Testemunha de Acusação / Witness for the Prosecution

Nota: ★★★★

Anotação em 2010: Testemunha de Acusação é o máximo. É uma obra-prima, uma perfeição. A gente não cansa de ver – cada vez que vê, é de novo um prazer imenso, renovado.

Não são muitos os filmes assim. De forma alguma.

Não sei quantas vezes já vi o filme. Tento ser organizado, tento anotar tudo direitinho, mas não consigo, conforme mostra o caso de Testemunha de Acusação. Só achei registro de duas vezes, antes desta mais recente revisão agora, em julho de 2010, e já vi o filme umas seis, oito, dez vezes. Mas isso não importa.

É um filme absolutamente genial.

Enquanto revia pela sei lá quantas vezes o filme, fiquei pensando coisas como:

– ficam aí tentando criar histórias com reviravoltas; tudo bem, é um direito das pessoas. Mas nunca vão criar uma história com reviravoltas como esta;

– ficam aí tentanto fazer filmes que surpreendam; tudo bem. Mas já foram feitos filmes perfeitos que surpreendem muito, demais;

– ficam aí criando todo tipo possível de fogos de artifício, de truquezinhos, de invençõezinhas, para parecer moderno, e novo, e inovador, e genial; tem nego que acha que o cinema começou com Quentin Tarantino. Volta e meia criam uma novidade de tamanho de tela – nos últimos anos tem um monte de nego apostando no 3D. Besteira, tudo besteira, coisa periférica. Para fazer um grande filme, é preciso de uma bela história, um belo roteiro para contar bem a história, um grande diretor, grandes atores. Só isso – ou melhor, tudo isso. O resto é perfumaria, armazém de secos e molhados. Modismo. Coisa que passa, que nem chuva de verão.

Um grande encontro de artistas fora do comum

Testemunha de Acusação é, entre muitas outras coisas, o encontro de quatro artistas fora do comum: Agatha Christie, Billy Wilder, Charles Laughton e Marlene Dietrich.

Agatha Christie (1890-1976), aquela velha inglesa louca de pedra, criou, sei lá, mais de 400 histórias. Tinha mais idéias de histórias do que o Tio Patinhas tinha moedas em seu cofre, e felizmente viveu muito. Qualquer professor de literatura terá trocentos argumentos para dizer que Agatha Christie é uma autora menor – mas as pessoas não dão a menor bola para o que os doutores falam em suas emproadas teses. As pessoas adoram as histórias envolvendo crimes, e a velhinha louca soube como ninguém bolar essas histórias.

Das 400 histórias que ela bolou, e das, sei lá, 50 que li, costumava achar que O Assassinato de Roger Ackroyd fosse a melhor. Não é, não. Agora penso que a melhor é Testemunha de Acusação.

É uma trama intensa, rica, que fala de fidelidade e traição, amor e ódio, admiração e inveja, competência e ambição, crime e castigo.

Testemunha de Acusação talvez não seja o melhor filme de Billy Wilder (1906-2002). Até porque é difícil definir qual é o melhor filme desse diretor excepcional, extraordinário, que fez de tudo – de drama soturno sobre alcoolismo, Farrapo Humano, a filme de guerra, Inferno nº 17, de denúncia violenta do jornalismo sensacionalista, A Montanha dos Sete Abutres, à essência do film noir, Pacto de Sangue, da comédia mais trágica que pode haver, Se Meu Apartamento Falasse, à comédia mais escrachada, Quanto Mais Quente Melhor.

Charles Laughton (1899-1962) é um gigante – seu talento consegue ser maior que seu corpanzil. É um dos melhores atores destes primeiros cento e tantos anos de história do cinema. Segundo Billy Wilder, é o melhor ator com que ele trabalhou. Em Testemunha de Acusação, dá um show absurdo. O Sir Wilfrid Robarts que ele cria é um dos personagens mais marcantes da história do cinema – o melhor advogado criminal da Inglaterra, uma lenda, já um sir, que teve um ataque cardíaco, ficou em coma, ficou semanas no hospital, e, no dia em que volta finalmente para seu escritório, protegido por uma enfermeira linha dura e por um mordomo fiel até a mais completa sabujice, fica sabendo de um caso interessante – um homem suspeito de assassinar uma senhora sua amiga que jura inocência, mas cujo único álibi é sua mulher, e os jurados não costumam acreditar muito em um único álibi provido exatamente pela mulher do réu.

