Acorrentados / The Defiant Ones

Nota: ★★★½

Anotação em 2010 (postada em fevereiro de 2011): Acorrentados, produzido e dirigido em 1958 por Stanley Kramer, mantém sua força, seu vigor, mais de meio século depois. É um filme corajoso, violento, brutal, capaz de deixar o espectador agoniado. Ele parte da denúncia do absurdo que é o racismo para fazer uma homenagem à capacidade que as pessoas podem ter de suplantá-lo. Vira uma bela, emocionante ode à solidariedade.

A idéia básica da trama – argumento e roteiro são assinados por Nathan E. Douglas e Harold Jacob Smith – é daqueles absolutos brilhos, aqueles lampejos de genialidade. No Sul racista dos Estados Unidos, em que as leis garantiam a segregação racial, dois presos, um negro e um branco, que se odeiam e estão acorrentados um ao outro, conseguem escapar da prisão, e são forçados a conviver um com o outro, a ajudar um ao outro durante a penosa, dolorosa fuga.

O branco e o negro são interpretados por dois atores que estavam no auge de suas carreiras – e da beleza física. Tony Curtis, que faz o papel de Joker, um racista filho da mãe, vinha de uma série de sucessos: Trapézio, A Embriaguez do Sucesso/Sweet Smell of Success, Vikings, os Conquistadores, Só Ficou a Saudade/Kings Go Forth. Fascinante: Só Ficou a Saudade, dirigido por Delmer Daves naquele mesmo ano de 1958, também é um filme sobre racismo.

Sidney Poitier, que faz o papel de Cullen, ainda não tinha um nome tão consagrado; já havia brilhado em Sementes da Violêrncia /Blackboard Jungle, e, com este filme e mais diversos que fez logo depois dele – Porgy and Bess, O Sol Tornará a Brilhar/A Raisin in the Sun, Paris Vive à Noite/Paris Blues, Uma Voz nas Sombras/Lilies of the Field –, se tornaria um dos mais famosos e respeitados atores de Hollywood; com Uma Voz nas Sombras, de 1963, tornou-se o primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator.

          Fugitivos que se odeiam, perseguidores que não se entendem

O filme começa de forma arrebatadora: diz a que vem, e como vem, já nos primeiros minutos. Um pequeno ônibus está transportando várias duplas de presos, uns acorrentados aos outros, por uma pequena estrada; é de noite, e está chovendo. Um acidente, o ônibus bate num caminhão que vinha em sentido contrário, capota, rola para um barranco. Ninguém morre, mas vários ficam feridos. Dois conseguem fugir – o branco Joker e o negro Cullen.

Forma-se uma força policial para persegui-los, liderada pelo xerife do condado, Max (Theodore Bikel). O segundo homem no comando é Frank Gibbons (Charles McGraw), capitão da polícia estadual – e o xerife e o capitão da polícia não se dão nada bem. O capitão é absolutamente radical, do tipo sanguinolentamente contra bandido, mais sanguinolento que muito bandido. Por ele, soltavam-se os cães doberman famintos, e eles fariam todo o trabalho. O xerife é bem mais civilizado; em princípio, é contrário, por exemplo, à participação, na força policial, daquela meia dúzia de racistas empedernidos que acorrem na ânsia de poder atirar em um negro fugitivo. Mas o capitão consegue convencê-lo a aceitar ajuda dos vigilantes civis com o argumento de que dispõe de muitos poucos homens.

Junto com o xerife está um jornalista (Lawrence Dobkin) da cidadezinha mais próxima – não se diz o nome da cidade, sequer o Estado; é qualquer lugar do Sul Profundo, Tennessee, Mississipi, Louisiana, Alabama. É para o jornalista que o xerife conta que os fugitivos são um negro e um branco; quando o outro demonstra seu imenso espanto diante do fato de um negro estar acorrentado a um branco, o xerife diz uma frase assim (não é literal, cito de memória):

– “O diretor do presídio é um sujeito de um estranho senso de humor. Eles vão se matar um ao outro.”

          Uma violência, uma crueldade de fazer doer o coração

O filme alterna seqüências de caçadores e caçados, mas, naturalmente, os caçados ocupam uma parte muito maior. As seqüências da fuga, por pântanos, através de rios, de campos abertos, são bem feitíssimas, de um realismo extraordinário – e de uma violência e uma crueldade de fazer doer o coração do espectador.

Os dois grandes atores estão muito, muito bem.

