Amarcord

Nota: ★★★★

Anotação em 2011: Imagens deslumbrantes, belíssimos travellings, tipos engraçados, esquisitos, fascinantes – tudo ao som de uma trilha sonora perfeita, que se funde à ação, que dá o tom de cada sequência: Amarcord é uma beleza.

Amarcord – “eu me lembro”, em um dos muitos dialetos da Itália. Lembranças, evocações, memórias de Federico Fellini, um dos cineastas mais pessoais, personalistas, da história, talvez o mais.

Duas coisas me impressionaram demais neste revisão. A primeira é a trilha de Nino Rota. Conheço bem as músicas, volta e meia ouço o disco. As melodias – às vezes nostálgicas, às vezes brincalhonas, bem humoradas, sempre maravilhosas – prescindem do filme, têm existência própria. Mas o filme, ao contrário, seria infinitamente mais pobre se não fosse embalado pelas melodias de Nino Rota.

A segunda característica que saltou aos olhos é aquela que talvez seja a melhor das marcas registradas de Federico Fellini: a criação de tipos singulares, quase fantásticos, quase criaturas de desenho animado. E como é brilhante a direção de elenco, o casting. Seguramente Fellini é o cineasta que mais soube criar tipos fascinantes, estranhos, bizarros – não é à toa que se criou e se usa tanto o adjetivo “felliniano”.

Um imenso talento para escolher os colaboradores

E que talento tem o cineasta para escolher seus colaboradores. Nino Rota foi um achado – e a colaboração dos dois se estendeu por praticamente toda a carreira de Fellini. Houve muitos belos encontros entre cineastas e compositores – Hitchcock e Bernard Herrmann, Truffaut e Georges Delerue, Kieslowsky e Zbigniew Preisner, De Palma e Pino Donaggio, para citar só alguns –, mas provavelmente nunca houve uma união mais perfeita que a de Fellini e Nino Rota.

A fotografia de Giuseppe Rotunno. Credo em cruz – cada tomada do filme, cada enquadramento é um poema visual. A fotografia de Giuseppe Rotunno faz lembrar os filmes do mestre Akira Kurosawa, o gênio que desenhava, de próprio punho, cada tomada de seus filmes.

E há os diretores de casting, os profissionais que conseguiam encontrar as pessoas para fazer aqueles tipos que só a imaginação infinita de Federico Fellini – uma imaginação tão felliniana que parece até que o homem tomava uns ácidos antes de fazer seus filmes – conseguia criar.

A peituda da tabacaria. O tio doido que sobe na árvore e fica berrando “Voglio una donna…” a tarde inteira. O tio boa vida, paixão da irmã, que vive às custas do pai e usa meia de mulher para deixar o cabelo liso. O sábio da cidade que conta para o espectador, sorridente, as coisas da História. La Gradisca (Magali Nöel, a atriz mais famosa do elenco à epoca em que o filme foi feito), a gostosona da cidade, que os garotos seguem como os cachorros costumam perseguir os carros. O cego tocador de acordeon.

Volpina (Josiane Tanzilli, na foto ao lado), a puta sempre no cio, com um andar de gazela, os olhos e a língua se revirando. O avô que avança e retrai o braço na horizontal, fazendo um ruidinho, dizendo que na família dele todo mundo trepa muito, até na velhice mais profunda. O padre que ouve a confissão dos garotos doidinho para saber detalhes de suas masturbações. A freira anã, a única que consegue domar o tio Teo e fazê-lo descer da árvore…

As seqüências que apresentam os professores – que coisa magistral. Que figuras fascinantes. A professora de matemática, uma sargentona fascista de peitos grandes e pontudos. O professor de grego, que os alunos gozam o tempo todo. O professor de história. O que fica equilibrando as cinzas do cigarro.

Uma imensa, genial galeria de tipos apaixonantes, louquíssimos, bizarros, esquisitos… fellinianos.

Recordações da adolescência com uma ginasiana ênfase em sexo e flatulência

Amarcord é um filme que não tem propriamente uma história. Não precisa de uma história, uma trama. É um amontoado de seqüências, situações, esquetes – como que recordações de cenas da infância e adolescência do diretor, nos anos 30, em sua cidade natal.

