Muito Mais Que um Crime / Music Box

Nota: ★★★★

Anotação em 2011: Muito Mais Que um Crime/Music Box é brilhante em absolutamente todos os quesitos. Filme maior, é destes que a gente deveria rever de vez em quando. A cada revisão, ele se mostra ainda melhor, revela novas qualidades.

No terceiro de seus quatro filmes made in USA, Costa-Gavras, o sr. Cinema Político, aborda ao mesmo tempo diversos temas difíceis, espinhosos, polêmicos, pesados. Nazismo, crimes de guerra, sim, os principais e mais óbvios – mas também as teias que ligam, de maneira aparentemente estranha, nazismo e bons americanos ditos pró-democracia, bons americanos ditos pró-democracia e ditaduras comunistas, quando essas ligações lhes são convenientes. As relações afetivas, familiares, e o abalo que podem produzir sobre elas as escolhas ideológicas, o passado político das pessoas. As relações entre crimes do passado e a passagem do tempo – os crimes mais graves prescrevem? Devem ser esquecidos? Décadas de vida honrada apagam o passado? O que deve prevalecer, o amor, o respeito pela família, pelo pai, ou o senso de Justiça?

Mais ainda: tem algum sentido o apego irrestrito, cego, a uma ideologia, a um credo político, qualquer que seja ele, a não ser o entendimento de que as pessoas devem vir sempre acima das ideologias, dos credos políticos?

Ao abordar tudo isso, Costa-Gavras fez não um filme chato, pentelho, fresco, metido a intelectualóide, mas um filme que tem o ritmo, a pulsação de um thriller, uma trama apaixonante, bem montada, bem arquitetada, que, após longas, tensas, fascinantes sequências de tribunal, só vai revelar a verdade nos momentos finais.

Um filme sério, profundo, denso, que se vê com prazer, satisfação.

Costa-Gavras faz filmes em diversos países – mas nunca em ditaduras

Grego de nascimento – é da cidade de Loutras-Iraias, de 1933 –, francês por adoção, Constantin Costa-Gavras fez filmes em diversos países, sobre as diferentes realidades dos vários países e regimes. Na sua obra há produções francesas, uma franco-israelense, uma franco-ítalo-alemã – e quatro americanas. Que eu saiba, jamais filmou em países sob regimes ditatoriais – as ditaduras e os ditadores não costumam gostar de Costa-Gavras. Não poderia ter feito Estado de Sítio, sobre a ditadura militar de direita uruguaia, no Uruguai, e por isso filmou no Chile de Allende. Não poderia ter feito Desaparecido – Um Grande Mistério/Missing, sobre a ditadura militar de direita chilena, no Chile, e por isso filmou no México. Não poderia ter feito Z, sobre a ditadura militar de direita na sua Grécia natal, na Grécia, e por isso filmou na Argélia. Não poderia ter feito A Confissão/L’Aveu, sobre a ditadura comunista na Checoslováquia, na Checoslováquia, e por isso filmou na França.

Enquanto denunciava as ditaduras de direita, suas mazelas, seus crimes, era incensado pela crítica. Quando, em 1970, denunciou os crimes horrendos da ditadura comunista na Checoslováquia, em A Confissão, foi taxado de vendido ao imperialismo ianque.

Grande Costa-Gavras. Depois de fazer quatro filmes com capital americano, e outros tantos com dinheiro de diversos países, continou sempre fiel à sua consciência: em 2005, aos digníssimos 72 anos de idade, demonstrou seu nojo pelo capitalismo selvagem em uma obra agressiva, sangrenta, que mais parece um filme de terror, O Corte/Le Couperet.

