Jennifer 8 – A Próxima Vítima / Jennifer 8

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Tinha uma ótima lembrança de Jennifer 8. Ficou para mim como um belo filme, um dos melhores thrillers dos anos 90, e faz tempo tinha vontade de revê-lo. Agora, depois da revisão, acho que é um thriller muito bom, sim, com diversas qualidades. Mas, na revisão, ele me decepcionou um pouco.

Isso posto, vou subverter a ordem que geralmente uso nas minhas anotações, e procurar imediatamente outras opiniões; com isso, aproveito o trabalho dos outros e me dispenso de fazer uma sinopse.

Começo com o Cinéguide francês, o guia que tem o dom com o qual não fui agraciado, o da síntese:

“Transferido, a seu pedido, de Los Angeles para um pequeno vilarejo do Norte dos Estado Unidos, um policial deverá resolver o enigma de uma série de assassinatos atrozes de mulheres. A última vítima marcada é uma jovem cega.”

Os redatores do Cinéguide devem ser chegados a um hai-kai. Deveriam traduzir para o francês os contos de Dalton Trevisan.

Tento o Guia de Vídeo e DVD 2002 da Nova Cultural, que infelizmente deixou de ser publicado, não teve novas edições. O Guia dá 3 estrelas em 5 para o filme:

“Policial envolve-se com testemunha cega de assassinato que investigava. Thriller policial que mantém o suspense até a última cena, com boa direção de atores. O clímax ocorre quando Malkovich, em performance brilhante, interroga Garcia em cena carregada de tensão e provocação. Belo trabalho fotográfico, diálogos inteligentes e emoções contidas.”

Olha aí. Sinopse e apreciação crítica, em 49 palavras, 345 caracteres contando com os espaços. Quase dá pra botar no Twitter. Por que escrever, em vez de 345 caracteres, 345 linhas sobre cada filme neste site, ainda mais se todos estamos cansados de saber que ninguém lê mais do que 140 caracteres na internet?

Mais opiniões. No guia de filmes mais vendido do mundo, Leonard Maltin dá 2.5 estrelas em 4. Em inglês são parcas 52 palavras, 359 caracteres. Em português deve ficar um pouquinho maior:

“Tenso, interessante thriller em que cansado policial de Los Angeles Garcia vai para uma pequena cidade do Norte da Califórnia, onde rapidamente se vê investigando uma série de assassinatos brutais. A próxima vítima será a bela, cega Thurman? Performances fortes e locações maravilhosas e cheias de neve são bônus, mas, infelizmente, a credibilidade diminui à medida em que a história progride.”

É exatamente isso. Maltin matou a pau. Muitas vezes discordo inteiramente dele, mas desta vez acho que ele definiu a coisa com brilho – e em apenas 52 palavras.

Um filme que tem clima e bons personagens

Jennifer 8 tem clima. O diretor Bruce Robinson, autor, sozinho, da história e do roteiro, soube criar bons personagens, assim como soube criar clima. Embora feito em 1992, este é um thriller que foge a muitos dos estereótipos dos thrillers, dos policiais, dos filmes de ação do cinemão comercial nas últimas duas décadas. Não há perseguição de carro. Há pouquíssimos tiros. Não há cenas de violência física, não há cenas de violência explícita. Não há insistência nos cortes rápidos, nas tomadas curtíssimas, na velocidade dos videoclipes da era pós-MTV.

Há bons personagens, bem construídos. Pessoas, seres humanos, gente – essa coisa cada vez mais ausente das grandes produções do cinemão comercial, seja ele americano ou europeu ou asiático.

John Berlin, o protagonista (o papel de Andy Garcia), encaminha-se para a meia-idade. É ao mesmo tempo ainda jovem e já veterano – na profissão e na vida. Quando o vemos pela primeira vez, nas primeiras tomadas do filme, dirige seu carro numa estrada pequena, cercada por árvores – o Norte da Califórnia, acima de San Francisco, muito longe de Los Angeles, de onde ele está chegando.

