Les Mistons

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: É muito impressionante como Les Mistons, o curta-metragem que François Truffaut filmou em 1957, aos 25 ridículos aninhos de idade, dois anos antes de seu primeiro longa, Os Incompreendidos/Les Quatre Cents Coups, já contém vários dos temas, das características que estariam presentes em sua obra espetacular, uma das mais maravilhosas do cinema.

Coerência é isso aí. Cinema com assinatura, pessoal e intransferível, é isso aí. Acho que genialidade também é isso aí.

Coerência é um conceito complexo. Às vezes, para ser coerente é preciso mudar. Na política, por exemplo, incoerente é quem fica parado exatamente no mesmo lugar enquanto tudo no mundo muda. Ser metamorfose ambulante e desdizer a cada hora o que se disse antes, no entanto, não me parece lá muito lúcido. É bom para letra de jovem roqueiro rebelde; para gente grande, parece falta de escala de valores.

Mas estou tergiversando.

Indo direto ao ponto: Les Mistons já demonstra de cara que François Truffaut é um artista, um homem apaixonado pela beleza das mulheres. Há pessoas apaixonadas por bundas, há pessoas apaixonadas por seios. Truffaut é apaixonado pelas mulheres, e pelas pernas das mulheres. Em Domicílio Conjugal, de 1970, ele abre a narrativa seguindo as pernas de Claude Jade pelas ruas de Paris, em um travelling plano americano. O plano americano é aquele que focaliza as pessoas do peito para cima – mas, para Truffaut, é também o que focaliza os pés, as pernas, os joelhos e a metade da coxa.

Na sua última obra (morreu muito jovem, aos 52 anos, fez muito menos filmes do que devia, do que nós mereceríamos), De Repente, num Domingo/Vivement Dimanche!, de 1983,  com sensacional fotografia em preto-e-branco do mestre Nestor Almendros, as pernas compridas, intermináveis, lindas de Fanny Ardant, sua mulher, têm papel importantíssimo na narrativa.

No penúltimo filme, A Mulher do Lado, de 1981, as pernas compridas, intermináveis de Fanny Ardant estão sempre presentes. Ela usa um comportado calção para jogar tênis; o calção é comportado, e a câmara até que não se fixa muito nas pernas compridas, intermináveis, mas passeia por elas. E, no meio de uma festa diurna – onde acontecerá em seguida uma tragédia -, o vestido leve usado por Fanny Ardant se enroscará na cadeira no momento em que ela se levanta, de tal forma que, ali, no jardim, em plena luz do dia, diante de todos os amigos, diante do marido e do amante cego de paixão, ela ficará apenas com a roupa de baixo – uma elegantíssima roupa de baixo, que permitirá a visão daqueles quilômetros de pernas.

E, logo na abertura de O Homem que Amava as Mulheres, de 1977, ele faria o que para mim é uma das mais absolutamente lindas seqüências do cinema: o caixão do nosso herói está sendo baixado à sepultura, e uma das muitas mulheres que assistem ao enterro nota que, dali do caixão, o nosso herói teria a visão perfeita da coisa que ele mais amava na vida: as pernas das mulheres em volta do túmulo.

Um bando de garotos encantados com a beleza de uma mulher

Ixe! Primeiro tergiversei, depois me estendi sobre o voyeurismo das pernas, e não falei do que trata Les Mistons.

Sempre ouvi falar sobre Les Mistons, mas nunca soube exatamente do que se tratava. Só fui ver Les Mistons agora, em agosto de 2011 – e aí a a aritmética não consegue falhar – , quase 50 anos depois de me encantar com Jules et Jim, o Truffaut de 1962. (E um dia minha primeira paixão na vida – por onde será que ela anda? – me segredou que queria “fazer Jules et Jim” comigo e com o namorado dela, aquele filho da mãe.)

Les Mistons é um curta-metragem de 18 minutos. Um narrador, já adulto (Michel François), conta, a voz em off, uma história dos seus tempos de criança. Ele e seus amigos, seu grupo de amigos – são cinco mistons, pivetes, garotos, piás, guris – eram encantados com a beleza de Bernadette Jouve, a irmã mais velha de um deles.

O filme abre com Bernadette Jouve andando de bicicleta por uma cidade; temos os créditos iniciais, ao som de um belo tema composto por Maurice Le Roux, nostálgico, suave, melodioso, e um travelling acompanhando Bernadette em sua bicicleta pelas ruas. E a voz em off do narrador diz um belíssimo texto sobre a paixão de todos os garotos pela beleza de Bernadette, suas pernas que se mostravam quando sua saia esvoaçava ao vento na bicicleta.

Os garotos ficam irados porque Bernadette tem um namorado, um professor de ginástica, um atleta, Gérard (Gérard Blain). Seguem os dois namorados pela cidade, atazanam o namoro.

