César e Rosalie / César et Rosalie

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Por algum motivo, ou sem motivo algum, perdi César e Rosalie na época do lançamento – o filme é de 1972. Muitos filmes devem ser vistos na sua época, para serem bem compreendidos. Não é o caso: em quase 40 anos, César e Rosalie não envelheceu nada. E eu sugiro ao eventual leitor que não perca tempo, como eu perdi; que veja ou reveja o filme. É uma maravilha, uma preciosidade.

Em 1974, Claude Sautet faria Vincent, François, Paul et les Autres. Fiquei pensando que seu filme anterior, este aqui, poderia se chamar César, Rosalie et David, ou talvez César, Rosalie, David et les Autres. Seriam títulos perfeitamente apropriados.

Os primeiros personagens que vemos na tela não são César e Rosalie, e sim David (Sami Frey) e Antoine (Umberto Orsini). David visita Antoine, leva para ele uma caixa de material para pintura, importada, do Japão – Antoine é pintor, recebe David no pedaço de sua casa que usa como ateliê, coalhado de quadros. David está voltando à França após cinco anos fora, nos Estados Unidos. Antoine comenta que a mãe de Rosalie vai se casar de novo, pela terceira vez, e David diz que está sabendo, recebeu convite. E Antoine, vai ao casamento? Não, ele não pensa em ir.

– “E Rosalie? – David finalmente pergunta. – “Você tem visto Rosalie?”

(A esta altura, o espectador já terá visto numa das paredes coalhadas de pinturas, desenhos, esboços, um retrato de Rosalie-Romy Schneider.)

E Antoine diz que sim, que a vê – afinal, têm uma filha, Catherine, de quatro anos. “Nós não nos odiamos. Apenas não houve amor”, acrescenta.

E David faz a outra pergunta que queria fazer, que estava parada na sua garganta: Rosalie se casou de novo?

Não, casar ela não casou, mas vive com um homem, um empresário, dono de uma empresa que vende e compra carros, vagões de trem, locomotivas – e, enquanto Antoine conta isso, vemos um grande pátio cheio de carros, e em seguida vemos César (o papel de Yves Montand) ali no meio do pátio, conversando com outros comerciantes de ferro-velho, sucata, dando ordens, falando alto, gesticulando, à vontade, um homem seguro de si, rico, bem sucedido na vida, expansivo, feliz.

Em menos de dez minutos, o espectador já conhece bem César

É impressionante, fascinante, é de babar como o diretor Claude Sautet, ele mesmo um dos autores do argumento e do roteiro, ao lado de Jean-Loup Dabadie e Claude Néron, e mais esse ator gigantesco, monstruoso, que é Yves Montand compõem esse personagem, e o expõem para o espectador em poucos minutos de filme. Ainda não se passaram dez minutos, e o espectador já conhece César, já sabe como ele é.

César faz negócios, dá ordens para os irmãos que administram sua empresa junto com ele, fala com Rosalie ao telefone, vai para casa, encontra-se com ela, dirige os movimentos das pessoas que vão para o casamento da mãe dela. É o regente da orquestra, é o general da banda – um homem impetuoso, irresistivelmente simpático, charmoso, completamente à vontade com seus papéis de dono do pedaço.

Durante a cerimônia de casamento da mãe, Rosalie revê David pela primeira vez após cinco anos.

Estamos com exatos 15 minutos de filme quando, na festa do casamento, César e David se falam pela primeira vez. David é direto, honesto, sem rodeios: “Eu amo Rosalie”, ele diz para o homem que está vivendo com Rosalie.

A sequência toda é magistral. Lá pelas tantas, no meio da festa, pouco antes da revelação de David, César, charuto em uma das mãos, copinho de bebida forte na outra, reúne-se com alguns amigos e solfeja, num andamento muito mais rápido que o original, um movimento de um dos Concertos de Brandenburgo de Bach. Numa mesa próxima, David o observa, sorridente. Rosalie se aproxima, senta-se perto dele. David pergunta se César conhece muito a música erudita, Rosalie diz que não, só aquela, que ele aprendeu para ela.

A tela faísca de beleza, a tela treme diante da beleza de Romy Schneider

São dois belos atores, nos dois sentidos, de competentes e de belos, Sami Frey e Romy Schneider – mas Romy Schneider… Quando Rosalie sorri (e naquele momento ela está sorrindo), a tela faísca de beleza sublime, absurda, acachapante. A tela treme diante de tanta beleza.

