Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças / Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Nota: ★★★★

Texto de André Azenha, convidado especial (*). Quem nunca desejou apagar alguém da memória? Seja pra esquecer um grande amor, ou uma pessoa que lhe tenha feito mal? Esse é o tipo de situação que se repete não uma, duas, mas várias vezes durante nossas vidas. Nos apaixonamos, amamos, compartilhamos nosso dia-a-dia.

 Depois a relação se desgasta, não dá certo, acaba. Não importa quem rompeu, se foi bilateral, se acabou bem, mal. Mergulhamos em conflitos pessoais. Refletimos, nos arrependemos, e até sentimos raiva. E é nessa hora que, se pudéssemos, “deletaríamos” tudo o que vivemos naqueles últimos tempos, sem parar para pensar que talvez tenhamos presenciado um aprendizado.

Pois é, esse turbilhão de pensamentos, sentimentos e sensações é normal. Devíamos estar calejados, porém sempre que volta a acontecer nos flagramos sofrendo tudo novamente, igualzinho. E é simplesmente genial o fato de Charlie Kaufman, roteirista criativo, autor de textos no mínimo inusitados como os dos filmes Quero ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002), ambos em parceria com o diretor Spike Jonze, e Natureza Quase Humana, dirigido por Michel Gondry (que fez videoclipes da banda inglesa Radiohead), tenha realizado seu trabalho mais original a partir de algo tão batido na vida do ser humano.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, cujo título foi retirado do poema “Eloisa to Abelarde”, de Alexander Pope, que Charlie Kaufman já havia usado em Quero Ser John Malkovich, é uma pequena obra-prima do século XXI, um trabalho cinematográfico que paquera a ficção-científica, mas usa poucos – e eficientes – efeitos visuais, ancorando-se principalmente em seu roteiro inovador (premiado com justiça no Oscar) e um excelente elenco. É um filme tecnicamente simples, mas que atinge profundamente o espectador.

Para dar vida a esse romance contemporâneo, os produtores escolheram um casal nada convencional: Jim Carrey e Kate Winslet.

Ele, provando ser um bom ator dramático (já havia mostrado o potencial em O Show de Truman), injustamente ignorado nas premiações, interpreta Joel, sujeito tímido, que, segundo ele mesmo, se apaixona por toda mulher que lhe retribui qualquer tipo de contato.

Ela, em mais uma atuação de encher os olhos, foi indicada ao Oscar (prêmio que só levaria em 2009, por O Leitor), ao viver Clementine, garota maluquete, tagarela, temperamental, que troca a cor do cabelo conforme o sentimento da vez.

A escalação da dupla, se podia causar algum tipo de dúvida antes de o longa ganhar as salas de projeção, tornou-se um tremendo acerto. Há uma química diferente entre eles, que conseguem transmitir, beirando a perfeição, as qualidades e os defeitos de duas pessoas extremamente diferentes, que ao mesmo tempo se completam. Trata-se de um romance, mas sem a pompa hollywoodiana. São pessoas reais, que poderiam ser nossos vizinhos. E por isso mesmo há uma identificação entre personagem e platéia. Torcemos por eles.

Mas não são apenas os dois que chamam a atenção. Cada ator tem seu momento. Tom Wilkinson, Mark Ruffalo, Elijah Wood, Kirsten Dunst e o restante do elenco. Todos, sem exceção, protagonizam pelo menos uma grande cena. E não é necessária uma catarse para cada artista revelar seus dotes dramáticos. A entrega de cada ator está embutida em pequenos gestos, olhares, momentos quase silenciosos.

Joe e Clementine namoravam, mas, num impulso gerado pelo desgaste da relação, ela procura uma clínica (cujo proprietário é Tom Wilkinson) que apaga as memórias das pessoas. Ao descobrir a ação da amada, Joe decide fazer o mesmo. Só que, durante o processo, se arrepende, e tenta salvar suas lembranças, num conflito que acontece dentro de seu próprio cérebro.

O texto não é linear. É “viajandão”. Exige certa atenção do público. E Gondry soube como dirigir esses instantes sem recorrer a clichês, filmando a cidade em tons quase cinzentos, utilizando o frio para dar ênfase à solidão dos personagens, e alternando sequencias sublimes, como aquela em que Carrey e Winslet deitam sobre um lago congelado, ou nas cenas em que a “memória” de Joe luta, dentro da sua mente, para não ser apagada. Uma história que acredita no destino, porém não dá o seu recado de maneira brega nem didática.

