros filmes de Stanley Kubrick.

O livro The Killer Inside Me foi filmado em 1976, numa produção provavelmente de orçamento baixo, porque tanto o diretor, Burt Kennedy, quanto os atores principais, Stacy Keach, Susan Tyrell e Tisha Sterling, não são lá muito conhecidos (ou será ignorância minha?). (Segundo o historiador e estudioso Jean Tulard, Burt Kennedy foi um brilhante roteirista de westerns, que não foi tão feliz quando passou para a direção, embora tenha feito um filme muito bom, O Homem com Morte nos Olhos, de 1967.)

Uma produção requintada, perfeita em todos os aspectos técnicos

Esta refilmagem de 2010, ao contrário do filme de 1976, é uma produção requintada, perfeita em todos os quesitos técnicos. Embora não tenha sido feito por um dos grandes estúdios de Hollywood, foi produzido com dinheiro de diversas empresas de quatro países – Estados Unidos, Suécia, Inglaterra e Canadá –, ao custo de US$ 13 milhões. É até pouco, para os padrões americanos, mas teve um diretor respeitado, Michael Winterbottom, um desses sujeitos que parecem trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias ao ano, todos os anos – em 22 anos, o louco dirigiu 36 filmes –, e o elenco tem três nomes de jovens atores de sucesso, Casey Affleck, Jessica Alba e Kate Hudson.

E a direção de arte é realmente espetacular. O espectador entra numa cidadezinha pequena do Texas no início dos anos 50; é uma reconstituição de época que a maga Patrizia von Brandenstein, de Amadeus e O Povo Contra Larry Flynt, para citar só dois, poderia assinar com orgulho.

O talento do diretor Winterbottom, o apelo dos jovens atores belos e de sucesso, e todas as loas dos críticos, no entanto, não parecem ter sido suficientes para conquistar os espectadores. Vejo no confiabilíssimo Box Office Mojo que o filme, no mercado americano, rendeu míseros US$ 217 mil dólares; no resto do mundo, rendeu US$ 3,7 milhões – como custou US$ 13 milhões, deu, portanto, um baita prejuízo aos produtores americanos, suecos, ingleses e canadenses.

Os créditos iniciais são um show, uma maravilha

Já lá se foram nove parágrafos, e nada propriamente assim sobre a trama. Freud explicaria com facilidade. Fiquei aqui querendo fugir de falar da trama.

É que é muita doença demais. Sei lá: será que sou uma pessoa “normal” demais? Não me agrada tanta doença acumulada, destilada, concentrada.

Mas fazer o quê? Vamos lá.

A apresentação, os créditos iniciais são um absoluto brilho. Assim adio um pouco mais falar da trama. Mas, brincadeira à parte, é preciso falar dos créditos iniciais, porque são realmente brilhantes. Eles imitam o estilo de alguns créditos iniciais dos filmes dos anos 1950 e 1960, aqueles de Saul Bass, o gênio que criou as maravilhosas aberturas de Um Corpo Que Cai/Vertigo, Psicose, Intriga Internacional/North by Northwest, Anatomia de um Crime, Tempestade Sobre Washington. É um finíssimo trabalho de design gráfico, enquanto o espectador ouve “Fever”, numa gravação dos anos 50.

O espectador não precisa ter visitado uma cidade pequena do Texas nos anos 50 para saber como era o Texas nos anos 50 ou comecinho dos 60, depois de tantas dezenas de filmes que reproduziram aquela atmosfera. A Última Sessão de Cinema e Caçada Humana estão aí para não me deixar mentir – e a verdade é que, desde o início, o filme transporta o espectador para uma cidade pequena do Texas nos anos 50.

Se eu tivesse uma boa máquina do tempo e a certeza de que viveria saudável até os 95, jamais viajaria para uma pequena cidade do Texas – nos anos 50 ou em qualquer outra época.