Há muitas atrizes competentes e belas, e sou bastante chegado a um superlativo, mas nenhum superlativo é o bastante para Romy Schneider. Poucos meses atrás, a vi nos trechos de O Inferno que Henri-Georges Clouzot chegou a filmar em 1962, e ela está belíssima, mas acho que nunca esteve tão bela quanto como Rosalie, em 1972, aos 34 anos de idade.

Talvez o superlativo mais próximo da verdade seja dizer que Ingrid Bergman sorrindo como Ilsa Lund e Romy Schneider sorrindo como Rosalie são os mais belos rostos que uma câmara jamais filmou.

E então, sorrindo, Rosalie pergunta a David: – “Você se casou? Tem mulher, filhos?”

David: – “Não. Não tenho nada. Só meu trabalho.” (David é autor de desenhos de histórias em quadrinhos.)

Rosalie: – “Eu sei. Você é bastante conhecido.”

David: – “Você me conhece?”

Rosalie: – “Não mais.”

David vê Catherine, a filha dela, brincando ali perto, e faz um elogio à garota. Chega Marite, a irmã mais jovem de Rosalie, pergunta se ela pode dar uma carona para uma tia. Antes de sair para pegar o carro, Rosalie diz para David:

– “Não me olhe assim.”

Terminada a sessão do Concerto de Brandenburgo, César aproxima-se de David. Solfejava, alegre, feliz, dono do pedaço, general da banda, mas reparara que Rosalie estivera falando com aquele rapaz, e então chega-se para ele, pergunta se ele é primo de alguém. César está sem paletó, gravata um pouco afrouxada, muito à vontade, charuto e copo nas mãos; David está ali elegante, belo paletó, bela gravata, bela estampa – e bem mais jovem que o outro.

– “Vou dizer a verdade, César. Eu amo Rosalie.”

César tenta esconder a surpresa: – “É normal… Todo mundo a ama!”

Alguns segundos de silêncio. A câmara de Sautet se alterna entre plano americano dos dois homens e quase um close-up dos dois rostos, lado a lado.

E César: – “Mas… Você fala sério.”

David: – “Sim.”

César: – “Faz muito tempo?”

David: – “Desde sempre.”

César: – “Sempre? Como assim, sempre?”

David: – “Antes de você. Antes de Antoine.”

Um homem absolutamente seguro de si – e sua segurança vai embora pelo ralo

Sami Frey, repito, é um bom ator, mas Yves Montand é um gigante, um monstro. Só por sua interpretação nestes 15, 17 minutos iniciais de César e Rosalie, ele já mereceria toda a reverência que um grande ator deve ter na vida.

É impressionante.

Yves Montad, ator, cantor, one man show, figura pública, homem politico, foi sem dúvida uma das maiores personalidades da cultura européia do século XX, como Jorge Semprun bem descreveu em seu belo livro Yves Montand: A Vida Continua. Mas, talvez exatamente pelo seu lado político, ele tenha ficado, como ator, mais marcado pelos filmes políticos – Z, A Confissão, Estado de Sítio.

Sua interpretação de César, aquele homem absolutamente seguro de si cuja segurança vai embora pelo ralo quando a mulher que ele ama demais reencontra o velho amor de sua vida, é admirável, sublime. De aplaudir de pé como na ópera.

E é interessante vê-lo como essa muralha de segurança que se despedaça, quando lembramos que ele interpretou tão bem, tão à vontade, homens que, ao contrário, traíam com a maior tranquilidade do mundo suas mulheres – como em Viver por Viver, de Claude Lelouch, ou Mais uma Vez, Adeus/Aimez-Vous Brahms?, de Anatole Litvak. No filme de Lelouch, seu personagem traía a interpretada por Annie Girardot; no outro, traía o personagem feito por Ingrid Bergman.

Um diretor que trabalhava sempre com o mesmo grupo de atores

Claude Sautet é daquele tipo de diretor que gosta de trabalhar com o mesmo grupo de atores. Acabam ficando todos amigos, e trabalhando mais à vontade. E Sautet teve o privilégio de trabalhar com os melhores atores franceses de várias décadas, a partir dos anos 60 – e vice-versa, é claro: vários dos melhores atores franceses dessas décadas todas tiveram o privilégio de serem dirigidos por Sautet.

Montand está também em Vincent, François, Paul et les Autres, e em Garçon! Romy Schneider foi dirigida por Sautet em As Coisas da Vida, Sublime Renúncia/Max et les Ferraileurs, neste César e Rosalie, Mado, um Amor Impossível, Uma História Simples. Em todos esses filmes com Romy Schneider está também Michel Piccoli – em César e Rosalie Piccoli não aparece em cena; faz o narrador que encerra a história.

