Preciosa – Uma História de Esperança / Precious

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Um bom filme, sem dúvida alguma. Corajoso, forte, violento, apavorante: um mergulho no mais profundo mundo cão em plena ilha de Manhattan, o umbigo do capitalismo, a capital do mundo.

Não dá para deixar de lembrar de A Cor Púrpura, que Spielberg transformou em um belíssimo filme em 1985. No livro da escritora negra e feminista Alice Walker filmado por Spielberg, Celie, a personagem central, fica grávida pela segunda vez aos 14 anos, estuprada pelo próprio padrasto; ainda aos 14 anos, é entregue pelo padrasto a um fazendeiro viúvo, um brutamontes que a usa para limpar a casa, cozinhar, cuidar de seus três filhos e, eventualmente, também para abrir as pernas, enquanto ele literalmente a cavalga, olhando para o retrato, ao lado da cama, da mulher que é a paixão de sua vida, uma cantora de cabaré.

A única diferença notável entre o inferno que é a vida da Celie de A Cor Púrpura e o inferno em que está mergulhada a Precious, Preciosa, deste filme, é a data e o local. Celie vivia nas profundezas da zona rural da Geórgia, no atrasado Sul dos Estados Unidos do começo do século XX. Precious vive seu drama desumano nos anos 80, no Harlem, em plena Nova York.  

Precious (Gabourey Sidibe) tem 16 anos de idade, é imensamente gorda, é feia, mal sabe ler, e está, quando a ação começa, grávida de seu segundo filho – como o primeiro, produto de estupro cometido pelo próprio pai. Vive escravizada, espezinhada, humilhada e odiada pela mãe, Mary (Mo’Nique, fantástica, sensacional) – um dos seres mais desprezíveis, boçais, brutais que o cinema já retratou, em mais de um século de existência. Essa figura abjeta insulta a filha a cada segundo, e a acusa de ter roubado o homem de sua vida.

Como Precious não vive na zona rural da Geórgia no começo do século passado, e sim na Nova York dos anos 80, encontrará, no meio de todo esse horror, ajuda do Estado, e principalmente gente boa, de bom coração, que tentará colaborar com ela: a sra. Weiss, uma funcionária do serviço de assistência social (interpretada pela cantora Mariah Carey) e uma professora dedicada, firme e afetuosa, sra. Rain (interpretada por Paula Patton, na foto acima, uma mulher de extraordinária beleza, uma beleza de tirar o fôlego). 

         Um realismo cru, violento, e uma atmosfera onírica

O diretor Lee Daniels mistura um realismo cru, forte, violento – ele não esconde nenhum mínimo pedaço dos detalhes mais sórdidos do inferno em que Precious vive – com momentos de uma estética saída de musicais ou de shows de TV. São as horas em que Precious voa para longe da realidade e se imagina uma estrela. A combinação da crueza da realidade com a atmosfera onírica funciona, e muito bem. É admirável.

Não vi sentido, no entanto, no tique nervoso que o diretor imprime ao abusar da câmara de mão, e de zooms incertos – em diversos momentos, ele aproxima e distancia o rosto dos personagens da câmara, meio tremelicantemente. De fato, parece não haver sentido algum para isso, a não ser, talvez, o fato de Daniels ser um diretor iniciante: antes de Precious, ele havia dirigido apenas um outro filme, Matadores de Aluguel/Shadowboxer, um thriller de 2005 sobre uma assassina.

É um pequeno defeito, que não tira, de forma alguma, a qualidade do filme. As atuações são excelentes, fortes, vigorosas. A garota Gabourey Sidibe impressiona. Mas é Mo’Nique, no papel da mãe megera, que rouba a cena. É um desempenho de fato brilhante – Mo’Nique, uma atriz que é também apresentadora de show na TV americana, e foi ela mesma vítima de abuso sexual pelo próprio irmão, ganhou o Oscar, o Bafta, O Globo de Ouro, o Critic’s Choice e o SAG, o troféu do Sindicato dos Atores.

O filme ganhou também o Oscar de roteiro adaptado. Teve ainda quatro outras indicações ao prêmio da Academia: filme, direção, atriz para a novata Gabourey Sidibe e montagem. No total, Precious ganhou 72 prêmios, fora 55 outras indicações. 

Precious fez história no Oscar. Foi a primeira vez em que um filme dirigido por um negro recebeu indicação para o prêmio de melhor filme, e foi a primeira vez que um negro – Geoffrey Fletcher – levou o prêmio de melhor roteiro.

Imenso sucesso de público e crítica, Precious não tem absolutamente nada a ver com a grande indústria cinematográfica americana, com Hollywood, com os grandes estúdios. Foi uma produção independente, bancada pela empresa do próprio diretor Lee Daniels. Apresentado no Sundance, o festival do cinema independente criado por Robert Redford, foi aplaudidíssimo e atraiu as atenções das grandes distribuidoras. Oprah Winfrey, a apresentadora de talk shows mais proeminente dos Estados Unidos (e, sintomaticamente, uma das atrizes principais de A Cor Púrpura de Spielberg), ofereceu-se para ajudar na divulgação do filme. Ela aparece nos créditos como uma das produtoras executivas. 

Não é propriamente uma diversão, uma experiência agradável, ver este filme. Mas é necessário. Como disse a própria Oprah: as pessoas podem não “se divertir”, mas certamente vão “apreciar a experiência”.

Preciosa – Uma História de Esperança/Precious

De Lee Daniels, EUA, 2008

Com Gabourey Sidibe (Clareece “Precious” Jones), Mo’Nique (Mary), Paula Patton (Ms. Rain), Mariah Carey (Mrs. Weiss), Lenny Kravitz (enfermeiro John), Sherri Shepherd (Cornrows), Stephanie Andujar (Rita), Chyna Layne (Rhonda), Amina Robinson (Jermaine) 

Roteiro Geoffrey Fletcher

Baseado no livro de Sapphire 

Fotografia Andrew Dunn 

Música Mario Grigorov

Montagem Joe Klotz

Produção Lee Daniels Entertainment, Smokewood Entertainment Group. Estreou no Brasil em 12/2/2010

Cor, 109 min

***

3 Trackbacks

  1. […] (interpretado por Quinton Aaron), faz lembrar a protagonista de outro filme da mesma safra, Preciosa – Uma História de Esperança/Precious. Em Precious, Clareece Jones é muito gorda, pobre, praticamente analfabeta, e tem uma vida de cão […]

  2. […] Preciosa – Uma História de Esperança/Precious, de Lee Daniels; […]

  3. […] é o foco do diretor Lee Daniels, um sujeito admirável, negro como seus personagens centrais em Preciosa – Uma História de Esperança/Precious e neste aqui, gay assumido desde sempre. Ao final da narrativa, há a dedicatória clara, límpida: […]

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