Flores de Aço / Steel Magnolias

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Este Flores de Aço, Steel Magnolias no original – que mostra o dia-a-dia de seis mulheres nada especiais, gente como a gente, de uma pequena cidade do Sul Profundo – é o tipo de filme que muitos críticos podem chamar de sentimental, sentimentalóide, água com açúcar. Mais ainda: é o típico filme que os soi-dissant intelectuais, os que dizem gostar de “cinema de arte”, os de narizinho empinado, gostam de chamar de “filme americano”.

E até concordo com esse povinho metido a besta: sim, em muitas coisas Flores de Aço é, de fato, o típico filme americano, no sentido pejorativo do termo.

Na minha opinião, é um bom filme, um filme interessante, com uma historinha simples e comum como a história da imensa maioria das pessoas. É um belo filme menor, extremamente valorizado pelo elenco, seis boas atrizes, todas em ótima forma.

As tais pessoas de nariz empinado, que se têm na mais alta conta, os intelectualóides chatos de galocha, usam a expressão “filme americano” como sinônimo perfeito de porcaria, de coisa menor, de lixo. É uma expressão no mínimo reducionista, já que existem pelo menos uns dez tipos diferentes de filmes americanos – e mesmo o tipo a que pertence este aqui, o que mistura drama e comédia sobre a vida em família, as relações familiares e afetivas, costuma ser feito com uma competência acima do normal. Mas os intelectualóides, em geral, em sua imensa maioria, são reducionistas mesmo, e são, sobretudo, simpatizantes do que chamam de esquerda, e radicalmente anti-americanistas – mesmo que para isso tenham que botar no mesmo balaio coisas tão díspares quanto Orson Welles e Sylvester Stallone, Elia Kazan e John Woo, o Clint Eastwood cineasta dos últimos 20 anos e Dirty Harry, Jimmy Carter e Richard Nixon, Wall Street e a Constituição americana.

A diretora francesa, nascida no Mônaco, Danièle Thompson, mais intelectualmente preparada, com aqueles milhares de anos de cultura a mais, expressou, através da personagem interpretada por Juliette Binoche (ela mesma atriz de alguns filmes americanos) em Fuso Horário do Amor/Décalage Horaire, uma fascinante definição de filme americano: nos filmes americanos, diz ela, os pobres ficam ricos, os ricos têm uma vida dura, os sem-documento encontram os documentos, as guerras terminam, os mortos voltam a viver e as putas se casam com milionários.

Aqui os mortos não voltam a viver, os pobres não ficam ricos

Segundo a definição de Danièle Thompson – irônica, sagaz, mas ao mesmo tempo cheia de simpatia – no entanto, Flores de Aço não seria um típico filme americano. Embora uma das seis principais atrizes de Flores de Aço tenha logo depois interpretado a puta que se casa com milionário, os mortos aqui não voltam a viver, os pobres não ficam ricos, os ricos não têm uma vida dura.

Em Flores de Aço, não há guerras, nem sem-documentos.

Não há miséria, miseráveis, sem-teto. Mostram-se pessoas classe média. Dos mais variados setores da classe média, essa classificação necessariamente ampla. Nenhum dos personagens passa por necessidades básicas – fome, privação. Quem acha que o cinema tem necessariamente que denunciar a absurda injustiça social, os imensos problemas da falta de boa educação e saúde, do racismo, da violência, da criminalidade, estaria perdendo seu tempo com Flores de Aço – e também com este site.

É apenas um filme sensível sobre a vida o amor a morte, sobre gente como a gente, ordinary people. Pessoas comuns.

O primeiro papel importante da jovem Julia Roberts

Não há aqueles letreiros informando ao espectador o lugar e a época da ação, mas não será difícil perceber que é Sul Profundo, anos 80. Com o tempo, será dito que estamos na cidadezinha de Chinquapin, na Louisiana, no final dos anos 1980. Os créditos finais informarão que o filme foi feito em Natchitoches, Louisiana, o que me leva a crer que Chinquapin é um nome fictício.

Pois muito bem. Então temos que, no final dos anos 80, numa pequena cidade qualquer de Louisiana, é o dia do casamento de Shelby, uma linda garota. Shelby é interpretada por Julia Roberts, e nesta altura seria necessário que o texto se apegasse aos fatos, à ação, ao que é mostrado no início do filme, deixando as considerações sobre os atores para mais tarde, mas é fundamental dizer que Shelby foi o primeiro papel importante da carreira de Julia Roberts. Ela já havia feito quatro filmes, e aparecido em algumas séries de TV, mas tinha apenas 22 aninhos, e estava começando. Foi este o filme que chamou a atenção de todos para ela – e não é temerário dizer que foi por causa dele que, no ano seguinte, 1990, ela foi escolhida para o papel principal em Uma Linda Mulher/Pretty Woman – a partir de que se transformaria na atriz mais badalada, mais amada, mais odiada, mais bem paga de Hollywood ao longo dos anos 90.

Ver Julia Roberts no papel de Shelby neste Flores de Aço é testemunhar o nascimento de uma estrela.

Julia Roberts era a única atriz ainda desconhecida entre as seis que fazem os papéis principais em Flores de Aço.

