Uma Prova de Amor / My Sister’s Keeper


Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Um excelente, um grande filme, este, de Nick Cassavetes. Mas é um daqueles filmes que não são indicados para todos os tipos de platéia. É um sério, pesado, dolorosíssimo drama que envolve doença terminal, entra bem fundo nas conseqüências que isso acarreta para todos os membros da família – e ainda vai além disso.

Há muita gente não agüenta ver filmes assim, ou simplesmente prefere não ver. É um direito sagrado. Eu mesmo preferiria não ver, e já deixei de lado vários filmes que abordam temas pesados como este Uma Prova de Amor, não porque sejam ruins, mas porque pegam pesado demais – mecanismo de autoproteção, ou seja lá o que seja.

O filme de Nick Cassavetes pega muito, muito pesado. Mas é um grande filme, belo, emocionante. Nem precisava, mas é também corajoso, forte, determinado, firme, polêmico, à frente do tempo, muito à frente do já aceito.

Ao contrário de muitos dramas, ele não começa suave para depois expor a que veio. Já começa com tudo, diz qual é seu tema de imediato, logo na abertura. Enquanto vemos cenas de uma família, como se fosse em filmes caseiros, a voz em off de Abigail Breslin – a extraordinária garotinha que estrelou Pequena Miss Sunshine – diz um texto brilhante, belíssimo, explicando que nasceu por uma escolha, uma determinação de seus pais, para permitir que sua irmã mais velha pudesse continuar vivendo.

Mais para o final desta anotação, transcrevo o texto de abertura.

Com menos de dez minutos de ação, o filme já mostrou cenas violentas com o sofrimento de Kate (Sofia Vassilievna), que tem um tipo raro e especialmente devastador de leucemia. Kate é a irmã mais velha Anna, a personagem de Abigail Breslin. E então vemos Anna, de nove anos de idade, entrar no escritório de um advogado famoso, Campbell Alexander (interpretado por Alec Baldwin), e explicar a ele que quer parar de doar partes de seu corpo para a irmã mais velha. 

         O roteiro destroça a ordem cronológica – e funciona muito bem

É dolorosíssimo, é de chorar, é de sofrer muito – mas é só o começo. Muita dor ainda está para vir. E o diretor e roteirista Nick Cassavetes e o co-roteirista Jeremy Leven absolutamente não querem evitar desconforto ao espectador, deixar de lado os momentos mais duros. Muito ao contrário: expõem tudo na tela, cruamente.

Também não querem evitar que o espectador assista com distanciamento à narrativa. Não, não há distanciamento algum; é um filme que propositadamente, conscientemente, envolve o espectador na história. É para emocionar, é para chorar mesmo – mas é também para fazer pensar. E o filme consegue as duas coisas, fazer chorar e fazer pensar.

Costumo, em muitos dos meus comentários, implicar com as narrativas que vão e vêm muito no tempo, o tempo todo – e Uma Prova de Amor/My Sisters’s Keeper faz isso ao longo de seus 109 minutos de duração. Ele desconstrói a ordem cronológica, mas de forma tão deliberada, tão metódica, e tão absolutamente bem feita, que não há como discordar: essa era a melhor maneira de contar a história. Compreendemos melhor a história exatamente porque a cronologia foi desfeita, inteiramente destroçada.

Outro brilho da narrativa, além dessa metódica desconstrução da cronologia, é o fato de que a história não é narrada para o espectador apenas por Anna, a irmã mais jovem, que foi submetida a diversas operações em seus curtíssimos nove anos de vida para doar partes do corpo para garantir a sobrevivência da irmã Kate. O espectador ouve a narração de todos os envolvidos: o pai, Brian (Jason Patric), a mãe, Sara (Cameron Diaz), o irmão, Jesse (Evan Ellingson), e também a própria Kate (Sofia Vassilievna).

Cada um mostra o seu lado da história, uma história que já havia começado trágica lá atrás, quando Kate ainda era bebê e teve o diagnóstico da doença fatal. Assim, vemos que o médico, dr. Chance  (David Thorton), sujeito abnegado, sugere ao casal que tente ter um novo filho, que poderá doar sangue para Kate desde o nascimento. E que a mãe, Sara, muito mais que o pai, é quem toma as rédeas do processo, e vai lutar incansavelmente para manter a filha viva – mesmo que, ao longo da vida, deixe de dar atenção ao primogênito Jesse, e não se preocupe em ver o lado da caçula Anna, submetida desde o nascimento a procedimentos hospitalares invasivos, dolorosos.

         Abigail Breslin é um brilho, mas Sofia Vassilieva rouba o filme

Seria de se esperar que Abigail Breslin, essa atriz mirim que é um assombro, roubasse a cena. Ela está brilhante – mas quem acaba roubando o filme é essa Sofia Vassilieva (com Cameron Diaz na foto), que faz Kate, a irmã doente. É um nome para se acompanhar. É impressionante, é até chocante o talento que ela demonstra aqui. 

Nick Cassavetes, filho de dois grandes atores, John Cassavetes e Gena Rowlands, já havia demonstrado talento especial na direção de atores. Neste filme – que é disparado o melhor que ele já fez, na minha opinião, embora já tenha feito bons filmes antes –, ele se suplanta. Todo o elenco está perfeito. Nunca imaginei ver Cameron Diaz em um desempenho tão bom.

