Maldito Futebol Clube / The Damned United

Nota: ★★★½

Anotação em 2010 (postada em fevereiro de 2011): Fãs de futebol vão adorar este filme: para eles, é uma pedida obrigatória, imperdível. Mas não é preciso gostar ou entender do esporte para curtir Maldito Futebol Clube/The Damned United. É um filme excelente, bem feitíssimo, conta uma história que é real e é também fascinante como a mais elaborada ficção – e a conta com talento de sobra e um bom humor irresistível.

Tem uma carrada de lições sobre amizade, solidariedade (sem elas não somos nada, coisa alguma), sobre ambição (ambição demais faz muito, muito mal), sobre as ironias da sorte (nem sempre os melhores se dão bem), sobre como é possível aprender com as derrotas (um pouco de humildade é fundamental na vida).

Mas, sobretudo, tem talento e humor.

Conta-se a história deliciosamente fantástica e real de Brian Clough.

Perdão – de quem mesmo?, diriam provavelmente 99% das pessoas.

Pois é. Brian Clough. O nome não deve mesmo dizer nada para a quase totalidade das pessoas. No entanto, a vida de Brian Clough é muito mais fascinante, rica, do que a imensa maior parte das celebridades de todas as áreas retratadas em tantas cinebiografias bem feitas mas com tramas pouco interessantes.

          No começo, informação demais, aos jorros

O filme abre com um certo excesso de informações que pode deixar o espectador – a não ser que ele seja um especialista em futebol inglês – um tanto desconcertado. Mas o roteirista Peter Morgan e o diretor Tom Hooper ajudam o espectador, apresentando letreiros com alguns dos fatos básicos, e colocando locutores esportivos em off para comentar sobre a conjuntura.

Estes são os fatos, a conjuntura, as informações que vão chegando aos borbotões nos primeiros minutos do filme:

Em 1974, a Inglaterra, o país que inventou o futebol, vivia o trauma de não ter conseguido se classificar para a Copa do Mundo. Terminava a era do treinador Alf Ramsey, um sujeito que havia no passado dado tantas glórias à seleção inglesa que fora agraciado com o título de Sir. Internamente, a principal força do futebol inglês era o Leeds United, da cidade de Leeds, é claro. Durante os 13 anos anteriores, o Leeds havia obtido diversos títulos importantes sob o comando do técnico Don Revie (muitíssimo bem interpretado por Colm Meaney, ator que, de resto, tem incrível semelhança física com o Don Revie real).

Era a escolha óbvia: a Federação Inglesa de Futebol chamou Don Revie para ser o novo técnico da seleção. Revie deixou claro para os dirigentes do Leeds quem ele gostaria de ver como seu sucessor no comando do time: Johnny Giles (Peter McDonald), um dos jogadores mais experientes do próprio clube.

Mas, surpreendentemente, os dirigentes do Leeds contrataram Brian Clough.

Quando o espectador fica conhecendo Brian Clough (mais uma interpretação brilhante de Michael Sheen), ele está dirigindo seu carro, sob a chuva praticamente eterna de Yorkshire, com dois de seus filhos no banco traseiro, cantando junto com o rádio a canção “What’s New, Pussycat?”, sucesso de uma década atrás, feita para o filme homônimo de Clive Donner, com roteiro do iniciante Woody Allen (no Brasil, O Que é Que Há, Gatinha?). Ele passa na frente do estádio do Leeds, os filhos o avisam, mas ele segue em frente: antes de se apresentar à diretoria e aos jogadores do clube, vai dar uma entrevista ao vivo à TV local.

O entrevistador diz que o fato de ele ter aceito o convite para ser técnico do Leeds é surpreendente:

– “Você foi um dos grandes críticos desta equipe nos últimos anos. Você acusou os jogadores de serem desleais, trapaceiros, violentos e dissimulados.”

E Brian Clough reafirma o que havia dito. Diz que o futebol é um belo esporte, que tem que ser jogado com beleza – e critica o estilo e as táticas do treinador que está chegando para substituir, Don Revie, o sujeito que havia dado 13 anos de alegria para o clube!

          Um técnico mais insuportável que Zagalo, Parreira e Luxemburgo juntos

Com menos de dez minutos de filme, o espectador já tem um retrato de Brian Clough. Os torcedores brasileiros poderiam fazer comparação com os técnicos mais chatos, mais insuportáveis do futebol. Zagalo? Parreira? Wanderley Luxemburgo?

Brian Clough é muito mais insuportável do que qualquer um deles, do que todos eles juntos. O cara é a metidez em pessoa. Ele se acha o melhor técnico de futebol de todos os tempos. É egoísta, narcisista, personalista, falastrão, encantando com o som da própria voz – e não tem nenhum, mas absolutamente nenhum tato político. Chega para dirigir um time ofendendo os jogadores e o técnico que havia sido ídolo de todos eles e da torcida.

Cacildabecker, mas o que Brian Clough pensava da vida? E, sim, por que raios ele foi chamado para subsituir um técnico que todos achavam insubstituível?

          Na tela, a tabela do campeonato inglês

Aí o filme mostra pela primeira vez uma sacadinha simples, mas danada de funcional, inteligente, esperta. Surge na tela mais uma vez o número 1974, e, como naqueles painéis de aeroporto, os números vão se alterando, voltando atrás, para seis anos antes, 1968. E vemos na tela uma tabela do campeonato inglês – o Leeds em primeiro lugar na primeira divisão, e, lá na rabeira da segunda divisão, ameaçado de cair para a terceira, o Derby County.

