Retorno a Howards End / Howards End


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Quando vi Howards End pela primeira vez, em 1993, na época do lançamento, achei o filme e o que ele queria dizer mais simples, mais direto, do que ao revê-lo agora, no final de 2009. Desta vez, achei-o muito mais complexo, mais difícil, do que me pareceu quando o filme e eu éramos 16 anos mais jovens.

É estranho, isso. Não deveria ser o contrário?

Bem, para começo de conversa, acho que deveria botar uma sinopse. Me fio na capacidade de síntese do Cinéguide, que classifica este dramão, dramalhão, como comédia de costumes: “Depois de dramas sentimentais e sociais, duas famílias se dilaceram antes de se reaproximar.”

Hum… Não quer dizer nada, essa sinopse. Melhor a primeira frase da sinopse crítica do bom Guia de Vídeo e DVD da Nova Cultural – tão bom que pararam de produzir: “Na Inglaterra do começo do século XX, duas irmãs modernas e independentes relacionam-se com família conservadora e rica.”

Então vamos lá.

Em 1993, fiz uma anotação curtíssima: “O melhor filme da trinca Ivory-Merchant-aquela indiana de nome difícil, Ruth Prawer Jhabvala. Exatamente o mesmo tema de sempre, exatamente a mesma postura suavemente progressista. Belo filme.” (É preciso dizer aqui o óbvio: quando vi Howards End, ainda não tinha visto o filme seguinte, Vestígios do Dia/The Remains of the Day, de 1993; esse, na minha opinião, é a obra-prima do trio; consegue ser ainda melhor que Howards End.)

         Gente que tem duas opções na vida – em qualquer delas, perde alguma coisa

A trinca trabalhou junta em diversos filmes. James Ivory, nascido em Berkeley, na área da Baía de San Francisco, em 1928, e que seria conhecido como “o mais inglês dos diretores americanos”, estreou na direção de longa-metragens em 1963, com The Householder, um filme já com roteiro de Ruth Prawer Jhabvala e produzido pela Merchant Ivory Productions. Merchant é de Ismail Merchant, um indiano de Bombaim (Mumbai é o cacete), de 1936, que fez administração de empresas na Universidade de Nova York. Em 1996, Merchant dirigiria seu próprio filme, um espetáculo, O Regresso/The Proprietor, com uma maravilhosa Jeanne Moreau. E Ruth Prawer Jhabvala é uma indiana de origem, nascida na Alemanha em 1927 e mais tarde naturalizada americana, escritora, adaptadora, roteirista. Mulher corajosa: enfrentou o desafio de adaptar para o cinema grandes clássicos da literatura inglesa e americana.

“Exatamente o mesmo tema de sempre, exatamente a mesma postura suavemente progressista”, escrevi, rapidinho, ao ver pela primeira vez Howards End. A mesma como assim?

Foi o quarto filme da trinca que vi. Em 1987, vi Uma Janela para o Amor/A Room with a View, de 1985; eu editava Cultura na revista Afinal, não tinha ninguém disponível para escrever sobre o filme, ele concorria a diversos Oscars, não dava para a revista não falar dele, e daí fiz a matéria, fora das minhas dez horas normais de trabalho diário na redação.

Depois, em 1991, vi The Bostonians, feito em 1984, e anotei na agenda: “Bem parecido com A Room With a View: um retrato (direção de arte bem cuidada) de uma sociedade repressora e pessoas reprimidas e a disputa entre o que se deve socialmente fazer e o que se deseja fazer”. 

Em 1992, vi Mr. and Mrs. Bridge, de 1990, e anotei, também às pressas, rapidinho: “Dos mesmos autores de Uma Janela para o Amor e The Bostonians, e exatamente do mesmo tipo: uma apresentação, com todos os detalhes impecavelmente corretos, da moral e dos costumes da burguesia apegada a seus preconceitos e sua incapacidade de perceber que a liberdade e a abertura dos costumes dá mais felicidade.”