A personagem Marite, a irmã de Rosalie, não aparece muito tempo na tela. É interpretada por uma garotinha bem jovem, se iniciando na profissão, que estava então com 19 anos mas parecia ter ainda menos. Levaria ainda cinco para fazer seu primeiro papel importante, impactante, em Um Amor Tão Frágio/La Dentellière. É Isabelle Huppert.

Philippe Sarde, o autor da música dos filmes de Sautet

Assim como Fellini teve Nino Rotta e Sergio Leone teve Ennio Morricone, Claude Sautet teve Philippe Sarde. Ao longo de 30 anos, Sarde foi o autor das trilhas sonoras de 11 filmes do diretor. A colaboração começou em As Coisas da Vida: “Eu conheci Claude Sautet em 1969. Ele tinha 44 anos, e eu 20. Ele procurava um compositor para Les Choses de la Vie. Contrariando a vontade dos produtores, ele teve a coragem de impor meu nome. Desde aquele momento, ele foi mais que meu primeiro diretor: um pai do cinema, uma espécie de sherpa (os guias que conduzem as pessoas pelo Himalaia). Foi ele que me formou”, testemunhou o compositor para a edição – preciosa – do CD Le Cinéma de Claude Sautet – Musiques de Philippe Sarde, que a Universal lançou em 2000.

Sarde trabalharia também para outros diretores importantes: Roman Polanski (Tess, O Inquilino, Piratas), Costa-Gavras (Muito Mais que um Crime), Marco Ferreri (Ciao Maschio, Crônica de um Amor Louco), Bertrand Blier (Beau-Père), Jean-Jacques Annaud (A Guerra do Fogo), entre muitos outros.

Mas a marca de sua música foi dada nos filmes de Sautet.

Para César e Rosalie, compôs alguns temas alegres, quase jocosos, para acompanhar o lado charmoso, bon-vivant de César – que se misturam com um tom triste, pesado, numa suíte. Para esse lado alegre, Sautet usou sintetizadores, algo que estava na moda, na época, na música popular, mas ainda não era muito usual nas trilhas sonoras. “Para César e Rosalie”, conta o compositor, “as sessões de gravação eram terrivelmente complicadas, por causa da mistura entre o moog, o sintetizador da época, e os instrumentos acústicos. Eu gravava canal por canal, seção por seção. Claude quase explodiu: ‘Me diga, Philippe, você está na sua vigésima re-regravação e eu ainda não consegui perceber o te-ma prin-ci-pal!’”

Apenas um prêmio para um filmaço

Segundo vejo no IMDb, César e Rosalie só ganhou um prêmio: o David de Donatello, o Oscar italiano, de melhor ator estrangeiro para Yves Montand. Intessante: embora absolutamente francês, Montand é italiano de nascimento.

E é também interessante que este filmaço, essa maravilha, tenha tido um único prêmio, enquanto vemos aí tantos filmes que serão esquecidos sob a poeira do tempo ganhando dez, 15 prêmios em festivais mundo afora.

“Um preciso testemunho sociológico sobre os anos 1970”

Antes de ir atrás de outras opiniões para encerrar esta anotação, é preciso registrar: é claro que César e Rosalie faz lembrar Jules et Jim, o filme de François Truffaut que ilustra o alto do meu site e sobre o qual ainda não tive coragem de anotar uma linha sequer. Existem só duas ou três histórias na vida, e uma delas é a do triângulo amoroso, mas cada uma tem infinitas variações. A história de César, Rosalie e David é tão encantadora – e bela, emocionante, e triste – quanto a de Jules, Jim e Catherine.

E então vamos lá.

Ainda bem que anotei o parágrafo acima antes de começar o passeio pelos alfarrábios.

“Com um tema que evoca Jules et Jim, Sautet conseguiu fazer um belo filme sobre o amor, sobre a liberdade, sobre a dificuldade da escolha; um filme ancorado numa realidade moderna muito concreta que dá uma grande presença a personagens magnificamente interpretado por um soberbo trio de atores”, diz o Guide des Films do mestre Jean Tulard. “Uma obra precisa, forter, engraçada e emocionante, que foi um grande sucesso e que permanece hoje como um precioso testemunho sociológico sobre os anos 1970.”

Hum… Perfeito – desde que não se entenda com isso que o filme envelheceu. O pano de fundo, sem dúvida, são os anos 1970, a moral é a dos anos 1970 – mas o filme é universal e atemporal nos seus temas fundamentais, muito bem descritos no guia francês, o amor, a liberdade, a dificuldade da escolha.