Ninguém dirigido por Billy Wilder trabalha mal

O acusado, Leonard Vole, é interpretado por Tyrone Power (1914-1958), o ator que fez suspirar milhões de mocinhas nos anos 30 e 40 – mas o filme é de 1957, e o astro estava já um tanto velhinho. Foi seu último filme, aliás.

Não está mal, Tyrone Power, como o homem que tudo indica que é o assassino, mas que consegue convencer o veterano, brilhante advogado da sua inocência. Demonstra uma certa calma, em algumas seqüências, um certo estupor em outras, e pavor, temor, desespero, em outras. Ninguém dirigido por Billy Wilder trabalha mal.

Mas o show é de Charles Laughton como Sir Wilfrid Robarts, o melhor advogado criminal da Inglaterra, e de Marlene Dietrich, como Christine Vole, a mulher de Leonard, seu único álibi.

E aqui não consigo me impedir de anotar sobre a extraordinária riqueza da língua inglesa. Há bem no começo do filme um diálogo que usa três palavras para o que, na última flor do Lácio inculta e bela, temos apenas uma, “advogado”. Num único diálogo, quando Sir Wilfrid conhece Leonard, fala-se em lawyer, solicitor e barrister. Lawyer é o termo genérico, o cara que estudou Law, a lei; solicitor é o advogado das causas cíveis, acho eu; barrister – aí está a riqueza – é o advogado que fica diante da bar, a barra do tribunal, ou seja, o advogado criminal, que enfrenta júris. Não sei se é riqueza da língua ou da civilização inglesa – ou um indício de que aquele povo tem mais respeito à lei do que outros povos, mais recentes, mais novos, criados nos trópicos – povos mais chegados a uma ginga de corpo, ao jeitinho, à esperteza, à Lei de Gérson, a presidente da República que zomba das leis.

As lentes das câmaras se derretem por Marlene

E então chegamos a Marlene Dietrich (1901-1992), a quarta artista fora do comum deste filme em que quatro artistas maiores, extraordinários, fora do comum, se encontraram.

Marlene é uma diva, uma das maiores que já passaram pelas telas do cinema. Que beleza, que poder tem aquele rosto, feito para deixar apaixonadas as câmaras de cinema que passassem à sua frente. Como eu mesmo já disse, não é à toa que as câmaras de Hitchcock, de Orson Welles, de David O. Selznick (o cara era mais que um simples produtor, era o autor dos seus filmes), de Rouben Mamoulian, de René Clair, de Stanley Kramer, de Fritz Lang, de Billy Wilder, se apaixonaram por Marlene Dietrich. As lentes das câmaras parecem se derreter diante dela.

Marlene, é sempre bom lembrar, deixou sua Alemanha natal em 1930, três anos antes de Hitler assumir o poder. Foi levada para Hollywood por seu conterrâneo Josef Von Sternberg, depois que os dois fizeram juntos, ainda na Alemanha, O Anjo Azul, e deixaram o mundo babando. Os alemães tentaram atraí-la de volta, antes e depois da ascensão do nazismo, mas Marlene continuou nos Estados Unidos; durante a guerra, botou uniforme americano, trabalhou entretendo as tropas aliadas que lutavam contra Hitler e Mussolini. Conquistou com isso o ódio de muitos alemães. Só voltou à terra natal em 1960, quando fez uma turnê como cantora; segundo o CineBooks’, naquela ocasião “disseram a ela que poderia haver uma recepção raivosa por parte de alguns alemães, inclusive com violência (e houve registros de que alguém poderia atirar nela durante as apresentações).”

