O Escorpião de Jade / The Curse of the Jade Scorpion


Nota: ★★★½

Anotação em 2010: O que mais me impressionou, ao rever agora o Woody Allen de 2001, foi a riqueza, a engenhosidade da trama. Gênio é gênio – o cara faz bem o que quiser fazer. Aqui, quis fazer uma trama de policial, de thriller, com uma pitada de hipnose, feitiçaria – e criou um história de dar profunda inveja a escritores e roteiristas que vivem só de criar tramas policiais.

A rigor, segundo ele mesmo explica numa entrevista para promover o filme que está nos extras do DVD – uma entrevista em que ele está um tanto pouco à vontade, com cara de quem está cumprindo uma obrigação danada de chata –, O Escorpião de Jade é uma homenagem aos grandes clássicos do cinema americano dos anos 30 e 40, aquelas comédias “com Spencer Tracy e Katharine Hepburn, ou com Cary Grant e Rosalind Russell”, dirigidas por “Billy Wilder e Ernst Lubitsch”, em que o mocinho e a mocinha se xingam de tudo quanto é possível e imaginável.

 O mocinho criado por Woody Allen para ele mesmo interpretar (e ele na verdade já estava um tanto velhinho – 66 anos – para isso) é CW Briggs, um veterano, experiente investigador que trabalha desde sempre em uma companhia de seguros com sede em Manhattan. Estamos – conforme informam quatro algarismos gigantescos, logo após o final dos créditos iniciais – em 1940.

         Um homenzinho dentro do estômago indica quando há algo errado

Investigador de companhia de seguros. Não sei se a definição é clara para todo mundo. É como um detetive; é um detetive, na verdade, só que trabalhando para uma seguradora; sua tarefa é checar as queixas dos segurados, para verificar se houve mesmo roubo, ou se não é uma fraude. O cinema tem um investigador de companhia de seguros perfeito, acabado, um personagem maravilhoso, histórico, antológico: Barton Keynes, interpretado por Edward G. Robinson, em Pacto de Sangue/Double Indemnity, do mesmo Billy Wilder citado por Woody Allen – um dos melhores filmes noirs da história. Ninguém passa a perna em Barton Keynes, ninguém consegue enganá-lo: ele tem uma intuição formidável, saca de imediato quando é um golpe, uma fraude. Barton Keynes costumava dizer que tem um homenzinho dentro de seu estômago que indica quando algo parece uma tentativa de fraude.

Exatamente a mesma frase é usada por CW Briggs, o investigador de companhia de seguros que Woody Allen criou baseado em Barton Keynes.

Quando a ação de O Escorpião de Jade começa, CW Briggs acaba de solucionar mais um caso: encontrou um Picasso que havia sido roubado. Ele entra no escritório, é cumprimentado por todos – mas, ao entrar na sua sala, percebe que seus arquivos não estão lá. Foram retirados por ordem de Fitzgerald, a pessoa recém-contratada pela firma de seguros para modernizar os trabalhos, os procedimentos, cortar custos, melhorar a relação custo-benefício – essas coisas todas que os patrões encarregam os consultores de fazer. E lá vai CW Briggs discutir com Fitzgerald.

Fitzgerald, como todos na firma chamam a figura, é Betty Ann Fitzgerald – um mulherão, alta, bonita, elegante, inteligente, boa de serviço, segura de si. Tudo o que um homem tímido, medroso ou inseguro teme e odeia na vida. CW Briggs não é nenhuma dessas coisas, mas é um homem de mais de 60 anos com a mentalidade da década de 30, e tem um ódio profundo de Fitzgerald. Assim como ela tem dele: um caso de profundo ódio à primeira, à segunda, à terceira vistas.

Betty Ann Fitzgerald nos aparece na pele de Helen Hunt (na foto acima) – e acho que Helen Hunt nunca esteve tão bela quanto como a feroz adversária do pequenino CW Briggs.

         Niágaras de palavras, torrentes de xingamentos

O que os dois se xingam ao longo do filme inteiro é uma grandeza, uma delícia impagável. De fato, Woody Allen conseguiu recriar, com a maior competência do mundo, o clima daqueles diálogos maravilhosos dos filmes da dupla Tracy-Hepburn e Grant-Russell. As palavras jorram que nem das cataratas do Iguaçu – um Niágara de palavras, a uma velocidade estonteante.