Seqüências marcantes, inesquecíveis, de tremenda beleza plástica. Envoltas em uma atmosfera às vezes lírica, às vezes onírica, nostálgica, circense, bem humorada, sacana, safada…

Quanta insistência com sexo – com sexo, e com flatulência. Nas suas recordações da adolescência, Federico Fellini se rende ao espírito ginasiano – e dá-lhe sexo e flatulência.

Além de ser, em si mesmo, um filme belíssimo, Amarcord teve ainda uma outra imensa contribuição à arte, à humanidade: inspirou Woody Allen a fazer o seu próprio Amarcord, A Era do Rádio/Radio Days. Obrigado, Fellini.

“Um retrato virtuoso, alegre, lascivo”

Amarcord ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Teve ainda duas outras indicações – o que é bastante raro, para filmes estrangeiros – de melhor direção e roteiro original. Ao todo, foram 13 prêmios mundo afora, incluindo o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

Vamos às loas que o filme recebeu de quem sabe mais.

Leonard Maltin dá 3.5 estrelas em quatro: “A viagem nostálgica de Fellini à Itália de sua juventude nos anos 1930: calorosos, engraçados, comoventes, lascivos episódios sobre amor, sexo, política, vida em família e amadurecimento”.

Aí: matou a cobra e mostrou o pau em três linhas. Por que eu faço 300?

Roger Ebert, um crítico que ama os filmes que vê, e não os odeia por ter a obrigação de vê-los e ainda por cima ter que escrever sobre eles, como fazem por exemplo 432 dos 435 críticos de cinema da Folha, escreveu mais de 300 linhas sobre Amarcord. Derrama-se por Amarcord, o bom Ebert.

Amarcord de Federico Fellini nos leva de volta à pequena cidade italiana de seu nascimento de juventude, e nos dá um retrato virtuoso, alegre, lascivo (interessante ele usar o mesmo adjetivo de Maltin, bawdy) das pessoas das quais se lembra. As pessoas são quase crianças em seu comportamento, deliciando-se nas simples alegrias de comer e fazer amor e caminhar pela praça principal e fofocando sobre os outros e sobre a hipnótica Gradisca (na foto acima). Fellini quer dizer que esse simples comportamento é alimentado por um sistema que encoraja um jeito de levar a vida despreocupadamente – mas Amarcord não é um filme político. É uma memória, apaixonada, mas sem piedade, de como era a Itália numa determinada época. É também um jeito de fazer cinema que é absolutamente de tirar o fôlego. Fellini tem estado já há muito tempo entre os cinco ou seis maiores diretores do mundo, e, de todos eles, é o mais natural. Bergman obtém sua grandeza através do pensamento e do exame das almas. Hitchcock criava com meticulosa ourivesaria, e Buñuel usava seus fetiches e fantasias para construir piadas a respeito da humanidade. Mas Fellini… bem, fazer cinema para ele parece algo quase sem esforço, como respirar, e ele pode orquestrar as cenas mais complicadas com pureza e facilidade.”

E por aí vai. Trocentas linhas nessa linha.

Um dos melhores marqueteiros de si mesmo da história do cinema

Eu, quietinho aqui no meu cantinho, penso que Fellini divide com Hitchcock o título de o melhor marqueteiro de si mesmo da história do cinema. Isso não quer dizer nada contra a genialidade nem de um, nem de outro, pelamordeDeus. São geniais, o gorducho inglês e o italiano rechonchudo. Mas, além de geniais, são brilhantes marqueteiros de si mesmos.

E vamos, para encerrar e rimar, ao mestre Tulard.

Mestre Jean Tulard, em seu Guide de Films, dá apenas duas estrelas em quatro para o incensado filme do incensadíssimo Fellini. Mestre Tulard é fodá.

“A cada filme, Fellini definia uma universo que lhe era próprio e incomparável. Cada uma de suas obras é uma criação original dentro da qual se reencontram elementos dos filmes anteriores. Desta maneira, Amarcord já existia dentro de I Vitelloni (ali se encontra esse grupo de jovens desocupados), e se percebe em Amarcord as premissas de E la nave va.)”