         Belas canções, perfeitas para cada cena

Um ponto extraordinário deste grande filme são as canções escolhidas para acompanhar, pontuar a narrativa. A trilha sonora original, de Aaron Zigman, é bastante boa – mas a escolha das músicas incidentais é espetacular. É um bando de gente nova; embora me considere razoavelmente informado sobre música pop, não conheço muitos dos intérpretes escolhidos para cantar ao fundo, durante a ação do filme – Don Ho, E.G.Daily, Priscilla Ann, Jimmy Scott, Jonah John, Greg Laswell. Sei quem são Regina Spektor, James Blunt, Jeff Buckley (este último, sei quem é porque gravou Dylan e Cohen), mas jamais tinha ouvido falar em Pete Yorn, Phil Xenidis, Edwina Hayes, Vega 4. De qualquer forma, todas as canções que aparecem no filme são muito mais para o folk que para o rock; não há pauleira alguma; é tudo “sweet songs and soft guitars”, a perfeita definição do escocês-tornado-australiano Eric Bogle em sua homenagem a Kate Wolf.

Pensei nisso, ainda enquanto via Uma Prova de Amor: a personagem do filme que tem um monte de sweet songs and soft guitars se chama Kate, como Kate Wolf, morta de leucemia jovem demais. Coincidências doidas – ou não. 

         O brilhante texto de abertura do filme

Por falar em coincidências, procurei no iMDB, essa enciclopédia que tem absolutamente tudo, o texto brilhante que abre o filme, na voz da garotinha Abigail Breslin, que fala de coincidências e de acidentes, mas ele não está lá. Uma grande pena: então o iMDB não tem absolutamente tudo – tem só quase absolutamente tudo. Mas o texto é bom demais, e sou apaixonado por bons textos; então fui ao DVD e tirei na unha.

Esta é a abertura do filme:

– “Quando eu era bem criança, minha mãe me disse que eu era um pequeno pedaço de céu azul que veio a este mundo porque ela e meu pai me amavam muito. Foi só depois que me dei conta de que isso não era exatamente a verdade. Os bebês, na maioria, são coincidências. Quero dizer: no espaço há várias almas voando por aí à procura de corpos em que viver. Daí, aqui na Terra duas pessoas transam, ou coisa assim, e pronto. Coincidência. Claro, a gente ouve essas histórias sobre como todos planejam suas famílias perfeitas, mas a verdade é que a maioria dos bebês é produto de noites de bebedeira e falta de controle da natalidade. São acidentes. Só as pessoas que têm problemas para fazer bebês é que de fato planejam tê-los. Eu, ao contrário, não sou uma coincidência. Sou um produto de engenharia. Nasci por uma razão específica. Um cientista pegou os óvulos da minha mãe e o esperma do meu pai para fazer uma combinação específica de genes. Ele fez isso para salvar a vida da minha irmã.”

Rápida pausa. E aí conclui:

– “Às vezes penso em como teria sido se Kate fosse saudável. Eu provavelmente ainda estaria no céu, ou seja lá onde for, esperando ser ligada a um corpo aqui na Terra.”

         Uma constatação que é um pouco entrega-história, spoiler

Credo! “Claro, a gente ouve todas essas histórias sobre como todos planejam suas famílias perfeitas, mas a verdade é que a maioria dos bebês é produto de noites de bebedeira e falta de controle da natalidade. São acidentes.”

Que brilho de texto. Gostaria de ter escrito isso.

Pouco tempo depois que o filme terminou, no rápido período entre o fim do filme e eu começar a fazer esta anotação, me lembrei de Garota de Ouro/Million Dollar Baby, que o gigante Clint Eastwood fez em 2004, e também do igualmente belo e triste As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, de 2003. Lembrei também – e só quem viu o filme poderia talvez entender por quê – do quarto longa metragem da série Star Trek, Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa, de 1986.

E fiquei pensando numa coisa assim: daqui a algumas dezenas de anos (se a humanidade não se destruir antes, é claro), quando as futuras gerações estudarem nos livros de história como eram as relações entre as pessoas e a morte, as imposições dos Estados, das leis, sobre as relações entre as pessoas e a morte, no início do século XXI, seguramente vão constatar como éramos uns pobres ignorantes. Vão ter a exata noção de como, apesar de termos obtido razoável progresso em algumas áreas tecnológicas, ao longo de uns seis mil anos de História, ainda estávamos bem perto da época em que não passávamos de um bando de bárbaros pré-históricos vivendo em cavernas.

Uma Prova de Amor/My Sister’s Keeper

De Nick Cassavetes, EUA, 2009

Com Abigail Breslin (Anna Fitzgerald), Sofia Vassilieva (Kate Alexander), Cameron Diaz (Sara Fitzgerald), Alec Baldwin (Campbell Alexander), Jason Patric (Brian Fitzgerald), Joan Cusack (juíza De Salvo), Heather Wahlquist (tia Kelly), Thomas Dekker (Taylor Ambrose), Evan Ellingson (Jesse Fitzgerald), David Thornton (Dr. Chance)

Roteiro Nick Cassavetes e Jeremy Leven

Baseado no livro de Jodi Picoult

Fotografia Caleb Deschanel 

Música Aaron Zigman

Produção New Line Cinema

Cor,

***1/2

Título em Portugal: Para a Minha Irmã

11 Comentários para “Uma Prova de Amor / My Sister’s Keeper”

  1. Nossa eu amei esse filme, muito impressionante a historia dessa familia e essa mae então que luta ao lado da filha ate o ultimo istante..
    só não achei legal essa parte que a irmã da keite não quiz doar o rim para salvar a vida da propria irmã.
    é muito triste que irmã e essa que não pode ser furada para salvar alguem que ela dizia tanto amar.!

  2. Daise , ela não fazia questão de ser ou nao durada. A Kate queria morrer com esperanças de se encontrar com o namorado! Ela estava sofrendo. Ana não pode ajudar da forma que realmente gostaria.

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