Não Me Abandone Jamais / Never Let Me Go

Nota: ★★★☆

Este Não Me Abandone Jamais, com título que parece de drama romântico, é um belo filme – belo, bem feitíssimo e profundamente triste. É também estranho, insólito. Não tem nada a ver com um drama romântico. Trata-se de uma ficção, uma distopia, que não se passa no futuro, mas no passado.

Vi – como faço em geral – sem saber absolutamente nada sobre ele, sem ter lido nada, sem informação alguma. Pegamos para ver por causa das duas atrizes, jovens e inglesas, a espetacular Carey Mulligan e a belíssima Keira Knightley. E, como tem sido quase a regra geral nos filmes recentes, ele não tem créditos iniciais. Só nos créditos finais ficamos sabendo que se baseia em romance de Kazuo Ishiguro, que, apesar do nome, e de ter nascido em Nagasaki (em 1954, nove anos após a bomba atômica), é um autor inglês. Só mesmo um inglês poderia ter escrito o livro que deu origem ao belo Vestígios do Dia.

O estranhamento, o insólito já vem desde o iniciozinho do filme. Surgem na tela letreiros com três frases:

“A grande revolução na ciência médica veio em 1952. Médicos passaram então a curar pacientes até então incuráveis. Por volta de 1967, a expectativa de vida passava dos cem anos.”

Vemos então Carey Mulligan. Seu personagem, Kathy, é que vai narrar a história. Kathy está em um hospital, observando, através de uma parede de vidro, uma sala de cirurgia, onde Tommy (Andrew Garfield) está para ser operado. A voz em off de Kathy introduz a personagem e sua história:

“Meu nome é Kathy H. Tenho 28 anos. Sou assistente há nove anos. (Assistente é como está nas legendas do filme. A expressão no original é carer, palavra do inglês britânico para a pessoa que toma conta, takes care, de alguém doente ou muito idoso – cuidadora, como se usa agora no Brasil, seria o mais correto.) E sou boa no que faço. Meus pacientes sempre se dão melhor do que o esperado e quase nunca são classificados como agitados, mesmo se estão prestes a fazer uma doação. Não quero parecer presunçosa, mas tenho muito orgulho com o que faço. Assistentes e doadores conquistaram tanto. Isso dito, não somos máquinas. No fim, isso esgota você. Imagino que seja por isso que agora passo a maior parte do meu tempo não olhando para a frente, mas olhando para trás. Para as Cabanas e Hailsham, e o que aconteceu conosco lá. Eu. Tommy. E Ruth.”

Um letreiro informa: Hailsham, 1978. E então vemos Kathy, Tommy e Ruth, todos na faixa dos 11, 12 anos de idade, em Hailsham – uma imensa casa, numa grande propriedade rural, como um colégio particular inglês que já vimos em tantos outros filmes.

Pequenos detalhes indicam que não estamos diante de uma realidade normal

Quase tudo, praticamente tudo, que é mostrado em Hailsham, é como se estivéssemos vendo qualquer um desses tantos outros filmes sobre a realidade normal das escolas inglesas. Há a rigidez disciplinar; a diretora da escola, a sra. Emily (a grande Charlotte Rampling, num papel importante mas pequeno!), é rigorosa, severa.

Alguns detalhes, no entanto, indicam que não estamos diante de uma realidade normal. As crianças não falam sobre seus pais, não há qualquer referência aos pais, como bem observou Mary. O letreiro diz 1978, mas os objetos, as roupas, tudo parece de bem antes, dos anos 1940. O filme a que os alunos assistem é um preto-e-branco dos anos 40. A fita de música que Tommy dá para Kathy é de uma cantora chamada Judy Bridgewater, e a música que Kathy ouve – que fala as palavras do título original, “never let me go”, não me abandone jamais – é do estilo da Grande Música Americana dos anos 40.

Não adianta procurar por Judy Bridgewater no AllMusic ou direto no Google. Judy Bridgewater é uma cantora fictícia.

E, sim, outro pequeno detalhe: as crianças têm que, de tempos em tempos, passar uma pulseira por algo parecido com um leitor ótico.