Sujeito corajoso, esse. Corajoso e talentoso

Lembrando rapidamente os filmes produzidos nos Estados Unidos: o primeiro deles, Missing, de 1982, era anti-imperialismo americano até a medula, uma denúncia firme sobre a partipação dos Estados Unidos no golpe militar que derrubou Salvador Allende em 1973. O segundo, Atraiçoados/Betrayed, de 1988, era uma denúncia violenta sobre o vigor dos grupos supremacistas brancos décadas depois do fim das leis segregacionistas nos Estados Unidos. O último deles, O Quarto Poder, de 1997, continuava na discussão sobre a violência intrínseca à sociedade americana e o grande espetáculo em que os meios de comunicação transformam essa violência.

Neste maravilhoso Muito Mais Que um Crime, o cineasta fala do relacionamento perigoso, sujo, dos interesses americanos ora com os nazistas, ao final da Segunda Guerra, como forma de enfrentar o ex-aliado e agora grande inimigo, a União Soviética, ora com os governos satélites da União Soviética, na tentativa de fortalecer os ventos que então prevaleciam, os da Glassnost, da Perestróika.

Sujeito corajoso, este. Corajoso e talentoso.

Uma caixinha de música, um pai orgulhoso que dança com a filha

A primeira tomada é um close-up de uma caixinha de música – o music box do título original. Os exibidores devem ter seus joãos santanas, seus dudas mendonças, e portanto devem ser mais sábios do que você e eu, mas não consigo deixar de me perguntar por que inventam títulos tão diferentes do original. Ora, mudar um título é uma agressão à obra. O autor deu à sua obra o título de Music Box – com que direito o comerciante vai lá e muda o título para Muito Mais Que um Crime?

Mas tudo bem: marqueteiro é feito para vender. Se não fossem os marqueteiros, Collor e Dilma, para dar apenas dois exemplos, não teriam sido eleitos. Então os marqueteiros das distribuidoras devem estar certos.

O fato é que Music Box abre com um close-up de uma caixinha de música. O espectador provavelmente terá se esquecido disso quando, bem ao final da narrativa, vê de novo uma caixinha de música. Uma espécie assim da caixa de Pandora.

Em seguida, logo após alguns segundos com a caixa de música em close-up, enquanto ainda rolam os créditos iniciais, há uma sequência de uma festa – Jessica Lange dança com Armin Mueller-Stahl, ao som de música da Europa Central.

Veremos que Armin Mueller-Stahl interpreta Mike Laszlo, um húngaro naturalizado americano, que se orgulha de dizer que vive nos Estados Unidos há 37 anos – como a ação se passa em 1989, o ano em que o filme foi feito, Laszlo deixou a Hungria em 1952. Viúvo há muito tempo, trabalhou duríssimo numa siderúrgia para criar sozinho os dois filhos; o caçula, Karchy, seguiu as pegadas do pai e é operário numa siderúrgica; é um tanto bronco, não muito dotado de inteligência.

Já a primogênita, Ann – o papel de Jessica Lange –, é uma advogada criminalista muito bem sucedida, admirada. Tem um filho de 12 anos, Mickey (Lukas Haas), que é sua grande paixão, assim como dos avós. Ann está separada do marido Dean (Ned Schmidtke); não se explicita a razão da separação, mas há indicações claras que foi uma decisão dela. Ann havia trabalhado no gigantesco escritório de advogacia do sogro, Harry Talbot (Donald Moffat), mas saíra de lá para montar com colegas o seu próprio escritório.

O velho imigrante exige que a filha advogada faça sua defesa

Laszlo recebe uma intimação para comparecer a um repartição federal: o Departamento de Justiça quer revogar sua naturalização, que teria sido concedida após um falso testemunho dado por ele ao imigrar para o país, e pretende deportá-lo para a Hungria, onde as autoridades comunistas pretendem julgá-lo por crimes cometidos durante a Segunda Guerra. De acordo com documentos enviados pelo governo húngaro ao Departamento de Justiça americano, nos meses que antecederam o fim da guerra – em 1944 e 1945 –, Laszlo teria feito parte da polícia política da Hungria então sob domínio nazista, e cometido uma longa série de crimes hediondos.

