Victor/Victoria

Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Victor/Victoria é um santo remédio para dias em que a gente está meio mal, meio deprê. É, no entanto, absolutamente contra-indicado para caretas, conservadores renitentes, carolas, homofóbicos.

Tomei o remédio hoje (um dia de outubro de 2010). Estava meio desacorçoado, desanimado. Na noite anterior, zapeando, tínhamos passado pelo filme em um canal a cabo e comentado, Mary e eu, que fazia muito tempo que não víamos. Então hoje propus que revíssemos Victor/Victoria. Santo remédio.

É tudo bom demais. Personagens deliciosos, bem construídos, bem interpretados. Julie Andrews, uma das artistas de maior sucesso do século XX, gloriosa, linda, fascinante, a voz extremamente pessoal, ampla, larga, capaz de atingir quatro oitavas. Bons números musicais, boa coreografia. Uma boa piada atrás da outra, diálogos inteligentíssimos, saborosos, afiados – as piadas visuais são hilariantes, e o contraponto com a graça dos diálogos é redondinho.

A trama é uma absoluta delícia. Uma ótima brincadeira com os estereótipos dos gêneros, o que é masculino, o que é feminino – e uma das melhores gozações que já foram feitas com a coisa do travesti, do homem que se fantasia de mulher.

No caso, é uma mulher que se fantasia de homem que finge que é mulher.

Para lembrar:

         Gays, héteros e duvidosos na Gay Paree

Victoria Grant – o personagem de Julie Andrews, radiante aos 47 anos de idade – é uma cantora de ópera excepcional, talentosa, dona de uma voz ampla, que está na pior, na alegre Paris de 1934, depois que a companhia em que ela se apresentava faliu e acabou. Seu ex-marido, gerente do grupo, fugira com a grana. Quando a ação começa, está fazendo um teste diante do dono de uma boate gay, Chez Louis, um sujeito chamado Labisse (Peter Arne). A voz de Victoria é boa demais para Labisse e sua boate, e ele a dispensa.

Por acaso, está na boate na hora em que Victoria faz o teste um dos artistas que se apresentam no Chez Louis, Toddy (Robert Preston), um homossexual convicto – ou bicha velha, como ele mesmo se chama. Por outro acaso, ele reencontra Victoria num restaurante onde ela literalmente está tirando a barriga da miséria, após quatro dias sem comer nada. Ela naturalmente não pode pagar pelo lauto jantar, mas tem o plano manjado: carrega na bolsa uma barata recolhida em seu quarto de pensão categoria Z, e que pretende, na hora certa, depositar no último prato a lhe ser apresentado.

Ficam amigos, Toddy e Victoria.

Por um outro acaso, Victoria veste as roupas de um ex-amante de Toddy – e aí que Toddy tem a idéia. Uma cantora de voz espantosamente boa pode não fazer sucesso, não atrair atenções. Mas, se Victoria virar Victor, um conde polonês banido pela família, que se apresenta travestido de cantora, para, ao fim do show, se revelar como homem, isso pode virar uma sensação.

E vira. Toddy vende a história para seu amigo Cassell (John Rhys-Davies), o maior agente de artistas de Paris, que adora a idéia e agenda para a novidade um dos melhores cabarés da cidade. As apresentações do conde polonês Victor passam a ser a sensação da Gay Paree, como dizem os americanos – gay, aí, no sentido de alegre, mesmo.

Presente à grande estréia está um figurão americano cheio da grana, King Marchan (o papel de James Garner), dono de cabarés e boates em Chicago e portanto, obviamente, com boas conexões com a Máfia. Marchan está em Paris na companhia de sua amante Norma (Lesley Ann Warren), uma loura que fala demais com uma voz de taquara rachada que ninguém agüenta, e seu guarda-costas, Squash (Alex Karras).

Marchan baba na gravata ao ver a apresentação de Victoria – e seu queixo cai quando, ao final do ato, Victoria tira a peruca e se mostra como Victor, o conde polonês.

