As Sandálias do Pescador / The Shoes of the Fisherman

Nota: ★★½☆

Anotação em 2010 (postada em janeiro de 2011): As Sandálias do Pescador é uma fascinante relíquia, uma peça de museu. É absolutamente datado. Ficção política, projetava um futuro com a perspectiva de seu tempo, os anos 60, época da guerra fria, do temor da Terceira Guerra Mundial.

Em parte, foi profético: feito em 1968, com base no best-seller escrito por Morris West em 1963, conta a história de um bispo do império comunista que se torna cardeal e em seguida papa – o primeiro papa não italiano em mais de 400 anos. O primeiro nome do personagem é Kiril. O polonês Karol Wojtyla seria eleito papa em 1978, o primeiro papa não italiano em mais de 400 anos.

Em boa parte, no entanto, é velho, antigo, antiquado, cheira a naftalina. Tanto na história que conta, envolvendo uma União Soviética de um futuro que não houve, quanto na forma. É o protótipo do filme acadêmico, pesadão – e olha que eu ando cada vez mais adepto a filmes de narrativa tradicional, clássica, sem invencionices formais. Para eu dizer que o filme é antiquadro, acadêmico, pesadão, é porque exagera demais nessas características.

É uma superprodução, longa (são 161 minutos), cara e muito bem cuidada. Tem tomadas belíssimas de Roma e do Vaticano; reconstitui com cuidado, rigor, diversas daquelas solenidades majestosas da Igreja Católica – as providências tomadas após a morte de um papa, os aposentos lacrados, o anel quebrado; depois o conclave, a reunião de todos os cardeais do mundo inteiro dentro da Capela Sistina para a escolha do novo pontífice; a cerimônia de sacração, primeiro dentro da Basílica, depois diante da multidão de quase meio milhão de pessoas reunida na Praça São Pedro.

         Grandes nomes num belo elenco – mas com um erro feio

O elenco reúne grandes nomes e um grande erro. Anthony Quinn foi o escolhido para o papel central, o de Kiril Pavlovich Lakota – e está bem, o grande ator de gestos largos, aqui bem mais contido do que em muitos de seus filmes.

Dois magníficos atores shakespereanos que já eram, na época das filmagens, sirs, cavaleiros do Império Britânico, estão lá: Laurence Olivier faz o papel de Piotr Ilyich Kamenev, o primeiro-ministro russo, e John Gielgud interpreta o velho papa. Oskar Werner, o Jules de Jules et Jim e o bombeiro de Fahrenheit 451, ambos de François Truffaut, faz o frei David Telemond, um teólogo autor de obras polêmicas, rejeitadas pelo Vaticano. E Vittorio De Sica, o gigante do neo-realismo italiano, e Leo McKern interpretam cardeais importantes.

O grande erro, na minha opinião, é a escolha de David Janssen, ator fraquinho, para o papel de George Faber, correspondente em Roma de uma emissora de TV americana, que é usado pelo diretor Michael Anderson e pelos roteiristas James Kennaway e John Patrick como o sujeito que explica ao distinto público o significado das solenidades, da liturgia da Igreja Católica – eram necessárias as explicações, já que os católicos são minoria no público americano.

Há apenas duas mulheres na história – a mulher do repórter de TV George Faber, Ruth, e a amante dele, Chiara. Numa produção tão cara, com tantos grandes nomes no elenco, escolheram para esses papéis duas atrizes bem menos conhecidas, Barbara Jefford e Rosemary Dexter. Esquisito.

Na verdade, é esquisita também a própria existência dessas personagens, Ruth e Chiara. Não dá para entender muito bem por que o roteiro se desvia da história do protagonista Kiril para focalizar por diversas vezes a vida pessoal do repórter de TV e suas duas mulheres.

