Domingo Maldito / Sunday, Bloody Sunday

Nota: ★★★½

Anotação em 2010 (postada em fevereiro de 2011): Beleza de filme, este Domingo Maldito/Sunday, Bloody Sunday, tido como o mais pessoal da carreira do diretor inglês John Schlesinger (1926-2003).

Por algum motivo, perdi o filme na época – ele é de 1971 –, embora tenha visto no lançamento outros filmes do diretor, como Longe Deste Insensato Mundo/Far from the Maddening Crowd, de 1967, bela adaptação de clássico do gigante Thomas Hardy, e Perdidos na Noite/Midnight Cowboy, de 1969, saga amarga sobre dois destituídos, abandonados pelo sonho americano, numa Nova York cruel.

Mas não há problema algum em ver Domingo Maldito pela primeira vez agora, quase 40 anos depois que foi feito. O filme não envelheceu absolutamente nada. Ao contrário. Tem muitos toques pessoais, maneirismos típicos daqueles tempos – o cinema inglês tinha tido nos anos 60 a sua nova onda, como a nouvelle vague francesa, o cinema novo brasileiro, com expressões formais de rebeldia anti o que consideravam o academicismo do que se fazia até o início dos anos 60 nas Ilhas Britânicas.

E, mais ainda, o filme é um reflexo nítido do espírito, da moral, dos costumes daquele início de anos 70, logo após as grandes revoluções comportamentais dos 60.

Não é, no entanto, um filme datado no sentido de envelhecido. Tem a marca nítida da época em que foi feito, sim, mas não ficou velho, ultrapassado. Ao contrário, repito: o filme chega a espantar pela modernidade, pela atualidade.

Até porque é, sem querer aparentar muito, sem querer insistir nisso, um filme corajoso, ousado. É um filme sobre um triângulo amoroso que inclui uma relação homossexual – mas, ao contrário do que se poderia prever, trata este fato como se fosse absolutamente normal. Exatamente como se fosse um tradicional triângulo amoroso entre héteros.

Não sei se ficou claro o que quis dizer. Insisto: não há especial realce para o fato de que uma das linhas que formam o triângulo amoroso seja uma relação entre dois homens. Trata-se esse fato com a maior naturalidade possível.

          Está implícito entre Alex e Bob que não se exige fidelidade

O espectador é apresentado aos principais personagens bem no início da ação. Na primeira seqüência, acompanhamos um médico de meia idade, o dr. Daniel Hirsh (uma interpretação soberba, magnífica de Peter Finch), atendendo a um de seus pacientes. Depois conhecemos Alex Greville (outra atriz espetacular em outra atuação belíssima, Glenda Jackson), uma funcionária pública, a public servant – e, na Grã-Bretanha, é bom lembrar, ser a public servant é uma honra -, que trabalha numa agência de recolocação de mão de obra.

É uma sexta-feira, nos informa um letreiro. Alex vai passar o fim de semana cuidando de cinco crianças na casa de Alva (Vivian Pickle), uma amiga que estará fora com o marido. Alex terá a ajuda e a companhia de Bob Elkin (Murray Head, na foto acima com Glenda Jackson), rapaz bem mais jovem que ela, cabeludo, informal, a aparência quase de um hippie – rapaz trabalhador e talentoso. Bob é uma espécie de designer, cria objetos de decoração muito próximos de obras de arte.    

A roteirista Penelope Gilliatt e o diretor Schlesinger optaram por aquele tipo de narrativa que vai revelando as informações aos poucos, à medida que o tempo vai passando. Não nos entregam de cara o retrato acabado de cada um desses personagens. Suas características vão aparecendo pouco a pouco.

Assim, será preciso algum tempo para compreendermos que Alex está divorciada, separada – seu ex-marido não vai aparecer na história, será apenas citado quando o filme está lá pela metade. E demora também um pouco para vermos que Alex e Bob são namorados, já faz algum tempo. Mas atenção: estamos em 1971. A revolução dos costumes já ocorreu, está ocorrendo. Alex e Bob vivem – como tantos casais nos anos 60 e 70 – o que na época se chamava de relação aberta. Fidelidade não é pré-requisito. Ao contrário: está implícito que pode haver infidelidade, de parte a parte.

Na manhã de sábado, Bob deixa Alice com aquele bando de crianças, e sai. Veremos que ele vai para a casa do dr. Daniel. Abraçam-se, conversam um pouco, dão um beijo apaixonado.

Repito, insisto: não há fanfarras, fogos de artifício, realce especial para o fato. As cenas entre Bob e Daniel são mostradas como algo rotineiro, normal.