Estamos aí com um terço de filme, e está posta a trama para as situações hilariantes de um gângster machão que se vê absolutamente atraído… por um homem que se traveste de mulher!

         Piadas hilariantes, estocadas afiadas e sérias

É tudo uma perfeição, uma seqüência hilariante após a outra. Todos esses personagens apresentados aí acima são excelentes, mas há quem – como os autores do texto sobre o filme no AllMovie – garanta que é Lesley Ann Warren, como a amante loura do gângster, quem rouba a cena. E Lesley Ann Warren dá de fato um show.

Num filme cheio de diálogos ótimos, a loura Norma está presente em vários. Quando, após a estréia do conde Victor como Victoria, o trio americano é apresentado ao casal gay Victor e Toddy, Norma diz, com a voz horrenda dela:

– “Eu adoro os cavalheiros franceses!”     

E Toddy, a bicha velha: – “Eu também!”

Depois que os dois conversam ali nos camarins, e Toddy revela sua opção única por seres do mesmo sexo, e Norma protesta, dizendo que é um desperdício, Toddy se despede:

– “Au revoir!”

E Norma, de bate-pronto: – “Eu também!”

No meio da gozação, das piadas escrachadas, de cenas de pastelão, de belos diálogos, o diretor Blake Edwards, ele também o autor do roteiro, se permite alguma seriedade, como o belo diálogo sobre os papéis de homem e de mulher entre o gângster americano Marchan e a estrela-astro Victor-Victoria, que é uma breve, séria lição a respeito da igualdade de direitos entre os gêneros.

E, além de espicaçar a caretice, a homofobia, com pitadas fortes de humor, há também estocadas afiadas e sérias, como a frase de Toddy:

– “Vergonha é uma emoção infeliz, inventada pelos carolas para explorar a raça humana.”

Delicioso panfleto pró qualquer maneira de amor vale a pena

Apesar de já ter visto o filme diversas vezes, não me lembrava absolutamente nada sobre a autoria da história. Se é que algum dia já soube, tinha esquecido. Achei estranho que os créditos iniciais não dissessem nada do tipo baseado em tal peça, ou tal novela: ali está dito apenas “Roteiro de Blake Edwards”. Comentei com Mary, um tanto incrédulo: pô, então a história original é do próprio Blake Edwards?

Não é. A história original é do alemão Reinhold Schünzel, que em 1933 dirigiu o filme Viktor und Viktoria, com roteiro original de sua própria autoria. A informação vem nos créditos finais de Victor/Victoria.

Para a edição em DVD do filme, Blake Edwards e Julie Andrews gravaram comentários. Não costumo mais ouvir os comentários dos autores (só fiz isso quando tive uma coluna sobre DVD no portal do Estadão, em meados dos anos 90), mas acabei ouvindo o início dos comentários, em que Blake Edwards adiantou a informação que de alguma forma eu teria encontrado depois, ao pesquisar um pouquinho sobre o filme: Reinhold Schünzel foi também o autor da história que Billy Wilder refilmou como Quanto Mais Quente Melhor/Some Like it Hot, de 1959.

Tem absolutamente tudo a ver: nas duas histórias, há a coisa do homem (ou do falso homem) travestido de mulher. Nas duas histórias, há a grande, bem humoradíssima brincadeira sobre os gêneros. Não é um panfleto pró-homossexualidade, tipo quem não for homo é infeliz. Não. É um panfleto brincalhão, bem humorado, gay no sentido de alegre, pró qualquer maneira de amor vale a pena, seja hétero, seja homo. Vale tudo – aceitemos numa boa e na maior o homo, mesmo que sejamos héteros convictos.

Ou seja: é uma coisa absolutamente saudável. Só pode irritar mesmo os radicais do caretismo, da carolice.

