Como Roubar um Milhão de Dólares / How to Steal a Million

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Uma absoluta delícia, um divertimento de primeiríssima qualidade, um encanto, este Como Roubar um Milhão de Dólares, que William Wyler fez com Audrey Hepburn e Peter O’Toole em 1966.

Tive um imenso prazer em revê-lo, com aquela sensação agradável de reencontrar um belo filme já bem conhecido mas que, na nova revisão, ainda surpreende pela beleza, elegância, inteligência. Até me assustei ao ver depois, nas minhas anotações, que tínhamos revisto o filme em 2004, apenas sete anos atrás; a impressão que tive na revisão foi de que a última vez tinha sido há bem mais tempo.

Filme muito bom é assim.

Como Roubar um Milhão… é tão gostoso que até o fato – a rigor absurdo, irracional – de que todo mundo na França fala inglês não chega a incomodar nem um pouco. Nem prestei atenção a esse detalhe, que em geral me deixa irritado, essa mania do cinemão comercial americano de botar as pessoas em todas as partes do mundo – soldados nazistas, soldados soviéticos, camponeses italianos, qualquer tipo de gente – falarem em inglês.

Até porque, embora produzido por americanos, dirigido por um americano da gema, Como Roubar um Milhão… é um filme que ri dos americanos. Às vezes até parece um filme francês, daqueles que adoram espicaçar, ferina mas bem-humoradamente, o povo do Império.

Audrey, no auge da beleza e da elegância, interpreta a filha do falsário genial

O tema é arte, a grande pintura, a grande escultura, o imenso valor que se dá aos originais – e o trabalho dos falsários.

A primeira seqüência mostra um leilão de quadros valiosos, em Paris – toda a ação se passa em Paris, e o filme foi rodado lá, nas ruas e praças parisienses e em estúdio francês, ao contrário, por exemplo, de Irma La Douce, da mesma época, mas em que Billy Wilder recriou o mercado de Les Halles e as ruas da prostituição de Pigalle em estúdios em Hollywood.

A peça mais valiosa do leilão é um Cézanne. Os lances vão subindo, subindo, subindo; corta, e vemos Audrey Hepburn num pequenino carro vermelho atravessando uma ponte sobre o Sena, os fundos da Notre Dame logo atrás. Ela ouve no rádio do carro o preço absurdo que no final se paga pelo Cézanne… que na verdade é um original de Charles Bonnet (Hugh Griffith). Audrey, maravilhosa, no auge da beleza e da elegância, interpreta Nicole, a filha de Bonnet, falsário genial.

O carrinho vermelho chega à casa dos Bonnet, um imenso casarão de dois andares, e Nicole e o pai conversam sobre o leilão. Nicole é uma moça corretíssima, não aprecia nem aprova, de forma alguma, a profissão do pai, e, pelo que se vê nesse primeiro diálogo entre os dois, tem passado a vida tentando dissuadi-lo, pedindo que ele saia dessa – até porque não precisa de mais dinheiro, já tem o bastante.

Tentativas e pedidos vãos, é claro. Bonnet domina a arte de falsificar grandes mestres, e tem imenso prazer em exercer seu talento. Nem é a tonelada de dinheiro que ele ganha com isso que mais importa – é o prazer de exercer o talento.

No meio do diálogo, Bonnet-Hugh Griffith solta uma frase que os Delúbio Soares da vida seguramente assinariam com o maior prazer:

-´”Seu problema é que você é honesta. E não digo isso para magoá-la.”

Nicole-Audrey Hepburn suspira, aqueles olhões imensos de gazela que faz derreter qualquer frade de pedra:

– “Tenho ataques de tonteira quando conversamos sobre isso, papá.”

Audrey, com sua voz suave, sua pronúncia educada, sua dicção perfeita, diz papá várias vezes, ao longo do filme. É a única tentativa que se faz para mostrar que Nicole Bonnet é francesa como Astérix, o champagne e os crepes.

Uma Vênus de Cellini que na verdade é obra do vovô, a vovó como modelo

A honesta Nicole rompe uma tradição familiar. A arte de falsificar vem de longe, na família Bonnet. O pai de Charles Bonnet, portanto avô paterno de Nicole, também tinha o dom. Muitas décadas antes da época da ação, havia feito – com a mulher como modelo – uma escultura perfeita, que atribuiu a Cellini, escultor da renascença italiana.