Então, ao ver Howards End em 1993, entendi o filme como um parente muito próximo dos três anteriores da trinca Ivory-Merchant-Jhabvala: uma apresentação da moral e dos costumes de gente das classes privilegiadas – neste caso, da Inglaterra do início do século XX –, em que existem duas posturas: ou se adequar com perfeição aos hábitos dominantes, ou se rebelar, embora às vezes mansamente, contra eles. Quem fizer a primeira opção terá em geral que abrir mão do que pensa e do que ama; quem fizer a segunda opção terá em geral que abrir mão, ao menos em parte, dos confortos materiais. 

         Valores da verdade e da generosidade, a pessoa acima da ideologia

Em parte, Howards End é isso mesmo. Mas, agora, me pareceu que é ainda mais que isso. É muito mais intrincado, muito mais complexo.

Edward Morgan Forster, mais conhecido como E.M.Forster, nascido em Londres em 1879 e morto em Coventry quase um século depois, em 1970, quando James Ivory já trabalhava com Merchant e Jhabvala, escreveu seis romances, apenas. Escreveu também livros de crítica, de ensaios, de contos, e foi muito famoso em seu país, na segunda metade da vida, como um crítico do comportamento social, político e moral; teve a inteligência e a sorte de jamais ter sido, em momento algum da vida, seduzido por qualquer tipo de totalitarismo, de esquerda ou de direita, como quase todos nós fomos. Ao longo de quase um século, sempre defendeu atitudes humanistas, que “procuravam especialmente realçar a importância de cada ser humano e das relações pessoais”, conforme nos ensina a Encyclopaedia Britannica. “Os valores da verdade e da generosidade dominaram o pensamento do Forster maduro. (…) A crença nas relações pessoais e ns decências simples pareciam personificar os valores gerais atrás da luta contra o nazismo e o fascismo.” A pessoa acima do grupo social, ou da ideologia, eu resumiria.

Dos seis romances de E.M.Forster, quatro foram adaptados pelo cinema, que eu saiba e tenha visto. O maior deles, Passagem para a Índia/A Passage to India, escrito em 1924, foi filmado por um dos maiores cineastas da história, Sir David Lean; é um gigantesco épico, um clássico maior, a história trágica de um choque de culturas simbolizado pelo encontro de um honesto, correto, bom caráter indiano com uma jovem inglesa reprimida, infeliz, histérica. Três outros viraram filmes graças à trinca Ivory-Merchant-Jhabvala. A ordem em que os filmes foram feitos não obedece à ordem cronológica dos romances. O filme Uma Janela para o Amor, de 1985, se baseia no romance escrito em 1908; Maurice, filmado em 1971, sobre um caso de amor homossexual, embora publicado após a morte de Forster, em 1971, foi escrito em 1914; e Howards End, filmado em 1992, foi lançado em 1910.

Deles, de fato, me parece hoje, Uma Janela para o Amor é o mais simples. É aquilo lá que eu falei parágrafos atrás: ou você segue os padrões da sociedade, e reprime o que pensa e deseja, ou você se insurge contra eles, e corre o risco de se dar mal materialmente. Isso, convenhamos, já era mais ou menos o que Jane Austen (1775-1817) dizia, um século antes. Passagem para a Índia é muito mais complexo – e nem poderia deixar de ser, já que envolve o choque de duas culturas completamente distintas, dois mundos à parte.

Howards End

Ao rever Howards End agora, depois de ter perdido todos os resquícios da minha formação comunista, socialista (mais intuitiva, sentimental, que intelectual, de qualquer forma), fiquei achando que Ruth Prawer Jhabvala pode ter simplificado um pouco o que Forster quis dizer. Ao retratar uma sociedade estratificada em classes sociais extremamente distantes uma da outra como a inglesa – e, convenhamos, a estratificação da sociedade inglesa sempre beirou o sistema indiano de castas, e no início do século XX beirava ainda mais do que hoje –, o roteiro de Howards End acaba mostrando os ricos como opressores filhos da puta sem coração e às vezes sem inteligência, e os pobres como puros, bons, vítimas exatamente da iniqüidade inerente ao sistema capitalista.

