A Teia de Renda Negra / Midnight Lace

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Feito meio século atrás, em 1960, A Teia de Renda Negra/Midnight Lace é um desses filmes que não envelhecem, que enfrentam muito bem a passagem do tempo. É um bom thriller, um bom filme de suspense. Doris Day demonstra mais uma vez que, além de excelente cantora, era uma grande atriz.

Começa com algo que – a não ser que a memória esteja me traindo – não era muito usual na época, mas que hoje é quase a norma, em especial nos filmes americanos: antes dos créditos iniciais, há uma seqüência inteira. Este é um pequeno detalhe, mas ele me chamou a atenção, ao rever o filme mais uma vez agora. É o seguinte: a tradição era aparecerem os créditos iniciais primeiro, a maior parte das vezes com os nomes dos atores e da equipe escritos isoladamente, sobre um fundo sem imagens em movimento.

Em A Teia de Renda Negra vemos uma tomada geral de Londres, para deixar bem explícito para o espectador onde se passa a ação, e sobre ela apenas o nome da produtora, a Universal, na época Universal International. Em seguida temos toda a sequência inicial: a personagem interpretada por Doris Day é levada até a porta do prédio da embaixada americana em Londres por um funcionário; há uma espessa neblina, o famoso fog londrino – algo que, com o passar do tempo, sumiria da paisagem, assim como o chapéu coco. O funcionário pergunta se ela precisa de um táxi, ela diz que não, que mora do outro lada da praça – e a câmara já havia focalizado a placa da Grosvenor Square.

Ela vai atravessar a praça, mas o fog é cerradíssimo, não se enxerga nada meio metro adiante do nariz. E ali, no meio da praça, uma voz estranha, aguda, ameaçadora e ao mesmo tempo com um toque quase brincalhão, que parece vir de vários lugares ao mesmo tempo, a chama pela nome – ela é a sra. Preston. Ela pergunta quem é, e a voz responde: “A senhora saberá quando chegar a hora. Logo antes de eu matá-la”.

O rosto de Kit Preston é tomado de pavor. Ela tenta andar mais depressa, bate num banco da praça, acelera os passos. Um novo close-up do rosto dela – e, com o nome Doris Day sobre o rosto dela, aí então começam os créditos iniciais.

          Depois do pavor inicial, outros sustos, outras ameaças

Ela chega a seu belo, rico, amplo apartamento absolutamente apavorada.

Tony, o marido (interpretado por Rex Harrison), está em casa quando Kit chega, tremendo de susto, de pavor. Ela conta o que aconteceu aos borbotões, e ele tenta tranqüiliza-la; diz que em Londres há muita gente engraçadinha, que gosta de fazer piada, de assustar as pessoas. Ele mesmo, Tony, acabou de ter seu chapéu – um chapéu caro, de grife – roubado num momento em que colocou a cabeça para fora do táxi.

Ao lado do prédio onde moram os Prestons, há uma obra – um prédio novo está sendo construído. Numa tarde em que Kit está voltando para casa, carregada de compras, há um acidente, uma viga se desprende, cai no chão, bem perto dela – Kit é salva pelo empreiteiro que está tocando a obra, um tal Brian Younger (interpretado pelo galã da Universal na época, John Gavin).

Num outro dia, toca o telefone, Kit vai atender, e é a mesma voz que ela havia ouvido na praça, com novas ameaças. Tony e Kit vão à Scotland Yard, relatam a história ao inspetor Byrnes (John Williams). O inspetor ouve com atenção o casal, mas faz diversas perguntas a Kit. Percebe-se perfeitamente que ele duvida um pouco da história – pode ser apenas uma mulher negligenciada pelo marido inventando coisas.

Kit e o espectador sabem perfeitamente que ela não está inventando histórias. Kit e o espectador ouviram a voz ameaçadora.

          O diretor David Miller não é Hitchcock, mas consegue criar suspense

Aos poucos, vão aparecendo informações que dão ao espectador um quadro sobre o casal. Kit é uma americana riquíssima, herdeira de uma fortuna. Estava de férias com sua tia Bea (a veterana Myrna Loy, elegantíssima, bela) num paraíso tropical, três meses antes da época retratada na narrativa, quando conheceu Tony, um inglês também rico, presidente de uma empresa na área financeira. Casaram-se – Kit está, portanto, há pouquíssimo tempo em Londres. Tem apenas uma conhecida, a vizinha Peggy (Natasha Parry). Felizmente para ela, a tia Bea está chegando a Londres para uma temporada com a sobrinha.