Uma nova professora, a srta. Lucy (a ótima Sally Hawkins, em um papel muito pequeno!), decide abrir o jogo para a turma em que estudam Kathy, Tommy e Ruth:

– “Nenhum de vocês vai à América. Nenhum de vocês vai trabalhar em supermercados. Nenhum de vocês vai fazer nada, a não ser levar a vida que já foi definida para vocês. Vocês vão virar adultos, mas apenas por um breve período. Antes que vocês fiquem velhos, antes mesmo que cheguem à meia idade, vocês vão começar a doar seus órgãos vitais. E lá pela sua terceira ou quarta doação, sua breve vida estará completada.”

Pouco depois, a sra. Emily anunciará para todos os alunos de Hailsham que a srta. Lucy não trabalha mais ali.

Uma ficção, uma distopia que se passa não no futuro, mas no passado

Estamos aí, creio, com uns 20 minutos de filme, não muito mais que isso – e não tem sentido adiantar o que acontecerá a partir daí. Mas só o que o filme mostra em seus primeiros momentos já deixa claro que é uma trama estranha, insólita, quase enigmática.

Todo o tom do filme é do mais nítido realismo, de retrato da realidade. Mas se trata, obviamente, como o filme deixa absolutamente explícito desde o início, de uma realidade diferente da real. É uma ficção-fantasia. Mostra-se um mundo utópico – ou, a rigor, distópico.

E é interessante, fascinante, a idéia de se contar uma ficção-fantasia, um mundo imaginário, que não se passa no futuro, e sim no passado.

Vivemos numa época em que o futuro já virou passado

Claro, já vivemos muito além do futuro imaginado em outros relatos de ficção, de utopias ou distopias. O que era futuro já virou passado. George Orwell escreveu 1984 em 1949, quando 1984 era um futuro ainda distante. Arthur C. Clarke escreveu 2001: Uma Odisséia no Espaço em 1968. P.D. James escreveu The Children of Men em 1992; no filme Children of Man, no Brasil Filhos da Esperança, a ação se passa em 2027 – um terrível mundo onde já não nascem mais bebês. Daqui a pouquinho 2027 chega, e estarão nascendo bebês a cada milésimo de segundo – uns 200 por milésimo de segundo só na Índia.

O mais espantoso de Não Me Abandone Jamais – o romance foi publicado em 2005, o filme é de 2010 – é ter criar um mundo fictício no passado recente.

Esses são, para mim, os grandes achados, os grandes diferenciais, de Não Me Abandone Jamais: o fato de se criar um mundo imaginário com ações que acontecem no passado. E o fato de que todo o tom é realista, nunca de ficção científica, de antecipação. É aos poucos que o espectador vai percebendo que se trata de uma realidade alternativa, não real, ficção-fantasia – e de que tipo de realidade alternativa está se falando.

Por isso mesmo, Não Me Abandone Jamais é um desses casos em que adiantar as informações chave da história, numa sinopse – como se faz na caixinha do Blu-ray, e certamente também na do DVD – é um absurdo, um crime de lesa-espectador.

(Ao final desta anotação, vou falar das informações chave – mas depois de avisar que é spoiler.)

Dá mais bom ator na terra de Shakespear que chuchu na cerca

É espantoso como as Ilhas Britânicas produzem bons atores. Dá mais ator bom na terra de Shakespeare que chuchu na cerca.

Keira Knightley e Carey Mulligan são do mesmo ano, 1985; estavam, portanto, com 25 anos quando fizeram este filme. Keira começou a carreira mais cedo, em 1993, e o IMDB contabiliza uma filmografia de 43 títulos, entre filmes e episódios de séries de TV. É hoje uma grande estrela, com vários filmes de grande sucesso comercial.

Carey começou apenas em 2005, tem 19 títulos na filmografia.

Keira é uma boa atriz. Carey é excepcional. Se tivesse feito apenas Educação/An Education na vida, já teria que entrar para a galeria das grandes atrizes das últimas décadas.

Qualquer filme que tiver Carey Mulligan no elenco, vou querer ver.

Incrível como ela é capaz de ter mil caras diferentes – como as grandes atrizes, Meryl Streep, Bridget Fonda.

Está maravilhosa, neste Não Me Abandone Jamais. Parece perfeitamente ter 18 anos, na segunda parte do filme, passada em 1985; e parece perfeitamente ter 28 anos, na terceira parte, passada em 1994.

