Tudo por Amor / Pour Elle


Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Uma maravilha de filme, um drama humano pesado, denso, que é também um thriller eletrizante, envolvente, e um belo estudo de personagens. O diretor Fred Cavayé consegue criar um clima forte, que deixa o espectador em suspense o tempo todo, torcendo desesperadamente pelos protagonistas.

Cavayé, um diretor que eu não conhecia, escreveu o roteiro com Guillaume Lemans, o autor da idéia a partir da qual se desenvolveu a trama, a história. E a idéia básica é simples, fortíssima, marcante.

Toda a abertura do filme é brilhante. Em menos de dez minutos, os dados básicos são apresentados ao espectador de forma claríssima, límpida, e com poucas palavras, poucos diálogos – tudo é mostrado cinematograficamente, pelas imagens.

A narrativa se utiliza daquela estrutura que tem sido bastante usada, que vou passar a chamar de narrativa-laço: começamos no dia X; logo há o flashback, voltamos atrás, para X menos alguma coisa – no caso do filme, voltamos três anos. Em seguida, vamos avançando no tempo, até chegar de volta ao dia X do início, e daí para mais adiante, X mais alguma – no caso específico, mais três dias. É em forma de laço: faz uma volta, retorna ao ponto inicial e vai em frente.

Cavayé e o co-roteirista Lemans fizeram um laço, e um início de laço, criativo, rápido, claro, que de fato fisga o espectador. O filme abre com a tela totalmente negra; primeiro ouvimos, depois é que vemos. Ouvimos o ruído de portas de carro se fechando, e os gemidos de um homem; vemos um outro homem, com sangue nas mãos e no rosto, dando a partida num carro. Tudo muito rápido, pouquíssimas tomadas do motorista que tem sangue nas mãos e no rosto que expressa muita angústia; de vez em quando ele olha para o banco traseiro (que o espectador não vê), onde está a pessoa que geme. Vão aparecendo os créditos iniciais, só com os nomes mais importantes – até o título do filme. A tela fica negra de novo, e aí um letreiro avisa: “Os três últimos anos”.

E vemos seqüências de um casal apaixonado. O homem é o que havíamos visto dirigindo o carro – Julien, interpretado por Vincent Lindon; a mulher é Lisa, o papel de Diane Kruger, lindíssima como sempre, trabalhando bem como nunca tinha visto.

         Três anos antes, um casal apaixonado, em vida normal

Em seguida vemos uma cena do cotidiano matinal do casal Julien e Lisa. Ele dá comida na boca do filhinho Oscar, que tem aí cerca de um ano de idade. Feliz, ela faz foto dos três. Pelo rápido diálogo, ficamos sabendo que ele é professor, e que ela está tendo problemas com a chefe no trabalho dela, tanto que não poderá pegar Oscar na creche naquele dia.

Uma batida na porta do apartamento – entram vários policiais; aqui as tomadas se tornam muito rápidas, frenéticas; os policiais são violentos, imobilizam com brutalidade Julien e Lisa, enquanto Oscar começa a chorar alto. Lisa está sendo presa acusada de ter assassinado a chefe.

É tudo muito rápido, neste início da narrativa. Veremos cenas em que Lisa assassina a chefe, na garagem do prédio em que trabalha, batendo nela com um extintor de incêndio; veremos que novo apelo por sua libertação, com base em novas provas, é negado; veremos Lisa recebendo a notícia – e em seguida veremos tomadas bem parecidas com as anteriores, em que uma outra mulher assassina a vítima. Lisa chegou ao local do assassinato pouco depois, não viu o corpo da mulher que jazia no chão, mas viu o extintor de incêndio no chão perto de seu carro, pegou nele, levou-o para um ponto mais adiante. Foi vista por uma testemunha, o extintor tinha suas digitais, todos no escritório haviam ouvido ela e a chefe gritando uma com a outra durante o expediente. Um bando de indícios, e Lisa foi condenada a 20 anos de prisão. A Justiça, quando não tarda, falha.

Tudo isso – que poderia ocupar um filme inteiro – é apresentado ao espectador, repito, em menos de dez minutos. É brilhante, é de tirar o fôlego – e é profundamente impactante. Não há como o espectador não se chocar com essa história brutal, um erro judiciário destruindo a vida de uma família normal, feliz, trabalhadora, honesta, que nunca tinha feito mal a ninguém.

         Uma grande importância para os pequenos gestos, olhares

 Todo o elenco está soberbo, magnífico. Vincent Lindon, em uma interpretação contida, o contrário do exagero, do over, transmite de forma emocionante a dor, a angústia do marido apaixonado que vê a mulher ser vítima de uma armadilha do destino e de um erro da Justiça. Diane Kruger está igualmente bem – a gente vai vendo como a força, a coragem, a capacidade de suportar, vão abandonando Lisa.

O diretor Cavayé consegue demonstrar grande talento e competência tanto para fazer cenas de thriller – lutas, violência, perseguição – quando mostrar pequenos detalhes que evidenciam a dor daqueles pobres personagens.

Por exemplo: quando, dois anos e tanto após a prisão de Lisa – chegando perto, portanto, do ponto X mostrado nas primeiras tomadas –, Julien leva Oscar para as visitas semanais na prisão, o garoto não tem mais ligação afetiva com a mãe, foge dos beijos dela. A gente vê a angústia, o desespero da mãe estampados claramente na tela.

Olhares, pequenos gestos dizem muito, no filme. Lá pela metade da narrativa, há um pequeno incidente que mostra o talento do diretor e dos roteiristas em mostrar os pequenos detalhes de que é feita a vida. Julien leva Oscar para brincar em um parque; ele está sentado em um banco, e aproxima-se dele uma mulher, que já havíamos visto em outra cena parecida; ela tenta puxar conversa com Julien – vemos, escarrada na tela, a solidão daquela pessoa, tentando uma aproximação com um homem. Julien percebe a intenção da mulher, fecha-se como um tatu bola, levanta-se, procura Oscar e se manda dali depressa.

