Vidas Que Se Cruzam / The Burning Plain

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Nota: ★★½☆

Anotação em 2010: O título brasileiro do primeiro-longa metragem dirigido pelo mexicano Guillermo Arriaga define não só o próprio filme como também o estilo dos roteiros do autor. Exatamente como em 21 Gramas, de 2003, e Babel, de 2006 (os dois dirigidos pelo também mexicano Alejandro González Iñárritu), Vidas Que Se Cruzam apresenta diversos personagens como se pusesse na mesa as várias peças de um quebra-cabeças, que deverão ir sendo encaixadas ao longo da narrativa.

Vidas que se cruzam.

O filme abre com um plano geral de uma planície – há montanhas ao fundo – em que há um incêndio. Corta, e vemos um plano mais aproximado do que é que está pegando fogo: uma casa; na verdade, um trailer.

O título original do filme é The Burning Plain – planície em chamas.

Corta, e temos uma mulher nua sentada em uma cama. Ela dá uma ordem seca para o homem que está deitado: “Levante-se”. Ele pede mais cinco minutos de sono, ela repete a ordem seca: “Levante-se”. Ela mesma se levanta, nua – a vemos pelas costas -, pega um cigarro, aproxima-se da janela. Pode ser vista, nua, por quem passa lá fora; não está nem ligando para isso. A mulher, interpretada por Charlize Theron – veremos depois que se chama Sylvia –, tem uma expressão de angústia profunda. 

Uma amiga, Laura (Robin Tunney), vem pegar Sylvia para levá-la para o trabalho. Um homem com a barba por fazer, cabelos longos, está observando, na rua; quando o carro com Laura e Sylvia começa a andar, o homem entra num carro, passa a segui-las.

         Uma profissional competentíssima, uma mulher em profunda angústia     

Veremos em seguida que Sylvia é a gerente de um restaurante fino, elegante, numa colina, debruçado sobre um mar bravio – o filme não diz explicitamente, mas Sylvia vive no Oregon, no extremo noroeste dos Estados Unidos. É uma profissional extremamemente competente, dá ordens na cozinha (vemos que o homem com quem ela havia dormido trabalha na cozinha do restaurante), dá ordens no belo salão do restaurante, recebe pessoalmente os clientes mais importantes, dá sugestões de vinhos a quem pede um tratamento diferenciado. Ao mesmo tempo, paralelamente, como se tivesse esquizofrenicamente duas caras, duas personalidades, é uma pessoa profundamente angustiada, se automutila, e trepa insaciavelmente com qualquer um que aparece.

O filme nos dá esse retrato de Sylvia nos primeiros dez minutos, com bastante competência. E é preciso notar que a lindérrima Charlize Theron, essa mulher que me parece a segunda coisa mais bela que a África do Sul deu ao mundo – depois da extraordinária lição de reconciliação levada a cabo por Nelson Mandela –, mais uma vez faz um filme em que é maquiada para parecer menos bela do que é. (Em Monster – Desejo Assassino, conseguiram transformá-la literalmente em um monstro.) Sua Sylvia não tem glamour: a beleza faiscante da atriz é sombreada pela expressão de angústia.

         Diversos outros personagens, outras histórias

Paralelamente, enquanto vai nos apresentando Sylvia, o roteirista e agora diretor Guillermo Arriaga nos mostra seus outros personagens:

* Há um mexicano, Nick (interpretado pelo bom ator português Joaquim de Almeida), que vive no Novo México e tem um caso com uma mulher casada, Gina (Kim Basinger); os dois morrem no incêndio do trailer mostrado nas primeiras seqüências do filme; morreram trepando, segundo constatou a polícia;

* Há o garoto Santiago (J.D. Pardo), filho de Nick, de uns 16, 17 anos, mais seu irmão e sua mãe. Santigo é que conta para o irmão e um amigo o que ficou sabendo através da polícia, diante das cinzas que restaram do trailer, que ficava estacionado no meio de uma grande planície, um deserto, longe de tudo. Todo mundo na região ficou sabendo que Nick e Gina tinham um caso, e que morreram queimados juntos. A mãe de Santiago, mulher de Nick, ficou sabendo – e, cheia de humilhação, vergonha e ódio, amaldiçoa o marido morto.

* Também o marido de Gina, Robert (Brett Cullen), naturalmente, ficou sabendo do escândalo. Vai ao enterro de Nick amaldiçoar aos berros o homem que comia sua mulher. Gina e seu marido têm quatro filhos – a mais velha deles, Mariana (Jennifer Lawrence), de uns 16 anos, já sabia, fazia algum tempo, da infidelidade da mãe.

* Santiago procura Mariana; quer saber como era a história paralela, secreta, de seu pai, com a mãe da garota. Vão acabar ficando muito próximos, o filho do pai infiel e a filha da mãe infiel (na foto).    

* E ainda há um outro grupo de personagens: uma dupla de amigos que ganha a vida jogando pesticidas em plantações, de um pequeno avião, mais a filha de um deles, Maria (Tessa Ia), garota de uns 12 anos, esperta, inteligente, que participa do trabalho com o pai e com o amigo dele, voa com eles, trabalha como navegadora, dando coordenadas através de um GPS. Maria e seu pai (Danny Pino) conversam às vezes em espanhol, às vezes em inglês; o amigo do pai, Carlos (Jose Maria Yazpik), só fala espanhol.