A narrativa prosseguirá mostrando como são as relações entre Bob e Daniel, entre Bob e Alex, o dia-a-dia de Daniel, o dia-a-dia de Alex.

Alex sabe da existência de Daniel, Daniel sabe da existência de Alex. Era assim com tantos casais nos anos 60 e 70.

          Um filme ousado, corajos, muito à frente de seu tempo

E aqui é necessário parar um pouco para considerar o contexto.

Não era muito comum, até 1971, ano em que foi feito Domingo Maldito, o cinema tratar de forma aberta, honesta, franca – e sem exagerar nas cores, sem se espantar muito – as relações homossexuais.

Lembrando: apenas em 1960 pôde ser publicado na íntegra, na Inglaterra, o romance O Amante de Lady Chatterley, escrito por D.H. Lawrence em 1928 – e, mesmo assim, houve um rumoroso caso judicial contra os editores. E Lady Chatterley não fala de amor homossexual – apenas de sexo entre homem e mulher, com palavras que foram consideradas ofensivas. A imprensa inglesa usou contra ele expressões como “esgotos da pornografia francesa”; “o livro mais sujo da literatura inglesa”.

Homossexualismo foi considerado crime na Inglaterra até poucas décadas antes do lançamento de Domingo Maldito. Oscar Wilde – é sempre bom lembrar – foi condenado à prisão pelo crime de sodomia.

Por isso, é um grande alento ver como Schlesinger foi ousado, corajoso, ao fazer Domingo Maldito. Mas mais ainda: como foi avançado, como foi à frente de seu tempo na forma como tratou o amor homossexual – sem se escandalizar, sem escandalizar o espectador. Da maneira mais natural, normal possível.

Não é pouca coisa. De forma alguma.

Mais tarde vou aos alfarrábios, ver o que se escreveu na época sobre o filme, e sobre essas questões. Antes, gostaria de falar de algumas características que me surpreenderam no filme.

          Uma câmara estudadamente, cuidadosamente  descuidada

Os tais maneirismos típicos daqueles tempos, as pequenas expressões formais de rebeldia anti o que os cineastas ingleses de então – Tony Richardson, Lindsay Anderson, Karel Reisz, o próprio Schlesinger – consideravam como academicismo.

A câmara de Schlesinger em Domingo Maldito é um tanto inquieta. Não tão inquieta, é verdade, quanto por exemplo a de John Cassavetes em Faces, de 1968, ou a dos dinamarqueses do Dogma 1995, ou a de Jonathan Demme em O Casamento de Rachel, de 2008. Mas inquieta. Em diversas, diversas tomadas, a câmara faz um zoom em direção ao rosto dos personagens.

Nada contra – até porque os rostos de Peter Finch e Glenda Jackson, esses atores extraordinários, são belos e transmitem um turbilhão de emoções. Nada contra. É só uma constatação.

Em algumas tomadas, tem-se a impressão de que a câmara às vezes perde a noção de o que exatamente quer focalizar. Algumas pessoas passam entre a câmara e os personagens centrais, vemos uns borrões na tela em primeiro plano. Como se fosse uma coisa um tanto suja, um tanto relaxada demais. Tudo, é claro, muito bem estudado, muito bem ensaiado para propositadamente parecer descuidado – a rebeldia contra o “academicismo”. Os mais jovens são assim.

          A Grande História por trás da história de Alex e Bob e Daniel

Mas mais impressionante ainda que esses maneirismos é a forma como a roteirista e o diretor mostram um pouco da Grande História atrás da história de seus personagens. O contexto, a época que se está mostrando. Entre uma seqüência e outra, surgem algumas que parecem desnecessárias para a história que se está contando sobre Alex e Bob e Daniel. São desnecessárias, sim, para a trama específica envolvendo aqueles personagens, mas fundamentais para dar o retrato da época.

Por exemplo: na noite de sábado, em que Daniel sai com amigos à noite, a câmara como que se distrai da história e mostra um bando de jovens andando de patins por ruas movimentadas da Londres noturna. Num outro momento, mostrando uma área de escritórios (talvez a City; não dá para identificar o local exato) em hora de muito movimento, a câmara flagra diversos homens de terno preto, gravata e chapéu coco, entre outras pessoas sem chapéu e sem terno. Ainda em outro momento, vemos um grupo de jovens – bem vestidos, não miseráveis, lumpen – riscando com cacos de vidro a lataria de carros estacionados na rua.

