Bravura Indômita / True Grit

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Bravura Indômita/True Grit – o original, feito por Henry Hathaway em 1969 – é um filme interessantíssimo, fascinante, por um bom número de razões. Ver John Wayne interpretando um herói que tem uma grande quantidade de defeitos, que às vezes até parece um bandido, é só uma delas.

Outra: o verdadeiro herói deste western que já virou um clássico – tanto que foi refilmado em 2010 pelos irmãos Coen, com o grande Jeff Bridges fazendo o papel que no original foi do Duke – é uma garotinha de 15 anos. Não consigo me lembrar de outro western é que o herói é uma menina adolescente.

Também não tenho conhecimento de outro filme em que alguém manda um personagem interpretado por John Wayne calar a boca. Pois a garotinha Mattie (Kim Darby, na foto abaixo) manda o delegado federal Rooster Cogburn (este é o nome do personagem do Duke) calar a boca não uma vez, mas várias – e algumas vezes ele até obedece!

Mais uma característica que torna o filme fascinante: poucas vezes se vê num western tanta importância dada a detalhes, digamos, caseiros: a necessidade de lavar as mãos, as diversas referências ao tipo de comida que se come – biscoitos, bolinhos de milho, o preparo de alimentos, como o tirar as penas de um peru. O western é, por excelecência, uma coisa de machos, e, portanto, esse tipo de assunto nunca, ou no mínimo quase nunca, é tratado. Mas eles aparecem em Bravura Indômita – talvez porque o roteiro do filme seja obra de uma mulher, Marguerite Roberts, uma autora de imenso talento.

Uma bela reunião de gente talentosa

Gente de imenso talento era o que não faltava, na produção de Bravura Indômita. O diretor de fotografia é o grande Lucien Ballard (1904-1988), requisitado por cineastas de peso, Jacques Tourneur (Expresso para Berlim/Berlin Express), Stanley Kubrick (O Grande Golpe), Sam Peckinpah (Meu Ódio Será Tua Herança, Os Implacáveis).

Este aqui é um dos westerns de visual mais absolutamente esplendoroso que me lembro de ter visto. É um luxo só. As paisagens – o filme foi todo rodado no Colorado, junto das Montanhas Rochosas – são belíssimas, impressionantes, e, nas lentes de um mestre, com gigantescos planos gerais, tornam-se literalmente de tirar o fôlego.

Roteirista de primeira, diretor de fotografia de primeira – e compositor de primeira. O autor da trilha sonora é o mestre Elmer Bernstein (1922-2004), um Oscar, dez outras indicações ao prêmio da Academia, 70 trilhas sonoras no currículo, inclusive a de Sete Homens e um Destino/The Magnificent Seven, a música que foi adotada como trilha sonora da campanha publicitária do Marlboro, o Marlboro Man, talvez o tema mais clássico, mais definitivo da história do western.

O estilo Elmer Bernstein de músicas para westerns está presente ao longo dos 128 minutos de duração de Bravura Indômita.

Gigantescos, imensos planos gerais de uma paisagem belíssima, soberbas montanhas ao fundo, ao som da trilha de Elmer Bernstein, e, lá no meio da tela, pequeninos como formigas diante do cenário esplendoroso, cavaleiros à procura de justiça – algum fã de western pode sonhar em querer algo mais?

Mais uma característica interessante do filme: em papéis pequenos, aparecem Robert Duvall e Dennis Hopper. O papel de Hopper é mínimo, mal dá para perceber que é ele – e o filme é de 1969, o mesmo ano de Sem Destino/Easy Rider, um marco fundamental do cinema independente americano, e da contracultura que se espalhava pelos Estados Unidos e pelo mundo. O papel de Duvall é um pouco maior – ele faz um bandido sinistro. Cinco anos mais tarde, ele brilharia no primeiro tomo da trilogia O Poderoso Chefão como o conseglieri de Don Vito Corleone. (Depois ele ficou bobo: pediu dinheiro demais para aparecer no terceiro filme, e dançou, perdeu a oportunidade de participar do conjunto daquela obra-prima. Babaca. Deve ter se arrependido muito.)