Quem interpreta a mãe de Shelby é Sally Field, e Sally Field estava no auge. Dez anos antes, em 1980, havia ganho o Oscar por Norman Rae, de Martin Ritt, um filme de esquerda, liberal, quase radical, nos termos americanos, em que fazia o papel de uma operária oprimida em casa e no trabalho que se transforma numa líder sindical. E em 1985 havia ganho um segundo Oscar, por Um Lugar no Coração/Places in the Heart, de Robert Benton, outro filme progressista, liberal, de esquerda, segundo os padrões locais.

Mas, pelamordedeus, vamos à trama.

Seis mulheres falam abobrinhas num salão de beleza

Então, a bela Shelby-Julia Roberts, filha de M’Lynn-Sally Field, está se casando no dia em que a ação começa. Shelby e M’Lynn vão se pentear para a cerimônia de casamento no salão de beleza de Truvy (a deliciosa Dolly Parton, grande compositora e cantora country de impressionante voz taquara rachada, atriz de vários bons filmes).

Nesse exato dia, Truvy está admitindo uma nova empregada no seu salão, uma tal de Annette, que acaba de chegar à cidade. Anette é interpretada por uma Daryl Hannah já então famosa, e aqui Daryl Hannah faz um papel diferente dos que havia feito até então – aqui ela não é extraordinariamente linda. Usa grandes óculos para tentar esconder seu rosto magnífico; e Annette, seu personagem, é uma jovem estouvada, sem jeito, inconstante, insegura.

Também são freguesas do salão de beleza de Truvy as senhoras mais velhas Clairee e Ouiser – interpretadas por duas atrizes veteranas e maravilhosas, Olympia Dukakis (à direita na foto, com Dolly Parton) e Shirley MacLaine. Clairee é rica, educada, viúva de um ex-prefeito da cidade. Ouiser é uma velha de humor horroroso, a típica velha chata da pequena cidade – um personagem delicioso, perfeito para a sensacional Shirley MacLaine (com Sally Field na foto abaixo).

No salão de beleza, as seis mulheres falam, fofocam, se apresentam para o espectador. O espectador pode, nesse momento, ficar um tanto de saco cheio com a quantidade de bobagem que se fala – conversinha pequena, papo furado de mulheres comuns, gente como a gente.

O dia do casamento de Shelby ocupa aí, sei lá, uns 30 minutos do filme, talvez 40. Depois há um corte no tempo, e pulamos para o Natal daquele ano. Deve ser, na peça de teatro que deu origem ao filme, o segundo ato.

Sim, porque, conforme nos informaram os créditos iniciais, trata-se de uma peça teatral, de autoria de um certo Robert Harling, ele mesmo o autor do roteiro do filme.

Mil vezes um filme sobre gente como a gente que um sobre bandidos

É uma história sobre pessoas comuns, sem nada especial. Os mortos não voltam a viver, mas, como em todos os filmes – americanos, georgianos, romenos, iranianos -, como na vida da gente, a vida continua.

Se conseguissem ver o filme, os intelectualóides teriam certamente razões de sobra para xingar o filme de piegas, sentimentalóide. Os demais seres humanos, creio, teriam boas razões para gostar de vê-lo. Um retrato da vida – honesto, sensível. Com uma meia dúzia de boas atrizes em um momento especialmente inspirado de suas carreiras.

Um pequeno documentário que acompanha o filme no DVD nos esclarece que a história se baseia em fatos reais. A história de Shelby é a história da irmã do autor da peça teatral e do roteiro do filme, Robert Harling.

Quando a arte imita a vida, tem mais valor. É o que eu penso. Já disse isso mil vezes aqui, mas não canso de repetir: mil vezes um filme que narra vidas de gente comum que um que fala de bandidos, super-heróis.

Se o filme tem meia dúzia de belas atrrizes, melhor ainda.

E os intelectualóides que se divirtam com os Hal Hartleys, os Peter Greenways deles.

Flores de Aço/Steel Magnolias

De Herbert Ross, EUA, 1989

Com Sally Field (M’Lynn Eatenton), Dolly Parton (Truvy Jones), Shirley MacLaine (Ouiser Boudreaux), Daryl Hannah (Annelle Dupuy Desoto), Olympia Dukakis (Clairee Belcher), Julia Roberts (Shelby Eatenton Latcherie), Tom Skerritt (Drum Eatenton), Sam Shepard (Spud Jones), Dylan McDermott (Jackson Latcherie), Kevin J. O’Connor (Sammy Desoto)

Roteiro Robert Harling, baseado em sua peça de teatro

Fotografia John A. Alonzo

Música Georges Delerue

Produção Rastar, TriStar Pictures. DVD Sony Pictures

Cor, 117 min

R, ***

7 Comentários para “Flores de Aço / Steel Magnolias”

  1. Eu até ia comentar mais longamente, mas creio que voc~e disse tudo aqui: “Mil vezes um filme sobre gente como a gente”

    E a Shirley MacLaine, céus, você lembra algum filme em que ela não está soberba?

  2. Adoro quando você manda comentários longos, Luciana! Mas, claro, gosto também dos curtinhos.
    Não, não me lembro de nenhum filme em que Shirley MacLaine não esteja soberba…
    Sérgio

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