Harry Brown

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Este Harry Brown é um filme excelente, extraordinário – mas não dá prazer vê-lo. É violento demais, duro demais, desconcertante, atordoante. Daquele tipo de filme que deixa o espectador um pouco mais convencido de que a humanidade é uma invenção que não deu certo.

É sobre violência nas grandes cidades, delinqüência juvenil, submundo de drogas, e como isso afeta a vida de pessoas normais, comuns, pessoas de bem.

A abertura é em ritmo frenético, com uma câmara de mão nervosa, com imagens um tanto borradas, à la Dogma 95 dos dinamarqueses: um rapaz passa por um ritual de iniciação numa gangue de jovens; doidão com a droga, andando de skate, um desses jovens delinqüentes atira numa mulher num parque – à toa, sem motivo algum.

Corta, e o ritmo do filme muda completamente; dos 180 km por hora baixa para uns 30. Acompanhamos um velho que acorda sozinho em sua cama de casal – o rádio-despertador dá as primeiras notícias da manhã, fala da morte de uma mulher num parque. O velho, interpretado pelo grande, gigante Michael Caine, é o Harry Brown do título. Prepara seu café da manhã, limpa cuidadosamente o que foi mexido na cozinha, sai de seu apartamento – num conjunto habitacional bem classe média baixa, na periferia de Londres, que poderia ser de qualquer outra grande cidade inglesa –, anda um pouco, olha para uma passagem subterrânea sob uma avenida expressa. O espectador percebe claramente que o melhor caminho seria por aquela passagem, mas Harry não quer se arriscar a passar por ela, e prossegue sua caminhada. Vai até o hospital em que sua mulher, Kath, está inconsciente, em coma.

Em seguida vemos Harry tomando uma cerveja num bar – percebe-se que ele é frequentador assíduo dali. Chega um amigo dele, Leonard (David Bradley). Veremos depressa que é seu maior amigo, e o único. Os dois jogam xadrez numa mesa ao fundo, um jovem entra no bar e compra uma droga, Leonard comenta que agora eles nem tentam mais disfarçar, fazer a coisa com alguma discrição.

Com poucos minutos de filme, Harry perderá Kath.

O veterano Michael Caine e a jovem Emily Mortimer dão um show

Alguns dias depois do enterro, Harry e Leonard estão de novo no mesmo bar de Sid, jogando xadrez, e Harry fala de quando conheceu Kath, quando era bem jovem e estava deixando as Forças Armadas. Leonard pergunta sobre seu tempo como fuzileiro naval, mas Harry não quer falar sobre o assunto, é coisa do passado, e muito, muito tempo atrás ele havia prometido para Kath e para si mesmo que não pensaria mais naquilo.

(Veremos, depois, que Harry não apenas foi um marine, como foi um marine extraordinário, excelente no serviço, diversas, diversas medalhas conquistadas.)

Leonard conta para o amigo que os delinqüentes da vizinha não o estão deixando em paz; perturbam-no, provocam-no. Harry sugere que ele vá à polícia, Leonard diz que já foi e a polícia disse que não havia nada a fazer – e então mostra para Harry um facão gigantesco. Vai reagir. Harry pede a ele que não faça besteira.

Mais alguns poucos minutos de filme, e no dia seguinte Harry recebe em sua casa a visita da detetive-investigadora Alice Frampton (a espetacular, talentosíssima Emily Mortimer) e do sargento Terry Hicock (Charlie Creed-Miles). A detetive Alice é uma pessoa gentil, educada, cuidadosa: pede ao sargento que pegue um copo de água para servir a Harry, assim que dá a notícia de que Leonard foi assassinado. Depois de fazer algumas perguntas sobre Leonard, na tentativa de descobrir pistas sobre os assassinos, toma o cuidado de perguntar a Harry se há alguém que possa ser chamado para ficar com ele, talvez alguém do serviço social. Harry diz a ela que está bem, que ficará bem.

Assim que os dois policiais saem, Harry desata no choro – e Michael Caine dá um show nesta seqüência, assim como dá um show no filme inteiro.

Como é um filme inglês, todo o elenco está brilhante, perfeito, mas Michael Caine e Emily Mortimer assomam-se acima dos demais. São duas interpretações comoventes, emocionantes.

Com 15 minutos de filme, Harry Brown está sozinho no mundo, absolutamente sem qualquer companhia naquele subúrbio pobre de Londres.

A detetive Alice não demora a chegar aos assassinos – o bando de delinquentes que age abertamente na região. Mas não tem provas concretas.

A trama que virá a partir daí é tão dolorosa quanto esse início de filme que tentei descrever.

É violência demais, crueza demais, ferida aberta demais

Poucas vezes vi personagens tão repugnantes quanto os dois drogados que Harry Brown vai visitar quando decide comprar uma arma. Não são seres humanos – são besta-feras, criaturas infernais, invenções do diabo, o mal em si. E o diretor Daniel Barber não tem pudores, nem dó do espectador. Expõe tudo com crueza, sem retirar a câmara dos detalhes mais podres, mais sórdidos do submundo de que está falando.