Uma personagem extraordinária para uma atriz idem

Billy Wilder fez não um, mas dois filmes em que Marlene Dietrich interpreta uma alemã vivendo no seu país destruído, dizimado, devastado pela Segunda Guerra, e que encontra ajuda com soldados aliados. Esta é uma coincidência, ou repetição, que me parece absolutamente fascinante. Em A Mundana/A Foreign Affair, de 1948, ela é Erika Von Schluetow, mulher de um importante oficial nazista, agora (a ação se passa logo após o fim da guerra, em 1946) vivendo em penúria entre os escombros do que sobrou de Berlim; para sobreviver, canta num cabaré no meio das ruínas, e, em troca de sua beleza, recebe presentes fartos de um capitão do exército americano.

Em Testemunha de Acusação, faz o papel de Christine, que, logo após o fim da guerra, vivia em penúria entre os escombros do que sobrou de Hamburgo; para sobreviver, cantava num cabaré no meio das ruínas. Foi lá que conheceu Leonard Vole, então um sargento do Exército. Leonard casou-se com ela e a levou para a então bem mais segura e rica Inglaterra. Alguns anos depois, em 1952 – é aí que se passa a ação –, Leonard Vole é preso, acusado de assassinar uma senhora muito rica, e sua única chance de salvação, seu único álibi, é a palavra de Christine.

Christine-Marlene demora a aparecer na tela. Entra em cena quando já se passaram uns 30 minutos de filme – 30 rápidos minutos de um filme em tudo brilhante. Mas, depois que ela aparece, o filme melhora ainda mais.

É uma atriz extraordinária, Marlene Dietrich. É uma personagem extraordinária, Christine Vole. O espectador é obrigado a concordar com Sir Wilfrid quando ele diz, a boca aberta de espanto: “Que mulher extraordinária!”

Personagens interessantes, bem construídos, bem interpretados

É impressionante como todos os personagens são interessantes, bem construídos – e bem interpretados. A velhinha Una O’Connor, feia que nem a fome, é impagável como Janet McKenzie, a escocesa pobre que trabalha como empregada na casa da viúva rica que será assassinada. Aparece em duas seqüências, apenas, mas é perfeita.

Elsa Lanchester faz com brilhantismo a enfermeira Miss Plimsoll, que trava uma guerra sem tréguas contra seu paciente indócil, que, mal se recuperando de um ataque cardíaco, se expõe à batalha no tribunal e não abre mão dos charutos e do conhaque. A simpática e talentosa atriz era casada, na vida real, com Charles Laughton.

Até Diana (interpretada por Ruta Lee), uma bela jovem morena que se senta ao lado da enfermeira Plimsoll, nas galerias do tribunal, e aparece menos de três minutos na tela, é bastante interessante.

O filme teve seis indicações ao Oscar – melhor filme, melhor diretor, melhor ator para Charles Laughton, melhor atriz coadjuvante para Elsa Lanchester, melhor montagem para Daniel Mandell, melhor som para Gordon Sawyer. Não levou nenhum.

Elsa Lanchester levou o Globo de Ouro como coadjuvante; houve indicações do Globo de Ouro também para melhor filme, melhor diretor, melhor ator para Charles Laughton e melhor atriz para Marlene Dietrich (na categoria drama, é claro).

“Só trabalhei com dois grandes diretores: Billy Wilder e von Sternberg”

Marlene não fala uma palavra sobre Testemunha de Acusação em sua bela autobiografia, lançada em 1987. Marlene Dietrich (autobiografia) é um livro fascinante, muitíssimo bem escrito, pontuado por observações inteligentes, de imensa sensibilidade – mas não é um relato cuidadoso e detalhado, que respeite muito a ordem cronológica. Distraída, pouco metódica, a diva não costuma dar direito as datas dos fatos. Aprofunda-se em alguns temas, passa ao largo de outros.

Fala de Billy Wilder, mas sobre A Mundana. Depois da guerra, retornou aos Estados Unidos e, segundo ela mesma afirma, voltou a representar “para ganhar dinheiro”. “Billy Wilder tinha chegado a Paris para convencer-me a interpretar o papel de uma mulher nazista no seu filme. Havia recusado ao telefone. Na ocasião, não sabia que não se consegue escapar de Billy Wilder. A ação de A Mundana está intimamente ligada aos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Wilder rodou em Berlim todas as cenas em que o ator principal não aparece. Então, viajou a Paris, onde me encontrava na ocasião, para falar-me de seu projeto. Claro que não pude resistir.”