Mas os telefonemas ameaçadores continuam. O inspetor Byrnes parece cada vez desconfiado de que tudo é uma invenção.

E surgem suspeitos. O filho da empregada de Kit, Malcolm (Roddy McDowall), tipinho sinistro, pode ser o bandido. Ou quem sabe o empreiteiro boa pinta da construção ao lado?

O diretor David Miller não é nenhum Hitchcock – mas consegue, sim, criar um belo clima de suspense. É impossível o espectador não ter pena de Kit, não torcer por ela.

          Uma atriz no auge do sucesso – mas marcada por rótulo bobo

Doris Day estava no auge de sua carreira como atriz quando fez o filme.

Sua primeira carreira havia sido a de cantora. Começou cedíssimo, aos 16 anos, em 1940. Foi a voz da orquestra de Les Brown até 1946 – e a voz dela era um instrumento da orquestra, como se fazia na época, como Frank Sinatra era um instrumento da orquestra de Tommy Dorsey no abençoado período 1940-1942. No cinema, ela começou em 1948. Fez musicais, comédias, dramas – fez até western musical, como a Calamity Jones do título original de Ardida Como Pimenta, de 1953. Brilhou em Ama-me ou Esquece-me, de 1955, a cinebiografia de Ruth Etting, cantora dos anos 20 que era amante de um gângster. Em 1956, foi a loura escolhida por Hitchcock para a refilmagem americana de O Homem Que Sabia Demais; o filme é uma beleza, um grande clássico, mas acabou deixando Doris Day marcada como a cantora de “Che Será, Será” – o que é um reducionismo absurdo para um cantora de tamanho talento e de repertório vasto, dos clássicos da grande música americana até o pop, passando até pela bossa nova.

Em 1959, um ano antes deste A Teia de Renda Negra, tinha feito Confidências à Meia-Noite/Pillow Talk, ao lado do galã Rock Hudson, e em seguida faria várias outras comédias românticas de tremendo sucesso de público, como Já Fomos Tão Felizes, por exemplo, que atrairiam para ela o rótulo de intérprete de virgens – firmes, obstinadas, irredutíveis, eternas virgens. A simplificação pegou – simplificações pegam facilmente. Ficaram o carimbo, a marca, a estampa, o selo: Doris Day, a virgem das comedinhas bobas.

Sua interpretação como Kit Preston, excelente, mostra o quanto o rótulo é bobo: Doris Day é uma grande atriz, tão boa no musical e na comedinha romântica (que fizeram dela, nessa época, a atriz de maior bilheteria nos Estados Unidos) quanto no drama.

A atriz foi indicada para o Globo de Ouro pelo papel. Um ano antes, tinha sido indicada ao Oscar por Confidências à Meia-Noite.

Vejo no iMDB que, em sua autobiografia, Doris Day conta que, para se preparar para as cenas em que Kit Preston está aterrorizada, ela se lembrava da época de seu primeiro casamento, com o trombonista Al Jorden. Foi um casamento infernal: o marido, machão abusivo, a maltratava, e uma vez, quando ela estava grávida, tirou-a à força da cama e a jogou contra a parede do quarto.

          Atenção: a partir daqui, o texto pode ser um spoiler

Leonard Maltin, que dá 3 estrelas em 4 para o filme, diz que a trama é “inacreditável” – mas que o filme vale pelos astros do elenco e pela ambientação em Londres. O Guide des Films de Jean Tulard diz que o final é “banal”.

Não acho a trama inacreditável ou implausível, de maneira alguma. Mas acho que, de fato, o desfecho não chega a ser surpreendente – embora haja, ao longo do filme, sem dúvida, um bom clima de suspense.          

Revendo o filme agora (tinha visto quando adolescente, nos anos 60, em Belo Horizonte, e revisto depois em 1995 e 2002, sem, no entanto, fazer anotações sobre ele), me lembrei bastante de À Meia Luz/Gaslight, de George Cukor, de 1944, em que a personagem interpretada por Ingrid Bergman, também num apartamento numa Londres tomada pelo fog, vai sendo atormentada por fatos ameaçadores, até o ponto de quase enlouquecer. E me lembrei também de Disque M Para Matar, de Alfred Hitchcock, de 1954.