         Blake Edwards, autor de uma penca de ótimos filmes

O espírito liberal, anti-careta, alegre, brincalhão do filme faz lembrar muito o tom de Cabaret e de Quanto Mais Quente Melhor. Billy Wilder teria certamente adorado dirigir Victor/Victoria; Bob Fosse também.

Blake Edwards tem uma penca de filmes bons. É um mestre da comédia, quase na altura do próprio Wilder. Reuniu de novo a dupla de Quanto Mais Quente Melhor, Tony Curtiss e Jack Lemmon, numa comédia sensacional, A Corrida do Século/The Great Race, de 1965. A série que ele fez a partir de A Pantera Cor de Rosa, de 1963, é divertidíssima, e os filmes permanecem tão gostosos hoje quanto eram na época. Só Peter Sellers não se divertiu com a série, porque acabou ficando marcado demais pelo personagem impagável do inspetor Clouseau, e enjoou-se de sua criatura com o ódio com que Arthur Conan Doyle sentia de sua criatura Sherlock Holmes.

Foi o próprio Edwards, no entanto, que deu a Peter Sellers um dos melhores papéis da carreira do ator inglês, em Um Convidado Bem Trapalhão/The Party, de 1968 – realizado, portanto, entre um e outro filme da série da Pantera Cor de Rosa.

É de Edwards também um dos filmes mais marcantes da carreira da maravilhosérrima Audrey Hepburn, aquela atriz que teve diversos filmes marcantes na carreira mais curta do que deveria ter sido – Bonequinha de Luxo/Breakfast at Tiffany’s, de 1961, baseado no conto-grande ou novela-curta de Truman Capote.  

Não é, no entanto, apenas um diretor de comédias. Logo depois do êxito de Bonequinha de Luxo, fez um drama sério, pesadíssimo, sobre alcoolismo, Vício Maldito/Days of Wine and Roses, com Jack Lemmon e Lee Remick. E, naquele mesmo ano de 1962 e também com Lee Remick (mais Glenn Ford), fez um policial marcante, Escravas do Medo/Experiment in Terror.

Em 1969, Blake Edwards casou-se com Julie Andrews, e a partir daí fez vários filmes com ela.

         Julie Andrews, uma das carreiras mais extraordinárias que há

Julie Andrews teve uma das carreiras mais incríveis, sensacionais, apoteóticas que uma artista pode ter. Na época em que se casou com o diretor Edwards, aos 34 anos de idade, ela poderia se orgulhar de ser a única pessoa que trabalhou no musical que até então era recordista de apresentações na Broadway, My Fair Lady, 2.717 apresentações contínuas, no filme que durante décadas foi a maior bilheteria do cinema em todos os tempos, tendo batido … E o Vento Levou, A Noviça Rebelde/The Sound of Music, e o disco até então recordista de vendas, a trilha sonora de My Fair Lady, seis milhões de cópias vendidas até 1966.

Cada um desses recordes, como lembra o texto sobre Julie Andrews no AllMusic, seria eventualmente quebrado mais tarde. Mas essa tríplice coroa, que eu saiba, ninguém mais conseguiu levar.

Às carreiras como cantora, atriz de teatro e de cinema, ela adicionaria depois as de autora de livros infantis e diretora de teatro.

Por uma dessas tremendas ironias do destino, o sucesso espetacular em dois filmes ligados a crianças – Mary Poppins, de 1964, uma produção Disney, que lhe deu o Oscar, e A Noviça Rebelde, de 1965, que rendeu nova indicação da Academia – deixou a grande artista rotulada com uma imagem de… hum… família! Família, coisa careta, reaça, carola, naqueles anos de mudança radical do comportamento, the times they are a-changin’, a revolução sexual, as drogas, Beatles, Dylan, os hippies, amor livre, Woodstock, todo poder à juventude rebelde.

A Noviça Rebelde é um dos mais fantásticos casos de mistificação, de embuste, da história da cultura pop. (Um dia ainda gostaria de escrever sobre o filme, sobre isso. Me lembro vagamente que alguém de grande nome já contou a história – acho que Sérgio Augusto, em artigo no Estadão.)