Mexe sem parar no seu isqueiro Zippo, com aquele barulhinho típico, cléc, cléc. Ao chegar, finalmente, ainda nos créditos iniciais, a uma casa um tanto isolada, uma casa de pequeno sítio, um cottage, abre um maço de cigarros e joga dois deles fora. Está tentando parar de fumar – e quem tenta parar de fumar não pára: só pára quem não tenta, e sim pára.

O tema parar de fumar voltará a aparecer ao longo do filme.

Um filme que traça o perfil de seu protagonista mostrando que é uma pessoa que quer parar de fumar é 200 milhões de vezes melhor que qualquer filme de ação que define os personagens por sua capacidade de atirar 300 balas de seu revólver matando, com isso, umas 370 pessoas.

Abandonado pela mulher, o protagonista pirou feio, mergulhou na bebida

Ao longo da primeira metade do filme, iremos reunindo mais informações sobre John Berlin. Veremos que é um bom policial, um bom detetive, competente, trabalhador, dedicado; na metrópole, onde trabalhou por muitos anos, aprendeu muitos dos métodos modernos, científicos, de investigação. Como todos os policiais dos filmes, e quase todas as pessoas da vida real, teve um casamento que não terminou bem. Só lá pela metade da narrativa ficaremos sabendo que, quando a mulher o abandonou, ele pirou feio; mergulhou fundo na bebida, fez muita besteira.

Mas, com o tempo, melhorou; não está mal, agora, quando a ação se passa; mas se cansou da cidade grande demais, e quis se mudar para a pequena comunidade de Eureka, onde trabalha Freddy Ross (Lance Henriksen), seu amigo de muitos e muitos anos, o policial que o treinou quando ele começava a carreira.

O tema policiais da cidade pequena x policiais da metrópole será muito bem explorado ao longo de todo o filme.

Ross, o policial do interior que treinou o então jovem John Berlin e agora tem menos bagagem do que seu foca que afinal trabalhou na metrópole, é um bom policial, uma boa pessoa. Tem um belo casamento com Margie (Kathy Baker), uma mulher ponta firme, generosa, que havia acolhido John Berlin como um irmão mais novo.

Logo na chegada à cidadezinha pequena, John Berlin se vê envolvido no que parecia à primeira vista um crime simples – o assassinato de um velho mendigo, cujo corpo é deixado num lixão. Mas a mão de uma mulher jovem é também encontrada no mesmo lixão, e Berlin, com seus métodos científicos, passará a ter a certeza de que a mão tem a ver com os assassinatos perpetrados por um serial killer – o que acabará o levando a uma instituição para cegos, onde vive Helena Robertson, uma jovem belíssima, que pode ter sido a testemunha de um dos crimes do serial killer.

E aí surge a relação proibida, perigosa, entre policial e testemunha.

Helena é interpretada por Uma Thurman, aquele portento, aquele monumento.

Ninguém resistiria ao personagem interpretado por Uma Thurman

Portento, monumento, Uma Thurman, então em seu nono longa-metragem, com ridículos 22 aninhos de idade, tem uma interpretação impressionante como a garota que ficou cega aos 14 anos, quando, num acidente de carro, perdeu quase absolutamente tudo: pai, mãe e a visão.

Ninguém, no universo, resistiria àquela Helena interpretada por Uma Thurman, e John Berlin não resiste. Contraria a regra número 1, enunciada por Ross – um policial não deve jamais se envolver com uma testemunha -, e aproxima-se dela. Vão passear no barco de Ross, a família inteira – Ross, Margie, o filhote do casal, garotão aí de uns oito anos, e mais John Berlin e Helena. Margie, que já havia adotado John Berlin como irmão mais novo, adota Helena com carinho.

É no idílico passeio de fim de semana no barco que se dá o diálogo que mais me impressionou na revisão do filme. John está obcecado na investigação dos crimes; mais velho, mais maduro, mais provinciano, Ross está tentando fazer com que o pupilo e amigo não se grile tanto. Eis o diálogo:

Ross: – “Sabe a grande maravilha de pescar? Você não precisa pensar. É só você e o peixe, e nada entre você e Deus.”

John: – “Estou pensando no velho mendigo no lixão.”

Ross: – “Claro. Está um dia lindo, o sol vai aparecer. Tem frango grelhado. No que mais você poderia estar pensando?”

John: – “Ele foi assassinado.”