E é isso, basicamente, Les Mistons.

Em um DVD, dois curta-metragens

Les Mistons foi lançado em DVD no Brasil na Silver Screen Collection (www.silverscreen.com.br), juntamente com Antoine & Colette. Este último é um dos episódios do filme O Amor aos 20 Anos/L’Amour à Vingt Ans, de 1962, que reunia cinco episódios diferentes sobre esse mesmo tema, cada um dirigido por um cineasta – os outros episódios são assinados por Shintarô Ishihara, Marcel Ophüls, Renzo Rossellini e Andrzej Wajda. Que eu saiba, não foi lançado ainda em DVD no Brasil, infelizmente, o filme completo, com os cinco episódios. Mas ao menos o episódio de Truffaut pode ser visto, juntamente com Les Mistons – embora numa edição descuidada, aparentemente sem pagamento dos devidos direitos autorais à MK2, que lançou toda a filmografia de Truffaut em DVD na França em edições caprichadíssimas.

O primeiro dos dois encontros dos jovens Bernadette e François

Alguma informação. A atriz que faz Bernadette Jouve é Bernadette Lafont. (Era uma tendência forte, no cinema francês, e também no italiano, dar aos personagens o prenome do ator.) Tinha 19 anos, apenas, e esse foi seu primeiro filme. Faria incríveis mais de 180 outros, depois disso – inclusive Uma Jovem Tão Bela Como Eu/Une Belle Fille Comme Moi, de 1972, seu segundo encontro com Truffaut, os dois já absolutamente bem estabelecidos.

A ação do filme se passa em Nîmes, uma cidade do Sul da França, não muito longe de Marseille. Várias cenas foram filmadas numa espécie de arena romana que existe na cidade. O fantástico nisso é que Nîmes é a cidade natal de Bernadette Lafont.

Não é uma mulher lindíssima – mas é bonita, e muito gostosa, e jamais teve vergonha de esconder suas belezas, La Lafont. Truffaut exibiria a beleza do corpo dela, sem qualquer vergonha, em diversas seqüências de Uma Jovem Tão Bela Como Eu.

Paixão pelos dramas de amor – e por crianças

Já estava nessa estréia do jovem Truffaut, portanto, sua paixão pelas histórias de amor, pelos dramas de amor, pela beleza das mulheres, pelas pernas das mulheres.

Bernadette, como Mathilde-Fanny Ardant de A Mulher do Lado, joga tênis. No entanto, no curta-metragem de 1957, Bernadette é mais ousada que Mathilde-Fanny Ardant do filme de 1981. Em vez de usar um comportado calção, Bernadette usa um saiote extremante curto, e, quando joga, exibe um pequeno short, coxas inteiras à mostra. Os cinco mistons, pivetes, vão à loucura.

Mas então só tem as pernas, a coerência de Truffaut?

Não, não, tem muito mais. Tem o que já foi dito, acima e além das pernas – a paixão pelas histórias de amor, pelos dramas de amor. Na maior parte de seus filmes, as histórias de amor são tristes, trágicas.

Tem a paixão pelas crianças, os pivetes, garotos, piás, guris, les mistons.

Não é fácil retratar crianças na literatura, no teatro, no cinema. O risco de errar a mão é grande demais. É muito grande o perigo de retratar crianças como pequenos adultos – o que é um absurdo. Do outro lado, é muito grande o risco de retratar as crianças como uns debeizinhos mentais – o que é profundamente errado.

Criança é um bicho à parte. É um bicho difícil de se mostrar na ficção.

Um imenso talento para retratar o universo das crianças

Truffaut é um dos cineastas que mais soube retratar crianças. Talvez por ter começado tão cedo. Talvez por ter sido uma criança difícil, numa família difícil, por quase ter virado um marginal. Talvez porque seja gênio.

Criança, adolescente jovem é o tema de Les Mistons, assim como de Os Incompreendidos. Em O Garoto Selvagem, de 1969, o diretor viraria também ator para tratar do menino criado na natureza, no meio do mato, longe da socialização com os humanos – uma espécie assim de Kasper Hauser do tedesco Werner Herzog. E, em 1976, na maturidade, no absoluto domínio de sua arte, Truffaut faria Na Idade da Inocência/L’Argent de Poche, um dos mais belos, mais sensíveis, mais ternos, mais extraordinários filmes sobre a infância e o início da adolescência jamais feitos.

Geraldo Mayrink escreveu uma vez que possivelmente Steven Spielberg chamou François Truffaut para trabalhar como ator em seu Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de 1977, porque queria aprender com o cineasta francês como trabalhar com atores infantis, como retratar crianças.