No rádio do carro de Alex, um locutor fala da crise econômica, a pior desde a Segunda Guerra – o gabinete está fazendo seguidas reuniões para decidir medidas contra o desemprego, os sindicatos estão agitados. Num momento em que chove, uma mulher cobre a cabeça com um jornal, que anuncia em manchete com letras garrafais que milhões de ingleses podem perder seus empregos.

Pequenos toques informando gentilmente ao prezado espectador o que acontecia no país, enquanto Alex e Daniel amavam Bob, que amava os dois mas fazia planos de viajar para Nova York. A crise econômica era brava; os anos 60 haviam trazido a juventude colorida, alegre, e também uma juventude rancorosa, rebelde sem causa, para as ruas, mas ainda havia os sinais da velha Inglaterra vitoriana no ar, o chapéu coco, o guarda-chuva, a tradição.

          Um filme pessoal de um diretor que trabalhou na Inglaterra e nos EUA

Lá pelas tantas, Schlesinger se estenderá, durante longas seqüências, no bar mitzvah do sobrinho de Daniel (na foto abaixo). São belas seqüências, que fazem Daniel se lembrar de sua própria infância, e que ajudam a mostrar para o espectador mais um pouco da história e do caráter do personagem interpretado por Peter Finch. Observamos que a relação dele com o pai e a mãe é bastante distante, visitam-se e vêem-se muito pouco; que o irmão dele é um sujeito muito rico, muito bem posto na sociedade; que as tias ainda insistem em tentar apresentar mulheres para ele, na esperança de que enfim se case e tenha filhos.

São belas seqüências, e informativas – mas não são fundamentais para o desenrolar da trama. Devem ter sido fundamentais pessoalmente para o diretor Schlesinger, para que ele abordasse algo que tinha a ver com sua própria infância. Ele nasceu em Londres, em 1926, em uma família judia de sólida classe média – o pai era pediatra, a mãe, música. O bar mitzvah é um dos elementos que mostram como é pessoal este filme.

Como tantos outros diretores das Ilhas Britânicas que viriam depois – Ridley Scott, Stephen Frears, Neil Jordan, Alan ParkerJoe Wright –, Schlesinger trançou entre o cinema inglês e o americano. Seus primeiros filmes foram ingleses até a medula, mas, depois de voltar ao passado no clássico de Thomas Hardy Longe Deste Insensato Mundo, fez o americaníssimo Perdidos da Noite, tremendo sucesso de público, três Oscars, outros 23 prêmios e 12 indicações. Foi depois desse grande sucesso que voltou à Inglaterra para fazer Domingo Maldito. Em seguida filmou de novo nos Estados Unidos, onde fez O Dia do Gafanhoto/The Day of the Locust e Maratona da Morte/ Marathon Man.

          O que disseram alguns críticos

Domingo Maldito teve quatro indicações ao Oscar: melhor direção, melhor roteiro original, melhor ator para Peter Finch, melhor atriz para Glenda Jackson. Não levou nenhum, mas teve 12 prêmios e outras cinco indicações. Ganhou os principais Baftas – filme, diretor, atriz para Glenda, ator para Finch, mais montagem para Richard Marden – e o Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro.

Vou começar a ver outras opiniões checando o que dizem os ingleses do Time Out Film Guide – um povinho danado de mal-humorado, que parece estar sempre irritado com a obrigação de ver filmes e depois ainda escrever sobre eles. “Na prática, se não na intenção, um retrabalho em cima de Brief Encounter (Desencanto, de David Lean, de 1945), com um toque de modernismo. Na sua trama (Murray Head é o distante amante de Peter Finch e Glenda Jackson), atuações (membros que se abanam e faces que se crispam) e direção (estridência alternando com observação ‘fria’), Sunday, Bloody Sunday é um exemplo clássico de um filme que foge do controle o tempo todo, enquanto seus criadores, o diretor Schlesinger e a roteirista Penelope Gilliatt, lutam por ‘significados’, com pouca atenção às questões simples como consistência tomada a tomada, sem falar de unidade formal. Finch se esforça como o médico judeu homossexual, mas Jackson (como Julie Christie em Darling) tem poucas oportunidades de ser algo mais que uma insignificância pela câmara explorativa de Schlesinger.”

Eta povo chato. E ainda por cima a letrinha do guia é mínima, corpo 4. Devia era jogar essa josta fora.