O filme foi patrulhado, demonizado pela turma do ideológica e jovemente correto. Passou por um processo de malhação um tanto semelhante ao que vitimou Wilson Simonal no auge de sua fama. Assim como colaram (colamos) na cara de Simonal o rótulo dedo-duro, colaram (nessa onda eu nunca entrei) em Noviça Rebelde os rótulos de piegas, careta, sentimentalóide.

Me lembro de dois exemplos: em Submarino Amarelo, a maravilhosa animação de 1968 feita em cima das músicas e das personalidades dos Beatles, um dos blue meannies, os malvados da história, cantava, com voz em falsete, o primeiro verso de The Sound of Music, que Julie Andrews canta na primeira e belíssima seqüência do filme: The hills are alive with the sound of music. Era o rótulo: vejam que coisa mais brega.

O outro exemplo: num filme absurdamente ruim do diretor inglês Roland Joffe, Misteriosa Paixão/Goodbye Lover, de 1997, a personagem de Patricia Arquette é vidrada com a trilha sonora de The Sound of Music. Quando a detetive interpretada por Ellen DeGeneres começa a investigar os assassinatos, diz para si mesma algo como: Ninguém que gosta da trilha de The Sound of Music pode ser inocente.

Muitos prêmios e indicações, todos merecidos

Depois da patrulha mundial contra seus dois grandes sucessos, Julie Andrews “passou décadas alternando uma postura de conformidade com uma de rebeldia diante da imagem que deram a ela”, como diz o texto do AllMusic. “Na década de 80 ela voltou a fazer filmes regularmente; nos anos 90 voltou à Broadway; e nos anos 2000 ela aparecia novamente em alguns dos maiores sucessos de bilheteria da época.”

Por Victor/Victoria, Julie teve sua terceira indicação ao Oscar. (Perdeu para Meryl Streep por A Escolha de Sophia.) O filme levou a estatueta por melhor música, de autoria de Henri Mancini, eterno companheiro de Blake Edwards, e Leslie Bricusse. Teve ainda indicações ao Oscar nas categorias roteiro adaptado, ator coadjuvante para Robert Preston, atriz coadjuvante para Lesley Ann Warren, direção de arte e figurinos. Sete indicações no total, portanto.

 Teve ainda quatro indicações ao Globo de Ouro: melhor filme comédia e/ou musical, atriz para Julie Andrews, ator coadjuvante para Robert Preston, atriz coadjuvante para Leslie Ann Warren, trilha sonora. Julie Andrews levou o prêmio.

Na França, ganhou o César de melhor filme estrangeiro, e na Itália, os prêmios David de Donatello de melhor atriz estrangeira e melhor roteiro de filme estrangeiro.

***

Coloco no ar minha anotação sobre o filme pouco depois de ver a notícia da morte de Blake Edwards, aos 88 anos. Mais uma perda, neste ano de tantas perdas – de gente de cinema que admiro, que me deu grandes prazeres na vida, e de gente do meu coração, que deu algum sentido à vida.

Marejo levemente ao pensar nessas perdas, senti-las mais uma vez.

Mas imagino que Blake Edwards esteja dando grandes risadas agora, sendo recebido com tapete vermelho por gente como Billy Wilder e Bob Fosse.

Como imagino que Suely e Sandra e Pedro e Regina e Arnaldo devam estar bem, olhando por nós, para nós, enquanto ainda estamos aqui.