Laszlo nega com veemência todas as acusações, garante que todas elas foram forjadas pelas autoridades comunistas húngaras – ele é um notório anti-comunista, e, cinco anos antes, havia feito um protesto durante a apresentação de um grupo de dança húngaro que virou notícia.

Insiste em que Ann, a filha adorada, faça sua defesa. Ann tenta argumentar que seria melhor procurar um advogado especializado em questões de imigração, mas Laszlo é peremptório, e Ann acaba cedendo à determinação do pai.

O pedido de extradição vai a julgamento num tribunal de Chicago, onde vivem Laszlo e os filhos. O juiz que cuidará do caso, Silver (J.S.Block), é judeu – o que, segundo o entendimento do sogro de Ann, advogado experiente, cheio de conexões com altas figuras do governo, pode até eventualmente, se necessário, resultar num pedido de anulação do julgamento. Ann tem confiança na imparcialidade e na competência do juiz Silver.

O promotor do caso, Jack Burke (Frederic Forrest) apresentará provas arrasadoras. Mas Ann demonstrará uma imensa competência na defesa do pai. Ela o conhece bem, tem profundo amor por ele, e está absolutamente certa de que as acusações não procedem, são falsas.

Jessica Lange, essa atriz maravilhosa, que só melhora com o tempo

Sou fã de carteirinha de Jessica Lange. Sua beleza radiante como o anjo que conversa com o diretor e coreógrafo Joe Gideon (Roy Scheider) quando chega a hora de ele passar desta para melhor, em All That Jazz, de 1979, me deixou chapado. Bem, todo o filme é de deixar a gente chapado, mas a sacada de Bob Fosse de botar uma mulher lindíssima, sorridente, toda sempre de branco, como o anjo da morte é um brilho. Antes de All That Jazz, Jessica havia trabalhado em um único filme, a segunda versão de King Kong, de 1976 – e havia sido arrasada pela crítica. O julgamento geral, quase unânime, tinha sido que era uma mulher linda, só que sem talento algum para a interpretação.

Ao longo destas três últimas décadas, a partir de All That Jazz, fui vendo Jessica Lange ficando mais velha (ela é da minha idade, nasceu só uns meses antes de mim) – e cada vez melhor atriz. Ann Talbot permanece como um de seus melhores papéis. Sua interpretação é emocionante. Ela aguenta de igual para igual a tarefa difícil de estar ao lado de Armin Mueller-Stahl, esse ator extraordinário.

Jessica Lange foi indicada para o Oscar e para o Globo de Ouro. Não levou; o Oscar foi para outra Jessica, a Tandy, aquela gracinha maravilhosa, por Conduzindo Miss Daisy. Costa-Gavras ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

Já falei muito mal de Joe Joe Eszterhas. Agora, tiro o chapéu para ele

Faço aqui uma confissão: me surpreendeu, ao rever agora o filme, ver que o roteiro é de Joe Eszterhas. Já falei muito mal de Joe Eszterhas nas minhas anotações. Acho que ele fez muitos roteiros apelativos, aproveitando-se do fato de que o cinema americano, nos anos 80, tornou-se mais permissivo quanto a cenas de sexo. Acho que muitas vezes seus roteiros beiraram a pornografia apelativa – os exemplos mais nítidos disso são Instinto Selvagem e Invasão de Privacidade.

Ao rever, alguns meses atrás, outra das quatro produções americanas dirigidas por Costa-Gavras, Atraiçoados, debitei na conta de Joe Eszterhas os defeitos do filme. Pois então, pelo roteiro deste Music Box, tiro meu chapéu para ele. É um roteiraço, uma beleza de história, de trama, com tudo absolutamente bem desenvolvido.