Amarcord, de 1974, lembra I Vitelloni, de 1953, e antecipa E la nave va, de 1983

Verdade, verdade – até porque Jean Tulard dificilmente se equivoca. Sem dúvida há muito de Os Boas Vidas/I Vitelloni em Amarcord – lá em cima, nesta anotação, antes de ler o verbete de Tulard, usei boa vida para definir o tio que vive na casa da família, às custas do cunhado, e não foi à toa. O tio que bota meia de mulher na cabeça para alisar o cabelo é exatamente como o personagem interpretado por Alberto Sordi em Os Boas Vidas; tem até certa semelhança física com o ator do filme de 1953. Até comentei com Mary, no jantar, entre o início desta anotação e a segunda parte, a parte que transcreve a opinião dos outros, que o filme de Fellini que mais tenho vontade de rever é I Vitelloni.

E, sim, verdade, verdade: a seqüência em que toda a cidade vai ao mar para ver a passagem do grande transatlântico é, sim – além de belíssima, plasticamente maravilhosa –, um trailer, uma antecipação de E la nave va, de 1983.

E – gênio é gênio, fazer o quê? – aquele mar que parece de plástico, nessa seqüência da espera do transatlântico, aquela coisa proposita, exageradamente fake, esplendorosamente fotografada por Giuseppe Rotunno, serviria de inspiração para muitas das seqüências de O Fundo do Coração/One From the Heart, aquele delírio que Francis Ford Coppola faria em 1982.

Amarcord

De Federico Fellini, Itália-França, 1974

Com Magali Nöel (Gradisca), Bruno Zanin (Titta), Pupella Maggio (a mãe de Titta), Armando Brancia (o pai de Titta), Giuseppe Lanigro (o avô de Titta), Nando Orfei (Pataca), Ciccio Ingrassia (tio Teo), Luigi Rossi (o advogado), Gennaro Ombra (Bisein), Josiane Tanzilli (Volpina), Maria Antonietta Beluzzi (a vendedora da tabacaria), Gianfilipo Carcano (Don Baravelli), Ferruccio Brembilla (o líder fascista), Dina Adorni (o professor de Matemática), Marcello di Falco (o príncipe).

Argumento e roteiro Federico Fellini e Tonino Guerra

Fotografia Giuseppe Rotunno

Música Nino Rota

Montagem Ruggero Mastroianni

Direção de arte Danilo Donati

Produção Franco Cristaldi. DVD Continental.

Cor, 127 min

R, ****

3 Comentários

  1. mario silva
    Postado em 25 setembro 2011 às 11:02 pm | Permalink

    Por todas as razões enumeradas em sua crítica, o filme é belíssimo, maravilhoso, o
    que, para mim, torna incompreensível a nota que o grande Tulard atribui a essa obra prima. Não há dúvida de que Amarcord complementa I Vitelloni como painel da adolescência/juventude de Fellini em Rimini, sendo que o último aborda o período pós-colegial. Não deixe de rever I Vitelloni, que
    é meu Fellini predileto, e em que, de forma lapidar, ele desenha a falta de perspectiva
    profissional na vida provinciana, e a única saída para os que não se curvam ao destino
    medíocre é partir para a metrópole (apesar de
    todas suas mazelas). Sublime!

  2. Postado em 26 setembro 2011 às 12:04 am | Permalink

    É não só um dos meus Fellinnis prediletos como um dos meus filmes prediletos. As cores, ah, as cores. (e que ótimo, ótimo post esse, tão completo e abrangente)

  3. jose osmir fiorelli
    Postado em 3 novembro 2013 às 5:37 pm | Permalink

    Belíssimo filme. Belíssima trilha sonora. Uma pérola do cinema.

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » A Era do Rádio / Radio Days em 28 setembro 2011 às 6:20 pm

    […] de Woody Allen, que A Era do Rádio é uma espécie assim de versão pessoal do cineasta para Amarcord de Fellini, uma de suas grandes influências. Me permito […]

  2. […] um quê de Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski, assim como A Era do Rádio é uma espécie de Amarcord de Fellini. Memórias/Stardust Memories é uma espécie de Oito e Meio, com uma pitada de Morangos […]

  3. […] Grushenko/Love and Death, o Dostoiéviski de Crime e Castigo em Crimes e Pecados, o Fellini de Amarcord em A Era do Rádio, o Bergman de Morangos Silvestres em Desconstruindo Harry, o Fellini de Oito e […]

  4. […] Amarcord, de Federico Fellini, em A Era do Rádio/Radio Days, de […]

  5. […] humorística, satírica, publicada em Roma. Leu uma piada para o avó, e disse o nome do autor, Federico Fellini. Atento, observador, o velho comentou que aquele redator era novo na […]

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