Victor/Victoria / Victor ou Victoria

De Blake Edwards, EUA-Inglaterra, 1982

Com Julie Andrews (Victor/Victoria), James Garner (King Marchan), Robert Preston (Toddy), Lesley Ann Warren (Norma), Alex Karras (Squash), John Rhys-Davies (Cassell), Graham Stark (o garçom), Peter Arne (Labisse), Sherloque Tanney (Bovin)

Roteiro Blake Edwards

Baseado no filme Viktor und Viktoria, Alemanha, 1933, roteiro e direção de Reinhold Schünzel

Fotografia Dick Bush

Música Leslie Bricusse, Henry Mancini

Montagem Ralph Winters

Produção MGM

Cor, 133 min

R, ***1/2

11 Comentários

  1. Postado em 17 dezembro 2010 às 1:33 pm | Permalink

    Sérgio,
    são tantas coisas incríveis neste post que se fosse comentar todas que queria sairia quase um post…1) entristeci-me com a morte de Blake Edwards. É daqueles diretores que não entra na lista dos preferidos quase nunca, mas que fez o cinema (e a minha vida)muito melhor.
    2) Todos os elogios à Julie Andrews ainda parecem incompletos, não lhe parece? A versatilidade e humor que ela apresnta em Vitor?Vitória são impagáveis.
    3) Este é daqueles filmes que deviam ser apresentados e reapresentados às pessoas de tempos em tempos, quem sabe assim nosso mundo fosse mais tolerante (e bem-humorado).
    4) Eu AMO Noviça Rebelde. Tal qual E o vento Leou e O Poderoso Chefão. Só sou uma mulher feliz se os assisto pelo menos uma vez por ano. E My favorite Things é uma das minhas canções favoritas…aliás, como curiosidade, dá uma olhada nessa versão, que fofa: http://www.youtube.com/watch?v=OvYZMqQffQE

    Eu disse que seria um longo comentário…

  2. Waldemar Lopes
    Postado em 7 janeiro 2011 às 11:23 pm | Permalink

    Fantástico esse seu comentário sobre esse clássico absoluto que é Vicor/Victoria. Uma obra-prima que reúne todos as requintadas qualidades do grande mestre da comédia – inteligência, sofisticação, humor, a bela música de Henry Mancini e a bela musa/esposa, a grande, talentosa e eternamente linda Julie Andrews. Numa sequência primorosa de sete filmes, essa foi a coroação máxima e gloriosa de uma parceria perfeita no cinema e na vida real. Julie, sempre com o ótimo humor de Blake, surpreendia platéias do Sindicato de Atores (SAG) ora dizendo que era ótimo dormir com o chefe depois de um dia de trabalho hehe ou que era difícil às vezes ser dirigida pelo marido, quando ao final de uma cena de amor ele lhe dizia -“está bom, Julie, mas nós 2 sabemos que você pode fazer melhor” e caía na risada, Uma atriz e cantora extraordinária – seu desempenho antológico e icônico em A Noviça Rebelde fez o mundo inteiro acreditar que ela era a própria Maria Von Trapp. Sabiamente, abraçou esse sucesso mas não deixou de se arriscar junto de Blake, e nos divetiu como nunca em Darling Lili, Mulher Nota 10, SOB e essa jóia da comédia musical, o irresistível, fascinante, espirituoso, o magnífico Victor/Victoria, realmente um santo remédio para levantar o alto astral de qualquer um.

  3. Waldemar Lopes
    Postado em 12 janeiro 2011 às 12:22 pm | Permalink

    Caro Sérgio,
    Foi um enorme prazer receber seu e-mail agradecendo pelo meu comentário sobre esse maravilhoso clássico que é Victor/Victoria.
    Sou superfã de Julie Andrews e Blake Edwards. Sempre é um prazer revisitar esse clássico absoluto.
    Tive a grande felicidade de assistir ao lindo musical na Broadway sete (!) vezes, e consegui conhecer Julie Andrews e Blake e conversar com eles várias vezes! Presenteei o charmoso casal com 2 quadros retratando-os na B’way e os conquistei com o meu jeito bem desajeitado de ser – como um dos personagens dos filmes dele hehe
    Aqueles foram dias de vinho e rosas… porque todo dia presenteei Julie com uma rosa…
    Um grande abraço,
    Waldemar