Pauline Kael, a grande dama da crítica americana, sempre incisiva, cortante, gostou do filme: “John Schlesinger dirigiu aeste filme inglês complexo e admiravelmente modulado sobre três londrinos e o rompimento de dois casos amorosos, baseado num roteiro delicado e pungente de Penelope Gilliatt; talvez seja sua melhor obra – possivelmente um clássico. Um médico homossexual quarentão, Peter Finch, e uma assistente social beirando os 30, Glenda Jackson, estão apaixonados por um bem sucedido e infantil escultor cinético, Murray Head, que divide indiferentemente seu tempo e afeto entre os dois. Não tem nenhuma preferência sexual, e não entende por que perturba as duas pessoas mais velhas o fato de partilhá-las, já que ama as duas. O filme é uma curiosa espécie de súplica em favor da fragilidade humana – suplica simpatia para os não-heróis da vida, que agem da melhor maneira que podem. Algumas pessoas podem obter consolo com ele – é o mais sofisticado lacrimogêneo já feito até hoje. A sensibilidade talvez seja meio excessiva demais; a compaixão é uma das estrelas. (…) Schlesinger tem o dom do ritmo e a energia para reunir todos os elementos de um filme ao mesmo tempo, mas usa tanto sua técnica que é simplesmente impossível alguém ter alguma reação que ele não tenha previamente decretado. O filme é cheio de sacações plantadas; quase se podem contar os watts nessas iluminações.”

Roger Ebert – sujeito que admiro – viu no excesso de civilidade com que os personagens centrais tratam a própria existência do triângulo amoroso uma tragédia, a falta de amor. Não concordo com ele: na minha opinião, não é preciso ser siciliana ou espanholamente passional para enfrentar a dor de um amor dividido. “Minha noção”, diz o crítico americano, que deu cotação máxima, 4 estrelas, para o filme “é de que Sunday, Bloody Sunday é sobre pessoas que sofrem de amputação física, não de civilidade, e que o filme não é uma afirmação, mas uma tragédia. (…) Penso que Sunday, Bloody Sunday é uma obra-prima, mas não acho que seja sobre o que todo mundo parece pensar. Este não é um filme sobre a perda de amor, mas sobre sua ausência.”

Eu diria que uma obra que merece essas considerações de Pauline Kael e Roger Ebert, e aquela crítica imbecil do Time Out Film Guide, é, inquestionavelmente, um filme para ser visto – e respeitado.

Domingo Maldito/Sunday, Bloody Sunday

De John Schlesinger, Inglaterra, 1971

Com Glenda Jackson (Alex Greville), Peter Finch (dr. Daniel Hirsh), Murray Head (Bob Elkin), Peggy Ashcroft (Mrs. Greville), Maurice Denham (Mr. Greville), Vivian Pickles (Alva Hodson) 

Roteiro Penelope Gilliatt

Fotografia Billy Williams

Música Ron Geesin; com peças de Wolfgang Amadeus Mozart

Produção United Artists. DVD Versátil

Cor, 110 min.

***1/2

4 Comentários

  1. Postado em 15 fevereiro 2011 às 4:17 pm | Permalink

    Gostei muito desse filme. O Peter Finch está soberbo. Grande momento de Schlesinger, um bom diretor infelizmente esquecido.
    Abraços e apareça

    http://www.ofalcaomaltes.blogspot.com

  2. Gilberto Habib
    Postado em 27 agosto 2011 às 3:00 pm | Permalink

    Filme muito bom, sensivel e inteligente. A Industria não tem mais coragem de fazer obras assim. Adorei esta crítica, muito boa, quem é o autor?

  3. Postado em 27 novembro 2011 às 4:12 pm | Permalink

    Oi, Sérgio, afinal arrumei um tempinho p refazer o comentário a este filme, lembra, tinha sumido!
    A respeito dessa pretensa divisão pelos dois mais velhos do amor de Bob, minha percepção é de q realmente existe uma ausência de amor por parte do rapaz, como bem disse Roger Ebert.
    Reparei ao final do filme q a Alex, personagem da Glenda Jackson, diz ao Bob, qdo este diz q vai viajar p os EUA e q na volta vai procurá-la q é melhor não, pois nada é melhor q pouco, frase tão interessante e verdadeira…Ela resolve terminar a relação com o rapaz, mesmo ainda o amando pq para ela aquelas migalhas q ele dá são insatisfatórias, é uma relação pobre q a faz sofrer, então ela resolve dar o basta. Eta mulher de fibra!
    Guenia
    http://www.sospesquisaerorschach.com.br

  4. semíramis nunes
    Postado em 11 julho 2014 às 6:46 pm | Permalink

    adorei, renho procurado este dvd para comprar ou baixar, não sei onde encontrar se você souber este e o suplicio de sua ausência, (no love for JOHNNIE) eu gostaria muito obrigada Semíramis

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