Coração Prisioneiro / Caught

Nota: ★½☆☆

Anotação em 2011: Não achei bom este Coração Prisioneiro/Caught, que Max Ophüls fez em 1949, seu penúltimo filme em Hollywood antes de retornar à Europa. Ophüls é um mestre, e naquele mesmo ano, em sua despedida do cinema americano, faria um belo filme, Na Teia do Destino/The Reckless Moment.

Mas, com essa história, essa trama, esse roteiro, nem mesmo um milagre divino conseguiria fazer um bom filme.

As intenções são as melhores possíveis. O tema do filme são as diferenças sociais, o abismo entre os pobres e os milionários, e as diferenças de visão de mundo, os que só pensam em bens materiais e os que se preocupam com a ajuda aos outros e a paz de espírito.

O milionário Smith Ohlrig (o papel de Robert Ryan) é o mal em si. Tirânico, egocêntrico, só pensa em acumular mais e mais dinheiro. O médico Larry Quinada (o papel do inglês James Mason, que também trabalhou sob a batuta de Ophüls em Na Teia do Destino), ao contrário, é o altruísmo em pessoa. Filho de pais que tiveram muito dinheiro e só valorizavam os bens materiais, e depois perderam a fortuna, ele é um médico abnegado, bom caráter.

Barbara Bel Geddes tem aqui uma de seus poucos papéis como protagonista

A protagonista da história é Leonora Eames (Barbara Bel Geddes, em um de seus poucos papéis principais), moça de família pobre de Denver, Colorado, que vai tentar uma vida melhor em Los Angeles, naqueles anos do pós-guerra, segunda metade da década de 1940. Divide um apartamento com a amiga Maxine (Ruth Brady), que trabalha como modelo em uma grande loja. Leonora começa como garçonete, mas economiza, dá duro para pagar as aulas numa escola que ensina etiqueta e bons modos para moças. Não demora muito e Leonora consegue emprego também como modelo, na mesma loja da amiga.

E é lá que é vista por um tal Franzi (Curt Bois), secretário particular e faz-tudo do milionário Smith Ohlrig, dono de diversas empresas. Franzi a convida para uma festa no iate de Ohlrig. Ela reluta muito, mas acaba indo – e, num golpe de sorte grande, ou imenso azar, pega uma carona com o milionário em pessoa. Pouco papo vai, pouco papo vem, o milionário quer levá-la para a mansão dele, para fazer o óbvio. Ela não quer saber.

Como jamais tinha ouvido um não de uma mulher na vida, Ohlrig sai com ela mais duas vezes – e a moça se mantém firme e virgem, como deviam ser as moças de respeito nos anos 40.

Só para contrariar o psicanalista que consulta com imensa preguiça, Ohlrig casa-se com Leonora. A moça apaixona-se por ele, mas ele não quer saber de nada parecido com uma relação afetiva com ela: trata-a como um misto de bibelô, governanta da casa e escrava.

Depois de diversas situações grotescas, Leonora resolve procurar trabalho, e vira secretária de dois médicos que dividem um conjunto de consultórios – um obstetra, o dr. Hoffman (Frank Ferguson), e um pediatra, o dr. Quinada, o papel de James Mason, à época o maior astro do elenco.

Estamos aí lá pelo meio do filme, e vão se seguir situações cada vez mais grotescas.

O milionário egocêntrico é inspirado em Howard Hughes

Com uns 15 minutos de filme, Mary, que é sábia, já demonstrava absoluto incômodo. Mais um pouco e ela jogou a toalha, mediante a sábia argumentação de que a vida é curta e quem tem site sobre cinema sou eu, e não ela.

Como para cada cabeça cabe uma sentença, o filme tem seus admiradores. Não dá para saber se Leonard Maltin ou algum de seus muitos colaboradores de fato viu esta bobagem, mas deu para ela 3 estrelas em 4: “História cativante, inteligente, de uma jovem que se casa com poderoso milionário, e tenta escapar da sua existência vazia com ele. Ótimas interpretações, direção habilidosa de Ophüls”.

E muito mais estranho ainda: segundo a capinha do DVD (o filme foi lançado aqui pela Versátil), Pauline Kael, a grande dama da crítica americana, disse que este é o melhor dos filmes que Ophüls fez nos Estados Unidos.

Será???

A Versátil mentiu. Respeito a Versátil, acho que é uma empresa séria, e tem lançado muitos filmes importantes, tanto europeus quando da era de ouro de Hollywood. Pauline Kael gostou do filme, sim, mas não disse que ele foi o melhor dos filmes americanos que o diretor alemão naturalizado francês realizou.