Brilho Eterno ainda foi premiado em montagem e roteiro no Bafta, atriz (Kate) e roteiro pelos Críticos de Londres, e venceu mais 30 prêmios ao redor do mundo. Foi o melhor longa de 2004 (junto com Menina de Ouro, vencedor de quatro Oscars no mesmo ano, incluindo filme e atriz para Hilary Swank), e um dos melhores e mais sensíveis desta década.

E mesmo que um dia a tal clínica especializada em apagar as lembranças das pessoas possa existir, eis um filme apaixonante que jamais sairá da memória de quem o assistir. Afinal, quando nos apaixonamos, mesmo que a relação acabe, e nos apaixonemos de novo por outro alguém, não esquecemos, por mais que tentemos acreditar, das paixões passadas.

(*) André Azenha é jornalista, crítico de cinema, assessor de imprensa e escritor, autor do CineZen, um site rico, variado, cheio de críticas, notícias.

Recentemente, André passou a publicar no CineZen, semanalmente, algumas das minhas anotações, numa iniciativa que me deixou honrado. Ele me enviou seu texto sobre Brilho Eterno, para que o utilizasse se tivesse interesse. Brilho Eterno me impressionou demais, a tal ponto que jamais consegui escrever uma linha sobre ele, e é um filme que precisaria mesmo estar aqui. Perfeito: então, o filme agora está no 50 Anos, no texto de André Azenha. Uma das poucas exceções, já que, como digo na Apresentação, este é um site de textos meus, pessoais e intransferíveis.

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças / Eternal Sunshine of the Spotless Mind,

De Michel Gondry, EUA, 2004.

Com Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Elijah Wood, Mark Ruffalo, Tom Wilkinson, Jane Adams, Deirdre O’Connell

Roteiro Charlie Kaufman

Baseado em história de Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth.

Fotografia Ellen Kuras

Música Jon Brion

Produção Focus Features, Anonymous Content, This Is That Productions. Estreou no Brasil 23/07/2004

Cor, 108 min

****

14 Comentários

  1. Waldemar Lopes
    Postado em 18 Maio 2011 às 12:52 am | Permalink

    Lindo texto para um filme lindo, poéticamente revolucionário de virar a gente do avesso. Adoro o Jim e a Kate, eles tem química e nos encantam. As lembranças são prêmio e castigo, podemos fugir das pessoas e dos lugares, mas não delas. Foi um dos grandes filmes daquele ano, para mim muuuuuuuuuuuuuuito melhor que Menina de Ouro, que poderia ser Menina de Prata. “Brilho Eterno” brilha mais e você também brilha, André, e o nosso querido Sérgio faz as vezes de um céu generoso e acolhedor. Parabéns!

  2. Waldemar Lopes
    Postado em 18 Maio 2011 às 12:53 am | Permalink

    Gente, desculpem o acento indevido em “poeticamente”! Depois da meia-noite, durante a semana, viro abóbora hehe!

  3. Postado em 18 Maio 2011 às 4:08 am | Permalink

    Tenho uma opinião diametralmente oposta. Inclusivé, este foi um daqueles filmes que não consegui chegar ao fim – coisa muito rara, que só me acontece quando a paciência passou mesmo dos limites.

  4. Postado em 18 Maio 2011 às 3:49 pm | Permalink

    Obrigado Waldemar, pelas palavras. E Rato, poxa, uma pena que não tenha gostado do filme. Há várias cenas bem divertidas também, como aquela em que o Jim Carrey aparece criança, embaixo da mesa… abraços, André

  5. Jussara
    Postado em 18 Maio 2011 às 9:30 pm | Permalink

    Me sentia um E.T., um caso sem recuperação, por achar que era a única pessoa que não havia gostado desse filme, na face da Terra.
    Quando peguei pra assistir ele já era super badalado, e acabei colocando muita expectativa. Achei uma droga. Como o roteirista é o mesmo de Quero ser John Malkovich, isso explica meu desgosto. Detestei QSJM com todas as minhas forças.
    Mas graças ao Rato, agora sei que não estou sozinha. Ufa! Tô salva.

