Vítimas da Guerra / In Tranzit


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2010: O orçamento deve ter sido alto, a produção – com dinheiro da Inglaterra e da Rússia – é bem cuidada. Os temas são importantes, a época e o local são de grande valor histórico, dá muita vontade de saber mais sobre aquilo. No entanto, Vítimas da Guerra/In Transit não chega a ser um bom filme.

Claro, esta é apenas a minha opinião – como, de resto, tudo o que está escrito aqui. Não sou dono da verdade. Mas, para mim, é isso; uma pena, mas não é um bom filme.

Letreiros logo no início do filme situam o espectador: “Leningrado, URSS, 1946. O primeiro inverno depois da Segunda Guerra Mundial. Baseado numa história real… Campo de mulheres em trânsito nº 3459.” As reticências são do letreiro do filme, e não minhas.

Com algum esforço, dá para imaginar as dimensões infinitas do inferno daquele lugar, naquela época, poucos meses após o fim da guerra: centenas de milhares de pessoas deslocadas de suas casas, de suas regiões, e o governo da federação de países mais extensa do mundo, implantado menos de 30 anos antes, ainda no meio de uma outra guerra mundial, após uma revolução feita para mudar absolutamente toda a estrutura da sociedade, tentando colocar alguma ordem no absoluto caos.  

         Prisioneiros alemães sob a guarda de menos de dez mulheres

Quando a ação começa, aquele campo de mulheres em trânsito – não, não dá, nem com esforço, para imaginar como era um país com mais de 3.500 campos de pessoas em trânsito – está sendo esvaziado: o último grupo é levado embora em caminhões. O campo nº 3459 está nas mãos de um pequeno grupo de mulheres do Exército Vermelho, menos de dez. Logo após a saída das últimas refugiadas em trânsito, chegam novos caminhões e despejam ali 56 alemães prisioneiros de guerra; haviam sido encontrados escondidos em uma mina, não se tinha para onde levá-los, depositam-nos ali, sob a guarda de menos de uma dezena de mulheres.

A chefe delas, uma capitã, Olga (Tatyana Yakovenko), é uma figura um tanto tíbia, fraca. Uma cabo, Vera (Ingeborga Dapkunaite), de tanto ódio pelos alemães que mataram toda a sua família, agora que tem alguns alemãos sob sua guarda, solta sobre eles uma violência que chega ao sadismo. A cozinheira, Zina (Natalie Press), uma pobre coitada, após anos de duríssimas privações e solidão, vai se engraçar com o primeiro prisioneiro que passar mais perto.

De todo o grupo, a figura mais complexa é a médica, Natasha (Vera Farmiga). Tem um pouco de pena daqueles farrapos humanos que tem que atender, com pouquíssimos alimentos e remédios. E não tem lá muita simpatia pelo comandante local do glorioso Exército Vermelho, o coronel Pavlov (John Malkovich), nem propriamente pelo regime stalinista. Além de ter que cuidar dos prisioneiros, toma conta também do marido, Andrei (Yevgeni Mironov), um ex-oficial que enlouqueceu completamente durante a guerra.

Entre os prisioneiros – as militares que tomam conta do campo ficarão sabendo disso através do coronel Pavlov –, há importantes criminosos de guerra, oficiais da SS responsáveis pela chacina de dezenas de civis, agora escondidos sob nomes falsos. O coronel Pavlov vai encarregar a médica Natasha de descobrir quem são esses criminosos.

         O filme se leva a sério demais, é pomposo – fica falso

Ou seja: temos aí elementos dramáticos fortes, tudo para resultar numa boa trama, numa boa história, num bom filme.

E o que sai é uma decepção.

Para mim, o erro é do roteiro e da direção – ou seja, as bases, os elementos mais importantes de um filme. Com roteiro e direção errados, é claro que não dá para sair nada que preste.

O roteiro é ruim. A trama é mal desenvolvida, mal costurada. Os personagens não são bem desenhados.

E a direção é toda absolutamente falha, em todos os quesitos. Ainda não li nada sobre o filme (só peguei os nomes dos atores e dos personagens), e pode até ser que esse Tom Roberts já tenha feito filmes de qualidade. Pode até ser. Mas aqui ele errou tudo.

É pretensioso. Dá o tempo todo a impressão de que o filme foi feito para ser um marco, um novo A Lista de Schindler. Leva-se a sério demais. É pomposo, metido a besta. Fica falso.

A sensação de falsidade é fortemente acentuada pelo fato de que russos e alemães todos se comunicam numa boa, na maior – porque estão todos falando inglês.

Tudo bem. Dá para entender as razões industriais – já falei nos comentários aqui diversas vezes sobre isso. Grandes produções, produções caras, para se pagar, têm que ser faladas em inglês, determina o código não escrito do grande cinemão, seja ele americano ou europeu. O maior mercado consumidor é o de língua inglesa, Estados Unidos sendo o pedaço mais importante dele, sem contar Canadá e as próprias Ilhas Britânicas.

Tudo bem – já vimos romanos da época de César, egípcios, palestinos, gregos, até gente da pré-história, antes do desenvolvimento de qualquer das línguas conhecidas hoje, ou 20 séculos atrás, falando em inglês nos filmes. Tudo bem. Mas vermos russos e alemães, gente do povo, gente simples, sem qualquer barreira de língua, se entendendo perfeitamente em inglês… Qualquer produto paraguaio é mais legítimo do que isso.