(E aqui faço outra tergiversaçãozinha. Mayrink era, na época em que escreveu isso, repórter especial da Afinal, e também o crítico de cinema da revista. Eu era o editor de Cultura. Mas era impossível pautar Mayrink – era algo como, mal comparando, um Alfredo Sampaio qualquer querer dizer ao Pelé o que fazer. E não adiantava dizer a ele que havia um deadline, uma hora para fechar – que aliás ele chamava de hora morta. Escrevia o que queria, quando queria, e entregava as porras do textos quando bem entendia. Textos sempre geniais, como esse, não me lembro sobre que filme, em que fazia essa pensata sobre Spielberg, Truffaut e as crianças. Havia também as coisas que ele se recusava a fazer. E então, em nome da firma, lá ia eu cobrir a ausência dele. A maioria dos textos sobre filmes que escrevi para a Afinal foi para cobrir o que eu achava que era fundamental mas Geraldo Mayrink não queria saber. Bons tempos.)

Um cineasta que tinha uma paixão furiosa pelos livros

Les Mistons antecipa o que Truffaut falaria sobre amores, amores trágicos, a beleza da pele doce das mulheres, a beleza das pernas das mulheres. Antecipa a ternura com que o cineasta trata as crianças – crianças levadas, baguncentas, nunca certinhas.

Já demonsta, ainda, seu gosto por adaptações de histórias da literatura. Um amante furioso de livros, ele faria diversos filmes adaptados de obras literárias, como Jules et Jim e depois As Duas Inglesas e o Amor (1971), ambos baseados em romances de Henri-Pierre Roché, e os thrillers A Noiva Estava de Preto (1967) e A Sereia do Mississipi (1969), estes baseados em livros do americano William Irish. E, com base em outro americano, Ray Bradbury, faria Fahrenheit 451 (de 1966), a distopia sobre um futuro soturno em que os livros eram banidos e queimados.

Les Mistons se baseia num conto de Maurice Pons, escritor nascido em Strasbourg em 1925. O livro que contém a história, Virginales, foi lançado em 1955, dois anos apenas antes de Truffaut fazer seu curta-metragem.

Um cineasta clássico

Mas, sobretudo – e aí chego ao fulcro da questão, depois de tantas e tantas linhas que ninguém lerá jamais, porque ninguém lê mais do que 140 toques na internet -, Truffaut já mostrava, em uma de suas primeiras experiências atrás das câmaras, aos 25 ridículos aninhos, seu estilo.

Truffaut é clássico.

O cinema de Truffaut é autoral, pessoal, intransferível. E é também clássico. Limpo. Límpido.

Não há câmara torta, não há excesso de câmara de mão que deixa o espectador com dor de cabeça, não há iluminação errada para dar a sensação de coisa artesanal, como nas bobagens do Dogma dinamarquês. Não há frescura formal, não há frescura na narrativa. Não há frescura. Nada de fogos de artifício. Há um artista sensível que conta uma história boa bem contada.

É o anti-Godard, o anti-Gláuber, o anti-Tarantino.

Como não cede a modismos, seus filmes não ficam velhos, datados. Muito ao contrário: conservam seu absoluto frescor, décadas e décadas depois de terem sido feitos.

É cinema da melhor qualidade. Com assinatura. Autoral. Sem imbecilidade. Uma boa história, contada com belas imagens.

Na minha modesta opinião, François Truffaut fez o melhor cinema que já existiu.

Les Mistons

De François Truffaut, França, 1957

Com Bernadette Lafont (Bernadette Jouve), Gérard Blain (Gérard), Michel François (narrador). E as crianças Alain Baldy, Robert Bulle, Henri Demaegdt, Dimitri Moretti, Daniel Ricaulx

Roteiro François Truffaut

Baseado em conto de Maurice Pons

Fotografia Jean Malige

Música Maurice Le Roux

Produção Les Films du Carrosse. DVD Silver Screen Collection.

P&B, 18 min

***

2 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 1 setembro 2011 às 7:45 pm | Permalink

    “Na minha modesta opinião, François Truffaut fez o melhor cinema que já existiu.”
    Absolutamente de acordo.
    Está claro que não tenho a sorte de ver nenhum desses 2 filmes.

  2. Glória
    Postado em 2 outubro 2011 às 12:13 am | Permalink

    Oi, Sérgio,
    beleza de post! E por falar no meu diretor preferido, quando é que você vai escrever sobre Jules et Jim e sobre Os Incompreendidos? Caso já o tenha feito, ignore minha pergunta.
    Agora falando das pernas femininas nos filmes desse gênio, é algo sutil, não tão óbvio ou eu estava cega prestando atenção em outros detalhes? Pergunto porque Truffaut é tão rico que não dá para assistir aos seus filmes uma só vez. Aliás, mesmo assistindo várias vezes, sempre descobrimos coisas novas que não percebemos nas anteriores. O detalhe das pernas descobri com você, muito obrigada!

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