Anatomia do Medo / Ikimono No Kiroku

Nota: ★★★☆

Em Anatomia do Medo, de 1955, o grande Akira Kurosawa faz o espectador refletir sobre as armas que a humanidade construiu e que têm o poder de, simplesmente, aniquilá-la.

1955 – dez anos depois que os americanos lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, sete anos antes da crise dos mísseis soviéticos em Cuba, provavelmente o momento em que se esteve mais próximo de um confronto nuclear que poderia ter extinguido com a vida no planeta.

O perigo de um holocausto nuclear final pode parecer hoje para muita gente uma coisa antiga, distante, improvável – apesar dos Ahmedinejads, do eterno conflito israelenses-árabes, do outro eterno conflito Índia-Paquistão, do desconhecimento geral sobre o que exatamente aconteceu com as ogivas nucleares após o desmantelamento do império soviético (o tema dos belíssimos e apavorantes O Senhor das Armas e PU-234/The Half Life of Thimofey Berezin).

E, em alguns aspectos, Anatomia do Medo é um filme um tanto datado, envelhecido. Mas gênio é gênio. As obras dos gênios são sempre atuais. Ao revê-lo agora, fiquei pensando que, se trocarmos o pavor do protoganista com a iminente destruição do planeta pelas armas atômicas pela destruição do planeta que estamos promovendo celeremente com os ataques ao ambiente, temos que o filme de Kurosawa é de uma atualidade impressionante.

O protagonista está decidido a emigrar para o distante Brasil

O senhor Nakajima (interpretado por Toshiro Mifune, sempre ele, o maior ator japonês do século XX) está apavorado com a possibilidade de novas explosões atômicas. Apavorado, petrificado, paralisado de medo. Obcecado – talvez doentiamente obcecado. Andou lendo, pesquisando; chegou à conclusão de que o lugar mais inseguro para se viver, diante da ameaça de novas bombas atômicas, é o Japão, e, ao contrário, o lugar que menos sofreria, o lugar mais imune ao perigo atômico, é a América do Sul, mais especificamente um país chamado Brasil, mais especificamente ainda um pedaço do Brasil chamado São Paulo, para onde já haviam nas décadas anteriores emigrado (por outros motivos, é claro) multidões de japoneses.

Está decidido a emigrar para o Brasil.

Nakajima é um empresário, com algum, ou bastante, dinheiro. É o dono de uma grande fundição que leva seu nome, e emprega muitas dezenas de pessoas.

Homem de posses numa sociedade tradicionalista, machista, ele é o patriarca inconteste de sua família – uma mulher submissa, três filhos homens, uma filha mulher. Mas não apenas isso. Como ele mesmo dirá:

– “Pois é, além deles, eu sustento outras cinco pessoas: duas concubinas, seus dois filhos e o filho de uma outra que já morreu.”

Nakajima está disposto a levar todos eles – a mulher, os filhos, o marido da filha, as concubinas, os filhos bastardos – para o Brasil, para fugir da ameaça nuclear.

Um Japão que se modernizava, pessoas com roupas ocidentais, carros, bondes

Kurosawa abre sua narrativa não com Nakajima, mas com o dr. Harada (Takashi Shimura). Na verdade, as primeiras imagens que vemos, ao longo dos créditos iniciais, não são de personagens, mas do Japão urbano daquela época, 1955, dez anos após as bombas de Nagasaki e Hiroshima, após a capitulação do Império Japonês em agosto de 1945, que pôs fim à Segunda Guerra Mundial. Enquanto rolam os créditos iniciais, vemos tomadas de ruas de Tóquio – superpovoadas de gente em trajes ocidentais, homens de paletó e gravata, mulheres de saias e vestidos como os ocidentais, muitos carros, muitos bondes, enquanto ouvimos uma trilha sonora que é um jazz bastante semelhante ao que era comum nos Estados Unidos no início dos anos 50.

Assim que terminam os créditos iniciais, vemos o dr. Harada, um dentista, que divide seu consultório com o filho. O dr. Harada havia se oferecido para trabalhar como juiz em um dos muitos tribunais de pequenas causas familiares – litígios sobre patrimônio, herança, separação. Naquele início de narrativa, recebe uma convocação para comparecer ao tribunal, para cuidar de uma disputa familiar.

Os filhos de Nakajima haviam forçado a mãe a entrar, ao lado deles, com uma petição no tribunal para considerar o patriarca inabilitado. Estaria ele velho, insano, incapaz de tomar decisões sobre seus bens.

Ao tribunal comparecem também as outras mulheres e filhos de Nakajima. Querem ter seus direitos assegurados.

O tribunal é composto por três juízes. O dr. Harada é um deles.

Uma forma de interpretar que é completamente diferente da ocidental

Uma palavrinha sobre Toshiro Mifune.

Se a gente cedesse à tentação de fazer uma comparação, Toshiro Mifune estaria assim para Akira Kurosawa como John Wayne esteve para John Ford. Ou talvez Jean-Pierre Léaud para François Truffaut.

Não sei compreender a interpetação de atores japoneses – e ousaria dizer que qualquer ocidental que disser que entende a forma com que atuam os atores japoneses está mentindo. É um jeito diferente – não tem nada a ver com o que entendemos como interpretação.

Todos, absolutamente todos os códigos são diferentes.

Toshiro Mifune bufa feito um cavalo, uma mula, ao longo de todo o filme.

