O Crime / Un Crime

Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2010: O Crime é daqueles filmes feitos para agradar aos críticos, aos jurados de festivais, ao povo que diz gostar de “cinema de arte”. Feito para virar cult. É de uma chatice atroz.

A trama, criada para parecer um neo-noir, não se sustenta, assim como não se sustentam os personagens, que só conseguem ser pateticamente confusos, ilógicos, irracionais.

Pegamos o filme bem no comecinho num dos HBO, zapeando na madrugada. O nova-iorquiníssimo, scorsesiano de primeira hora Harvey Keitel, e a deslumbrante francesa Emmanuelle Béart. Não me lembrava de ter ouvido falar que os dois tinham trabalhado juntos. Dirigidos por um Manuel Pradal. Me perguntava o que Harvey Keitel tinha ido fazer na França quando surgem tomadas de Nova York – e então, o que a bela Béart foi fazer nos Estados Unidos?

A resposta é simples: porcaria.

Vincent (Norman Reedus) perde a mulher, brutalmente assassinada. Os indícios são de que o crime foi cometido por um motorista de táxi, que usava um casaco vermelho e um grande anel num dos dedos, e cujo carro foi amassado por uma raspada num hidrante de rua. Junto com a mulher, Vincent perde a razão de viver; passa a ser uma sombra, um morto-vivo, vivendo de apostas em corridas de cachorro – é dono de uma bela cadela, Vicky.

No prédio de Vincent, no andar de cima, vive Alice (o personagem da Béart), mulher de beleza tão extraordinária quanto de cabeça ruim, confusa, louca, um tanto alcoólatra, condenada a pena alternativa de prestar serviços comunitários sabe-se lá por que crime. Linda e louca de pedra, Alice tem uma fixação obsessiva por Vincent, seu vizinho.

Louca de pedra, mas calculista, fria, determinada, disposta a tudo para obter seu objeto de desejo (como as femme fatales dos grandes noirs dos anos 40 e 50 que este filme pretende emular), Alice percebe que só conseguirá fazer com que Vincent saia de seu estupor pela perda da mulher se o assassino dela for identificado e punido. Só assim – entende ela – ele se libertará das lembranças da esposa morta. E então Alice escolhe, aleatoriamente, um motorista de táxi para plantar nele e no carro dele as evidências de que havia sido ele o assassino da mulher de Vincent.

O pato escolhido pela femme fatale é Roger, o personagem de Harvey Keitel.

         A fotografia, excelente, tira fora as cores de Nova York

As cenas de sexo de Emmanuelle Béart com Harvey Keitel são assim uma espécie de A Bela e a Fera. Será que Manuel Pradal quis fazer, além de um neo-noir atraente para os amantes do “cinema de arte”, um cult, também um elogio a Jean Cocteau?

Aliás, quem é Manuel Pradal?

Francês, nascido em Montpellier, em 1968. Jovem demais para constar dos Dicionários de Jean Tulard e Rubens Ewald Filho. Cinco filmes realizados entre 1991 – ano de sua estréia, com Canti – e 2010, em que fez La Blonde aux seins nus, A loura com os seios nus, com a linda Vahina Giocante.

Então tá bom.

É preciso reconhecer: é um belo trabalho o do diretor de fotografia Giorgio (Yorgos) Arvanitis. Ele conseguiu descolorir a paisagem de Nova York – o filme é todo em cores flu, pastéis, quase cinzentas. E o diretor conseguiu, para fazer a trilha sonora, o talento imenso de Ennio Morricone.

Apesar de Morricone, da bela, impressionante fotografia, do talento de Harvey Keitel, da beleza de Emmanuelle Béart, eta filmezinho chato. Tão pretensioso quanto chato.

O Crime/Un Crime

De Manuel Pradal, França-EUA, 2006

Com Emmanuelle Béart (Alice), Harvey Keitel (Roger), Norman Reedus (Vincent)

Argumento e roteiro Manuel Pradal e Tonino Benacquista

Fotografia Yorgos Arvanitis

Música Ennio Morricone

Montagem Jennifer Auge

Produção Alice Productions, ARP Production

Cor, 103 min

Título em inglês: A Crime

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