Não li o romance de Forster, mas, pelo que mostra a Britannica, Ruth Prawer Jhabvala tomou liberdades na sua adaptação, mudou coisas do livro.

         Conceitos bem complexos

Mas o que tudo indica é que os conceitos da história de Howards End são complexos mesmo – e podem ser interpretados de diversas maneiras.

Os irmãos Schlegel – Margaret (Emma Thompson), a mais velha, Helen (Helena Bonham Carter), a mais impetuosa, impulsiva, sensível, e Tibby (Adrian Ross Magently), o mais jovem, um intectual quase alheio ao dia-a-dia dos mortais – são muito diferentes das demais pessoas de suas relações, porque são mais ligados às artes, ao pensamento, à discussão de idéias. São mais abertos, menos convencionais, menos reprimidos, mais felizes. Os Wilcox, ao contrário, são mais materialistas, mais apegados ao dinheiro, às aparências, à ostentação; são mais imbecis e mais infelizes, a começar do patriarca, Henry (Anthony Hopkins). O filho mais velho, Charles (James Wilby), e sua mulher Dolly (Susie Lindeman) são mostrados de forma caricatural, diferentemente de todos os demais personagens: são os mais apegados de todos ao dinheiro, à herança, e beiram a debilidade mental. A filha de Henry Wilcox, Evie (Jemma Redgrave), é a falsidade em pessoa, a que vive pelas aparências, pelo exterior.

Já Leonard Bast (Samuel West), o trabalhador classe média, que estudou, trabalhou duro para subir na vida, acaba se arruinando, em parte porque prefere a honra ao alpinismo social.

Até aí, parece preto no branco, maniqueísmo puro, beirando o realismo socialista.

No entanto, as coisas não são sempre bem assim. Margaret, a livre-pensadora, a aberta, liberada, pra frente, vai se render muito depressa ao encanto da fortuna – e, quando o espectador espera que ela enfim vá reagir, hã, hã, que nada, não reage coisa alguma. E o pior caráter de todos, Henry Wilcox, o sem lei e sem alma, é perseguido o tempo todo pela obrigação moral de obedecer ao último desejo da mulher, Ruth (o papel da deusa, do monumento Vanessa Redgrave).

Não, nada é simples. As camadas de cinza são muitas.  

         Um elenco magnífico, extraordinário

Não há ninguém no mundo que terá paciência de ler este texto inteiro, mas dane-se. Não dá para não falar pelo menos um pouco do elenco deste filme magnífico – e de algumas coincidências e dessemelhanças.

É muito doido pensar que, passada mais da metade da ação de Uma Janela para o Amor, acontece um beijo – o personagem de Julian Sands tasca um beijo na personagem central, feita por Helena Bonham Carter. Neste filme aqui, logo nas primeiras seqüências, o personagem de Paul Wilcox (Joseph Bennett), que afinal vai se revelar absolutamente secundário, leva Helen Schlegel para um canto, um matinho junto da propriedade Howards End, e tasca-lhe um beijo. Helen é interpretada pela mesma Helena Bonham Carter do filme anterior – os bracinhos dela não sabem o que fazer, se rejeita o beijo e o abraço, se cede, mas ela imediatamente comunica à família que está apaixonada. É o início de uma trama complexa, que se prolongará por anos e anos, ao longo de 140 minutos que passarão muito depressa.

O monumento Vanessa Redgrave já havia trabalhado com a trinca Ivory-Merchant-Jhabvala em The Bostonians. Aqui, faz praticamente uma participação especial – Ruth Wilcox é um personagem fundamental na trama, mas não aparece mais que em cinco seqüências.

 Jemma Redgrave, que faz o papel de Evie, a filha de Henry Wilcox, é sobrinha de Vanessa e de Lynn Redgrave, filha de Corin Redgrave, neta de Sir Michael Redgrave, prima da maravilhosa Natasha Richardson. Eta família.

Vanessa, Lynn e Natasha Richardson se reuniriam sob a batuta de James Ivory novamente em 2005, em A Condessa Branca.