“Uma ode caprichosa, tortuosa, à natureza imperfeita e a aleatória do amor”

Vamos ao que diz Dame Pauline Kael, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema. Vou cortar fora o que me parecer spoiler, que a grande crítica costuma soltar em seus textos. “Yves Montand num desempenho jovial e paródico como César, um magnata do ferro–velho – um self-made man superconfiante que adora ser o número um no trabalho e na diversão. Ele ama Rosalie (Romy Schneider), e não há obstáculos à felicidade dos dois; eles têm tudo – mas aí, de forma quase inexplicável, tudo se apavora, diante de nossos olhos. Um velho amor de Rosalie – um famoso desenhista de histórias em quadrinhos (o pálido e elegantemente triste Sami Frey) – aparece, e quando ela torna a vê-lo, mudam os seus sentimentos em relação a César. Ninguém é culpado – é só azar; como se César fosse traído por um raio de lua. Sempre que achamos que o filme vai se estabilizar em fórmulas, ele escapole. É uma ode caprichosa, tortuosa, à natureza imperfeita e a aleatória do amor romântico. O que o mantém é que nunca encara com muita seriedade suas três personagens; a frivolidade essencial do filme torna aceitável seu tom melancólico; podemos rir dos sofrimentos das personagens centradas em si mesmas. Dirigido por Claude Sautet, parece uma chanson.”

Quase sempre, quando vejo os textos de Pauline Kael, me dá preguiça de fazer minhas mal traçadas. “Pálido e elegantemente triste” é a descrição perfeita para a forma como Sami Frey compõe seu David. E “uma ode caprichosa, tortuosa, à natureza imperfeita e a aleatória do amor romântico” é uma absoluta maravilha de definição.

E aí não há mais o que dizer, a não ser repetir o conselho, que, como é de graça, vale muito pouco, ou quase nada: as pessoas que gostam de cinema deveriam ver ou rever César e Rosalie.

César e Rosalie/César et Rosalie

De Claude Sautet, França-Itália-Alemanha Ocidental, 1972

Com Yves Montand (César), Romy Schneider (Rosalie), Sami Frey (David), Bernard Le Coq (Michel), Eva Maria Meineke (Lucie Artigues), Henri-Jacques Huet (Marcel), Isabelle Huppert (Marite), Gisela Hahn (Carla), Betty Beckers (Madeleine), Hervé Sand (Georges), Umberto Orsini (Antoine). Michel Piccoli (voz, narrador)

Argumento e roteiro Jean-Loup Dabadie, Claude Néron e Claude Sautet

Fotografia Jean Boffety

Música Philippe Sarde

Produção Fildebroc, Mega Film, Paramount-Orion Filmproduktion. DVD Lume Filmes.

Cor, 107 min

***1/2

7 respostas para “César e Rosalie / César et Rosalie”

  1. Partilho com você esse amor desmedido pelo Montand e pela Schneider. E também por este admirável filme, que faz tempo não revejo. Tenho de acabar com a saudade que ele me deixou.

  2. Caro César,

    Ontem à noite consegui ver este filme, o qual me causou sensações opostas. Por um lado, temos o desempenho absolutamente sublime de Montand. Como é possível alguém ter aquele à-vontade diante da câmara. Creio que, em alguns momentos, Montand se interpreta e re-interpreta a si mesmo. O meu respeito por ele é enorme.
    Mas, por outro lado, está uma perturbadora Scheneider. Perturbadora pela beleza intrínseca, mas igualmente por ter um comportamento que acho ser demasiado errático. Posso mesmo comentar que achei perturbadora a sua dualidade, porque ambos homens da sua vida são diametralmente opostos.
    Por fim, a abordagem de Sautet é divinal, com os planos ideais, maior que a própria vida que recria no filme. E deixo uma pergunta, como Lelouch filmaria esta triangulação amorosa?

    Um abraço

  3. Isto é o que eu chamo de CINEMA DE QUALIDADE.
    “A verdadeira sétima arte”. UM FILMAÇO, impossível de se esquecer. Fazia muito tempo que não vía um filme com essa atriz lindíssi-ma que foi Romy Scheneider e esse fabuloso ator que foi Yves Montand. Ele era o que chamavam de “feio-bonito”, assim como Jean Paul Belmondo (ainda vivo) que faziam muito sucesso com as mulheres por causa da “feiúra
    máscula”.Torci para que o filme não acabasse.
    Aquela cena do jogo de pôquer, meu Deus, como havia fumaça naquela sala e, já não tinha mais ninguém fumando,vinha só dos cinzeiros. Gostei tbm do Sami Frey, não o conhecia. E, (nada ver) achei o ator que fez o noivo, parecido com o Mastroiane.
    Vi “on-line” e,vou ver outras vezes,é certo.
    BELEZA DE FILME.

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