O Informante / The Insider

Nota: ★★★★

Anotação em 2010: O Informante é um grande, maravilhoso filme. Vai fundo não em um tema fundamental, importantíssimo, mas em dois: o gigantesco poder das grandes corporações da indústria do tabaco e as muitas ameaças à liberdade de imprensa. E, além disso, ainda disseca, cuidadosamente, como a vida de um homem honrado pode ser destruída a porretadas quando ele tenta defender a verdade e manter a consciência limpa. 

Me ocorreu, ao rever o filme, que O Informante é uma prova clara, irrefutável, de como o grande cinemão comercial americano pode – se e quando querem – fazer belas obras. O Informante é uma produção cara, feita com todos os meios à disposição de quem tem um bom orçamento – o diretor Michael Mann teve US$ 90 milhões à sua disposição. Apenas para a seqüência de abertura e mais uma, que juntas duram poucos minutos, a produção foi a Israel, para filmar no próprio local onde a ação se passa, em vez de trabalhar no estúdio.

Toda a história se baseia em fatos reais; os personagens do filme têm o mesmo nome das pessoas reais que participaram dos eventos. Várias seqüências foram filmadas nos locais exatos em que os fatos aconteceram. O roteiro, de autoria do diretor Michael Mann e de Eric Roth, tem como base uma extensa reportagem de Marie Brenner, publicada na Vanity Fair, uma das grandes revista americanas, e é construído em torno de dois homens: o jornalista Lowell Bergman (intepretado por Al Pacino) e o doutor em bioquímica Jeffrey Wigand (o papel de Russell Crowe).

         Um jornalista competentíssimo. Um bioquímico compentíssimo

Os dois protagonistas da história são apresentados ao espectador em ações paralelas. Primeiro se vê o jornalista Bergman – ele está em Israel, sendo conduzido, os olhos vendados, para o encontro com um sheik, líder do Hezbollah. Bergman, produtor do 60 Minutes, um dos maiores programas jornalísticos da TV americana, apresentado pela CBS, quer convecer o sheik a dar uma entrevista ao jornalista Mike Wallace (Christopher Plummer), uma lenda no jornalismo americano.

A seqüência do encontro com o sheik serve apenas para mostrar como Bergman é um jornalista competentíssimo, veterano. Veremos mais tarde que ele fez seu nome na revista Ramparts, uma publicação independente, de esquerda, fundada em 1962, que se forjou como porta-voz do movimento da contracultura e da contestação do Establishment nos anos 60 e 70.

Paralelamente, o espectador fica conhecendo Jeffrey Wigand, PhD em bioquímica e endocrinologia, exatamente no dia em que está sendo demitido do cargo de vice-presidente corporativo da Brown & Williamson, uma das sete gigantes da indústria de tabaco, onde havia sido durante anos chefe do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento.

A seqüência em que Wigand chega em casa é um absoluto brilho. Diz tudo com as imagens e pouquíssimas palavras. Ele dirige um carro de novo rico – um Audi – e sua casa, imensa, cercada por amplo gramado, é uma casa de novo rico. Não conta nada para a mulher, Liane (Diane Venora) – e fica absolutamente claro o tipo de casamento que é aquele, e que tipo de mulher é aquela. Ele se oferece para levar as crianças – têm duas meninas novas – à escola, e só aí ela o questiona sobre o que são aquelas caixas no carro dele. Ao ouvir enfim a notícia de que o marido foi demitido, ela não quer saber por que, o que houve, como ele está se sentindo. Sua única preocupação é a conta bancária:

– “E o que a gente vai fazer agora? E nosso convênio médico? E nossa saúde? E as prestações do carro, e desta casa?” 

Wigand não olha nos olhos da mulher ao responder que assinou um contrato de confidencialidade com a corporação que o demitiu – um contrato bom, que garante o convênio médico e prevê indenização a ser paga em parcelas.

         Uma das mais brilhantes interpretações que já vi na vida

Esse Jeffrey Wigand que Russell Crowe compõe é provavelmente um dos personagens mais bem construídos de todos os filmes que eu já vi na vida. A atuação do ator neo-zelandês é superlativa, de se aplaudir de pé como na ópera. Crowe é sabidamente daquele tipo de ator capaz de ter mil caras diferentes – o contrário de um John Malkovich, por exemplo, que em qualquer gênero de filme tem sempre a mesma cara e está sempre interpretando a si mesmo. Mas aqui Crowe se supera – tipo Robert De Niro em Touro Indomável. Com apenas 35 anos na época do filme, parece ter mais de 50; está gordo, anda devagar, pesadamente, um típico cientista que jamais fez um exercício físico na vida. Sua voz, a expressão do rosto, tudo denota cansaço.

Com 20 minutos de filme o espectador já conhece Jeffrey Wigand tão intimamente quanto um velho amigo de ginásio. E acompanhar o que virá a seguir, a descida rumo ao inferno daquele profissional dedicado, sério, que subiu rapidamente na profissão graças ao talento e ao empenho, fará com que o espectador sofra junto com ele, como se estivesse acompanhando a tragédia de um companheiro muito querido.

A partir do momento em que perde o emprego, Jeffrey Wigand é um homem-bomba. Ele sabe tudo, absolutamente tudo, o que a indústria do tabaco tentava até então esconder: que o cigarro é uma droga que vicia, como as drogas mais fortes e proscritas, cocaína, heroína.

Hoje isso é sabido por todos, é do senso comum – mas até meados dos anos 90 a indústria se negava peremptoriamente a admitir que a nicotina viciasse. Em audiências no Senado americano, os sete presidentes das grande corporações negaram juntos que houvesse qualquer prova de que o cigarro viciasse.

E Jeffrey Wigand conhecia a fundo todos os estudos que comprovavam o que hoje toda criança já nasce sabendo.

