Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar / Non Ma Fille, Tu n’iras pas Danser

Nota: ★★☆☆

Anotação em 2010 (postada em janeiro de 2011): Christophe Honoré tem sido considerado por muitos críticos um dos melhores diretores do cinema francês atual, um dos melhores cineastas surgidos nos últimos anos no mundo.

É um artista de muitos talentos. Jovem, nascido em 1970, é autor de 14 roteiros, dirigiu nove filmes, escreveu romances, peças de teatro e livros infantis.

Este Não Minha Filha, Você não Irá Dançar, de 2009, segue-se aos elogiadíssimos Em Paris, de 2006, Canções de Amor, de 2007, e A Bela Junie, de 2008.

 Não Minha Filha… é um drama familiar. Enfoca principalmente Léna (Chiara Mastroianni, na foto abaixo), uma mulher na faixa dos 30 e tantos anos, dois filhos – um garoto de uns 11, 12 anos, uma menina de uns cinco, seis –, que acaba de se separar do marido, Nigel (Jean-Marc Barr), e de largar de repente seu emprego em um hospital.

Embora vá se concentrar principalmente em Léna, a trama – criada pelo próprio Honoré, em parceria com Geneviève Brisac – abordará também os parentes próximos dela. Quando a ação começa, Léna está indo com os filhos Anton (Donatien Suner) e Augustine (Lou Pasquerault) para a casa de seus pais, uma propriedade rural na Bretanha, e assim conheceremos toda a família.

Os pais de Léna são Anne (Marie-Christine Barrault) e Michel (Fred Ulysse). Com uns dez minutos de filme, Michel vira-se para a câmara e conta um pouco sobre os filhos. Léna é a primogênita, e sua preferida. Depois veio Frédérique (Marina Foïs), que é, segundo o pai, a mãe escarrada. E em seguido veio o caçula, Gulven (Julien Honoré, irmão do diretor Christophe).

Os três irmãos – a narrativa vai nos mostrar – não se entendem bem. Cada um cobra o outro por miudezas, pequenezas, temas em que não concordam. Léna e Frédérique, por exemplo, parecem implicar com o fato de que o caçula Gulven está sempre com uma nova namorada – quando Léna chega à casa dos pais, Gulven está acompanhado por Elise (Alice Butaud); já faz uns sete meses que estão juntos, mas, na opinião das irmãs mais velhas, é apenas mais um caso que não vai dar certo.

As relações afetivas de Léna e Frédérique parecem de fato não dar certo. Vemos que Léna acaba de se separar de Nigel: ela sai de casa sem avisar o marido, num momento em que ele não está, levando malas preparadas às escondidas, o que faz o espectador supor que ela apanhasse dele. A suposição é falsa; veremos depois que o motivo da separação é que Nigel tem uma amante.

E veremos que o casamento de Frédérique – que está grávida – com José (Jean-Baptiste Fonck) não anda nada bem. José tem ciúmes, teme que a mulher esteja tendo um caso com alguém. Frédérique se sente cobrada, apertada, sem espaço.

Ninguém, na família, está propriamente bem.

         Difícil sentir qualquer simpatia por aqueles personagens

E então o filme nos apresenta esse monte de gente que não está bem, que anda angustiado, que não sabe como reagir aos dissabores da vida, que escolhe sempre a pior saída, o pior caminho. Uma gente chata, desinteressante, por quem é muito difícil, se não impossível, o espectador sentir qualquer simpatia.

Mas até aí tudo bem. É muito bem feito o retrato que o diretor Honoré, “um dos mais talentosos e intrigantes autores da nova geração do cinema francês”, segundo se diz, faz nos primeiros 40, 50 minutos de seu filme daquela família cheia de pequenos problemas que cada um transforma em grande drama. A fotografia é incontestavelmente de primeira qualidade. As interpretações são ótimas. A jovem Chiara – que dureza deve ser a vida de uma atriz que carrega a honra e o imenso fardo de ser filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni, dois deuses – está excepcional.

Só que aí já estamos com quase uma hora de filme, e o jovem gênio cinematográfico está fazendo uma narrativa simples, correta, sem nenhuma lantejoula, sem fogos de artifício. É pouco para um jovem gênio cinematográfico, e aí, quando o filme está mais ou menos pela metade, Christophe Honoré resolve inventar, transcriar.

Bota em cena uma parábola. Começa com uma história que o pequeno Anton reconta para a mãe, sobre uma jovem a quem são apresentados diversos pretendentes…

E ai surge um filme dentro do filme. Estamos num vilarejo celta, onde há festas e danças em torno da jovem exigente cujos pais querem ver casada. Dança-se, e um pretendente morre. Dança-se mais, e outro pretendente morre. Dança-se mais, e um terceiro pretendente morre.

A parábola celta – belíssima visualmente – dura aí uns dez minutos. Quando a narrativa volta para a triste família cheia de pequenos problemas que cada um transforma em grande drama, o ritmo muda, fica mais rápido, mais ágil – e cada vez mais chato.

         Por que será que acham que cinema bom é cinema chato?

Por que será que os jovens diretores geniais incensados pela crítica e premiados nos festivais acham que cinema bom é sinônimo de chatice?

Acho que jamais vou compreender a chave desse mistério.

Talvez sirva de consolo o fato de que não estou sozinho. Vejo no iMDB o comentário de um francês. Um francês, hein? Não um americano tão estúpido quanto eu. Diz ele:

“Este é apenas o segundo filme de Christophe Honoré que vi, e devo dizer que me senti tão confuso depois de ver Non ma fille tu n’iras pas danser quanto tinha ficado três anos antes ao sair do cinema que exibia Dans Paris. Em 2006, não consegui de fato compreender os motivos profundos de Paul e seu irmão Jonathan, os principais personagens de Dans Paris. Nem consegui me identificar agora com Léna, a principal protagonista de Non ma fille, tu n’iras pas danser, com sua irmã Frédérique, seu irmão Gulven, seus pais Annie and Michel. Sou eu, ou Honoré foi incapaz de examinar direito o comportamento desses personagens?”

Acho que o problema é desse espectador francês, e meu, e de Mary. Não entendemos coisa alguma de cinema, somos incapazes de compreender a grandeza das obras de fato importantes.

Blá pro Christophe Honoré. Como se dizia no ginásio, vai ser chato assim com as nega dele.

Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar/Non Ma Fille, Tu n’iras pas Danser

De Christophe Honoré, França, 2009

Com Chiara Mastroianni (Léna), Marina Foïs (Frédérique), Marie-Christine Barrault (Annie), Jean-Marc Barr (Nigel), Fred Ulysse (Michel), Louis Garrel (Simon), Marcial Di Fonzo Bo (Thibault), Alice Butaud (Elise), Julien Honoré (Gulven)

Argumento e roteiro Christophe Honoré e Geneviève Brisac

Fotografia Laurent Brunet

Música Alex Beaupain

Montagem Chantal Hymans

Produção Why Not Productions, France 3 Cinéma, Le Pacte. DVD Imovision

Cor, 105 min

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Título em inglês: Making Plans for Lena

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