Em 1968, Brian Clough era técnico do Derby County. Seu assistente era Peter Taylor (interpretado pelo sempre ótimo Timothy Spall). Eram grandes amigos, os dois, já haviam trabalhado juntos antes, eram uma dupla perfeita.

A narrativa vai se alternar várias vezes entre o hoje, o momento atual, que é 1974, Brian Clough chegando para ser o técnico do Leeds pela primeira vez sem a companhia de seu assistente e grande amigo Peter Taylor, e o passado, a partir de 1968. Os letreiros com os anos vão ajudar o espectador a acompanhar o vai e vem – e a tabela do campeonato inglês será diversas vezes mostrada, enquanto o pobre Derby County, sob o comando da dupla Clough-Taylor, vai escalando as posições, subindo na tabela feito um foguete.

É uma história saborosa, deliciosa, contada com graça, inteligência e todo apuro técnico possível – fotografia, música, montagem, direção de arte, tudo é perfeito. As interpretações são todas excelentes. Michael Sheen – que já havia sido um ótimo primeiro-ministro Tony Blair em A Rainha, de Stephen Frears , e um ótimo jornalista David Frost em Frost/Nixon – brilha interpretando mais um personagem real. É todo cheio de trejeitos, caretas – porque o cara que ele interpretada, o insanamente, insuportavelmente pretensioso Brian Clough seguramente era assim, um sujeito histriônico.

Ao fim de 98 minutos de belo cinema, que passam com uma rapidez absurda, os letreiros – como tradicionalmente se faz em filmes que contam histórias reais – contam para o espectador o que aconteceu com aqueles personagens depois de 1974. Vamos vendo imagens dos personagens reais – Brian Clough, Peter Taylor, Don Revie – e lendo o que houve com eles. Os fatos parecem saídos da cabeça de um ficcionista de imenso talento. São de uma ironia fantástica – as peças que a vida prega nas pessoas.

O diretor Tom Hooper, jovem nascido em Londres em 1972, fez diversos trabalhos no que há de melhor na TV, tanto a BBC inglesa quanto a americana HBO (dirigiu a premiadíssima minissérie John Adams, com Paul Giamatti como o segundo presidente americano, que governou entre 1797 e 1801, e também a minissérie Elizabeth I, com Helen Mirren). Vem se especializando, portanto, em recriar a vida de personagens reais. Seu filme seguinte seria O Discurso do Rei, com Colin Firth no papel do rei George VI da Grã-Bretanha, o pai de Elizabeth II, a que não morre jamais. Em 2004, já havia feito um bom filme sobre a África do Sul no pós-apartheid, com os processos da Comissão de Verdade e Conciliação, Sombras do Passado/Red Dust.

Este aqui é uma total delícia de filme. Para quem gosta do esporte bretão e também para quem não sabe sequer o que faz aquele o bola no meio do campo.

Maldito Futebol Clube/The Damned United

De Tom Hooper, Inglaterra, 2009

Com Michael Sheen (Brian Clough), Timothy Spall (Peter Taylor), Colm Meaney (Don Revie), Jim Broadbent (Sam Longson), Henry Goodman (Manny Cussins), Maurice Roeves (Jimmy Gordon), Stephen Graham (Billy Bremner), Brian McCardie (Dave Mackay), Peter McDonald (Johnny Giles) 

Roteiro Peter Morgan

Baseado no livro de David Peace

Fotografia Ben Smithard 

Música Rob Lane 

Montagem Melanie Oliver

Produção Columbia Pictures, BBC Films. DVD Sony.

Cor, 98 min

***1/2

Título em Portugal: Maldito United

Um Comentário

  1. Danilo Vicente
    Postado em 15 Fevereiro 2011 às 11:03 pm | Permalink

    É uma beleza de filme, realmente. A história dele é uma das mais ricas do futebol, mas, ate este filme, desconhecida no Brasil. E olha que o homem tem muita coisa pra contar. Vale assistir.

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Flor do Deserto / Desert Flower em 13 Março 2011 às 10:17 pm

    […] de pobretão, tipo um tanto riponga. O sujeito é interpretado pelo grande (em todos os sentidos) Timothy Spall, e quando ele surge em cena a tela brilha um pouco mais. Ele deixa um cartão com a africana […]

  2. […] médico bem sucedido profissionalmente, é interpretado sempre pelo mesmo ator, o também excelente Jim Broadbent; a mãe, Kim, também é interpretada pela mesma atriz, Juliet Stevenson. Por coincidência, ou […]

  3. […] de seus bens, John Conroy (no filme, Mark Strong). Esse Conroy e o rei William IV (o papel de Jim Broadbent), o tio de Victoria, eram inimigos figadais; Conroy torcia desesperadamente pela morte do rei antes […]

  4. […] father? (2007), Einstein e Eddington (2008), A Jovem Rainha Vitória / The Young Victoria (2009), Maldito Futebol Clube / The Damned United (2009), Circuito Fechado / Closed Circuit […]

  5. […] que é um expert em encenar filmes baseados em histórias reais, depois de Longford (2006), Maldito Futebol Clube (2009) e O Discurso do Rei […]

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