A Vênus de Cellini (na verdade a vovó esculpida pelo vovô de Nicole) é a peça mais valiosa da coleção Bonnet. Logo após o leilão em que o Cézanne foi vendido a peso de ouro, o diretor de um dos mais importantes museus de Paris vai à mansão dos Bonnet, acompanhado de forte escolta policial, para retirar a pequena escultura, que será exibida pela primeira vez no museu.

Para evitar que a peça de inestimável valor seja roubada, o museu preparou tudo o que havia da mais avançada tecnologia antifurto. O local em que fica a Vênus é cercado por pequenas luzes, um circuito de raios infra-vermelhos; qualquer objeto que penetre no cone formado pelas luzes azuis aciona imediatamente um poderosíssimo alarme.

Logo após a abertura da exposição, um bilionário americano (interpretado por Eli Wallach) mostra-se impressionadíssimo com a Vênus de Cellini. Dá ordens a seu staff para que reúna todas as informações possíveis e impossíveis sobre Charles Bonnet, a coleção Bonnet.

Tudo esplêndio, esperto, inteligente, bem sacado, bem realizado

Tarde da noite, Nicole está deitada em sua cama, lendo um exemplar da Hitchcock Magazine – La Revue du Suspense. Na capa da revista, que o espectador vê claramente, está lá uma foto do gorducho, um dos maiores marqueteiros de si mesmo que já passaram pelo mundo do cinema. Os mais jovens podem não saber disso, mas havia, sim, a Hitchcock Magazine; se não me engano, vários números chegaram a ser editados também no Brasil, naqueles anos 60; eram pequenas histórias de crime e mistério, reunidas na revista que tinha a grife do mestre.

E então Nicole está lá na sua cama lendo as histórias de crime e mistério que levavam a chancela do inglês maroto e doido, quando ela ouve um ruído. Depois outro. Desce para a sala de estar para verificar o que está acontecendo; no caminho da sala, na grande escadaria, pega uma velhíssima arma que enfeitava a parede.

Um sujeito vestido em black-tie – na pele magra e jovem de Peter O’Toole, o grande ator inglês tornado astro mundial com Lawrence da Arábia, feito quatro anos – está examinando o mais recente Van Gogh da coleção Bonnet.

Toda a situação, o primeiro diálogo entre Nicole Bonnet e Simon Dermot, o personagem de Peter O’Toole – é tudo absolutamente esplêndido, inteligente, esperto, elegante, bem sacado, bem realizado.

Estamos aí com uns 15, no máximo 20 minutos de filme. O que virá a seguir é delícia pura. Diálogos maravilhosos, situações divertidas, engraçadas, bem boladas. Delícia pura.

Nada de abordagem realista, clima pesado – é um divertissement

A coisa do roubo de objeto precioso, preciosíssimo, com ênfase no bom humor, na inteligência, e não na correria, nos tiros, na violência – essas características põem Como Roubar um Milhão… na companhia de outros belos filmes, como Topkapi, de Jules Dassin (1964), Ladrão Que Rouba Ladrão/$, de Richard Brooks (1971), até o mais recente Armadilha/Entrapment, de Jon Amiel (1999).

Nada a ver com os filmes sobre assaltos com clima pesado, denso, duro, com abordagem realista, como O Segredo das Jóias/The Asphalt Jungle, de John Huston (1950), Rififi, também de Jules Dassin (1955), O Grande Golpe/The Killing, de Stanley Kubrick (1956), Os Sicilianos/Le Clan de Siciliens, de Henri Verneuil (1968), O Círculo Vermelho, de Jean-Pierre Melville (1970).

Não, nada disso. William Wyler, já veterano em 1966, um diretor que passou por todos os gêneros do cinema, aqui queria fazer uma comédia, um divertissement. Com clima de thriller, de aventura, sim, mas, no fundo, uma divertida comédia romântica.

Nesse sentido, Como Roubar um Milhão… faz lembrar dois outros filmes deliciosos da mesma época: Charada, de 1963, com Cary Grant e Audrey Hepburn, e Arabesque, de 1966, com Gregory Peck e Sophia Loren, ambos dirigidos por Stanley Donen – mas, embora dirigidos por um americano e com atores americanos, passados na Europa, com atrizes européias.

Metade dos filmes de Audrey se passa na Europa

E aí fico pensando na imensa quantidade de filmes que Audrey Hepburn fez passados na Europa. A lista é grande, desde seu primeiro filme como protagonista, que a lançou ao estrelato, A Princesa e o Plebeu/Roman Holiday (1951), também de William Wyler, passado, como mostra o título original, na capital italiana.