    Parabéns pelo texto, André (só não concordo com o “desgaste na relação” – acho que ele ainda gostava dela, mas ela não gostava mais dele).

  6. Postado em 19 Maio 2011 às 1:43 pm | Permalink

    Oi Jussara! então, sobre o desgaste. tem cenas que ele já demonstra impaciência com ela, mesmo gostando, as mudanças de humor dela… etc… bjs,

  7. Jussara
    Postado em 20 Maio 2011 às 1:40 am | Permalink

    Ih, não me recordo disso, André. Faz muito tempo que vi o filme, e só lembro de alguns fatos isolados. Mas se vc tá falando, eu acredito.

  8. Postado em 20 Maio 2011 às 3:31 pm | Permalink

    Oi Jussara! quem sabe é uma deixa pra revê-lo? 🙂 bjs

  9. Danilo Vicente
    Postado em 21 Maio 2011 às 12:31 pm | Permalink

    Eu gostei. Minha esposa ADORA. Gosto muito de Quero ser John Malkovich, do estilo. Brilho vai na mesma linha, bacana. Preciso reassistir para lembrar direito!

  10. Jussara
    Postado em 22 Maio 2011 às 4:16 pm | Permalink

    Oi, André. Eu tinha comentado isso com o Sérgio. Na época, um amigo me disse que era um filme pra ser visto mais de uma vez. O Sérgio tb acha que eu deveria rever. Vou pensar no caso. hehehe

  11. Postado em 23 Maio 2011 às 12:03 pm | Permalink

    Oi Danilo e Jussara! Bacana! tem filmes que vamos curtindo com o tempo. vendo e revendo hehe…

  12. José Luís
    Postado em 25 outubro 2011 às 7:46 pm | Permalink

    Lembrei-me agora que já tentei ver este filme mas não consegui chegar ao fim.
    Não me lembro de mais nada sobre o filme.
    Vi agora no jornal Público e os críticos dão-lhe 3 ou 4 estrelas e um deles dá-lhe “bola preta” o que significa “a evitar”.
    Portanto mais um que não gostou – Jussara já somos quatro!

  13. Patrícia Pantoni
    Postado em 8 Fevereiro 2012 às 1:31 pm | Permalink

    Este filme me parece estar na tênue linha entre o ame ou odeie. A mim, foi uma grata surpresa, mas gostaria muito que vc, Sérgio, o tivesse comentado… fiquei curiosa sobre suas impressões.

    abraço

  14. amaral milhomem
    Postado em 22 Maio 2013 às 3:28 pm | Permalink

    Um dos melhores argumentos/roteiro que ta tive a chance de presenciar. Kaufman e mesmo um mestre para bolar roteiros i.stigantes e provocativos. A maioria dos meus amigos acharam uma tremenda mer….. pensei que, como nao sao apreciadores do genero, estavam sendo simplistas e nem dei muita moral, mas agora vejo que muita gente que entende do assunto (como seus leitores) tiveram a mesma impressao. Creio que a forma do roteiro inovadora pode provocar certo estranhamento na hora transmitir a mensagem desejada, o que claramente se percebe quando tambem criticam de maneira negativa Quero Ser Jonh Malcovich. Jim e Kate estao otimos e a foografia captam bem o que seria a mente de uma pessoa apaixonada ( o que A Cela nao coseguiu basear sua narrativa principal). Creio que quem nao goste de Brilho Eterno provavelmente odiara Jonnie Darko, Almas a Venda, QSJM, Brazil o Filme, Violencia Gratuita, A Viagem de 2012, pois o roteiro se apresenta de maneira pouco usual e as vezes nao conseguem ultrapassar as barreiras de nossa concepcao, o que a maquina de Brilho Eterno consegue. Essa questao dos roteiros.nao conseguir nos atingir como os realizadores esperam afontece con certa frequencia, eu mesmo achei chatissimo o formato de Guerra ao Terror achou de contar a historia, mesmo sendo considerado por muita gente um clasico e vencer ( meu Deus, quanta injustica) Avatar no Oscar. Bela rezenha Andre.

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  3. Por 50 Anos de Filmes » Argo em 10 Abril 2013 às 10:24 pm

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  4. Por 50 Anos de Filmes » Mildred Pierce em 16 junho 2013 às 3:59 pm

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