Mary tem estômago forte, talvez, ou seguramente, mais que eu, mas assustou-se com tanta violência, tanta crueza, tanta ferida aberta mostrada por uma câmara que não tem a educação de se desviar da realidade apavorante. Quando faltavam uma meia hora para o final do filme, ela perguntou, mais para si mesma que para mim, onde aquilo tudo iria dar.

Não vai dar em nada bom.

Muitos espectadores poderão talvez achar que este Harry Brown seja algo próximo de um outro Harry, o Dirty Harry dos filmes dirigidos por Don Siegel com Clint Eastwood no papel central – policial fascistóide, como dizia a crítica Pauline Kael. Poderão achar que é uma defesa do olho por olho, dente por dente, da “justiça” feita com as próprias mãos, já que as instituições legítimas, a polícia e o Judiciário, não conseguem punir os criminosos. Essa coisa abominável que filmes de diretores importantes ou com atores importantes já fizeram – tipo, para dar apenas dois exemplos entre tantos,Valente/The Brave One, do irlandês Neil Jordan, com Jodie Foster no papel da radialista que perde o namorado durante um assalto e vira assassina, ou Entre Quatro Paredes/In the Bedroom, em que o casal interpretado pelos ótimos Tom Wilkinson e Sissy Spacek perde um filho assassinado pelo ex-marido de sua então namorada, e busca de todas as maneiras o justiçamento fora da Justiça.

A violência, para esses jovens, é entretenimento

Não acho que seja o caso. Para mim, este Harry Brown não é um filme que faz a defesa do justiçamento fora da Justiça.

É pior que isso. É mais trágico ainda.

Mostra um mundo sujo, corrupto, corrompido que não tem mais jeito, não tem mais saída. A delinqüência existe, está aí à mostra, seja associada à droga, ao consumo e ao tráfico de droga, ou não. Há policiais honestos, competentes, esforçados, como a detetive Alice, assim como há policiais estúpidos, idiotas, como o superior dela, o chefe da delegacia daquele subúrbio de Londres, mas a polícia como um todo perde a guerra contra a criminalidade; simplesmente não dá conta. A Justiça nem chega a ser acionada na história triste que o filme narra, mas, provavelmente, se se chegasse até ela, ela falharia também.

Criamos uma civilização absurda, insana, e não damos mais conta de transformá-la – é isso que o filme me pareceu dizer.

Há um diálogo trágico, que corta como navalha, quando a narrativa já se aproxima do final, entre Alice, a jovem policial honesta, dedicada, séria, e Harry, o homem que passou décadas querendo se esquecer de seus tempos como fuzileiro naval tentando conter a violência na Irlanda do Norte, ou tentando subjugar os irlandeses contrários à ocupação inglesa (aí depende do ponto de vista de cada um), e agora se vê forçado a trazer de volta o que havia aprendido no campo de batalha.

Alice: – “Isto aqui não é a Irlanda do Norte, Harry.”

Harry: – “Eu sei. Lá as pessoas lutavam por um ideal, uma causa. Aqui, para eles, é só entretenimento.”

Incrível que seja a estréia do diretor. Incrível que não tenha tido o respeito que merece

O filme é feito com tamanha maturidade, tamanho domínio de toda a técnica e toda a arte, que é simplesmente impossível aceitar a informação, que vejo no IMDb, de que foi o primeiro longa-metragem dirigido por Daniel Barber.

Contra fato não há argumento, e então este foi o primeiro filme do diretor. Mas que não dá para acreditar, não dá.

Não dá também para não compreender por que esse filme não foi incensado pela crítica, não ganhou um monte de prêmios. Ou talvez dê para entender, sim: é bom demais, sério demais, pesado demais.

Harry Brown

De Daniel Barber, Inglaterra, 2009

Com Michael Caine (Harry Brown), Emily Mortimer (detective-inspetora Alice Frampton), Charlie Creed-Miles (sargento Terry Hicock), David Bradley (Leonard Attwell), Iain Glen (S.I. Childs), Sean Harris (Stretch), Ben Drew (Noel Winters), Jack O’Connell (Marky), Jamie Downey (Carl)

Roteiro Gary Young

Fotografia Martin Ruhe

Música Ruth Barrett e Martin Phipps

Produção Marv Films, UK Film Council, HanWay Films. DVD Flashstar

Cor, 103 min

***1/2

6 Comentários para “Harry Brown”

  1. Outro filme que não chegou a Portugal, deve ter ido ao fundo no Canal da Mancha…
    Talvez venha a pé e demore a chegar…
    Uma tristeza. Vocês parece que têm mais sorte, também os espectadores são muito mais numerosos e nós estamos entregues nas mãos de uma espécie de monopólio de distribuição e exibição cinematográfia.

  2. Afinal o filme chegou a Portugal mas em DVD, haja Deus! Vi-o ontem e fiquei satisfeito. Está muito bem realizado e interpretado, mas é realmente um filme duro, pesado e difícil de ver. A análise do Sérgio parece-me correcta.

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