Nem contei quantas razões já enumerei para tentar demonstrar que este é um filme fascinante, mas aqui vai mais uma: foi por sua interpretação como o delegado federal Rooster Cogburn que John Wayne recebeu seu único Oscar de melhor ator.

E é absolutamente impressionante pensar que, ao filmar Bravura Indômita, o Duke estava com 61 anos, lutando contra o câncer que já o fizera perder um pulmão inteiro e mais uma parte do outro.

O empregado do fazendeiro mata o patrão e foge com o dinheiro

John Wayne demora exatos 13 minutos para aparecer na tela. (Sei disso com tamanha precisão por um motivo trivial: revi agora o filme em Blu-ray, e com o Blu-ray pode-se saber exatamente, a cada cena, quantos minutos já foram decorridos e quantos faltam até o fim. Não estou fazendo comercial, mas posso dizer que os majestosos cenários e a esplêndida fotografia de Lucien Ballard ficam ainda mais belos em Blu-ray.)

Nos primeiros 13 minutos, vemos a história da garotinha Mattie, que, afinal de contas, é a grande heroína do filme. Mattie é a mais velha dos três filhos de um casal de fazendeiros trabalhadores e prósperos. Quando a ação começa, o pai de Mattie, Frank Ross (John Pickard) está de partida para o Texas, onde pretende comprar o maior número de cavalos que conseguir. Junto com ele viajará seu empregado Tom Chaney (Jeff Corey). Apesar de tão jovem, Mattie é a “contadora”, a book-keeper da fazenda; é ela que faz a contabilidade, que guarda o dinheiro. Entrega ao pai, para a longa viagem dele, a fortuna de US$ 150,00 (uma diária de pensão, na época, conforme se verá em seguida, custava US$ 0,25), mais algumas moedas de ouro.

Enquanto Frank Ross vai embora com seu empregado Tom Chaney, Mattie comenta com a mãe que não gosta, nunca gostou de Tom, um sujeito sem-vergonha que seu pai acolheu quando estava passando fome.

Corta, e Frank e Tom estão em um saloon de uma cidade no meio do caminho. Tom, o empregado, está bêbado, perdendo no jogo, e quer brigar com os outros homens da mesa, a quem acusa de ladrões. Frank o tira de lá, antes que ele faça uma besteira maior. Na rua, discutem: Tom quer voltar ao bar e brigar, Frank diz que ele está bêbado e seria besteira voltar lá. No meio da discussão, Tom atira em Frank, pega a fortuna que o fazendeiro levava para comprar cavalos, e foge.

Corta, e a jovem Mattie está chegando àquela cidadezinha, com outro dos empregados da fazenda, para cuidar do enterro de seu pai. Para cuidar do enterro e, sobretudo, para contratar alguém que possa prender o assassino e levá-lo a julgamento, que seguramente terminaria com o assassino pendurado em uma forca.

Mattie faz uma rápida pesquisa. Dizem a ela que Rooster Cogburn é um sujeito de true grit, o título original do filme – que, a rigor, significa verdadeira bravura, ou exatamente o que diz o título brasileiro, bravura indômita.

É aí que, aos exatos 13 minutos de filme, aparece na tela Rooster Cogburn, delegado federal. Mattie irá atrás dele, tentará contratá-lo para prender e levar à forca o assassino de seu pai.

A personalidade de Rooster Cogburn é absolutamente fascinante

Num dos extras que acompanham o filme no Blu-ray, alguém sintetiza uma verdade fantástica: John Wayne tornou-se tão conhecido, na grande mitologia do Velho Oeste, quanto Billy The Kid, ou Jesse James.

É uma síntese maravilhosa, impressionante.

O western teve grandes atores, desde sempre. Tom Mix, Buck Jones, William Boyd, Roy Rogers, para lembrar de alguns da primeira metade da história do cinema, e depois Gary Cooper, James Stewart, Audie Murphy, William Holden, e muito depois o então jovem Clint Eastwood. Ms nunca houve ninguém que personificasse tão perfeitamente o herói do Velho Oeste quanto John Wayne.

John Wayne, mais até que Gary Cooper, é um mito americano tão gigantesco quanto Billy The Kid ou Jesse James.

