Romance Inesperado / The Matchmaker


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2009: A Irlanda exerce um fascínio sobre o cinema americano. Sobre mim também, e há muito tempo. Só isso explica o fato de eu ter ido até o fim desta comedinha romântica que é bastante, bastante, mas bastante idiota.

Deve haver filmes mais antigos que mostram esse fascínio pela Irlanda, mas basta lembrar de Depois do Vendaval/The Quiet Man, a obra-prima de John Ford, de 1952, para identificá-lo. Ultimamente, virou quase um subgênero esta história de pessoas que descobrem o verdadeiro amor na terra dos antepassados de Ford, de John Kennedy e de tantos milhões de americanos. (Assim como Minas Gerais exporta mineiros e minérios, a Irlanda exporta irlandeses e música para o mundo inteiro, mas em especial para os Estados Unidos.) Acontece isso com a personagem de Hilary Swank em P.S. Eu Te Amo. Acontece com a personagem de Jeanene Garofalo neste Romance Inesperado.

O principal problema deste filme é a pobreza, a imensa indigência do roteiro. Criaram uma situação bem bobona, bem bocó, para fazer a mocinha americana encontrar o mocinho irlandês. É assim: um senador por Massachussets – o Estado tem muitos descendentes de irlandeses, incluindo aí todo o clã Kennedy –, chamado John McGlory (Jay O. Sanders) precisa, para se reeleger, exibir suas origens irlandesas. Nick (Denis Leary), seu marqueteiro, deposita todas as suas fichas nisso, e despacha para lá uma funcionária da sua equipe, Marcy – o papel de Jeneane Garofalo.

E lá vai ela atrás de Ballinagra, a pequenina cidade onde, supostamente, viviam os ancestrais do senador, para entrevistar seus parentes e mostrá-los na campanha na TV. Seguem-se todos os previsíveis clichês que se conhecem sobre os irlandeses: um povo que adora uma briga, que adora uma cerveja, que adora um uísque, que adora uma canção tradicional, etc, etc, etc, etc.

Ora, meu Deus do céu e também da terra: fazer uma campanha política com base apenas e tão somente no fato de que alguém é irlandês é uma idéia estúpida, idiota, cretina. E fazer um filme baseado em clichês e estereótipos, idem, ibidem. Não poderia dar nada que prestasse.

E não deu mesmo.

Há diversas seqüências que tentam fazer um humor pastelão, escrachado, que são de deixar o espectador envergonhado, como algumas das brigas entre os dois irmãos irlandeses.

         Jeneane Garofalo salva o filme da indigência total

Dentro da indigência total, o que tem de menos ruim? A própria Jeneane Garofalo é um ponto. É uma atriz que todo mundo já viu como coadjuvante em mais de um filme, mas de quem normalmente não se lembra o nome, não se identifica. Fez muita TV, muitas vezes ao lado de Ben Stiller; o iMDB registra 98 trabalhos dela na TV e no cinema. Acho que essa Marcy foi o único papel principal que ela teve na vida. Jeneane Garofalo é bonitinha, gostosinha, simpatiquinha – e, em boa parte do filme, está com as coxinhas gordinhas à mostra. 

Outro ponto é Milo O’Shea, que faz o papel de Dermot, o casamenteiro, o matchmaker do título original – não por coincidência, a mesma profissão de Michaleen Oge Flynn, o delicioso personagem interpretado por Barry Fitzgerald em Depois do Vendaval. Quem viu Sacco e Vanzetti, o belíssimo filme de Giuliano Montaldo, de 1971, certamente se lembra dele como o advogado Fred Moore, que faz a defesa dos dois italianos presos por um crime que não cometeram, no meio de uma histeria anti-comunista e anti-imigrantes nos anos 20.

O filme tem ainda a belíssima Maria Doyle Kennedy, de The Commitments, de Alan Parker, com seus maravilhosos olhos. Pena que deram para ela um papel pequeno, quase apagado, como a dona do hotel onde Marcy se hospeda na cidadezinha irlandesa.

E, finalmente, há a própria Irlanda – as paisagens esplendorosas, a cerveja, o uísque e as canções. Lá pelas tantas, alguém canta “Carrickfergus”, a belíssima música que já foi gravada por Joan Baez, Van Morrison, Dubliners, Bryan Ferry, Chieftains, James Galway. Por Jeneane Garofalo e por “Carrickfergus”, essa idiotice merece uma estrelinha. No mínimo, é uma lembrança para ouvir “Carrickfergus” mais umas cinco vezes seguidas.

De qualquer forma, fui conferir o que diz a resenha do AllMovie. Generosos, dão 2.5 estrelas em 5. Como eu, o autor da resenha, Michael Costello, gosta de Jeneane Garofalo. Diz que é graças a ela que o filme permite que se dê boas risadas, e acrescenta: “A presença inteligente de Garofalo é um ponto positivo de todos os filmes em que aparece, e este aqui não é uma exceção, mas a falta de química entre ela e seu interesse amoroso é palpável. Os clichês e estereótipos da vida irlandesa, que deveriam servir de pano de fundo para os amantes começam a irritar depois de algum tempo.” 

É isso aí. Eu só diria que eles começam a irritar desde o primeiro momento.

Romance Inesperado/The Matchmaker

De Mark Joffe, Irlanda-Inglaterra-EUA, 1997

Com Janeane Garofalo (Marcy Tizard), David Patrick O’Hara (Sean), Milo O’Shea (Dermot), Jay O. Sanders (Senador John McGlory), Rosaleen Linehan (Millie), Paul Hickey (Declan), Maria Doyle Kennedy (Sarah), Saffron Burrows (Moira), Denis Leary (Nick) 

Roteiro Karen Janszen, Graham Linehan e Louis Nowra

Fotografia Ellery Ryan

Música John Altman

Produção Gramercy Pictures, PolyGram, Working Title Films

Cor, 97 min

5 Comentários para “Romance Inesperado / The Matchmaker”

  1. Se eu estivesse procudando um filme leve para alugar e me deparasse com esse DVD lindinho, Irlandës, comedinha romântica, juro que o traria para casa e talvez o assistisse até o final.. Mas, depois da sua estrelinha solitária,passarei longe dele, pois confiança é confiança.

  2. Olha, eu adorei o filme e gostei muito da atriz principal, além de ser linda, ela é muito sensual e inteligente. A música é muito boa e as paisagens da Irlanda são lindas!

  3. Realmente um dos melhores filmes que já vi. Não é o mesmo romance de todos os filmes que já vi, mas claro no final o casal sempre fica junto.
    As paisagens da Irlanda mais o fato dos dois brigarem toda hora faz com que tenhamos certeza do final. Ironias do amor.
    Não se arependerão em assistir.

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