Os diálogos entre eles são fortíssimos, o ódio que um tem do outro é visível na tela.

É um filmaço.

Os roteiristas e o diretor Kramer só pesaram demais a mão, acho eu, bem mais para o fim da narrativa, com a personagem da mulher sem nome (interpretada por Cara Williams). É, na minha opinião, o único pequeno defeito de um grande filme.

          Um diretor sem medo de polêmica alguma

Para lembrar: Stanley Kramer (1913-2001) era um sujeito que não tinha medo de polêmicas, de abordar temas difíceis. Diz Jean Tulard, no verbete sobre Kramer no seu Dicionário: “Produtor audacioso e conhecedor de seu ofício – pois fora anteriormente montador e roteirista –, tornou-se um realizador polêmico. Engajou-se em todas as direções, sem fixar-se em nada. (…) Mas sua predileção recaiu sobre os filmes de mensagem. Denunciou com convicção o racismo em Acorrentados e Adivinhe Quem Vem para Jantar? e o nazismo no surpreendente Julgamento em Nuremberg.”

Em Adivinhe Quem Vem para Jantar?, de 1967, o último filme da dupla Spencer Tracy-Katharine Hepburn, um casal que se acreditava liberal e progressista percebe que não é tanto assim quando a filha apresenta o noivo, um negro (de novo Sidney Poitier, com aquele seu rosto belo como da mais bela estátua grega).

Julgamento em Nuremberg é uma absoluta obra-prima, que vai fundo na discussão sobre a responsabilidade de cada um dos alemães nas atrocidades cometidas pelo nazismo.

Kramer focalizou a guerra fria, o mundo após a guerra nuclear definitiva, em A Hora Final/On the Beach, de 1959, antecipando tantos outros filmes que viriam nos anos seguintes sobre o fim do mundo, o armageddon. Discutiu até mesmo a questão de como se educar crianças e adolescentes deficientes, em Minha Esperança é Você/A Child is Waiting, de 1963, produzido por ele e dirigido por John Cassavetes.

O bicho não era fácil.

          Na premiação do filme, a marca de um período de horror

Acorrentados foi indicado a nove Oscars – filme, direção, ator para Tony Curtis, ator para Sidney Poitier, ator coadjuvante para Theodore Bikel, atriz coadjuvante para Cara Williams, montagem, roteiro original e fotografia em preto-e-branco. Venceu nessas duas últimas categorias – fotografia para Sam Leavitt e roteiro original para Nedrick Young e Harold Jacob Smith.

O Oscar de melhor roteiro original, na verdade, foi dado para Nathan E. Douglas e Harold Jacob Smith. Nedrick Young tinha sido incluído na lista negra do macartismo, e portanto estava impedido de trabalhar, ou no mínimo de assinar seus trabalhos; assim, assinou com o pseudônimo de Nathan E. Douglas. Somente em 1993 a Academia colocou o crédito real do autor, com seu próprio nome, a pedido de sua viúva e atendendo também a recomendação dos roteiristas filiados.

(Não são apenas os países pobres do terceiro mundo, Venezuelas, Bolívias, Cubas, Brasis, que enfrentam períodos trágicos em que se agride a liberdade de expressão. Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Grécia, todos tiveram sua cota. E mesmo o Império, que se diz mestre em democracia, no período de trevas da caça às bruxas teve sua mancha do radicalismo despótico. Que ela não volte – nem lá nem aqui.)

Ao todo, foram 15 prêmios e outras 19 indicações. Tony Curtis e Sidney Poitier tiveram indicação para o Bafta, e Poitier levou o prêmio britânico, assim como o Urso de Prata em Berlim. O filme obteve o Globo de Ouro de melhor drama.

Vejo agora no Cinemania uma informação que para mim é absoluta novidade: em 1986, o filme foi refeito para a TV por um sujeito chamado David Lowell Rich, naquele esquema de cópia tomada por tomada, com dois atores de que nunca ouvi falar. Tem doido pra tudo.

Tem doido pra tudo, tem opinião para todos os gostos. Jean Tulard definiu assim: “Simpático arrazoado contra o racismo, mas que mão pesada na direção!”

Leonard Maltin dá 4 estrelas, a cotação máxima.

O livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer define: “Excelentes atuações tanto de Curtis quanto de Poitier dão vida e força intelectual à narrativa, que poderia ter facilmente caído em um melodrama ineficaz. Acorrentados é, talvez, o filme que melhor capta as intenções liberais dos ‘realistas’ da década de 50, ao passo que a sociedade americana tentava aprender a lidar com o fato da presença afro-descendente.”