Uma seqüência em que a câmara engana o espectador

O ótimo Guia da Nova Cultural diz que o clímax do filme é quando St. Anne, um oficial da corregedoria (ou seria do FBI? confesso que para mim não ficou claro), interroga John Berlin, suspeito então de um crime absurdo, brutal. A seqüência, longa, propositada, interminavelmente longa, de fato é um brilho. John Malkovich está de fato ótimo, porque está fazendo o que ele sabe fazer: o oficial da corregedoria (ou do FBI, whatever) é um sujeito escroto, nojento. Antipático, desagradável, seriam termos muitos gentis. O interrogador é escroto, nojento, repulsivo, vomitativo – um papel perfeito para Malkovich, e ele o desempenha com a maior naturalidade possível.

Mas eu não diria que o clímax do filme seja essa seqüência do interrogatório. Ao menos não é o único clímax. Tão importante quanto ela são as seqüências do banho de Helena e a da ida de Ross e John à instituição de cegos, na noite de Natal, jingle bells, jingle all the way.

A rigor, o Guia da Nova Cultural que me perdoe, o clímax do filme é esta última seqüência que citei, Ross e John bêbados na noite de Natal indo à instituição cegos – uma seqüência longa, extremamente longa, em que a câmara engana o espectador.

Mas a seqüência do banho de Helena também é brilhante. Cega, Helena vai se despindo aos poucos, antes de entrar na banheira. Há muitas tomadas em que o espectador, como Helena, não vê nada – está muito escuro. Helena não percebe, mas o espectador, sim, este sabe bem que há mais alguém dentro do banheiro, máquina fotográfica na mão, usando o flash que para Helena não significa nada, mas para o espectador mostra por milésimos de segundo o que o criminoso está fotografando, o esplendoroso corpo de Helena na banheira.

Uma trilha sonora maravilhosa, que a série Dexter viria a copiar

E é preciso registrar: a trilha sonora de Christopher Young é uma maravilha. O tema principal surge já na primeira sequência, aquela que nos mostra o sujeito que teima em fazer téc, téc, com seu isqueiro, dirigindo seu carro por uma estrada secundária do Norte da Califórnia, no meio de um belo bosque.

No meio desse tema principal, há uma pequena intervenção de violinos – ou talvez seja um efeito de sintetizadores, não deu para perceber -, jogando uns acordes agudos, que funcionam como algo muito gélido, como uma faca penetrando na carne. Não sou um expert, mas eu poderia jurar que foi com base nesses acordes agudos que foi criado o tema principal da trilha da série Dexter.

No fim o filme se perde um pouco. Mas é um belo thriller

Diante de tanto elogio, como explicar meu primeiro parágrafo, lá em cima, dizendo que na revisão Jennifer 8 decepciona um pouco?

É a história, a trama. O Maltin está certo: a história vai perdendo a credibilidade.

O diretor-autor Bruce Robinson soube criar bons personagens, soube criar clima. Mas a trama, a plausibilidade da trama, vai se esgarçando. Bem para o final, vira uma coisa absolutamente inverossímil, implausível. Vira filme do cinemão comercial – muito longe da vida real, que era do que ele vinha tratando ao longo da maior parte do filme.

Ao fim e ao cabo, é um bom filme, sem dúvida alguma. Quase um grande filme. Perde-se um tanto no fim porque fica mais próximo da ficção do que da realidade, do plausível, do que é comum.

Mas é um bom filme. Muito melhor do que tantas imbecilidades do cinemão comercial que mira platéias imensas, cria super-homens e se esquece das pessoas, passa muito ao largo de qualquer coisa próxima do humano.

Jennifer 8 – A Próxima Vítima/Jennifer 8

De Bruce Robinson, EUA, 1992.

Com Andy Garcia (John Berlin), Lance Henriksen (Freddy Ross), Uma Thurman (Helena Robertson), Graham Beckel (John Taylor), Kathy Baker (Margie Ross), Kevin Conway (Citrine), John Malkovich (St. Anne)

Roteiro Bruce Robinson

Fotografia Conrad L. Hall

Música Christopher Young

Montagem Conrad Buff

Produção Paramount. DVD Paramount

Cor, 127 min

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