  4. Waldemar Lopes
    Postado em 12 janeiro 2011 às 11:35 pm | Permalink

    Victor/Victoria em New York: part 2
    Cheguei em 1995 em NY com uma determinação: conhecer pessoalmente Julie Andrews, minha atriz/cantora/musa/etc/ favorita. Quando ela surgiu no palco do Marquis, a platéia (acho que 4500 pessoas) aplaudiu e assobiou alucinadamente, e a peça parava sempre nesse momento antológico. No final da peça, Julie recebia uma standing ovation estrondosa! Levei dois pássaros de pedras brasileiras para Julie e Blake. Lindos demais- eram da H.Stern- não sei como arrumei dinheiro para isso hehe
    Consegui fazer amizade com o motorista de Julie, um chinês simpático parecido com o Kato da Pantera Cor-de-Rosa hehe. E também com o ator Michael Nouri, que fazia King Marchan, o galã, que adorava Julie. Eles me ajudaram a entregar o presente à Julie, que os adorou! Toda noite um grupo de pessoas a esperava na saída do Marquis Theatre. Perto da meia noite, 10 graus negativos, ela surgia e eu, literalmente congelado, mas nada tímido, cantava com toda a força dos pulmões naquele inverno :”The stage is alive with the sound of Juliiiiiieeeee” e ela caía na risada, junto com o pessoal da rua. Muito bonita, sorridente, educada, simples e elegante, acenava para todos graciosamente e, escoltada pela polícia , corria para o carro. Na última noite falei para ela: “Vou para o Brasil amanhã, mas volto no verão para vê-la novamente! Espere por mim haha” – e ela ria de tanto absurdo!!! No próximo capítulo: de volta à Broadway com dois quadros no avião…

  5. Waldemar Lopes
    Postado em 13 janeiro 2011 às 11:42 pm | Permalink

    Victor/Victoria em New York: parte 3
    Voando para New York, em julho de 1996, tive minhas 9 horas de fama a bordo da American Airlines – fui um pesadelo para passageiros e tripulação, atormentando-os com dois quadros não muito grandes que pintei para Julie Andrews e Blake Edwards, retratando-os na Broadway. Devo ter machucado muita gente na minha movimentação, no melhor estilo do Inspetor Clouseau, mas graças a Deus todos me toleraram porque gostaram das pinturas e da minha ousadia. Na platéia de Victor/Victoria, aplaudi Julie entusiasticamente e disparei para a saída do Marquis Theatre. No verãozão novaiorquino, uma multidão aguardava Julie. Jovens, idosos, crianças, punks com cds de Victor/Victoria esperavam um aceno de Julie. E eis que ela surge radiante, linda e supersimpática. Quase fui derrubado pela multidão. Uma senhora me deu uma cantada, dizendo que era viúva do lendário Alan J Lerner, autor de My Fair Lady com Julie, e me convidou para subir para o seu quarto no Marquis. Fui salvo por Michael Nouri (de Flashdance), que, curioso com os quadros, veio até mim e adorou as obras! Ele e um policial me levaram até o carro de Julie. Ao ver as pinturas, ela sorriu e me disse:” É para mim? Você poderia voltar amanhã? Vou te receber nos bastidores!” E assim foi! No dia seguinte lá fui eu ver Julie tremendo de emoção. Ela estava linda com sempre, com sua cachorrinha “Maggie”, parecida com o cãozinho de Mary Poppins. Ela se espantou de eu ter vindo de tão longe para vê-la no musical várias vezes. Falamos das diferenças do filme para o show; por exemplo, a cena da barata seria impossível no palco. O simpático Michael Nouri me confessou que havia namorado uma brasileira (de SP)chamada Maria Alvarenga e arriscou umas palavras em português. Conversei também com Tony Roberts, dos filmes de Woody Allen, no papel de Toddy (no filme, Robert Preston), uma simpatia. Julie não se cansava de admirar os quadros. Leu o cartão gigante que escrevi e riu muito. Nele eu dizia que ela adoraria me conhecer melhor; que minha mãe estava tomando calmantes porque todas as paredes de casa só tinham fotos de Julie e que se Blake estivesse no meu avião, teria idéias maravilhosas para uma nova hilariante comédia. Voltei extasiado para o Brasil. Um mês depois, recebo um pacote de New York de… Julie Andrews!!! Agradecia os “generosos presentes para ela e Blake”, junto com um cd autografado, uma foto belíssima autografada e dedicada a mim, e um livro sobre sua carreira. Depois de recuperar os sentidos, fiquei tão feliz com a generosidade da minha musa, algo tão raro no Brasil ou em Hollywood. Pela última vez voltei aplaudi Victor/Victoria em dezembro do mesmo ano. Dei rosas para Julie todos os dias e no final da última apresentação, joguei-lhe uma rosa em pleno palco, a qual ela pegou, beijou e então sorriu para mim, pulando na primeira fileira, apoiado pelo maestro, com quem fiz amizade – nada como ser brasileiro! Na saída, Julie me disse com aquele sorriso irresistível – “obrigada pela rosa, Waldemar”. Apareceu Blake Edwards e corri a me apresentar como o artista brasileiro, autor dos retratos do querido casal. Puro êxtase. Ele me revelou que eles estavam na casa deles em Long Island. Em julho de 1997, recebo uma caixinha vinda de New York. Julie me enviava mais um cd com dedicatória – estava encerrando sua lendária atuação nesse musical maravilhoso. Continuo me correspondendo com ela, e olho todos os presentes que ela me enviou nesses anos – o último foi um livro infantil, bestseller do NYTimes que ela escreveu – e penso como sou feliz por Deus ter me concedido esses momentos de imensa felicidade na Broadway com a grande, talentosa e sempre linda Julie Andrews e esse santo remédio, como Sergio Vaz sabia e divertidamente fala, que é Victor/Victoria!
    The end