Logo depois veio Sabrina, de Billy Wilder (1954), em que parte da ação se passa em Paris. Guerra e Paz, de King Vidor (1956) evidentemente se passa na Rússia. Cinderela em Paris/Funny Face, de Stanley Donen (1957), assim como Sabrina, se divide entre Nova York e Paris. Amor na Tarde, de novo de Billy Wilder (1957), é Paris o tempo todo, assim como Charada, Quando Paris Alucina/Paris – When it Sizzles (1964) e este Como Roubar um Milhão de Dólares, de 1966.

Um Caminho para Dois/Two for the Road, de novo de Stanley Donen (1967) se passa no interior da França. E Robin e Marian, de Richard Lester (1976) acontece na Inglaterra logo após as Cruzadas.

Pelo menos metade dos filmes de Audrey Hepburn se passa na Europa. Até parece que os americanos admitiam que aquela elegância toda dela não podia mesmo ser made in USA.

Assim como em diversos outros de seus filmes, em Como Roubar um Milhão… Audrey veste Givenchy. As jóias são Cartier. O que leva o personagem de Peter O’Toole dizer a ela, quando lhe oferece roupa de faxineira para o momento do roubo: – “Assim você dá um dia de descanso a Givenchy”.

Por que raios a humanidade dá tanto valor a alguns objetos, coisas?

Givenchy, Cartier. Ou Tiffany’s, de Bonequinha de Luxo/Breakfast at Tiffany’s, de Blake Edwards (1961). As grifes. O valor inestimável de um original, embora ele seja igualzinho a uma falsificação – ou uma reprodução.

Por que, raios, a humanidade dá tanto valor a alguns objetos? Qual o sentido de um diamante valer tamanha fortuna, se a aparência pode ser idêntica à de uma bijuteria?

Posso ser um tolo, um bobão irreparável, mas essas questões aí são para mim um mistério insolúvel, um mistério metafísico. Não consigo conceber o sentido disso, esse apego das pessoas às grifes, às assinaturas, ao original que é idêntico à reprodução. Ao objeto, à coisa, em suma.

Na essência, para mim, uma reprodução de um Picasso é exatamente a mesma coisa que um original.

Orson Welles discutiu a sério essas questões em um de seus filmes menos falados, mais obscuros, Verdades e Mentiras/Vérités et Mensonges, também conhecido como F for Fake, de 1973. Nunca mais revi o filme, mas na época do lançamento gostei demais, porque ele trata exatamente dessas questões que me fascinam.

Orson Welles é gênio, diz o senso comum, e William Wyler é apenas um grande diretor. Wyler não quis se aprofundar nessas questões sérias – mas elas estão presentes, sim, em seu filme, para quem quiser ver.

Charles Bonnet, grande gozador, pensa de forma semelhante a mim, acho eu. Se parece Van Gogh, ou Cézanne, se é igualzinho ao Van Gogh original, ao Cézanne original, então qual é o problema? Uma boa reprodução, com o devido crédito, para mim tem o mesmo valor do original.

Bobo é quem, como o milionário americano interpretado por Eli Wallach, se dispõe a pagar uma fortuna só pelo prazer de possuir o original. É o que parece achar Charles Bonnet e o velho e bom Wyler. É exatamente o que eu penso.

Como Roubar um Milhão de Dólares/How to Steal a Million

De William Wyler, EUA, 1966

Com Audrey Hepburn (Nicole Bonnet), Peter O’Toole (Simon Dermott), Hugh Griffith (Charles Bonnet), Eli Wallach (Davis Leland), Charles Boyer (DeSolnay), Fernand Gravey (Grammont), Marcel Dalio (Paravideo), Jacques Marin (o chefe dos guardas), Moustache (guarda)

Roteiro Harry Kurnitz

Baseado em história de George Bradshaw

Fotografia Charles Lang

Música John Williams

Produção World Wide Productions, 20th Century Fox. DVD Fox

Cor, 123 min

R, ***1/2

3 Trackbacks

  1. […] vem na beleza única, exclusiva de Audrey Hepburn, também no auge da fama e do reconhecimento geral, três anos depois de My Fair Lady. Tinha 38 […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Tenha Fé/Keeping the Faith em 24 abril 2013 às 4:42 pm

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