Exatamente como em 21 Gramas, como em Babel, o roteiro de Guillermo Arriaga vai entremeando as histórias desses vários personagens. E será só lá pela metade do filme que o espectador perceberá que Arriaga usou um truque.

         Muitos elogios ao filme

 Parece que foi bem recebido, de maneira geral, esta estréia de Arriaga como diretor (ele havia dirigido apenas dois curta-metragens, antes). O Los Angeles Times teria dito que o filme é “poderoso, profundo e maravilhosamente filmado”, segundo diz a capa do DVD.

 Vejo no AllMovie:

 “Como seu trabalho como roteirista em Babel, 21 Gramas e Amores Perros, a estréia de Guillermo Arriaga na direção é um drama complexo, emocional, que não se limita a uma única narrativa. Em vez disso, The Burning Plain pula para trás e para frente através de quatro diferentes épocas e histórias. (…) Como as vidas de seus personagens, este filme é emocionalmente devastador, enquanto a audiência testemunha a crueldade que as pessoas podem causar aos outros, e a si mesmas.”

 E mais tarde: “Apesar de seus defeitos, The Burning Plain é tecnicamente forte. O diretor de fotografia Robert Elswit, que fez tomadas belíssimas de paisagens em filmes como There Will Be Blood e Syriana, traz seu talento para as histórias passadas no Sul, enquanto John Toll captura belamente o cinzento de Portland. O montador Craig Wood faz com talento as transições entre as diferentes histórias, permitindo que as tomadas sirvam, elas próprias, como chaves para o mistério que começa com o plnao inicial de um trailer incendiado no deserto do Novo México.”

         Direção de atores fraca. E um gosto forte de artificialidade

Isso colocado, vou dar minha opinião pessoal.

É um filme muito bem feito, sem dúvida alguma. Não há como discutir isso, ou negar.

Embora a fotografia seja de fato sensacional, assim como a montagem, a música (falo dela um pouco abaixo), e o roteiro prossigam na mesma fórmula que deu extremamente certo em 21 Gramas e Babel, achei falha a direção de atores. Não há propriamente atuações péssimas, que derrubem o filme. Não, isso não há. Mas também não há grandes atuações; são interpretações medianas, às vezes um pouco fracas. Dá para sentir – bem, eu senti – que falta experiência a Arriaga nessa parte fundamental do trabalho de direção. Há momentos em que as interpretações são francamente inconvincentes.

E a verdade é que não consegui propriamente gostar do filme. Percebia as qualidades, percebia o talento do roteirista que sabe criar essa teia de aranha de interconexões de histórias, vidas que se cruzam – mas (fazer o quê?) achei tudo … artificial. Pouco real. Pouco crível.

E não pude deixar de me sentir um tanto enganado, quando, lá pela metade do filme, chega o momento em que o espectador percebe que Arriaga usou um truque. (Obviamente, não teria sentido revelar que truque é, mas todo espectador vai percebê-lo, é claro.)

Sei lá. Pode ter também essa coisa muito particular minha, de uma certa irritação com personagens que só conseguem escolher o pior caminho a tomar, que perseguem a infelicidade. Sim, claro, há muitas pessoas que são assim – mas quando todos são perseguidores de infelicidade, não consigo me envolver com a história. Dá uma certa repulsa.

Mas tudo isso, é claro, são minhas opiniões pessoais e intransferíveis. E – repito – são inegáveis as qualidades do filme.

 Uma trilha sonora semelhante às dos filmes anteriores

Uma pequena observação sobre a trilha sonora.

O autor das trilhas de Amores Perros, 21 Gramas e Babel – todos com roteiro de Guillermo Arriaga, é bom lembrar – foi o argentino Gustavo Santaolalla, sujeito de grande talento, autor de outras belas trilhas, como de O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee, de Diários de Motocicleta, de Walter Salles, e Terra Fria/North Country, de Niki Caro, por coincidência também com a estonteante Charlize Theron. Na maior parte dessas trilhas, Santaolalla fez melodias minimalistas, um pouco no estilo do grande Philip Glass, em vários momentos com apenas pequenos toques de violão ou guitarra.

A trilha sonora deste Vidas Que Se Cruzam não é de Santaolalla; assinam a trilha Omar Rodriguez-Lopez e Hans Zimmer. Hans Zimmer tem feito trilhas belas – porém fortes, quase chegando à grandiloqüência, com grandes orquestras, muitas cordas. A antítese do trabalho que Santaolalla criou para os demais roteiros de Arriaga.

Pois aqui, no entanto, esses dois compositores criaram uma trilha bem próxima às do compositor argentino. Mínima, minimalista. Impressionante. Ficou extremamente coerente com os filmes anteriores baseados nos relatos de vidas que se cruzam que Arriaga escreveu antes. Teve personalidade própria, Arriaga: os compositores se moldaram ao estilo de seus filmes anteriores.