Eis o que ela diz, na tradução de Sérgio Augusto na edição brasileira de 1001 Noites no Cinema:

“Este filme, com seu retrato de Howard Hughes, é talvez o mais americano da filmografia americana de Max Ophüls, que tinha sofrido nas mãos de Hughes – perdera tempo em projetos inúteis e fora chamado de ‘paspalho’. Neste filme, um milionário meio louco e traiçoeiro (Robert Ryan) casa-se com uma jovem inocente (Barbara Bel Geddes) para provocar o despeito no seu analista. O filme gira em torno da desesperada situação da moça quando, grávida, percebe que não passa de uma piada cínica para o marido. James Mason faz o médico que tenta ajudá-la. Curt Bois aparece como o viscoso cafetão do milionário – um verme ambulante. Esse melodrama pouco badalado tem boas interpretações e foi um fracasso financeiro, embora seja emocionalmente complexo com fortes subtramas. O roteiro, de Arthur Laurents, baseou-se de maneira ostensiva no romance Wild Calendar, de Libby Block, que a Enterprise Pictures contratara Ophüls para filmar. Na verdade, Laurents escreveu o roteiro baseado em histórias de Ophüls lhe contou sobre Hughes, e em outras contadas por uma das garotas do milionário.”

Tudo bem, Ophüls fez o filme para se vingar de Hughes. Mas isso não o torna bom

Bem. Eu não sabia de nada disso enquanto via o filme. Não sabia que a figura do milionário interpretado por Robert Ryan se baseava em Hughes, nem que Ophüls havia sofrido nas mãos do magnata – que seria biografado por Martin Scorsese em O Aviador, de 2004.

Nada disso, no entanto, faz com que o filme fique melhor. Serve para nos fazer compreender por que Ophüls fez o filme – OK, foi para se vingar de Howard Hughes. (Hughes comprou boa parte das ações da RKO em 1948, tornou-se o principal executivo do estúdio e, parece, fez uma absurda quantidade de besteiras por lá.)

Mas o filme continua sendo um horror.

Uma bela atriz, que não teve muitas grandes oportunidades no cinema

Uma palavrinha sobre Barbara Bel Geddes, atriz de imenso talento e beleza suave (na foto feita para a promoção do filme, entre Robert Ryan e James Mason). Para as pessoas da minha geração, o nome de Barbara Bel Geddes faz lembrar imediatamente Um Corpo Que Cai/Vertigo, a obra-prima de Hitchcock, feita em 1958. Ela interpreta Midge, a grande amiga do pobre Scottie Ferguson, o papel de James Stewart. Midge é devotada ao amigo, é a pessoa a quem ele recorre nas horas difíceis. Na verdade, ela é apaixonada por Scottie, mas ele nem desconfia disso. E Midge, com sua calma, sua beleza suave, não poderia mesmo ser páreo para Madeleine/Julie, encarnada por Kim Novak no auge da beleza de fazer a terra tremer.

Nascida em Nova York em 1922, Barbara Bel Geddes foi sobretudo uma atriz de teatro. Estreou aos 18 anos na Broadway, fez sucesso no papel central na montagem de Gata em Teto de Zinco Quente. Estreou no cinema em 1947, em Noite Eterna/The Long Night, de Anatole Litvak, ao lado de Henry Fonda. Foi indicada ao Oscar de coadjuvante por A Vida de um Sonho/I Remember Mama, de 1948, de George Stevens. Apesar do talento, da beleza, e de ter trabalhado com grandes diretores, nunca virou propriamente uma grande estrela. Foi para a TV, trabalhou em Dallas, morreu em 2005, aos 82 anos.

O IMDb traz uma informação interessante: a restauração do filme, feita em 1992 no departamento de Filme e TV da UCLA, University of California Los Angeles, foi financiada por Martin Scorsese. Como eu já havia anotado, Scorsese faria uma cinebiografia de Howard Hughes, que inspirou o personagem do milionário doido, tarado por dinheiro.

Já que o IMDb transcreve uma fala do milionário Smith Ohlrig para a pobre Leonora, que bem define o caráter e um dos temas do filme, registro aqui.

– “Nasci rico. Meu pai me deixou US$ 4 milhões. Não bebi esse dinheiro, joguei, não perdi em casamentos. Soube o que fazer com ele. Tenho hoje exatamente 22 vezes e meia aquela quantia, e terei 50 vezes antes de morrer. Isso é o que todo mundo quer, não é? Bem, eu tenho.”

É vomitativa, a frase – o perfeito exemplo de um tipo de visão de mundo que o diretor Max Ophüls queria denunciar. Pena que tenha feito isso em um filme ruim.

Coração Prisioneiro/Caught

De Max Ophüls, EUA, 1949

Com Barbara Bel Geddes (Leonora Eames), James Mason (Larry Quinada), Robert Ryan (Smith Ohlrig), Ruth Brady (Maxine), Curt Bois (Franzi), Frank Ferguson (Dr. Hoffman), Natalie Schafer (Dorothy Dale)

Roteiro Arthur Laurents

Baseado no romance Wild Calendar, de Libbie Block

Fotografia Lee Garmes

Música Frederick Hollander

Produção Wolfgang Reinhardt, Enterprise, Metro-Goldwyn-Mayer. DVD Versátil.

P&B, 88 min.

*1/2

Um Trackback

  1. […] o inglês, o francês – embarcam personagens dessas quatro nacionalidades: o americano Robert (Robert Ryan), o francês Perrot (Charles Korvin), o russo Maxim (Roman Toporow), tenente do exército […]

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