Quem não viu o filme deveria ver, para ter sua própria opinião.

Acorrentados/The Defiant Ones

De Stanley Kramer, EUA, 1958

Com Tony Curtis (Joker Jackson), Sidney Poitier (Noah Cullen), Theodore Bikel (xerife Max Muller), Charles McGraw (capitão Frank Gibbons), Lon Chaney Jr. (Big Sam), Kevin Coughlin (Billy), Cara Williams (a mãe de Billy), Lawrence Dobkin (o jornalista)

Argumento e roteirio Nedrick Young (sob o pseudônimo de Nathan E. Douglas) e Harold Jacob Smith

Fotografia Sam Leavitt

Música Ernest Gold

Produção Stanley Kramer, United Artists. DVD Paragon Multimídia.

P&B, 97 min

R, ***1/2

Título na França: La Chaîne.

3 Comentários

  1. Postado em 2 fevereiro 2011 às 6:28 am | Permalink

    Eu conheci o Poitier vendo Ao Mestre com Carinho. Fiquei impressionada – tanto com a beleza como com sua competência e expressividade. A partir daí ele só fez me hipnotizar mais e mais. Este Acorrentados, assisti em uma madrugada na Globo, acredita (muitos, muitos anos atrás)? Foi tão tocante que não consegui mais dormir. Gosto do ritmo do filme e, especialmente, gosto dos diálogos.
    PS. Li este texto e lembrei de você(s):
    http://www.etudogentemorta.com/2010/02/quando-no-cinema-acabaram-os-homens/

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 2 fevereiro 2011 às 7:18 pm | Permalink

    Luciana, cada comentário seu me deixa contente.
    Li o texto que você recomendou, de um colega blogueiro d’além-mar. Uma beleza de texto. Obrigado pela dica. Um beijo.
    Sérgio

  3. Ivan
    Postado em 2 junho 2013 às 1:09 pm | Permalink

    Passeando no site encontrei este filmaço !!!
    Assim como a Luciana também conheci Poitier em “Ao Mestre com Carinho”, eu devia estar com 17 ou 18 anos. E, também comungo com voces quanto a beleza e a sobriedade dele como homem e ator ; um grande ator.
    Este “Acorrentados” faz algum tempo que vi em um site de filmes online.
    De fato os diálogos entre eles são fortes.
    Eles destilam o mais puro ódio um pelo outro. Falar alguma coisa além do que voce já disse,fica difícil não fazer spoiler. Só vendo, mesmo.
    Filme forte, marcante.
    “O Sol Tornará a Brilhar”/”Adivinhe Quem vem para Jantar” e “Sementes da Violência”, vi online. “Sementes”, não está no site mas, fiz um comentário sôbre ele contigo, dizendo que neste filme, Poitier fazia o aluno e, mais na frente faria o professor no “mestre”.
    Não sei estás lembrado.
    Tambem vi com ele a versão do “Chacal” 1997 e juntos, Bruce e Gere.
    Com o Tony , assim de imediato, me lembro de ter visto “A Maldição do Espelho” e “O bebê de Rosemary”. Mas, nunca me esqueço daquela série que eu gostava muito “The Persuaders” no início dos anos 70. Tony e Roger Moore , era muito gostoso, pela diversão e o carisma dos dois.
    ” Acorrentados ” , um grande filme !!
    Um abraço !!

3 Trackbacks

  1. […] O Oscar. Lembrando: em 1939, Hattie McDaniel – que fazia a criada de Scarlett O’Hara em … E o Vento Levou – tornou-se a primeira negra a ter uma indicação para o Oscar, como coadjuvante, e a primeira a levar a estatueta. Na categoria de ator ou atriz principal, o ganhador pioneiro foi Sidney Poitier, em 1963, por Uma Voz nas Sombras/Lilies of the Field. Ele já havia sido indicado em 1959 por Acorrentados/The Defiant Ones. […]

  2. […] autor de filmes excelentes e importantes, como, para citar apenas dois, Julgamento em Nuremberg e Acorrentados. Tem grandes atores no elenco: Oskar Werner, Simone Signoret, Vivien Leigh, José Ferrer. Teve oito […]

  3. […] Lancaster, Tony Curtis, Robert Mitchum e Frank Sinatra têm participações especiais no filme – fazem pequenos papéis, […]

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