         O momento em que a Igreja Católica passou por grande mudança

Há no filme algumas discussões interessantíssimas sobre a religião, a fé e o papel da Igreja Católica num mundo conturbado. Lembrando: o livro do australiano Morris L. West foi publicado em 1963, o ano da morte de João XXIII, o papa do Concílio Vaticano II, que mexeu profundamente com a Igreja. Foi a partir do Concílio Vaticano II e de João XXIII, com suas preocupações com os problemas sociais, a miséria e a fome de milhares de pessoas no Terceiro Mundo, que parte da Igreja Católica passou a ter uma atuação política; um segmento mais radical adotou a Teologia da Libertação, de cunho muito mais político e social do que propriamente religioso. Foi de lá para cá que os religiosos, em especial nos países mais pobres, como os da América Latina, Brasil inclusive, é claro, passaram a se dividir entre conservadores, moderados e progressistas. Estes últimos tiveram papel importantíssimo no enfrentamento da ditadura militar de direita instaurada no Brasil em 1964.

O personagem do frei Telemond faz lembrar demais alguns teólogos que escreveram obras que desagradaram profundamente o Vaticano, muitos deles sendo obrigados – exatamente como o personagem interpretado por Oskar Werner – ao que se chamava de “silêncio obsequioso”: não podiam publicar seus escritos, não podiam falar em público.

Se a parte que diz respeito à religião é interessante, a parte política propriamente dita é (ou pelo menos me pareceu agora) um tanto simplória, simplista, quase infantil.

Quando a ação começa, Kiril Pavlovich Lakota está cumprindo faz 20 anos pena de prisão, em um campo de trabalhos forçados na Sibéria. O homem que o interrogou 20 anos antes, e foi responsável pela sua sentença de prisão, quando Kiril era arcebispo de uma cidade ucraniana, é então o primeiro-ministro da União Soviética, Kamenev (o papel de Laurence Olivier). O Vaticano negocia com ele a libertação do preso.

Logo depois de eleito papa, para surpresa do mundo inteiro, Kiril é chamado por Kamenev para uma conversa a três, com ele e com o líder máximo chinês, Peng. A China, então com 800 milhões de habitantes (bons tempos aqueles; hoje são 1 bilhão e 300 milhões), enfrenta uma absoluta falta de comida, e ameaça invadir países vizinhos, o que seria o início da Terceira Guerra Mundial. E então o primeiro-ministro soviético convoca a reunião com o líder chinês e o novo papa, para tentarem alguma solução que resolva o problema da fome de milhões e impeça o início da guerra.

Hum… Um tanto simplista, certo? Mas a decisão final do papa Kiril I, então… Além de esdrúxula, impossível, inviável, é ginasianamente ingênua, bobinha.

        Russos e italianos falando inglês com sotaque de russo ou italiano

Ah, sim. E o filme padece daquele problema muito recorrente nos filmes americanos passados fora das fronteiras do Império: os personagens são russos, italianos, mas falam em inglês – com sotaque de russo ou de italiano! Grotesco.

Se isso é grotesco, há que se admitir: as tomadas gerais de Roma, da Praça São Pedro, e os close-ups dos fiéis que se reúnem para orar pelo papa doente e depois para acompanhar as votações dos cardeais – a fumaça negra, a fumaça branca – são excelentes.

O diretor Michael Anderson, nascido em Londres em 1920, fez um filme de imenso sucesso, a adaptação do livro de Jules Verne A Volta ao Mundo em 80 Dias, de 1956, com David Niven como Phileas Fogg e Cantinflas como Passepartout e a participação especial de praticamente todos os atores importantes da época. Jean Tulard diz em seu Dicionário de Cinema que Anderson não tem outra ambição a não ser divertir o espectador. “Anderson confirmou sua reputação ao dirigir os dois últimos filmes de Gary Cooper (O Navio Condenado e A Tortura da Suspeita, filme que lembra Suspeita, de Hitchcock). Dentre as suas realizações, podem-se encontrar bons filmes de espionagem como A Morte Não Manda Aviso (baseado em roteiro de Harold Pinter), narrativas de aventuras do gênero lançado por Tubarão (Orca) e um thriller honesto, Dominique. Não foi feliz, em compensação, na adaptação de 1984 de Orwell e na de As Sandálias do Pescador de Morris West, provando que os temas ‘sérios’ pouco o inspiravam.”