Quando os dois voltaram a trabalhar juntos, em 1957, para fazer Testemunha de Acusação, Marlene estava mais envolvida com sua nova carreira de cantora. Fazia turnês por diversos países do mundo, mas seu interesse pelo cinema era quase nenhum – depois deste filme, só faria mais dois, A Marca da Maldade/Touch of Evil (1958), de Orson Welles, e Julgamento em Nuremberg (1961), de Stanley Kramer.

Trabalhou com diversos diretores, Orson Welles entre eles, mas, quando Peter Bogdanovich a entrevistou para seu livro Picture Shows, e disse a ela “A senhora trabalhou com muitos grandes diretores…”, a diva o interrompeu: “Não, não. Só trabalhei com dois grandes diretores, von Sternberg e Billy Wilder”.

Um dos melhores filmes de Hitchcock – só que feito por Wilder

Marlene e Wilder haviam se conhecido ainda em Berlim, em 1929, antes que os dois fossem para Hollywood. Ela estava começando no teatro, fazia uma revista musical, e ele, que trabalhava como jornalista, foi entrevistá-la. Ficaram amigos em Hollywood, nos anos 30. Billy Wilder conta, no livo Billy Wilder – e o resto é loucura, uma biografia do mestre escrita pelo professor e crítico alemão Hellmuth Karasek, que contém longos depoimentos do próprio biografado, que foi escolhido para dirigir Testemunha de Acusação graças a Marlene:

“Marlene Dietrich me perguntou se não queria filmar com ela o livro Testemunha de Acusação, de Agatha Christie. Ela condicionou sua participação, dizendo que só aceitaria se eu assumisse a direção.”

Na mesma biografia-relato, o diretor conta que, ao longo de sua carreira, aconteceu apenas duas vezes de ele ter sido elogiado pelo autor do livro em que se baseou. A primeira foi com Pacto de Sangue, de 1944: James M. Cain, o autor do livro, disse a Wilder que ele havia melhorado sua narrativa com o filme, “o que posteriormente só me ocorreu uma única vez: com Agatha Christie, depois da primeira exibição de Testemunha de Acusação”.

Há uma frase brilhante de Hellmuth Karasek que define com perfeição este filme. Vai aí:

Testemunha de Acusação é um dos melhores filmes de Hitchcock – só que dirigido por Billy Wilder.”

Sem dúvida, Hitchcock teria tido o maior prazer em assinar este filme.

Ao final do filme, há um pedido ao espectador: “A gerência deste cinema sugere que, para maior entretenimento de seus amigos que ainda não viram este filme, não contem o segredo do final de Testemunha de Acusação.”

Três anos depois, Hitchcock usaria essa mesma idéia: toda a campanha de marketing de Psicose, lançado em 1960, era em torno da recomendação para que ninguém revelasse o final do filme. Esperto, grande marqueteiro, o velho inglês ainda bolou um expediente a mais: os cinemas não permitiam a entrada de espectadores depois de iniciada cada sessão de seu filme.

Hellmuth Karasek está certíssimo: “Testemunha de Acusação é um dos melhores filmes de Hitchcock – só que dirigido por Billy Wilder.”

Testemunha de Acusação/Witness for the Prosecution

De Billy Wilder, EUA, 1957

Com Charles Laughton (Sir Wilfrid Robarts), Tyrone Power (Leonard Stephen Vole), Marlene Dietrich (Christine Vole), Elsa Lanchester (Miss Plimsoll), John Williams (Brogan Moore), Henry Daniell (Mayhew), Ian Wolfe (Carter), Una O’Connor (Janet MacKenzie), Torin Thatcher (Meyers), Francis Compton (juiz), Norma Varden (Mrs. Emily French), Ruta Lee (Diana)

Roteiro Billy Wilder, Harry Kurnitz e Larry Marcus

Basedo na novela e na peça de Agatha Christie

Montagem Daniel Mandell

Fotografia Russell Harlan

Música Matty Malneck

Produção United Artists.

P&B, 114 min

R, ****

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