  6. Fabiana Rosa
    Postado em 27 janeiro 2011 às 1:27 am | Permalink

    Estou estasiada….
    Sou apaixonada pela Noviça Rebelde há bastante tempo, mas só agora, com o dvd comemorativo pelos 45 anos do filme que assisti pela primeira vez legendado. Com as vozes originais…
    Como não amar a Maria de Julie?… Ou a Mary Poppins?…
    Ou a vitoria? ou ou Vitor?
    Ou a Rainha Clarisse? (Do Diario da Princesa?…)
    Foi bem na época da morte do Blake que resolvi ir fundo na carreira deles….
    Não me contive, venho buscando mais e mais referencias sobre esse casal…
    Vitor e Vitória mexeu comigo justamente na cena “da cama”, onde eles entram em crise, o diálogo é de uma sutileza.. deliciosa essa cena..
    Julie está translúcida nesse filme….
    47 anos com aquela cinturinha?.. aquelas pernas lindas?… aquela voz …………….
    O post me emocionou bastante.. mas seu depoimento Waldemar.. me fez chorar.. de emoção por confirmar a delicadeza da Julie e pela sua persistencia e alegria…
    Se corresponder com a Julie mesmo depois de tantos anos.. que delícia… guarde mesmo os presentes que ela lhe enviou… são relíquias…
    Obrigada a vocês por acalentarem meu coração com essas histórias tão delicadas…..
    Obrigada de verdade….!