Emma Thompson, esse absurdo, esse pleonasmo, essa musa, voltaria a trabalhar ao lado de Anthony Hopkins no filme seguinte da trinca, Vestígios do Dia/The Remains of the Day. Hopkins, o para sempre Hannibal, o canibal (“Um pesquisador uma vez tentou me testar. Comi seu fígado com alguns grãos de feijão e um bom Chianti”), é um grande ator, mas tem mais trejeitos do que seria suportável. Seus trejeitos, no entanto, batem bem com o personagem que interpreta – quando ele bota a mãozinha para cobrir seu rosto nos momentos em que finge estar triste ou arrependido pelas besteiras que fez, ator e personagem se completam na sua mais absoluta falsidade.

Mas fiquei pensando mesmo foi num inglês que não aparece neste filme mais inglês que chapéu coco. Pensei em Kenneth Branagh, o sujeito que trocou na vida real Emma Thompson por Helena Bonham Carter. Na vida real, na hora do pega pra capar, Helena Bonham Carter deve ser um furacão, um terremoto, um tsunami, porque, para trocar Emma Thompson por ela… Deixa pra lá. 

Ah, sim, as informações básicas. O filme ganhou 25 prêmios e outras 27 indicações. Levou os Oscars de atriz para Emma Thompson, direção de arte (impecável, maravilhosa, extraordinária) para Luciana Arrighi e Ian Whittaker e roteiro adaptado para a indiana-alemã-americana Ruth Prawer Jhabvala; teve indicações para os Oscars de melhor filme, melhor diretor, melhor atriz coadjuvante para Vanessa Redgrave, melhor fotografia para Tony Pierce-Roberts, trilha sonora para Richard Robbins e figurinos para Jenny Beavan e John Bright. Nove indicações, três Oscars – nada mau, e tudo merecido. 

Retorno a Howards End/Howards End

De James Ivory, Inglaterra-Japão, 1992

Com Emma Thompson (Margaret Schlegel), Anthony Hopkins (Henry Wilcox), Helena Bonham Carter (Helen Schlegel), Samuel West (Leonard Bast), Adrian Ross Magently (Tibby Schlegel), James Wilby (Charles Wilcox), Vanessa Redgrave (Ruth Wilcox), Jemma Redgrave (Evie Wilcox), Nicola Duffett (Jacky Bast), Prunella Scales (tia Juley Mund), Joseph Bennett (Paul Wilcox), Simon Callow (conferencista sobre música), Susie Lindeman (Dolly Wilcox)

Roteiro Ruth Prawer Jhabvala

Baseado no romance Howards End, de E.M. Forster

Fotografia Tony Pierce-Roberts

Música Richard Robbins

Produção Merchant Ivory Productions, Sumitomo Corporation

Cor, 140 min

R, ****

Título em Portugal: Regresso a Howards End. Título na França: Retour à Howards End

4 Comentários

  1. Silvia
    Postado em 29 abril 2012 às 3:01 am | Permalink

    Gostei do texto!!!! Só ñ vi a Condessa branca,
    vou procurar.
    Valeu!

  2. Ana
    Postado em 19 junho 2017 às 1:44 am | Permalink

    Emma Thompson magnifica como sempre… Que competencia, que talento, quanta veracidade na atuação. Ela tem muita sensilidade em captar a essencia da personagem. Brilhante!!

  3. Valter Sant´Anna
    Postado em 12 agosto 2018 às 4:53 am | Permalink

    Helena Bonham Carter não é (ou foi) mulher do Tim Burton? Se ela pegou Kenneth Brannagh foi então antes de conhecer o diretor malucão-gótico, não?

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 12 agosto 2018 às 5:51 pm | Permalink

    Sim, é isso mesmo, Walter. Helena e Kenneth Branagh viveram juntos de 1994 e 1999. A relação de Helena e Tim Burton começou em 2001, e, além de sete filmes, fizeram também dois filhos. Helena, no entanto, jamais se casou no papel.

    Já Kenneth Branagh e Emma Thompson foram casados de papel passado entre 1989 e 1995.

    Um abraço.
    Sérgio

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