Dois Irmãos / Dos Hermanos

Nota: ★½☆☆

Anotação em 2011: Um filme extremamente bem feito, em todos os quesitos técnicos, artesanais. Atuações extraordinárias dos protagonistas, Graciela Borges e Antonio Gasalla, como os dois irmãos do título, Marcos e Susana. E no entanto…

O que foi mesmo que o competente diretor Daniel Burman quis dizer com isso? Qual é o interesse, afinal de contas, dessa história sobre esses dois irmãos? O que o mundo tem a ver com essa mulher chata, doida, e esse senhor educado e contrito, e com a louca relação de dominadora e dominado dos dois? E eu com isso?

Susana é uma mulher aí de uns 50 e tantos anos, que se tem em conta muito mais alta do que ela realmente é. Acha-se extraordinária, especial, sensacional, muito acima de todo o resto da humanidade. (Bem, poderíamos dizer que é a típica argentina, talvez, mas isso seria insistir nos estereotípos. Deixa pra lá.) Vive… Bem, de que exatamente vive Susana, essa senhora que está sempre a visitar apartamentos em Buenos Aires, como quem os vai comprar? Não fica muito claro.

Talvez Daniel Burman e seu co-roteirista Diego Dubcovsky, este o autor do romance Villa Laura, no qual o filme se baseia, quisessem mesmo não deixar muito claro, mas o fato é que não sabemos exatamente de que vive Susana. Ela arrota que tem uma imobiliária, que compra e vende e imóveis – mas será que isso é real? Não vemos em momento algum uma demonstração de que existe essa imobiliária, na realidade – Susana é quase uma mitômona. O que há de verdade nela?

Não se sabe.

O que fez ao longo da vida Marcos, esse senhor educado, refinado, aparentemente culto, muito contido? Não se sabe – sabe-se é que ele passou boa parte da vida cuidando de Neneca, a mãe. Neneca morre bem no começo do filme, e Susana, a dominadora, a quase mitômana, ou abertamente mitômana, decide que vai vender o apartamento da mãe, e vai botar Marcos para viver do outro lado de mi Rio de La Plata lindo y súcio, em Villa Laura, num vilarejo uruguaio. Em Buenos Aires, sua aposentadoria – ela diz para ele – não daria para nada; em Villa Laura, ele poderá viver como um rei.

E assim desterrado para o outro lado de mi Rio de La Plata lindo y súcio viverá Marcos, o dominado, na casa escolhida pela irmã dominadora, sem ser sequer possuidor de um aparelho celular com roaming – e com a instabilidade de que até a casa do exílio poderá perder, porque a irmã dominadora de repente diz que vai vendê-la.

Por que Marcos, esse senhor educado, refinado, aparentemente culto, muito contido, uns pares de anos mais velho, deixou-se dominar por Susana, a irmã chata, doida, que se tem em conta muito mais alta do que ela realmente é, uma quase mitômana, ou talvez uma absoluta mitômana?

Não se sabe. Nem se precisa saber, uai! Não importa o que levou àquela situação – o filme quer mostrar é a relação dos dois. É uma folie à deux – tão bonitinha, essa expressão, folie à deux.

Se é uma folie à deux, o que eu, um terceiro, tenho a ver com isso?

Tá legal, eu me dizia, com uma meia hora de filme, é uma folie à deux – mas e eu com isso? Por que eu tenho que me envolver numa folie à deux? Se é à deux, eu sou o terceiro, le tiers, e a folie est à deux, pas à trois.

O que é que moá tem com isso?

Quando o filme estava aí com arrastados, sei lá, 70 minutos, chegou uma visita. No dia seguinte retomei o filme para ver se acontecia alguma coisa que me explicasse por que raios eu tenho a ver com a folie à deux dos irmãos Marcos e Susana.

Não acontece coisa alguma.

O diretor deve ter ouvido que era genial. Aí ficou bobo

O garoto Daniel Burman, nascido em 1973 em Buenos Aires, primeiro me encantou com O Abraço Partido, de 2004. É uma beleza de filme, gostoso, inteligente, sensível, sobre a vida na comunidade judaica de Buenos Aires. Um filme despretensioso – e, exatamente por isso, grande. Depois o diretor me conquistou de vez com As Leis de Família, de 2006, uma pérola, um filme emocionante sobre relações familiares, amor, família.

Com Ninho Vazio, de 2008, veio uma certa decepção. É um filme muitíssimo bem feito, com grande talento, mas faltavam a graça, a leveza, a esponteidade, a ausência de pretensão dos anteriores.

Este Os Dois Irmãos – incensadíssimo – vem confirmar a decepção.

Na minha opinião, Daniel Burman foi vítima dos elogios. Os elogios subiram-lhe à cabeça.

Deve ter ouvido que era genial. Aí, em vez de continuar sendo Daniel Burman, resolveu ser genial. Ficou bobo.

Deixou de fazer filmes para os seres humanos, os vizinhos – passou a fazer filmes para os críticos, para os jurados de festival.

“Profundamente tocante em sua inquestionável humanidade”

Vou fechar a minha boca grande e transcrever alguns dos muitos elogios ao genialíssimo Dois Irmãos do genialíssimo Daniel Burman:

Luiz Zanin Oricchio, no Estadão: “Dois Irmãos é um filme sensível, cheio de amor e humor, que consegue realçar a subjetividade dos personagens sem grandes lances dramáticos ou de ação. Tudo fica no plano do registro discreto, no subtexto, nas entrelinhas. De onde se adivinha a grande influência de Burman: ‘Truffaut, sem dúvida’, admite. No quadro de um cinema latino-americano que muitas vezes busca panoramas gerais e abrangentes, é no ínfimo da intimidade de personagens comuns que ele vai encontrar seu universo.”

Tadinho do Truffaut – quantos crimes se cometem em seu nome.

Mas era para eu ficar com a boca fechada.

Érico Borgo, no site Omelete: “As emoções em Dois Irmãos, afinal, jamais são exacerbadas e os diálogos sempre carregam realismo dramático. Há sutilezas em cada sequência, com Burman usando – como ótimo diretor que é – o enquadramento para contar mais que os atores em cena estão dizendo (atenção no velório da mãe, sem convidados, foco no rosto de Marcos enquanto a irmã matraqueia).”

Pablo Villaça, no Domtotal.com: “Com uma narrativa dinâmica que nem por isso deixa de se deter em vários momentos em planos que se contentam em observar aqueles personagens enquanto apreciam uma paisagem ou a presença um do outro, Dois Irmãos é uma obra que extrai humor do prosaico e que, por isso mesmo, é profundamente tocante em sua inquestionável humanidade.”

Na minha opiniãozinha, alguém poderia sugerir a Daniel Burman que baixasse um pouco a bola, que voltasse à simplicidade de seus filmes anteriores.

Dois Irmãos/Dos Hermanos

De Daniel Burman, Argentina, 2010

Com Antonio Gasalla (Marcos), Graciela Borges (Susana), Elena Lucena, Rita Cortese, Omar Núñez

Roteiro Daniel Burman e Diego Dubcovsky

Baseado no romance Villa Laura, de Diego Dubcovsky

Fotografia Hugo Colace

Música Nico Cota

Produção BD Cine. DVD Imovision.

Cor, 102 min

*1/2

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