  7. Waldemar Lopes
    Postado em 16 fevereiro 2011 às 10:39 pm | Permalink

    Fabiana, seu comentário tão carinhoso nesse espaço do querido Sérgio muito me emocionou. Como é bom saber que ainda há pessoas sensíveis no mundo, que são tocadas pela arte de Julie Andrews, em especial nesse espetacular triunfo que é Victor/Victoria, obra prima de seu admirável marido/esposo, Blake Edwards. Aliás, a sempre linda e talentosa Julie Andrews surgiu no último fim de semana, 12/13 de fevereiro, com todo seu esplendor para receber o Grammy especial pela brilhante carreira musical. E para fazer inveja a Colin Firth, hehe, deslumbrou a todos com seu The Dame’s Speech ( O discurso da Dama rsrs ): falou como a música faz parte de sua vida desde criança, de como essa arte transcende todos os limites, como nos eleva e transporta e que, de tão grandiosa, nos faz sentir até pequenos. Agradeceu por ter tido a oportunidade de brincar nessa “sandbox” (caixinha de areia em que crianças brincam); criticou o governo por retirar as aulas de música das escolas para cortar orçamento e infelizmente, roubar dos jovens esse tesouro e elgiando a academia de música por apoiar esse movimento dela, que é de recolocar essa arte no currículo escolar. Finalizou dizendo: “há 15 anos descobri uma nova voz, que hoje me traz uma nova indicação ao Grammy ( pelo seu lindo audiobook infantil e que no dia seguinte lhe traria outra vitória!), e asseguro a vocês que a aventura e a jornada continuam…” E foi ovacionada!!!! Abração a vc, Sérgio e à Fabiana!

  8. Ana Silva
    Postado em 7 fevereiro 2014 às 4:25 pm | Permalink

    Nunca tinha visto “The Sound of Music”, mas o recente desemprego fez-me entrar num estado de tristeza e ligeira depré. Abençoado dia em que resolvi ver este filme…Fiquei espantada com a voz da Julie Andrews e morri com a sua belez. Não será preciso dizer que fiquei viciada. Vi todos os seus filmes, e “Victor/Victoria” já o revi umas 5 vezes. Genial! Acho que para ser um filme de 1982 está muito bem feito e é uma boa tacada à homofobia. É incrível como encaixa nos dias de hoje.
    vi o musical no Youtube (infelizmente em 1995 era muito pequena para me deslocar a NY, oupara perceber o que era um musical) e gostei da versão. É em alguns pontos diferente do filme, mas mesmo assim é encantador.
    senhor Waldemar, não sou uma pessoa invejosa, mas sinto-me tocada ao de leve por esse sentimento depois de ler o seu testemunho de amizade com a Julie Andrews. O senhor tem muita sorte porque me parece que tem nela uma boa amiga. Às vezes dou por mim a pensar o quão fantástico deve ser tê-la como avó.
    Obrigada senhor Sérgio por este post fantástico.

    Cumprimentos

  9. jorge fraga
    Postado em 7 dezembro 2015 às 10:29 am | Permalink

    queria saber o nome da musica que toca quando julie andrews dança com james gardner em um clube de cavalheiros de rosto colado

  10. Sérgio Vaz
    Postado em 9 dezembro 2015 às 12:25 am | Permalink

    Caro Jorge,
    Não sei qual é a música dessa cena específica. Mas estas são as canções que aparecem no filme, segundo o IMDb:

    Gay Paree
    Performed by Robert Preston

    Le Jazz Hot
    Performed by Julie Andrews

    The Shady Dame From Seville
    Performed by Julie Andrews

    You And Me
    Performed by Robert Preston and Julie Andrews

    Chicago, Illinois
    Performed by Lesley Ann Warren

    Crazy World
    Performed by Julie Andrews

    Finale/Shady Dame From Seville (Reprise)
    Performed by Robert Preston

    Espero que isso ajude… Um abraço.
    Sérgio

  11. Sérgio Vaz
    Postado em 2 janeiro 2016 às 1:51 pm | Permalink

    Achei o nome da música a que você se refere, Jorge.
    Foi mesmo composta especialmente para a trilha do filme, por Leslie Bricusse-Henri Mancini; chama-se “Le Matelot Club”, e é a faixa 14 do disco da trilha sonora original. Nesta página do AllMusic, dá para ouvir 30 segundos dela:
    http://www.allmusic.com/album/victor-victoria-mw0000610364
    Um abraço.
    Sérgio

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