Vejo no IMDb que o título que Eszterhas deu a seu roteiro foi Sins of the Fathers, pecados dos pais – o que é fascinante, porque, poucos anos depois, em 1996, Scott Turow lançaria o livro The Laws of our Fathers (uma beleza, por sinal). Teria sido de Costa-Gavras, segundo o IMDb, a idéia do belo título Music Box.

Os distribuidores portugueses optaram por acrescentar uma palavrinha marqueteira, e lançaram o filme como O Enigma da Caixa de Música. Os franceses mantiveram o título original, sem tirar nem pôr coisa alguma.

Outras informações do grande site enciclopédico: Kirk Douglas e Walter Matthau mostraram interesse em interpretar Mike Laszlo, mas Costa-Gavras preferiu Armin Mueller-Stahl. Com todo respeito por Douglas e Matthau, grandes atores, nenhum deles teria conseguido aquele inglês com sotaque forte que o prussiano Mueller-Stahl usa.

E, ainda segundo o IMDb, Eszterhas teria escrito o roteiro pensando em Jane Fonda para o papel de Ann Talbot. Nunca soube disso. Jane Fonda não menciona isso em sua autobiografia, pelo que me lembro.

O filme dividiu a crítica. Não há unanimidade possível com Costa-Gavras

Cada cabeça, uma sentença. O Guide des Films de Jean Tulard diz o seguinte: “Certamente Costa-Gavras se integrou perfeitamente aos mecanismos de Hollywood, que sempre adorou filmes de tribunal, mas este aqui não deixará uma grande lembrança”.

O francês não gostou, o americano Leonard Maltin também não. Embora tenha dado 3 estrelas em 4, Maltin diz que o que poderia ter sido um thriller político quente vira um melodrama falso, “um desapontamento do diretor de Z e Missing”. O autor do guia de filmes mais vendido no mundo só elogia a atuação de Jessica Lange.

Cada cabeça, uma sentença – me alegro ao ver que Pauline Kael, a grande dama da crítica americana, que arrasa com praticamente tudo, gostou do filme. “Quando o elenco e o roteiro são certos para Costa-Gavras – como acontece aqui –, ele pode dar a um melodrama de tribunal a força e a excitação de um thriller. (…) Não há flashbacks; não há aparatos de choque. Lange está prestes a mergulhar no estarrecedor. Costa-Gavras cria uma atmosfera em tom menor, controlada, e ela a enche de paixão. Este é um exemplo pouco comum da lucidez com que se conta uma história.”

Costa-Gavras é fogo. Polêmica é com ele mesmo. Não há unanimidade possível com um cineasta que tem a coragem que ele tem para mexer em caixas de marimbondo.

O DVD brasileiro adulterou o filme

Uma nota triste. O filme foi feito originalmente em Panavision – o que hoje chamamos de widescreen. O DVD lançado pela Lume Filmes, uma empresa que tem colocado nas lojas e locadoras bons DVDs de grandes filmes, é a versão adaptada para o tamanho dos aparelhos de TV antigos, aquele formato bem mais próximo do quadrado. Com perdão pelo trocadilho óbvio demais, isso é muito mais que um crime.

Muito Mais Que um Crime/Music Box

De Costa-Gavras, EUA, 1989

Com Jessica Lange (Ann Talbot), Armin Mueller-Stahl (Mike Laszlo), Frederic Forrest (Jack Burke), Donald Moffat (Harry Talbot), Lukas Haas (Mikey Talbot), Cheryl Lynn Bruce (Georgine Wheeler), Mari Töröcsik (Magda Zoldan), J.S. Block (juiz Silver), Sol Frieder (Istvan Boday), Michael Rooker (Karchy Laszlo), Ned Schmidtke (Dean Talbot)

Roteiro Joe Eszterhas

Fotografia Patrick Blossier

Música Philippe Sarde

Produção Carolco Pictures. DVD Lume Filmes

Cor, 123 min

R, ****

Título em Portugal: O Enigma da Caixa de Música

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