Na maior parte de seus westerns, John Wayne interpretou heróis que eram quase super-heróis. Quase sempre esteve do lado da lei – fosse como oficial da Cavalaria, como em Legião Invencível/She Wore a Yellow Ribbon, de John Ford, fosse como xerife lutando com poucos amigos contra bandos poderosos, como em Onde Começa o Inferno/Rio Bravo e El Dorado, de Howard Hawks, fosse ainda como um fazendeiro temido pelos bandidos, como em O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford. Mesmo nas raras ocasiões em que interpreta um bandido, é um bandido diferente: em O Céu Mandou Alguém/3 Godfathers, outro filme de John Ford, ele é um ladrão de bancos, mas, como diria Brecht, o que é um asssalto a banco, comparado com a fundação de um banco? – e, além de tudo, é ladrão, sim, mas com o coração gigantesco, um herói autêntico.

A mais fascinante das muitas características fascinantes deste Bravura Indômita, me parece, é o caráter, a personalidade de Rooster Cogburn.

Ele é um delegado federal – mas é ao mesmo tempo um pistoleiro, um assassino. Matou 23 homens, nos quatro anos em que trabalhou como agente da lei. É pago, com o suado dinheiro dos contribuintes, para localizar e prender os acusados e levá-los às barras dos tribunais – mas, por 23 vezes, executou a tiros os que nem chegaram a ser réus diante de um juiz. De uma certa maneira, Rooster Cogburn é um tipo de justiceiro tão fascista quanto o Dirty Harry que Clint Eastwood interpretaria nos anos 70.

E aqui poderia se abrir uma imensa, interminável discussão a respeito da Justiça, da Lei, da Ordem, e dos meios para obtê-las. O filme traz à tona a necessidade dessa discussão, e este é mais uma de suas qualidades. Mas eu não vou entrar nela, em parte porque ela é de fato interminável.

O maravilhoso é que Rooster Cogburn, o delegado que tem true grit, a quem a garotinha Mattie recorre em procura de justiça para o assassinato de seu pai, é um assassino, um bêbado, um sujeito nada ético. Seus olhos brilham à menção de um pouco de dinheirinha – e brilham mais ainda à menção de uma quantidade maior de dinheirinha. Pior: ao contrário dos heróis de qualquer tipo de filme, ele tem momentos de hesitação. Ah, e é machista até a medula, quase misógino.

O herói é um ser humano cheio de defeitos. Meu Deus do céu e também da terra, não são muitos os westerns que mostram heróis que são seres humanos cheios de defeito.

Mostrar um herói que tem defeitos como os seres humanos – só isso, só essa coragem fantástica – já faria de Bravura Indômita um grande filme.

Uma seqüência magistral: o velho herói de um olho só contra quatro bandidos

Não dá para saber, é claro, de quem foi a idéia – se da roteirista Marguerite Roberts, se do fotógrafo Lucien Ballard, se do próprio Henry Hathaway, diretor prolixo e eclético, já então veterano –, mas a sequência em que o velho e gordo e de tapa-olhos Rooster Cogburn enfrenta quatro bandidos é absolutamente memorável, antológica. Há um plano geral feito do alto – o enfrentamento se dá numa clareira, no meio de uma floresta. Como fizeram aquele plano geral visto tão do alto? Não há grua capaz de levar uma câmara para uma altura tão grande. Teriam usado um helicóptero? Sei lá.

E aí começa o enfrentamento, o duelo – embora a palavra seja inadequada, porque duo indica dois, e no caso temos um contra quatro. E o veteraníssimo Henry Hathaway usa câmara de mão para fazer as vezes dos olhos, ou melhor, do olho de Rooster Cogburn – e aí dá vontade de aplaudir em cena aberta, como na ópera.

Há algumas coisas que são tão óbvias que é até cansativo falar sobre elas. A forma tem que seguir o conteúdo. O conteúdo vem primeiro, o conteúdo é o mais importante; a forma é secundária. Algumas tomadas feitas em câmara de mão, se expressam algo importante, podem ser brilhantes. Se se abusa da câmara de mão, sem necessidade, sem que isso realce algo que está sendo dito, que faz parte da história, então é só bobagem, é coisa de diretor novo querendo impressionar júri de festival ou platéia da Mostra de Cinema.