Ao ser demitido, ele não tinha a menor intenção de revelar os segredos que conhecia bem. Até porque havia assinado o tal acordo de confidencialidade, que lhe garantia uma certa tranqüilidade financeira.

         O jornalista fareja que aí tem coisa grande

O jornalista Bergman fica conhecendo Jeffrey Wigand quase por acaso. Chega a suas mãos um relatório técnico elaborado pela Philip Morris, e então Bergman tenta achar alguém do ramo que possa explicar o que significa aquele monte de termos técnicos. Chega por isso a Wigand – e, como tem bom faro jornalístico, percebe que aquele sujeito conhece muita coisa que não pode dizer.

Pouco a pouco, Wigand vai mudando de posição. O asqueroso presidente da Brown & Williamson que o demitiu (a escolha de Michael Gambon para o papel é um achado, uma perfeição) o ameaça – e, diante disso, e das ameaças que se tornam cada vez mais apavorantes, o homem-bomba vai se revoltando, até aceitar falar tudo o que sabe, publicamente, sem disfarces, para o programa 60 Minutes.

         Pode ser independente o jornalismo atrelado à grande corporação?

Mas a questão da revelação ao grande público das verdades que a indústria de tabaco fazia de tudo para esconder é apenas um dos grandes temas em que O Informante mergulha. Mais tarde – o filme é longo, são duas horas e 35 minutos de projeção, embora elas passem muito rapidamente –, Michael Mann vai meter a mão em outra grande cumbuca: a independência, ou não, do jornalismo feito nas grandes empresas, como a CBS.

Os dois temas importantes são esmiuçados pelo filme de forma competentíssima, com extraordinário talento.

Mas, de tudo, o que mais me impressionou, ao rever o filme ao lado da minha sobrinha Rejane, antenada e bem informadíssima aos 19 anos, foi o personagem que Russell Crowne criou, o Jeffrey Wigand da vida real que ele recriou diante das câmaras.

A via crucis que ele enfrenta é apavorante – e é capaz de comover um frade de pedra.

          Não foi um grande sucesso. Problema do público, não do filme

O Informante teve sete indicações ao Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor ator para Russell Crowe, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia, melhor montagem, melhor som. Não levou nenhum prêmio da Academia.

Mas ganhou 21 outros prêmios, e teve outras 34 indicações.

O Guide des Films de Jean Tulard dá apenas 1 estrela (num total de 4) para o filme. “Este filme se baseia em fatos autênticos que provocaram em 1994 uma grande ofensiva sustentada pelo procurador geral do Mississippi, Michael Moore (que interpreta a si mesmo) contra os gigantes americanos da indústria do tabaco. Interpretação soberba.”

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4: “Entretenimento impressionante, adulto, que encontra grande drama nas maquinações reais do jornalismo da TV (e das grandes corporações). Grandes interpretações de todos os envolvidos.”

Em texto de Karl Williams, o AllMovie faz grandes elogios às interpretações, para concluir: “Mas a maior qualidade do filme não são as ótimas, notáveis atuações. The Insider, apesar dos ataques feitos na imprensa por causa de lapsos com os fatos reais, é na verdade sobre algo importante, como uma refeição completa de alimento cinematográfico para o pensamento. Sem dúvida o melhor filme de Mann até então, The Insider vale seu peso em ouro, especialmente em uma era de filmes viscerais que encorajam a audiência a checar seu pensamento coletivo na bilheteria.”

Tem toda razão esse crítico do AllMovie. O Informante é destes raros filmes do cinemão comercial de Hollywood dirigidos a platéias adultas, falando de problemas sérios, temas densos, de forma inteligente. Não tem nada, absolutamente nada que agrade às platéias adolescentes.

Exatamente por isso, por ser um filme sério, honesto, adulto, deu prejuízo aos produtores. Apesar das sete indicações ao Oscar, dos 21 prêmios, do elenco encabeçado por dois grandes astros, o filme, que custou US$ 90 milhões, rendeu nos Estados Unidos apenas US$ 29 milhões. No total, juntando a bilheteria americana e de todo o mundo, rendeu R$ 60 milhões até hoje, segundo os dados do Box Office Mojo. Para se pagar, um filme tem que render na bilheteria pelo menos uma vez e meia o que custou.

Problema do público, não do filme. O filme é grande.

O Informante/The Insider

De Michael Mann, EUA, 1999

Com Russell Crowe (Jeffrey Wigand), Al Pacino (Lowell Bergman), Christopher Plummer (Mike Wallace), Diane Venora (Liane Wigand), Philip Baker Hall (Don Hewitt), Lindsay Crouse (Sharon Tiller), Gina Gershon (Helen Caperelli), Michael Gambon (Thomas Sandefur) 

Roteiro Michael Mann e Eric Roth

Baseado na reportagem de Marie Brenner “The Man Who Knew Too Much”, publicada na revista Vanity Fair

Fotografia Dante Spinotti

Música Pieter Bourke, Lisa Gerrard e Graeme Revell

Produção Touchstone Pictures, Blue Lion Entertainment, Spyglass Entertainment

Cor, 155 min

****

Título em Portugal: O Informador. Título na França: Révélations.

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 3 julho 2011 às 10:42 pm | Permalink

    “O Informante é destes raros filmes do cinemão comercial de Hollywood dirigidos a platéias adultas, falando de problemas sérios, temas densos, de forma inteligente. Não tem nada, absolutamente nada que agrade às platéias adolescentes.”
    Totalmente de acordo. Ao que parece o actual cinema americano já não tem capacidade para continuar a produzir filmes desta qualidade e com estas características, agora só se dedicam a filmes para adolescentes porque rende mais.
    Vi-o hoje, por acaso, e achei que é mesmo excelente.

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