E aí, quando estamos com uns dez minutos de filme, e já estamos familiarizados com a briga CW Briggs x Fitzgerald, e já entendemos basicamente quem são as principais figuras da empresa de seguros, temos uma festinha de aniversário. A turma sai para comemorar no Rainbow Room, uma casa de espetáculos onde um mágico chamado Volton vai apresentar um número de hipnose. A dupla que se odeia será incentivada pelos colegas a se apresentar para participar do número.

E tem início uma trama deliciosa, inventiva, criativa, que envolverá roubo de jóias, detetives particulares, polícia, uma herdeira milionária belíssima, lelé, doidivana (um papel perfeito para a estonteante Charlize Theron, na foto abaixo, que já havia trabalhado com Allen três anos antes em Celebridades), fuga audaciosa de uma delegacia, e por aí vai. 

Woody Allen voltaria a mexer com hipnose e truques de mágica em Scoop – O Grande Furo, seu filme de 2006. Deu-se bem com o tema.

         Um personagem de Allen que foge ao padrão

O Escorpião de Jade tem uma característica interessante. É um dos poucos filmes em que o papel que Allen cria para ele próprio interpretar não é ligado ao mundo das artes e da cultura. Na imensa maior parte dos casos, Allen faz um papel parecido com o da persona Allen: um intelectual ou artista ou um trabalhador da área de artes ou comunicações. Seu CW Briggs, investigador de companhia de seguros, é uma honrosa exceção a essa regra.

Já a decisão de fazer a ação se passar nos anos 40 é algo muito comum em seus filmes. Como Steven Spielberg, que também parece ter uma fixação nos anos 30 e 40 – não por acaso a época de ouro do cinema de Hollywood, a época em que se passam tantos clássicos que todos nós vimos na infância e na adolescência –, Woody Allen e seus colaboradores são mestres em recriar aqueles tempos. Para citar só os que me vêem à cabeça primeiro, são filmes passados nessa época A Rosa Púrpura do Cairo, A Era do Rádio, Broadway Danny Rose. É uma tarefa que parece simples demais para Santo Loquasto, seu excepcional diretor de arte: parece que ele estala os dedos e estamos nos anos 30, 40.

         Depois da fase de “cinema europeu”, antes dos filmes europeus

Em geral se diz que Woody Allen estava em um período de obras menores, quando fez O Escorpião Jade. O filme, de 2001 veio depois de Desconstruindo Harry, de 1997, Celebridades, de 1998, Poucas e Boas, de 1999, e Trapaceiros, de 2000. Logo depois viriam Dirigindo no Escuro, de 2002, Igual a Tudo na Vida, de 2003, e Melinda e Melinda, de 2004.

De fato, ele já havia saído da sua fase mais “cinema europeu”, mais bergmaniana, mais pesada, mais angustiada, a época de Crimes e Pecados, de 1989, Neblina e Sombras, de 1991 – exatamente a mesma época do final turbulento do casamento com Mia Farrow –, e já havia voltado à velha e excelente forma de comédias gostosas, escrachadas, como Poderosa Afrodite, de 1995, e Todos Dizem Eu Te Amo, de 1996.

Estava, é verdade, numa fase em que a crítica torcia o nariz para seus filmes, e as salas de cinema já não se enchiam tanto para ver seus filmes. A empresa que distribuiu muitos de seus filmes, a Orion, tinha falido, e ele andou precisando arranjar financiamento fora de casa – O Escorpião de Jade é uma co-produção EUA-Alemanha.

Voltaria, depois, a ser aclamadíssimo, especialmente a partir de seus filmes produzidos na Europa, os brilhantes Match Point, de 2005, Scoop, de 2006, O Sonho de Cassandra, de 2007, culminando com o sucesso retumbante de Vicky Christina Barcelona, de 2008.

É sempre interessante rever os filmes de Allen – mesmo, ou até especialmente, os dessa fase tida como “menor”. Há quem deteste tudo o que Woody Allen faz. Tudo bem – é um direito, uai. Para mim, o “menor” Woody Allen é melhor que 95% de tudo o que se produz no mundo.

O Escorpião de Jade/The Curse of the Jade Scorpion

De Woody Allen, EUA-Alemanha, 2001

Com Woody Allen (CW Briggs), Helen Hunt (Betty Ann Fitzgerald), Dan Aykroyd (Chris Magruder), Elizabeth Berkley (Jill), John Schuck (Mize), Brian Markinson (Al), Wallace Shawn (George Bond), Charlize Theron (Laura Kensington) 

Argumento e roteiro Woody Allen

Fotografia Zhao Fei

Direção de arte Santo Loquasto

Produção VCL e DreamWorks

Cor, 103 min

R, ***1/2

3 Comentários

  1. Postado em 5 março 2010 às 12:24 pm | Permalink

    Não acho tão ruim como muitos dizem por aí. Mas é, de fato, um dos piores do Allen – se bem que nenhum filme dele chega a ser mesmo ruim. O próprio já afirmou que O Escorpião de Jade é o pior que ele dirigiu.