O assistente do delegado enche a puta de porrada – e ela gama

Lou Ford (o personagem interpretado por Casey Affleck) é assistente do xerife de Central City – e é o narrador da sua própria história. Nos dez minutos iniciais do filme, ele nos conta que Central City até muito recentemente era uma cidade pequena, tanto que seu pai era o único médico que vivia ali. A cidade, no entanto, tinha crescido muito nos últimos anos, em razão do petróleo.

Temos, portanto, que Lou Ford, filho de um médico, era um privilegiado: veremos depois que ele mora numa belíssima casa, seguramente a casa construída pelo pai, que ele herdou; veremos também que teve educação – lê livros, a biblioteca da casa é vasta, tem obras de Freud; sabe tocar piano, ouve música erudita na radiola, Mahler, óperas italianas.

Na primeira sequência do filme, após a beleza de apresentação, o xerife da cidade, Bob Maples (Tom Bower), que gosta muito de seu jovem assistente Lou, o incumbe de ir até a casa de uma prostituta, Joyce Lakeland (o papel de Jessica Alba), dar uma averiguada, ver o que é possível fazer com a moça. O xerife havia recebido queixas contra a prostituta, embora ele mesmo achasse que ela não importuna a cidade, até porque sua casa fica distante do centro, perto de uma estrada.

Lou vai até lá. Quando se identifica como auxiliar do xerife, é agredido por Joyce – leva diversos tapas. E aí vira fera: dá uma surra nela, com o cinto. Depois de uma dúzia de chibatadas ou mais, pede desculpas – e a espancada Joyce dá para ele com imenso prazer.

Tornam-se amantes, o espancador e a espancada.

Um plano de vingança que inclui um brutal ataque à moça

Lou tem uma namorada, moça de boa família, Amy Stanton (interpretada por uma Kate Hudson com os cabelos tingidos de castanho escuro.)

Lou tem também um passado turbulento, doentio – que aparece em alguns rápidos flashbacks. A mãe gostava de fazer brincadeiras próximas ao sado-masoquismo com ele, quando ele era bem criança.

A cidade tem um bilionário, Chester Conway (Ned Beatty). O filho do bilionário, Elmer (Jay R. Ferguson), que foi colega de escola de Lou, está absolutamente apaixonado por Joyce, que está absolutamente apaixonada por Lou.

Através de um sindicalista que odeia os Conway, Lou fica sabendo que o bilionário foi o responsável pela morte de seu irmão de criação.

E aí – estamos com talvez uns 20 minutos de filme – Lou, para se vingar dos Conway, traça um plano para matar Elmer. O plano inclui um brutal ataque contra Joyce, a ser creditado a Elmer – e Lou executa o brutal ataque à mulher que vinha comendo havia meses, com imenso prazer.

Um filme bem feitíssimo – e apelativo, vomitativo, asqueroso

Pessoas sadias abandonariam, deveriam abandonar o filme na sequência em que Lou espanca Joyce quase até a morte.

Não sou tão sadio assim: apertei a tecla de fast-forward, para não ver inteira aquela seqüência de violência inominável, mas continuei a ver o filme até o fim.

As coisas só pioram, a partir daí. E pioram muito.

Tudo bem: a doença, a maldade infinita, a crueldade absoluta, tudo isso existe. Se existe, deve ser tratado pelo cinema.

O que me embrulha o estômago é quando, sob o pretexto de mostrar uma realidade, se faz como que um elogio daquilo que se pretende denunciar.

Na minha opinião, é o que este filme faz. Posso estar sendo careta, quadradão, idiota da objetividade, imbecil, mas é o que o senti, é o que eu penso. É um filme sado-masoquista. Faz a apologia da violência.

É apelativo, vomitativo, asqueroso.

Bem feitíssimo. Mas apelativo, vomitativo, asqueroso.