Achei isso fascinante.

E repito: é um filme bem feito, e que tem muitas qualidades. Não me apaixonei por ele, não gostei muito dele, mas é um filme de qualidades. Quem gostou dos anteriores escritos por Arriaga seguramente vai gostar também deste aqui. 

Vidas Que Se Cruzam/The Burning Plain

De Guillermo Arriaga, EUA, 2008

Com Charlize Theron (Sylvia), Kim Basinger (Gina), Joaquim de Almeida (Nick), John Corbett (John), Robin Tunney (Laura), Brett Cullen (Robert), Danny Pino (Santiago Martinez), Jose Maria Yazpik (Carlos),  Jennifer Lawrence (Mariana), J.D. Pardo (Santiago), Tessa Ia (Maria)

Argumento e roteiro Guillermo Arriaga

Fotografia Robert Elswit e John Toll

Música Omar Rodriguez-Lopez e Hans Zimmer

Montagem Craig Wood

ProduçãoMagnolia Pictures, 2929 Productions, P + M Productions. Estreou em São Paulo 16/4/2010

Cor, 111 min

**1/2

Título em Portugal: Longe da Terra Queimada

2 Comentários

  1. Jussara
    Postado em 23 agosto 2010 às 9:05 pm | Permalink

    Engraçado, quando vi o filme vim aqui ver se vc já tinha escrito sobre ele, mas não tinha. E fiquei pensando o que vc iria achar, mas não quis te indicar pq não indico filmes que achei ruins (e agora sei que vc já tinha assistido).
    Eu tb não gostei, não me apaixonei, pelo contrário: achei fraco, raso e de um psicologismo chinfrim; do tipo que subestima a inteligência de quem está assistindo. Mas gostei dos anteriores dele, embora não tenha achado essa Coca-Cola toda que todo mundo disse nas respectivas épocas em que foram lançados.

  2. Ivan
    Postado em 15 setembro 2013 às 9:30 am | Permalink

    Assisti agora. É como voce diz , não é um grande filme mas é um filme bem feito e que tem muitas qualidades. E, eu gostei.
    E com isto , acho que pela primeira vez , estou discordando da querida amiga, Jussara.
    Não entendi quando a Mariana diz pro namorado que amava a mãe mas não gostava dela.
    É possível amar alguém e não gostar desse alguém ? Quis entender que era do jeito de ela ser e (ou) agir. Será isto ?
    Coisa meio louca aquela da cicatriz. Mas, me lembrou de uma passagem quando eu tinha 20 anos e junto com meu melhor amigo,os dois já embriagados , juntamos nossos braços e largamos um cigarro sôbre eles e apostamos que quem tirasse primeiro pagava duas “cubas libres”. Teve de vir um outro amigo tirar o cigarro. Tenho essa cicatris até hoje.
    Coisa louca,insana. Depois culpamos as cubas.
    Como diria Agildo Ribeiro,coisa horrorooosa!!
    Não gostaría de estar na pele da Mariana.
    Incrível como ainda podia haver , naqueles dias , aquele ranço entre famílias pelo que houve. Acho que é como voce diz , tem gente que gosta de procurar o pior, de ser infeliz.
    Gostei de ver a menina Tessa La Gonzales.
    Tinha visto com ela e gostei muito e aí ela já era adolescente, ” Depois de Lúcia ” .
    Tens razão Sergio , aquele trabalho de maquiagem na Charlize em ” Monster ” foi uma coisa “monstruosa” .
    ” 21 Gramas ” eu assisti já tem bastante tempo e gostei muito.
    ” Voce não vem ” ? Ali estava o perdão.
    Um abraço !!

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  2. Por 50 Anos de Filmes » A Estrada / The Road em 27 agosto 2010 às 12:04 pm

    […] com 10, 12 anos, interpretado por Kodi Smit-McPhee. A mulher sem nome vem na pele estonteante de Charlize Theron. Com muita competência, o filme deixa claro que aquelas imagens são memórias, sonhos, pesadelos […]

  3. […] ambos com roteiro do também mexicano Guillermo Arriaga. Este, por sua vez, escreveu e dirigiu Vidas Que Se Cruzam/The Burning Plain, de 2008, outro mosaico, como indica o título […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Além da Vida / Hereafter em 31 maio 2011 às 3:16 pm

    […] uma estrutura multiplots, passada em vários lugares do planeta. Algo como as histórias de Guillermo Arriaga e Alejandro González Iñárritu. Além da Vida tem um quê de Babel, de vidas que se cruzam, sim […]

  5. […] já a havia visto, num papel pequeno, em Vidas Que Se Cruzam/The Burning Plain, Guillermo Arriaga, de 2008; vi que era uma garota linda, mas não percebi seu talento – o […]

  6. Por 50 Anos de Filmes » 360 em 31 dezembro 2012 às 2:59 pm

    […] adora esse tipo de história – é o autor do roteiro de 41 Gramas e Babel e ele mesmo dirigiu Vidas Que Se Cruzam/The Burning Plain, que, como o próprio título brasileiro indica, também é uma espécie de La Ronde, de Short […]

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