Mas a questão da língua, repito, por mais importante que seja, só acentua a sensação de falsidade. O problema básico é que o roteiro é ruim, os personagens não são bem desenhados, a trama é flácida, cheia de furos – e todo o tom do filme é pomposo. Quer ser o que não é.

Falta talento.

         A insuportável praga John Malkovich – e a bela e competente Vera Farmiga

A rigor, já chega, já poderia parar por aqui, mas não dá para resistir: é preciso dizer que, a cada filme que passa, vai ficando mais insuportável ver John Malkovich. John Malkovich é uma das piores pragas das últimas três décadas de cinema.

Há muitos atores que interpretam a si mesmo ao longo da vida inteira. Credo, a relação seria infinita: Cary Grant, Gary Cooper, John Wayne, Jack Nicholson, o Robert De Niro dos últimos tempos, Al Pacino quando fica preguiçoso. Mas ninguém é tão canhestramente caricatura de si mesmo quanto John Malkovich. A persona John Malkovich subiu à cabeça do ator John Malkovich, e ele a cada filme força mais a barra para se parecer com a persona dele. É absolutamente insuportável. É vomitativo.

Acho que, pelo bem do que me resta de sanidade mental, vou me proibir de ver filmes com esse pentelho.

No sentido absolutamente inverso, há Vera Farmiga.

Vera Farmiga é uma bela atriz. Muito provavelmente nunca vai virar uma grande estrela. Pouquíssimas pessoas viram grandes estrelas, no meio de tantas centenas e centenas de atores talentosos. A sorte não dá pra todos, como diz Paulo Vanzolini; muito poucos são os escolhidos. Outro dia minha amiga Jussara comentou isso a respeito de Jennifer Lopez: com tanta gente de talento muito maior que o dela, como foi que J.-Lo virou estrela?

Bastante bonita, Vera Farmiga não tem, nem de longe, uma beleza acachapante, deslumbrante. Tem talento, e, parece, tenacidade. Reparo nela faz bastante tempo. Acho que, felizmente, sou mesmo mais interessado em atrizes que em estrelas.

Fez um bando de papéis secundários – vários deles em filmes importantes, de bons diretores. Foi devagarinho alcançando papéis mais importantes. Este Vítimas da Guerra é, salvo engano, o primeiro filme em que Vera Farmiga faz a protagonista, a principal personagem feminina.

Pesquisinha.

É de New Jersey, a moça, nascida em 1973; cacilda, é descendente de ucranianos! Começou a carreira na TV, em 1997 (só para comparar, Katherine Heigl, que já teve umas duas ou três chances como protagonista, nasceu depois, em 1978, e começou mais cedo na carreira, em 1992). Passou por várias séries de TV, inclusive Law & Order e Touching Evil. Teve papéis pequenos em Outono em Nova York, de 2000, O Segredo de Neverwas, de 2005, Sob o Domínio do Mal, a refilmagem de 2004, Invasão de Domicílio/Breaking and Entering, o último filme de Anthony Minghella, de 2006, Os Infiltrados, de Scorsese, também de 2006. Na versão para o cinema do livro (que jamais deveria ter virado filme – é para ser livro, apenas) O Menino do Pijama Listrado, feito em 2008, fez a mãe do menino. Também em 2008, teve um papel importante, embora pequeno, em um ótimo filme, Faces da Verdade/Nothing But the Truth. E em 2009 foi a protagonista de Amor Sem Escalas/Up in the Air, ao lado de George Clooney – e recebeu uma indicação ao Oscar. Já recebeu oito prêmios e 12 outras indicações, em diversos festivais.

Merece muito respeito, essa moça.

Pena que seu primeiro papel principal tenha sido neste filme fraco.

Vítimas da Guerra/In Tranzit

De Tom Roberts, Inglaterra-Rússia, 2006

Com Vera Farmiga (Natalia), Daniel Brühl (Klaus), John Malkovich (coronel Pavlov), Katya Chunkova (Nina), Ingeborga Dapkunaite (Vera), Thomas Kretschmann (Max), Oleg Kulikovich (Muller), Tatyana Yakovenko (Olga)

Roteiro Tom Roberts, Natalia Portnova e Simon van der Borgh

Fotografia Sergei Astakhov

Produção Thema Productions, Peace Arch Films

Cor, 113 min

**

2 Comentários

  1. Daniele
    Postado em 31 março 2013 às 8:30 pm | Permalink

    E Sérgio Vaz jura que sabe fazer crítica!

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 1 abril 2013 às 2:47 pm | Permalink

    Não é verdade, Daniele. Nunca jurei que sei fazer crítica. E sempre digo que não faço críticas: faço anotações com minhas impressões pessoais sobre os filmes que vejo.
    Sérgio

3 Trackbacks

  1. […] o papel de Buck Howard, que é assim uma espécie de John Malkovich, John Malkovich se dá bem. Afinal, John Malkovich é o melhor intérprete de John […]

  2. […] para conquistar as graças de Victoria. Albert é sobrinho e herdeiro do rei Leopold da Bélgica (Thomas Kretschmann), outro irmão do pai de Victoria. O rapaz é forçado a falar apenas em inglês, e a memorizar […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Amor Sem Escalas / Up in the Air em 14 setembro 2011 às 3:22 pm

    […] com uma mulher que aparentemente é idêntica a ele, Alex Goran (na bela pele da sempre ótima Vera Farmiga). Conhecem-se num bar de belo hotel, comparam a quantidade de cartões de crédito e de fidelidade […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*