Se fôssemos comparar com um ator ocidental, Toshiro Mifune seria algo parecido com o pior Jim Carrey, na sua atuação mais careteira. Acontece que aquilo é outro mundo, outro planeta, outra realidade, outra forma de interpretar.

Toshiro Mifune tinha apenas 35 anos quando interpretou o velho senhor Nakajima. E a verdade é que ele, ajudado por excelente trabalho de maquiagem, parece ser um velho, alquebrado, curvado sob o peso dos anos e do medo da bomba. Parece, não: é um velho.

Questões familiares complexas, numa sociedade que não entendemos

Não é nada fácil, para nós, ocidentais, compreendermos o funcionamento, a dinâmica, os valores da sociedade japonesa – seja hoje, na Idade Média, ou em 1955.

As questões familiares daquele patriarca que tem uma família constituída formalmente mais três outras informais são complexas, de difícil compreensão. O filme do mestre Kurosawa, no entanto, foi feito de tal maneira que não dificulta muito o entendimento do que acontece. No mínimo, não a torna ainda mais difícil do que naturalmente já seria.

Mesmo assim, não é uma tarefa muito simples acompanhar as questões daquela família múltipla, em muito diferente da realidade à qual estamos acostumados. E o esforço necessário para tentar compreender as relações familiares acaba diluindo o principal: a questão básica do medo, do pavor daquele homem diante da ameaça à vida no seu país.

O cineasta mais universal, mais shakespeariano de todos os grandes mestres

O personagem do dr. Harada ajuda, e muito, a tornar a narrativa mais facilmente compreensível. É um personagem que está muito acima das diferenças culturais. É universal, o dentista que se ofereceu para trabalhar como juiz de família – um homem bom, honesto, que procura desesperadamente ser justo, compreender as diferentes questões, as diferentes visões de Nakajima e de seus familiares.

Os questionamentos que o dr. Harada faz são absolutamente universais, de fato muito acima das diferenças entre uma civilização e outra. São os questionamentos básicos, fundamentais – presentes na tragédia grega, na tragédia (e na comédia) shakespeariana.

É para o dr. Harada que o médico dirá a frase que define a moral do filme:

– “Sempre que vejo este paciente fico muito abatido. É a primeira vez que isso acontece comigo. Sempre que o vejo, de alguma forma sinto-me estranhamente inquieto, embora eu é que supostamente deveria estar são. Ele é louco? Ou loucos seremos nós, que conseguimos ficar impassíveis diante deste mundo insano?”

A sensação que tive ao rever Anatomia do Medo, poucos dias depois de rever Rashomon, é de que, de fato, Akira Kurosawa é o mais universal, o mais shakespeariano dos grandes realizadores das primeiras sete, oito décadas do cinema. É o artista que aborda em suas obras todos os sentimentos, todas as emoções humanas.

Outro dia li um trecho de um texto de Roger Ebert em que ele fala dos maiores cineastas da história: “Bergman obtém sua grandeza através do pensamento e do exame das almas. Hitchcock criava com meticulosa ourivesaria, e Buñuel usava seus fetiches e fantasias para construir piadas a respeito da humanidade. Mas Fellini… bem, fazer cinema para ele parece algo quase sem esforço, como respirar, e ele pode orquestrar as cenas mais complicadas com pureza e facilidade.”

Para mim, qualquer lista dos maiores artistas que se expressaram através do cinema – os grandes mesmos, os básicos, os fundamentais – teria que incluir Bergman, é claro, o cineasta das questões filosóficas, metafísicas; Satyajit Ray, o cineasta da responsabilidade social de cada pessoa, da necessidade de combater sempre, a cada dia, todas as formas d corrupção; e Akira Kurosawa, o cineasta que trata de todas as emoções humanas.

Anotação em setembro de 2011

Anatomia do Medo/Ikimono No Kiroku

De Akira Kurosawa, Japão, 1955

Com Toshiro Mifune (Kiichi Nakajima), Takashi Shimura (Dr. Harada), Minoru Chiaki (Jiro Nakajima), Eiko Miyoshi (Toyo Nakajima), Kyôko Aoyama (Sue Nakajima), Haruko Tôgô (Yoki Nakajima), Noriko Sengoku (Kimie Nakajima)

Argumento e roteiro Shinobu Hashimoto, Fumio Hayasaka, Akira Kurosawa

Fotografia Asakazu Nakai

Música Masaru Satô

Produção Toho Company. DVD Cinemax.

P&B, 103 min.

***

Título em inglês: I Live in Fear. Título na França: Chronique d’un être vivant. Título em Portugal: Vivo no Medo.

4 Trackbacks

  1. […] cinema, mestre Akira Kurosawa conseguiu o mesmo que o bardo […]

  2. […] cinema, mestre Akira Kurosawa conseguiu o mesmo que o bardo […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Setembro / September em 8 novembro 2015 às 10:14 pm

    […] foi lançado em 1987, filmado em 1986. A referência deve ser, seguramente, a Ran, que o mestre Akira Kurosawa lançou em […]

  4. […] Aprendo que Kiyoshi Kurosawa não é um jovem, um aprendiz: nasceu em Kobe em 1955, um ano depois que o outro Kurosawa, o Akira, lançou Os Sete Samurais. Exatamente o ano de Anatomia do Medo. […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*