  2. Rosa de Andrade
    Postado em 17 janeiro 2011 às 8:01 pm | Permalink

    Sempre amei Woody Allen, gênio impagável do cinema mundial, Escorpião de Jade” vejam é de morrer de rir, comédia pra valer, coisa que muita gente não sabe fazer, e Woody sabe fazer muito bem, uma coisa é você fazer comédia para rir e a outra e não fazer nada. E tudo que ele faz é com muita inteligência. Clamo aos patrocinadores por Woody Allen. O cinema mundial merece.

  3. Postado em 12 setembro 2011 às 6:10 pm | Permalink

    Gosto muito dos filmes do Woody Allen! A sua resenha é muito boa, meus parabéns! um abraço.

13 Trackbacks

  1. […] sempre baseados em histórias originais do próprio cineasta. Além dele, só consigo me lembrar de Woody Allen e Ingmar Bergman, que, ao longo de décadas, conseguiram manter o ritmo alucinante de um novo filme […]

  2. […] de fato, uma trama brilhante – como as melhores de um Almodóvar, de um Woody Allen. Tem uma fortíssima ênfase nas coincidências, nos acasos do destino, nos encontros e […]

  3. […] vista, nua, por quem passa lá fora; não está nem ligando para isso. A mulher, interpretada por Charlize Theron – veremos depois que se chama Sylvia –, tem uma expressão de angústia […]

  4. […] de muita gente: De Woody Allen e Senkichi Taniguchi, 1966 – ué, então no começo de carreira Woody Allen co-dirigiu um filme com um japonês? O que será […]

  5. Por 50 Anos de Filmes » Manhattan em 22 novembro 2010 às 12:36 pm

    […] Woody Allen, esse gênio meio Zelig, que já teve seus momentos de Tolstói (A Última Noite de Bóris Grushenko), de Dostoiévski (Crimes e Pecados, O Sonho de Cassandra), de Bergman (Interiores, Neblina e Sombras, Desconstruindo Harry), de Tchécov (Hannah e Suas Irmãs), mas sendo sempre, sobretudo, Woody Allen, começa Manhattan assim um tanto como um Fellini de Oito e Meio, com seu alter ego que aqui se chama Isaac Davis indeciso sobre como vai começar sua nova obra. […]

  6. […] em 2010 (postada em fevereiro de 2011): Para seu primeiro filme como diretora, Helen Hunt, bela atriz, bela mulher, que parece ser uma pessoa extremamente simpática, escolheu uma história […]

  7. Por 50 Anos de Filmes » A Era do Rádio / Radio Days em 29 setembro 2011 às 11:40 pm

    […] dos artistas de rádio, há Irene (Julie Kurnitz), Roger (David Warrilow), o Vingador Mascarado (Wallace Shawn), o mestre de cerimônias de “Silver Dollar” (Tony Roberts). Diversos desses atores trabalharam […]

  8. […] Eu Te Amo (1996). Já hipnotizou personagens e os deixou fazendo coisas de que até Deus duvida, em O Escorpião de Jade (2001). Já botou atores de tragédia grega tentando alertar seu personagem sobre os perigos do […]

  9. Por 50 Anos de Filmes » Broadway Danny Rose em 17 setembro 2014 às 4:22 am

    […] (1993) e Tiros na Broadway. Chega perto da mágica, do incompreensível, do indecifrável, como em O Escorpião de Jade (2002) e Scoop […]

  10. […] O Escorpião de Jade/The Curse of the Jade Scorpion (2001), dois personagens que se odeiam furiosamente – interpretados pelo próprio Woody Allen e […]

  11. […] fazendo uns truques de mágica. Os mágicos e a magia estão em diversos de seus filmes, como O Escorpião de Jade/The Curse of the Jade Scorpion (2001), Scoop – O Grande Furo/Scoop (2006), Magia ao Luar/Magic in the Moonlight […]

  12. […] o mesmo tema que está, por exemplo, em Neblina e Sombras (1991), em Magia ao Luar (2014), em O Escorpião de Jade (2001), em Poderosa Afrodite (1995), Scoop […]

  13. […] estava em um período de obras menores. Era a época de Poucas e Boas (1999), Trapaceiros (2000), O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo no Escuro (2002), este Igual a Tudo na Vida (2003), e Melinda e Melinda […]

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