Henry Hathaway, velhinho, usa câmara de mão no momento certo, exato. Os dinamarqueses do Dogma, os jovens que querem dizem que são brilhantes e independentes, como John Cassavetes em Faces, usam câmara de mão para chamar a atenção para seu próprio umbigo, para dar dor de cabeça no coitado do espectador.

Epa. Acho que tergiversei.

Mas o fato é que, revendo agora, em 2011, a extraordinária sequência do enfrentamento de Rooster Cogburn com os quatro bandidos, uma seqüência que mistura planos gerais com a câmara no céu com alguns planos feitos com câmara de mão para mostrar como o caolho herói-anti-herói via as coisas, não pude deixar de me lembrar das cenas de batalha que Stanley Kubrick criou em Spartacus, seguramente algumas das cenas mais impressionantes, mais memoráveis, mais brilhantes que já foram feitas, neste cento e tantos anos de cinema.

Um ou outro probleminha de falta de lógica. Tudo pequeno, pêlo em ovo

E então é isso. Diante de tanta coisa boa, não teria muito sentido questionar alguns problemas do filme.

Tsc, tsc. Problemas. Há falta de lógica no início mesmo da trama. Se Tom Chaney é tamanho bandidaço, por que raios teria ficado trabalhando para o fazendeiro Frank Ross? Por que teria matado o patrão depois de se embebedar tanto? Por que não poderia ter matado o patrão, pego o dinheiro e fugido no meio do caminho, sem ser visto por ninguém, ao invés de cometer o crime na rua principal da cidade, onde seria visto por testemunhas?

E a heroína, nossa jovem Mattie? Onde foi que ela aprendeu tanta coisa sobre tudo o que o conhecimento humano abrangia, se vivia isolada numa fazenda, longe de qualquer escola, de qualquer tipo de socialização?

Tudo coisinha menor. Pêlo em ovo. Bravura Indômita é um belo western, um belo filme, um filme diferenciado, único.

E aí me pergunto: por que raios será que resolveram refilmar?

Para que refilmar um clássico? Qual é o sentido de refilmar uma coisa que já havia sido muito bem feita?

O cinemão comercial americano costuma refilmar obras feitas fora das fronteiras do Império; eles entendem que o que não feito dentro das fronteiras do Império não existe, e então refilmam coisas velhas, coisas recentíssimas, refilmam tudo, porque é uma indústria, e indústria precisa sempre ter alguma coisa na linha de montagem.

E aí eles refilmam a Trilogia Millennium, pouco depois que os suecos, os donos da história, a haviam filmado com imenso talento. Refilmam o francês Tudo por Amor/Pour Elle, de 2008, parcos dois anos depois que o filme maravilhoso foi feito.

Mas… refilmar um grande filme feito em 1969 por eles mesmos? Por que, meu Deus do céu e também da terra?

Só para dar um exemplo: teria sentido um autor de hoje reescrever The Great Gatsby?

Meu amigo Elói Gertel, fâ de bons filmes, apaixonado por westerns, encantou-se com a refilmagem de True Grit pelos irmãos Coen, com Jeff Bridges no papel que foi de John Wayne.

Tenho grande admiração pelos irmãos Coen. Mas tenho imensa preguiça de ver o Bravura Indômita que eles refizeram. Assim como tenho imensa preguiça de ver 72 Horas, a refilmagem do ótimo Tudo por Amor.

Para que refazer, como refizeram, 12 Homens e uma Sentença?

Alguém aguentaria uma refilmagem de Cidadão Kane? De Casablanca?

Com tanto livro novo para virar filme…

Bravura Indômita/True Grit

De Henry Hathaway, EUA, 1969.

Com John Wayne (Rooster Cogburn), Glen Campbell (La Boeuf ), Kim Darby (Mattie Ross), Jeremy Slate (Emmett Quincy), Robert Duvall (Ned Pepper), Dennis Hopper (Moon), Alfred Ryder (Goudy)

Roteiro Marguerite Roberts

Baseado no livro de Charles Portis

Fotografia Lucien Ballard

Música Elmer Bernstein

Produção Paramount Pictures. Blu-ray e DVD Paramount.

Cor, 128 min

R, ***

Título na França: Cents Dollars pour un Shérif

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