Um Amor Quase Perfeito / Le Fate Ignoranti

Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Uma agradabilíssima surpresa, este filme italiano feito em 2001. Uma das boas coisas da vida é não estar esperando nada de um filme e ser surpreendido por ele.

Não sabia absolutamente nada sobre o filme, nunca tinha ouvido falar, não conhecia o diretor Ferzan Ozpetek – só reconheci na caixa do DVD o nome de Margherita Buy, ótima atriz. Peguei para experimentar.

É uma maravilha. Um belo, sensibilíssimo filme sobre a vida o amor a morte – e as trapaças que a vida e o amor pregam na gente antes da morte.

A ação começa num museu. Uma bela mulher madura, aí por volta dos 40 anos, está observando esculturas. Um homem muito bem vestido se aproxima dela, fala uma dessas frases imbecis de tentativa de início de conversa, ela o dispensa: diz que está esperando o marido, vão se encontrar, terão em seguida um compromisso social. O homem vai atrás dela, diz uma frase do tipo: “Seu marido não deveria deixar uma mulher bonita como você sozinha”. Ela responde que ele sempre faz isso, está sempre a deixando sozinha para compromissos de trabalho.

Fica óbvio imediatamente que são marido e mulher, estão brincando, fazendo um jogo.

Em seguida o filme nos apresenta um pouco sobre o casal. Antonia (o papel de Margherita Buy) é médica, atende pacientes com aids; veremos depois que é dona, ou sócia, de um laboratório de análises clinicas.

Massimo (Andrea Renzi) é empresário, dono de uma companhia bem estabelecida. São bem de vida – moram numa casa grande, confortável, com um belo quintal que dá para um rio, com duplas de confortáveis poltronas. Gostam de ficar ali, os dois juntos. Parecem um casal feliz, ainda apaixonado – veremos depois que estão casados há 15 anos.

Com cinco minutos de filme, Massimo é atropelado e morre.

Depois da perda do marido, uma nova e terrível dor

Antonia enfrenta a perda mergulhada em profunda tristeza, em um desespero surdo. A mãe, Veronica (Erica Blanc), vai lhe fazer companhia, mas não é de grande ajuda – de ajuda alguma, na verdade. Veronica é uma pessoa desagradável, e diz e repete à filha que ela sempre viveu em função do marido, que deixou sua própria vida em segundo plano.

As pessoas da firma de Massimo juntam seus pertences pessoais que estavam no escritório e enviam para a casa dele. Antonia resolve colocar na parede um quadro que veio do escritório, chamado “A Fada Ignorante” – o título original do filme é este, só que no plural, Le Fate Ignoranti. Na hora em que vai pendurar o quadro, ela nota uma dedicatória feita para Massimo. É uma apaixonada declaração de amor – e que cita sete anos de vida juntos. A metade do tempo do casamento que Antonia achava quase perfeito.

Ela decide ir atrás da amante do marido.

Estamos então com, no máximo, uns 12, 15 minutos de filme. Pouco antes da seqüência do quadro com a dedicatória, eu já me perguntava para onde a história iria. A história – fica-se sabendo com uns 12, 15 minutos de filme – vai dar aí: Antonia vai atrás da amante do marido.

Sua vida vai mudar inteiramente a partir daí. Antonia descobrirá todo um mundo inteiramente novo para ela – e não teria qualquer sentido esta anotação revelar mais nada a respeito da trama. Seria um spoiler, um estraga-entrega absurdo.

Estilo despojado, belíssimas interpretações, personagens bem construídos

A história criada pelo diretor Ferzan Ozpetek e seu co-roteirista Gianni Romoli é fascinante, rica, e contada com extrema sensibilidade. O estilo do diretor é absolutamente simples, despojado, sem qualquer firula, fogos de artifício. É aquele tipo de diretor que tem uma boa história e sabe contá-la bem.

Todas as interpretações são magníficas. Já admirava Margherita Buy de outros filmes, mas neste aqui ela está nada menos que soberba, maravilhosa. Stefano Accorsi também dá um show. Há diversos personagens secundários, sempre muito bem construídos, e bem interpretados.

O filme alterna momentos de profunda tristeza com algumas seqüências alegres, pra cima – e o equilíbrio que Ozpetek consegue entre os diferentes climas é perfeito.

Um Amor Quase Perfeito ganhou sete prêmios e teve outras dez indicações em diversos festivais.

Ferzan Ozpetek, Andrea Guerra, Violeta Parra – e um redator anônimo

Aprendo que Ferzan Ozpetek nasceu em Istambul, em 1959; radicou-se na Itália a partir de 1976, onde foi estudar história do cinema. Foi membro do júri do Festival de Veneza em 2007. Estreou na direção em 1997; este aqui foi seu terceiro filme. Fez cinco outros depois. Gostaria muito de ver alguns deles.

Dois detalhes:

A boa trilha sonora é de Andrea Guerra, compositor prolífico, que já fez música para mais de 80 trilhas; nascido em 1961, ele é filho de Tonino Guerra, um dos grandes roteiristas do cinema italiano, que trabalhou com Antonioni, De Sica. Não dá para saber se é de Andrea Guerra a escolha de “Gracias a la Vida”, o hino da chilena Violeta Parra, para ser cantada por um grupo de amigos, numa bela seqüência do filme – mas, seja de quem tenha sido, foi uma bela idéia. Não conhecia a versão em italiano dos emocionantes versos de Violeta.

Merece um elogio o autor da sinopse do filme na contracapa do DVD brasileiro, lançado pela Europa Filmes. A sinopse – ao contrário do que ocorre tantas vezes – é cuidadosa e não revela o que não deve ser revelado a quem ainda não viu o filme, o que acontece quando, lá pelos 20 minutos de ação, a protagonista Antonia começa a conhecer a outra vida que seu marido Massimo levou durante metade de seu casamento que parecia quase perfeito.

Outros filmes com Margherita Buy já no site:

Em Busca do Paraíso/Facciamo Paradiso, de Mario Monicelli, 1995;

O Mais Belo Dia de Nossas Vidas/Il Più Bel Giorno della Mia Vita, de Cristina Comencini, 2002;

Dias de Abandono/I Giorni dell’Abandono, de Roberto Faenza, 2005.

Um Amor Quase Perfeito/Le Fate Ignoranti

De Ferzan Ozpetek, Itália-França, 2001

Com Margherita Buy (Antonia), Stefano Accorsi (Michele), Serra Yilmaz (Serra), Gabriel Garko (Ernesto), Erica Blanc (Veronica), Andrea Renzi (Massimo), Koray Candemir (Emir), Lucrezia Valia (Mara), Filippo Nigro (Riccardo)

Argumento e roteiro Gianni Romoli e Ferzan Ozpetek

Música Andrea Guerra

Fotografia Pasquale Mari

Produção R&C Produzioni, Les Films Belanciaga. DVD Europa Filmes

Cor, 106 min

***1/2

Títulos em inglês: His Secret Life, Ignorant Fairies

Um Trackback

  1. […] uma olhada nas anotações que fiz sobre os dois filmes anteriores do diretor, Um Amor Quase Perfeito/Le Fate Ignoranti, de 2001, e A Janela de Frente/La Finestra di Fronte, de 2003, e é muito interessante que o […]

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