Uma beleza de filme.

         Os americanos estão refilmando a história – mas pra que, meu Deus?

Vou agora tentar achar informações e outras opiniões.

Vejo no AllMovie que os americanos – com aquela lógica estúpida e perversa de que, se o filme não é americano, então não valeu, e deve-se refilmá-lo – estão fazendo uma nova versão da história, agora em 2010; o filme vai se chamar The Next Three Days, e terá no elenco Russell Crowe, Elizabeth Banks e Liam Neeson. O diretor é Paul Haggis, autor dos excelentes Crash e No Vale das Sombras. Um bom diretor, bons atores – mas para que refilmar essa história que os franceses fizeram com a maior competência apenas três anos antes, meu Deus do céu e também da terra?

No iMDB, vejo que este foi o primeiro longa-metragem do diretor Fred Cavayé, que antes havia feito três curtas. Credo, o rapaz tem talento demais: o filme demonstra uma maturidade que jamais seria de se esperar de um estreante. Ele foi indicado ao César de melhor primeiro filme.

O iMDB também informa que todas as cenas na prisão e as feitas em estúdio foram filmadas na ordem cronológica, porque Cavayé achava importante que os atores sentissem a evolução dos personagens. Funcionou – como eu notei antes, a gente acompanha como a força de viver vai se esvaindo de Lisa, ao longo da história, numa bela interpretação de Diane Kruger.

Não sei se essa moça está prosa, mas ela está com tudo. Lindíssima, tem trabalhado em aventuras do cinemão americano, como os dois tomos de A Lenda do Tesouro Perdido, em superprodução do cinemão americano (Tróia), em filmes europeus sérios, densos (este aqui, Feliz Natal) e está também em Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. Em Bastardos Inglórios, seu personagem goza os americanos por sua incapacidade histórica de aprender uma segunda língua; é uma boa piada interna, porque a alemã Diane, ao contrário dos americanos, é poliglota; no filme de Tarantino, fala alemão e também inglês, como se fosse inglesa; aqui, fala francês como os franceses. 

Diane Kruger – conta ainda o inesgotável iMDB – insistiu em se encontrar com o diretor Cavayé antes de aceitar o papel; ela achava que o personagem de Lisa não estava tão bem desenvolvido quanto deveria. Trabalharam juntos para dar mais vida ao personagem, que acabou tendo um papel muito maior do que nas primeiras versões do roteiro.

É, repito, uma beleza de filme. É uma coisa rara: um thriller com alma.

Tudo por Amor/Pour Elle

De Fred Cavayé, França, 2008

Com Vincent Lindon (Julien), Diane Kruger (Lisa), Lancelot Roch (Oscar), Liliane Rovere (mãe de Julien), Olivier Perrier (pai de Julien) 

Roteiro Fred Cavayé e Guillaume Lemans

Baseado em idéia original de Guillaume Lemans

Fotografia Alain Duplantier

Música Klaus Badelt

Produção Fidélité Films, Wild Bunch, TF1 Films.

Cor, 96 min

***1/2

11 Comentários para “Tudo por Amor / Pour Elle”

  1. Gostei bastante, apesar de ter achado que no final perderam um pouco a mão.
    Mas não acho que o diretor tenha deixado claro que ela era inocente, ele apenas mostrou as duas possibilidades. Eu não tive certeza, em nenhum momento, de que ela era inocente.
    Me pareceu que o marido era louco de paixão por ela, e fez tudo sem nem pensar duas vezes se ela não era realmente culpada.
    A cena final me lembrou a última cena (ou quase isso) de O Silêncio dos Inocentes, quando o Hannibal foge e eles mostram ele chegando a outro país, provavelmente latino.

    Sérgio, só um detalhe: será que o nome do filme não é Tudo Por Ela? Pelo menos foi com esse nome que eu consegui baixá-lo, no ano passado.

  2. Jussara, é possível que o filme tenha sido lançado primeiro com o título de “Tudo por Amor” e depois com o título de “Tudo por Ela”. Eu vi como “Tudo por Amor”. O bom site By Star Filmes também se refere a ele como “Tudo por Amor”.

  3. Ah, sim, quanto a Lisa ser inocente. Tudo bem: cada cabeça, uma sentença – e acho interessante que você, Jussara, tenha achado que o filme mostra as duas possibilidades. Mas para mim ficou abssolutamente claro que Lisa é inocente.

  4. Hum, então deve ter sido isso, Sérgio. Pois quando baixei, o que aparecia pra mim como sendo Tudo por Amor era o Dying Young, com a Julia Roberts. E quando vi o DVD para vender o título tb era Tudo por Ela.

    Achei que o filme mostra as duas possibilidades, e mais: fiquei achando o tempo todo que ela era culpada.
    Foi o jeito como o diretor mostrou as coisas que me fez ter essa sensação. Quem sabe a versão americana me passaria outra impressão? Não sei.

  5. Eu estava lendo teu comentário sôbre “CRIME DE AMOR”,quando no final falas sôbre este aqui. Já tinha visto, há algum tempo em um canal da NET, não me lembro qual.
    De fato, ele era amarradão nela e, com certeza faría tudo de novo sem nem pensar metadede uma vez.
    Eu tbm Sergio, sempre achei que ela era inocente.
    Quando eu assisti, o título tbm era,”tudo por ela”.

  6. Olá, Sérgio! Assisti à versão americana (72 horas é o título) antes de ler seu comentário aqui e gostei bastante. Ainda quero ver esse francês…

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