Quanto a Morris West, repito aqui o que escrevi sobre outro filme inspirado em livro dele, A Salamandra, por coincidência também passado na Itália, também com Anthony Quinn e que também me pareceu datado:

“É interessante pensar que há autores que ficam datados. Ninguém mais fala de Morris West, hoje em dia, mas ele foi um tremendo de um sucesso nos anos 60 e 70. Não dá para saber se Dan Brown será conhecido em 2040, mas o fato é que nos anos 60 e 70 o australiano Morris West era o Dan Brown da vez – a cada novo livro, o topo da lista dos mais vendidos no mundo inteiro.

“Fui à Wikipedia em português para checar se essa minha sensação está correta – e aparentemente está. Morris West, 1916-1999, merece parquíssimos dois parágrafos da enciclopédia, embora tenha escrito mais de 25 livros, entre eles As Sandálias do Pescador, de 1963, best-seller mundial, em que ele, muito antes de Karol Woytila, antecipava a eleição de um papa vindo de um país comunista. Tudo bem: na versão em inglês, o verbete sobre o escritor é bem encorpado – mas acho que o tamanho mínimo do verbete em português prova como Morris West é hoje pouco lembrado.”

         Uma trilha sonora majestosa, criada por um especialista

Leonard Maltin deu ao filme 2 estrelas em 4: “O papa Quinn, um russo que passou 20 anos como um prisioneiro político na Sibéria, tenta afastar o perigo da guerra atômica mais a fome na China Comunista durante metade do filme, enquanto o correspondente Janssen tenta resolver seus problemas maritais no resto do tempo. Ótimo elenco é desperdiçado na versão descuidada do best-seller de Morris L. West, monotamente dirigido por Anderson.”

Maltin estava de muito mau humor; o personagem do jornalista de TV e seus problemas maritais de fato não têm a ver com o resto da história, conforme já disse lá em cima, mas é um grande exagereo dizer que isso ocupa metade do filme.

As Sandálias do Pescador teve duas indicações ao Oscar, para a direção de arte e para a trilha sonora, de autoria de Alex North (1910-1991), um dos grandes nomes da música para cinema.

A trilha de North recebe um tratamento VIP no filme. Ele tem uma longa abertura sem ação alguma para a apresentação dos principais temas musicais; um intervalo no meio da projeção, e, ao final, novo espaço sem ação, só para a música.

Não me lembro de muitos filmes com um espaço tão nobre para a música. Mas um deles é Cleópatra de Joseph L. Mankiewicz, a super hiper big superprodução que praticamente fez falir a 20th Century Fox no início dos anos 60, e que dura 243 minutos. A trilha de Cleópatra também é de Alex North. Aliás, o homem era chamado para musicar superproduções: é dele também a trilha de Spartacus de Stanley Kubrick, e de Crepúsculo de uma Nação/Cheyenne Autumn, o belo western em que John Ford pede perdão por seus filmes anti-índios anteriores e homenageia os pele-vermelhas.

North também era useiro e vezeiro em musicar tramas relacionados ao Vaticano. É dele também a trilha de Agonia e Êxtase, do inglês Carol Reed, sobre a tumultuada relação entre o papa Júlio II e Michelangelo, enquanto o artista pintava sua obra-prima no teto da Capela Sistina.

Parte da ação de As Sandálias do Pescador se passa dentro da Capela Sistina – mas não ocorreu a Michael Anderson mostrar um pouquinho das obras-primas de Michelangelo no altar e no teto da capela.

As Sandálias do Pescador/The Shoes of the Fisherman

De Michael Anderson, EUA, 1968

Com Anthony Quinn (Kiril Lakota), Laurence Olivier (Piotr Ilyich Kamenev), Oskar Werner (frei David Telemond), David Janssen (George Faber), Vittorio De Sica (cardeal Rinaldi), Leo McKern (cardeal Leone), John Gielgud (o papa mais velho), Barbara Jefford (Ruth Faber), Rosemary Dexter (Chiara)

Roteiro James Kennaway e John Patrick

Baseado no romance homônimo de Morris L. West

Foto Erwin Hillier

Música Alex North

Produção MGM. DVD Warner.

Cor, 161 min

**1/2

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