O Assassino em Mim/The Killer Inside Me

De Michael Winterbottom, EUA-Suécia-Inglaterra-Canadá, 2010

Com Casey Affleck (Lou Ford), Kate Hudson (Amy Stanton), Jessica Alba (Joyce Lakeland), Ned Beatty (Chester Conway), Elias Koteas (Joe Rothman), Tom Bower (xerife Bob Maples), Simon Baker (Howard Hendricks), Bill Pullman (Billy Boy Walker), Jay R. Ferguson (Elmer Conway)

Roteiro John Curran

Baseado no livro de Jim Thompson

Fotografia Marcel Zyskind

Música Joel Cadbury e Melissa Parmenter

Montagem Mags Arnold

Direção de arte Rob Simons e Mark Tildesley

Produção Hero Entertainment, Muse Productions, Stone Canyon Entertainment, Revolution Films, Curiously Bright Entertainment, Indion Entertainment Group, BOB Film, Film i Väst. Blu-ray e DVD Paris Filmes.

Cor, 109 min

*1/2

4 Comentários

  1. Danilo Vicente
    Postado em 25 setembro 2011 às 1:29 am | Permalink

    Casey Affleck é o irmão de Ben. O Assassino em Mim é o segundo filme que assisto com o menos famoso como protagonista. O rapaz é bom, mas tem sempre o mesmo ar. Gostei mais dele em Medo da Verdade. Já neste segundo…

    Mesmo acompanhado de Kate Hudson e Jessica Alba,, Casey Affleck não empolga. Há cenas fortes com ele, muito bem produzidas, de pancadaria contra as mulheres. Mas são só essas cenas que sobram. De resto, o protagonista e o filme são comuns.

    Talvez pela grande direção de Ben Affleck em Medo da Verdade, tive uma ótima primeira impressão de Casey. Agora, com O Assassino em Mim, já tenho um pé atrás.

  2. Ivan
    Postado em 6 agosto 2012 às 1:29 pm | Permalink

    Concordo em tudo contigo, Sergio.O filme é muito bem feito mas também violento demais, isso, sádico demais.
    Eu consegui ser um pouco mais forte (se é que se pode dizer assim) do que tu, Sergio naquela cena em que ele amassa a cara da Jessica. Mas, a verdade é essa mesmo, me embrulhou o estômago. Vi a cena mas torcendo prá que ele parasse de socar a cara dela.
    Mas, lá no final, achei que ela,a Joyce, mereceu aquela porrada tôda. Como dizes, no começo, o Lou dá-lhe umas porradas e ela gama e trepa com ele e, depois no final como eu dizía, certo, faz parte do filme mas ela ainda abraçá-lo e achar que vai mudar, ela mereceu o que teve.
    E, olha, o que embrulha também o estômago mas aí, bem menos que aquela porrada tôda, é a voz do Casey, nossa que voz horrível.

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 6 agosto 2012 às 1:53 pm | Permalink

    Ô Ivan, dizer que a mulher merece as porradas é um certo exagero seu, não? Tá certo que é uma personagem desagradável, mas nada justifica porrada em mulher…
    Mas eu sei que sua frase é só uma força de expressão. Sei que você na verdade não está defendendo a agressão.
    Um abraço!
    Sérgio

  4. Ivan
    Postado em 6 agosto 2012 às 10:18 pm | Permalink

    Sim, Sergio, exatamente, eu nunca vou ser a favor de que um homem bata numa mulher, neste caso, surre-a.Bater em uma mulher, não é a minha índole. Eu acabei de ver o filme e, logo em seguida fiz o comentário, com certeza ainda estava desapontado com aquele final, da parte dela. É como disseste, nada justificava aquela agressão dele mas, no filme o cara é doente, perturbado e, foi aquilo.
    Sabes, ainda que fôsse com outro homem, eu também não aprovaría tal atitude, não sería preciso chegar a tal extremo. Para teres uma idéia, não sei como conseguem chamar o Box, e, todas essas lutas que existem de graça por aí na TV, de Esporte. Tomar soco na cara,sair todo sangrando, isso é esporte?
    Esporte é coisa SADIA.
    Uma das maiores covardias de um homem é bater em uma mulher. Nunca fiz, e nunca aprovarei isso. Como disse, não é a minha índole.
    Um abração,amigo ! ! ! !

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