A escolha dos meninos que interpretam o triângulo por volta dos 12 anos de idade foi perfeita. A garotinha que faz Kathy (Isobel Meikle-Small) tem muita semelhança física com Carey Mulligan. E a que faz Ruth (Ella Purnell), credo, é belíssima, impressionantemente bela, assim como Keira Knightley. Depois deste filme, já fez outros dois. Com aquele rosto, tem meio caminho andado para ir longe.

Uma ótima trilha sonora, um diretor ainda iniciante

A trilha sonora, ótima, é assinada por Rachel Portman, uma das grandes compositoras para o cinema das últimas décadas. Assinou as belas trilhas de Chocolate, Regras da Vida/The Cider House Rules, A Duquesa, O Clube da Felicidade e da Sorte, o Oliver Twist de Polanski, Grey Gardens.

O diretor deste filme absolutamente inglês é um americano de Chicago: Mark Romanek, nascido em 1959, tem trabalhos como ator, roteirista, produtor. Dirigiu muitos clips musicais, para artistas importantes e díspares como Michael Jackson, Madonna, R.E.M. e Nine Inch Nails. Este, se não estou enganado, é seu terceiro longa-metragem, depois de uma estréia com Static, em 1985, e o thriller Retratos de uma Obsessão/One Hour Photo – convencional, bem mediano, em que Robin Williams interpreta um funcionário de laboratório fotográfico doido e assassino. De Retratos de uma Obsessão até este filme aqui, evoluiu mil anos.

Atenção: spoiler. Se você não viu o filme, não deve ler a partir daqui

De uma certa maneira, este filme de aparência tão placidamente inglesa faz lembrar um pouco Blade Runner, de Ridley Scott, e A.I – Inteligência Artificial, de Steven Spielberg. O espectador acaba tendo tremenda simpatia, pena, dó, de e por aqueles tristes personagens, criados pelas artes da engenharia genética para ajudar os seres humanos.

Para mim, a sensação que fica é de uma profunda tristeza, melancolia, diante da fugacidade da vida. Uma das tragédias da existência, talvez a maior delas, é desconhecer quando e como ela vai acabar – mas os personagens criados por Kazuo Ishiguro são talvez ainda mais trágicos, porque são condenados a morrer jovens demais. E morrer jovem demais só é bom no rock’n’roll, naqueles versos tipo better to burn out than to fade away, melhor incendiar que fenecer.

Uma parábola sobre a situação absolutamente real de um mundo dividido em castas

Mary teve uma visão muito mais elaborada, requintada. Para ela, o filme é uma parábola sobre a situação absolutamente real de um mundo dividido em castas. Há os que passam pela vida sem realmente gozar qualquer dos prazeres dela – as imensas camadas de despossuídos de todas as espécies, muitas vezes trabalhando para nós, os happy few, os eleitos, os que não passamos por privação grave alguma.

Os cuidadores e doadores, criados para garantir a longevidade dos humanos, são assim como os escravos que existiram da mais remota antiguidade até pouco mais de cem anos atrás, os mendigos, os sem-teto que vemos nas ruas, os despossuídos de todos os tipos, enfim.

Vivemos em uma civilização que em mais de seis mil anos de história ainda não conseguiu acabar com as castas. O planeta é como uma grande e miserável Índia.

Anotação em setembro de 2011

Não Me Abandone Jamais/Never Let Me Go

De Mark Romanek, Inglaterra-EUA, 2010

Com Carey Mulligan (Kathy), Andrew Garfield (Tommy), Keira Knightley (Ruth), Isobel Meikle-Small (Kathy menina), Charlie Rowe (Tommy menina), Ella Purnell (Ruth menina), Charlotte Rampling (Miss Emily), Sally Hawkins (Miss Lucy), Nathalie Richard (Madame), Andrea Riseborough (Chrissie)

Roteiro Alex Garland

Baseado no romance homônimo de Kazuo Ishiguro

Fotografia Adam Kimmel

Música Rachel Portman

Produção DNA Films, Film4, Fox Searchlight Pictures. Blu-ray e DVD Fox.

Cor, 103 min

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