London River – Destinos Cruzados / London River

Nota: ★★★★

Anotação em 2011: Uma beleza de filme, uma obra de arte. Duro, triste, amargo como os temas que aborda – o mundo pós 11 de setembro, os ataques terroristas na Inglaterra em 2005, os preconceitos raciais. Uma bela lição de humanismo, uma elegia à capacidade que as pessoas têm de suplantarem seus preconceitos e serem solidários.

Do diretor Rachid Bouchareb, francês (nasceu em Paris, em 1953) de origem argelina, só conhecia Dias de Glória/Indigènes, um belo filme sobre os jovens das ex-colônias francesas da África recrutados pelo exército francês para lutar na Segunda Guerra e depois abandonados pelo governo. Dias de Glória é um afresco, um daqueles filmes que mostram diversos personagens, um pedaço importante da História.

London River é completamente diferente. O pano de fundo é uma grande questão geral, o terrorismo dos radicais árabes, a série de atentados ocorrida em Londres em 2005, que ficou conhecida como o 11 de setembro britânico, mas o filme se concentra em apenas dois personagens. Não é um afresco, é um pequeno retrato; não uma sinfonia, mas uma peça de câmara.

Os dois personagens são apresentados ao espectador em ações paralelas bem no início da ação. Elizabeth Sommers (Brenda Blethyn) é inglesa, viúva, vai ao serviço religioso aos domingos, trabalha em seu pequeno sítio – tem alguns animais, uma horta. Vive na ilha inglesa de Guernessy.

Ousmane (Sotigui Kouyaté) é um guarda florestal. Tem longos cabelos tipo rastafári, barba branca – aparenta estar perto dos 70 anos. É africano, muçulmano, e vive há 15 anos na França.

Seres díspares em tudo – mas, por ironia, geograficamente próximos

O filme não explora muito isso, mas há um detalhe fascinante: embora pertençam a mundos inteiramente diferentes, tenham diferentes cores de pele, reverenciem deuses diferentes, pertençam a classes sociais diferentes, a sra. Sommers e Ousmane não estão geograficamente longe um do outro. Ousmane vive na Bretanha, e a ilha de Guernessy está muito mais perto da Bretanha do que Londres.

A sra. Sommers vê na TV o noticiário sobre os atentados terroristas em três estações do metrô de Londres e em um ônibus. O filme dá o dia preciso: 7 de julho de 2005. Nas primeiras notícias, as autoridades sequer afirmam que foi um atentado. Ela se inquieta, liga para a filha, Jane, que tem uns 20 anos e está estudando em Londres; deixa recado na secretária eletrônica para que Jane ligue de volta.

A filha não liga, a sra. Sommers telefona de novo. O noticiário sobre os atentados coordenados não pára. Houve mais de 50 mortos, o número de feridos é imenso – cerca de 700 pessoas. Ela decide ir a Londres, pede ao irmão que cuide dos animais.

Ousmane também está indo para Londres.

A sra. Sommers se assusta ao chegar ao endereço dado pela filha – percebe-se que é a primeira vez que vai visitá-la. É um lugar na periferia da grande metrópole, uma periferia pobre, onde muitos moradores e comerciantes são de origem árabe, imigrantes ou filhos de imigrantes. O próprio dono do pequeno apartamento onde Jane mora é um muçulmano, que, solícito, oferece à visitante uma cópia da chave. A sra. Sommers se instala na casa. Não sabe direito o que fazer, leva algum tempo para ir à polícia. Numa delegacia, a fazem preencher um formulário e a aconselham a fazer uma ronda pelos hospitais.

Ousmane está começando a fazer a mesma ronda. Seu filho, Ali, também deixou de dar notícias à sua mãe. A procura de Ousmane é difícil: quando ele viu o filho pela última vez, Ali tinha apenas seis anos; o pai abandonou a família, mudou-se para a França. Mas, procurando na comunidade muçulmana, consegue obter um retrato de Ali, num grupo de amigos, colegas de estudos. Ao lado de Ali está uma moça inglesa – Jane, a filha da sra. Summers.

Um turbilhão de emoções no rosto de Brenda Blethyn

Rachid Bouchareb narra sua história de uma forma absolutamente sóbria, simples, direta. O filme envolve o espectador de um jeito impressionante: ficamos ansiosos junto com essa mãe inglesa e esse pai africano radicado na França, participamos de sua angústia.

Em grande parte, o mérito é de Brenda Blethyn. Essa atriz extraordinária, que teve interpretações fantásticas, maravilhosas, em Segredos e Mentiras, de Mike Leigh, de 1996, e Laura – A Voz de uma Estrela, para lembrar apenas dois de seus filmes, dá um show. Sua performance é impressionante, comovente, arrasadora.

A forma como a sra. Sommers vai passando da repulsa por Ousmane – um pouco de medo, um pouco de estranheza, um pouco de choque, um pouco de puro preconceito – para uma simpatia pelo homem que, afinal, está vivendo o mesmo infortúnio, o mesmo pesadelo que ela, é vívido, é real. Brenda Blethyn expressa no rosto todo esse turbilhão de emoções.

É uma interpretação marcante, antológica.

A mesma raça que mata inocentes é capaz da grandeza da solidariedade

E é impressionante como o filme, com uma aparente simplicidade, consegue passar a dimensão da tragédia humana – a mesma raça que mata dezenas de inocentes em atentados terroristas é capaz da grandeza da solidariedade.

Rachid Bouchareb começou a carreira como assistente de direção na TV, em que trabalhou de 1977 e 1984. Paralelamente, realizou alguns curta-metragens. Em 1989, criou uma produtora, ao lado de Jean Bréhat, a 3B. Tem no currículo 19 filmes como produtor, nove como roteirista e 13 como diretor. Seu filme de 1995, Poussières de Vie, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Little Senegal, de 2001, concorreu ao Urso de Ouro em Berlim. Dias de Glória, de 2006, teve indicação ao Oscar.

London River também participou do Festival de Berlim; Sotigui Kouyaté, que interpreta Ousmane, recebeu o urso de prata como melhor ator.

Vem se juntar a um punhado de grandes filmes que refletem sobre o mundo pós-11 de setembro de 2001 – Ataque Terrorista/Shoot on Sight, de Jag Mundhra, O Traidor/Traitor, de Jeffrey Nachmanoff, Ato Terrorista/The War Within, de Joseph Castelo, Strip Search, de Sidney Lumet, Medo e Obsessão/Land of Plenty, de Wim Wenders, para citar só alguns.

O filme é uma obra-prima. Quem gosta de cinema e ainda não viu deve vê-lo.

London River – Destinos Cruzados / London River

De Rachid Bouchareb, Inglaterra-França-Argélia, 2009

Com Brenda Blethyn (Elisabeth Sommers), Sotigui Kouyaté (Ousmane)

Argumento e roteiro Rachid Bouchareb, com a colaboração de Zoé Galeron e Olivier Lorelle

Fotografia Jérôme Alméras

Música Armand Amar

Produção Arte France, 3B Productions, The Bureau, CNC, France 3. DVD Califórnia Filmes

Cor, 87 min

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