Um Grande Problema / Big Trouble


Nota: ★★½☆

Anotação em 2010: O espectador que quiser seriedade, considerações a respeito do amor a vida a morte, retratos da vida, deve passar bem longe de Um Grande Problema. Quem quiser se divertir, rir à beça, terá um prato cheio.

Este filme que Barry Sonnelfeld, o autor dos dois tomos de MIB, Homens de Preto, fez em 2002 é daquele subgênero que eu chamo de Este Aqui é Pra Provar que Vamos Conseguir Fazer Comédia Mais Amalucada, Mais Doidona que a Mais Doida Screwball Comedy dos Anos Clássicos. E o filme consegue o que pretende. É uma comédia de fato hilariante, impagável, com uma piada atropelando a outra – piadas visuais, gags, piadas verbais, escracho total e absoluto, exagero, over acting, baixaria – uma delícia.

A trama reúne uma grande quantidade de tipos, de personagens – com um batalhão de bons atores – e uma imensa quantidade de situações malucas, engraçadíssimas. A ação se passa em Miami, a metrópole mais latina do Império, e há dezenas de piadas gozando Miami.

Alguns personagens:

–  Puggy (Jason Lee) é um hippie après-la-lettre, deslocado no tempo, um ripongão anos 60 perdido nos anos 2000; aparentemente, não precisa de drogas para ficar ligadão, fora do mundo; deve ter caído no caldeirão, como Obelix;

– Eliot (Tim Allen), o narrador da história, já teve seus dias de glória; foi jornalista, ganhou dois Pullitzer, mas a direção do jornal mudou – isso acontece, a gente sabe –, e ele acabou demitido, na mesma época em que descobriu que a mulher andava dando pra outro; abriu uma agência de publicidade e vai mal de vida; o filho adolescente, Matt (Ben Foster), não tem o menor respeito por ele, chama-o de fracassado, perdedor – o adjetivo mais ofensivo com que um americano pode ser definido;

– Arthur Herk (o ótimo Stanley Tucci, exagerando mais que Jack Nicholson e Jim Carrey juntos, se é que isso é possível) trabalhava numa empresa corrupta como exatamente o sujeito encarregado de pagar o suborno aos funcionários públicos; sabe segredos demais, é uma bomba-relógio ambulante, e seus patrões contratam pistoleiros de fora para matá-lo;

– Henry (Dennis Farina) é um dos pistoleiros de fora contratado para matar Arthur; é um trapalhão, coitado – se o espectador estiver interessado em contratar um pistoleiro, vá até Alagoas, não pense em contratar Henry;

– Snake Dupree (Tom Sizemore) e Eddie (Johnny Knoxville) são fugitivos de uma prisão da Flórida que conseguem ser ainda muito mais trapalhões do que Henry, o pistoleiro de fora;

– Monica Romero (a sempre ótima Janeane Garofalo) é uma policial de Miami que resiste impávida colosso ao tosco assédio do parceiro, e que se envolverá com todos os demais participantes dessa trama doida;

– Anna (Rene Russo, loura como Marilyn) é a mulher do safado Arthur Herk; os dois se odeiam feito corintianos e palmeirenses, mas Anna não queria ficar pobre quando se separou do primeiro marido, e então submeteu-se ao novo casamento;

– Jenny (Zooey Deschanel, essa atriz em ascensão) é filha de Anna, o protótipo da adolescente americana inteligente e doida de pedra, colega de Matt, o filho de Eliot.

E há ainda os dois russos do bar localizado em lugar ruim, onde ninguém vai beber, mas é um ótimo endereço para quem quiser comprar armas, de qualquer tipo, inclusive uma excelente bomba atômica que acaba de chegar em uma grande mala de alumínio.

Ah, sim – e haverá também a dupla de agentes do FBI que está atrás da bomba atômica que foi parar no bar dos russos, carregada por Puggy, que se apaixona perdidamente por Nina (Sofia Vergara), a angelical empregada da casa rica dos Herk, que Arthur tenta comer, enquanto sua mulher Anna nem liga, já que de qualquer forma odeia o marido e fica logo muito interessada em Eliot, que quer conquistar o respeito do filho Matt, que por sua vez quer atirar em Jenny (mas com uma pistola d’água), o que chamará a atenção da policial Monica…

Parece confusa uma história que reúne um número tão grande e díspar de personagens? Bem, se parecer confusa, o erro é meu, não do filme. No filme, tudo é claro – e enrolado, é verdade. Enroladamente claro, claramente enrolado – e impagável.

         Depende do momento

O que eu tinha a dizer sobre o filme já está dito. Mas fui dar uma olhadela na internet e vejo no AllMovie – que desce o pau no filme – uma informação interessantíssima. Feito em 2001, o filme teve sua estréia adiada para 2002 por causa do choque dos ataques terroristas do 11 de setembro de 2001, “não apenas por mostrar uma arma nuclear contrabandeada para dentro de um avião, mas também porque o filme goza cruelmente – embora profeticamente –da falta de segurança no aeroporto que permite que tal coisa aconteça”.

O que me faz anotar aqui uma coisa sobre que pensei enquanto via o filme e me divertia com ele. Aquela coisa óbvia de sempre: como tudo na vida, gostar ou não de um filme depende em grande parte do momento. Não acho que este aqui seja um grande filme, é claro; mas me diverti à beça com ele. Filmes provavelmente muito melhores que ele me caíram em momentos em que eu não estava disposto a me divertir, e achei-os horrorosos. É assim mesmo. É normal. Graças a Deus não sou crítico de cinema.

Um Grande Problema/Big Trouble

De Barry Sonnenfeld, EUA, 2002

Com Tim Allen (Eliot Arnold), Rene Russo (Anna Herk), Stanley Tucci (Arthur Herk), Tom Sizemore (Snake Dupree), Johnny Knoxville (Eddie Leadbetter), Zooey Deschanel (Jenny Herk), Omar Epps (Alan Seitz), Dennis Farina (Henry), Ben Foster (Matt Arnold), Janeane Garofalo (Monica Romero), Jason Lee (Puggy), Sofia Vergara (Nina)

Roteiro Robert Ramsey e Matthew Stone

Baseado no livro de Dave Barry

Fotografia Greg Gardiner

Música James Newton Howard

Produção Touchstone

Cor, 84 min

**1/2

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