Com o grande filme do mestre, este aqui tem um ponto específico em comum: nos dois, o inspetor da Scotland Yard é interpretado pelo mesmo ator, John Williams, inglês nascido em 1903 e morto em 1983, que Hitchcock dirigiu também em Agonia de Amor/The Paradine Case, de 1948, e Ladrão de Casaca/To Catch a Thief, de 1955, homônimo do compositor de dez de cada dez filmes de Spielberg. John Williams é um absoluto brilho – ele rouba todas as cenas em que aparece.

A Teia de Renda Negra/Midnight Lace

De David Miller, EUA, 1960

Com Doris Day (Kit Preston), Rex Harrison (Tony Preston), John Gavin (Brian Younger), Myrna Loy (tia Bea), Roddy McDowall (Malcolm), Herbert Marshall (Charles), Natasha Parry (Peggy), Hermione Baddeley (Dora), John Williams (inspetor Byrnes)

Roteiro Ivan Goff e Ben Roberts

Baseado na peça Matilda Shouted Fire, de Janet Green

Fotografia Russell Metty

Música Frank Skinner

Produção Ross Hunter, Universal International. DVD ClassicLine

Cor, 108 min

R, ***

Tìtulo em Portugal: O Laço da Meia-Noite. Título na França: Piège à Minuit.

5 Comentários

  1. Postado em 24 fevereiro 2011 às 3:44 pm | Permalink

    Olá,

    Adorei seu comentário… Doris Day, realmente… foi uma mulher fantástica e de muitos talentos…

    Abraços…

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 24 fevereiro 2011 às 6:35 pm | Permalink

    Olá, Kleber. Muito obrigado pela sua mensagem.
    Mas eu diria que a Doris Day é uma mulher fantástica – porque a obra dela está aí pra gente curtir, e também porque ela está viva…
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Postado em 20 maio 2011 às 6:11 am | Permalink

    Doris Day foi uma descoberta tardia minha, no sentido da grande actriz e cantora que ela sempre foi. Até ela me maravilhar (comecei então a comprar muitos discos, sobretudo originais dos anos 50 e a ver todos os filmes que conseguia apanhar) Doris Day era apenas a intérprete do célebre tema do filme do mestre Hitch (é mesmo verdade que quando um estigma se cola a alguém é muito difícil de ser retirado). Hoje continuo a achá-la uma mulher linda em todos os sentidos, ainda mais quando soube do seu grande carinho pelos animais – uma defensora acérrima, sem qualquer contemplação pelos infractores dos direitos desses nossos verdadeiros amigos.
    Este “Midnight Lace” nunca vi, vou ver se o encontro na Amazon.

  4. Debora Santos
    Postado em 25 julho 2011 às 8:17 pm | Permalink

    Texto excelente. Li com muito prazer. Sempre gostei de Doris Day. Este filme é raramente reprisado pelos canais que passam filmes clássicos. Há muito tempo não revejo. Como consolo, “fragmentos” no you tube.
    Um abraço.

  5. Rodrigo Ruiz
    Postado em 20 novembro 2011 às 8:56 pm | Permalink

    É um excelente thriller sem dúvida. E a música tema Midnight Lace, belíssima, foi gravada na época por algumas orquestras,entre as principais: Ray Ellis, David Carroll e Ray Conniff.

3 Trackbacks

  1. […] Doris Day – tanto a cantora quanto a atriz, tanto a atriz dramática (Ama-me ou Esquece-me, 1955, A Teia de Renda Negra, 1960) quanto a atriz das comedinhas românticas (Confidências à Meia-Noite, Já Fomos Tão […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Anjo / Angel em 26 abril 2016 às 6:43 pm

    […] vemos, logo após os créditos iniciais bem rápidos – que trazem os nomes de Marlene Dietrich, Herbert Marshall e Melvyn Douglas, nesta ordem, e diminuindo de tamanho de um para outro – é de um pequeno […]

  3. […] fase inglesa. Mesmo na fase das comedinhas românticas dos anos 60, fez outras coisas – como A Teia de Renda Negra/Midnight Lace, também de 1960, um bom thriller passado em Londres, numa atmosfera cheia de névoa e […]

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