O Apartamento / L’Appartment

Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2010: Na sua primeira metade, este filme feito em 1996, com os então bem mais jovens Vincent Cassel e Monica Bellucci, é chatinho, bobo, falso como cédula de 3 reais. Na segunda metade, piora muito; piora demais.

Durante a primeira parte, é uma história de amor – artificial, forçada, é verdade, mas ainda, com alguma boa vontade, passável. Max (Vincent Cassel) é um jovem e extremamente bem sucedido executivo; depois de uma temporada de quase dois anos em Nova York, agora trabalha numa empresa rica, que ocupa um andar altíssimo em prédio na Paris nova, de onde se vê, do alto, praticamente toda aquela beleza de cidade; quando a ação começa, está numa joalheria chiquetérrima, escolhendo um carésimo anel de casamento. Veremos depois que a noiva, Muriel (interpretada pela então muito jovem Sandrine Kiberlain, uma gracinha), é irmã do sócio de Max na tal empresa rica.

Max está de partida para Tóquio, onde deverá passar quatro dias fechando uma grande associação com uma empresa japonesa.

Ao café onde ele e o sócio se reúnem com um executivo japonês e sua tradutora, chega Muriel, irmã de um, noiva do outro. Não dá para saber o que vai fazer numa séria reunião de negócios uma pessoa que não tem nada a ver com os negócios, mas tudo bem, releve-se o detalhe. Há também outro detalhe na cena: no momento em que Muriel está entrando no café, uma mulher está saindo às pressas, e as duas trombam.

         Todo mundo tromba com todo mundo no filme

O que há de trombadas de pessoas ao longo dos intermináveis 116 minutos de duração deste filme é uma grandeza.

 De uma forma pouco educada e muito pouco business-like, Max se levanta da mesa e vai ao subsolo dar um telefonema. A cabine telefônica está ocupada por uma mulher, e Max ouve ela falar primeiro com outra mulher, e depois com um homem; para o homem, ela diz que a relação acabou, que acredita que o acidente em que morreu a esposa dele não foi um acidente.

A mulher sai da cabine telefônica, e Max vai atrás dela – reconheceu-a, é Lisa, é Lisa –, mas a mulher sobe as escadas rapidamente, tudo o que vemos são suas meias negras e os sapatos de salto alto vermelhos; ela tropeça no caminho da porta da rua, mas segue em frente depressa. Max está tonto, zonzo; volta até o subsolo, entra na cabine telefônica, sente o cheiro de perfume deixado por Lisa; pega um papel sobre uma mesinha junto do telefone e cai no chão a chave de um quarto de hotel. Max respira fundo –

E eu comentei com Mary: ih, aí vem flashback.

Vem o flashback, é claro. Vemos o mesmo Max-Vincent Cassel, agora em versão um tanto hippie, cabelão grande. Dois anos antes de ser aquele executivo rico, elegante, um yuppie em Paris após Nova York de viagem marcada para Tóquio, Max era um tipo um tanto hippie.

E aí vamos ver como aquela encarnação meio hippie de Max ficou conhecendo Lisa – o papel da sensacional, fabulosa, fantástica, belíssima Monica Bellucci. A forma como Max ficou conhecendo Lisa é bastante idiota – mas já estou ficando bastante impaciente para terminar logo esta anotação.

Acelerando as coisas, então é assim: na primeira metade, vemos, em uma narrativa entremeada de flashbacks, a história de Lisa e Max. Max não embarca para Tóquio coisa alguma; do aeroporto, onde é deixado pela noiva Muriel, volta de táxi para a cidade – quer reencontrar Lisa.

         O diretor quis bater o recorde mundial de reviravoltas na trama

E aí, lá pela metade do filme… Tcham-tcham-tcham-tcham: muda tudo se quiser! Não era nada daquilo, quer dizer, era em parte, mas não era bem aquilo, era outra coisa muito mais complicada. Surge, do nada, ou do quase nada, uma nova personagem, Alice (o papel de Romane Bohringer), figura muito doida, satanicamente esperta, maquiavelicamente manipuladora de destinos.

A sensação que se tem, nítida, clara, é que o diretor e roteirista Gilles Mimouni fez um esforço hercúleo para deixar no chinelo todos os filmes anteriores que traziam reviravoltas em suas tramas. Sentou-se para bolar uma história, gritou shazam, chamou diversas pessoas para ajudá-lo (nos créditos iniciais, o roteiro é atribuído apenas a ele, mas, nos créditos finais, aparece que colaboraram várias outras pessoas, umas cinco ou seis) e puseram-se todos a inventar os mais variados tipos de reviravoltas impossíveis e inimagináveis.

Difícil haver algo mais forçado, mais distante de qualquer tipo de realidade, mais artificial do que o resultado final.

         “Ele se perde nos dédalos deste labirinto”

La Bellucci é uma das belezas mais reluzentes que já freqüentaram as telas de cinema – e Vincent Cassel é um sujeito que foi abençoado pelos deuses e anjos, já que está casado com a moça desde 1999, três anos depois que fizeram juntos esta bobagem aqui. La Bellucci é estonteante; mereceu um filme inteiramente dedicado a louvar sua beleza monumental, Malena, de Giuseppe Tornatore, e participou de boas obras, mas não parece ser muito exigente na escolha de seus papéis, e já fez muita porcaria na vida, como, por exemplo, Os Profissionais do Crime/Le Deuxième Souffle e Meu Caso com o Imperador/N (Io e Napoleone).

Sobre o diretor Gilles Mimouni, não tenho informações. Segundo o iMDB, este aqui foi o único filme que dirigiu. O que pode ser um excelente sinal: bem-aventurados os que têm autocrítica.

Para não ficar aqui metendo o pau sozinho (minhas opiniões são apenas opiniões, pessoais e intransferíveis; de forma alguma sou dono da verdade), vou atrás de quem entende de cinema.

E olha aí: o Guide des Films de Jean Tulard, apesar de dar apenas uma estrela, encontra elogios ao filme. Diz ele: “Vincent Cassel, admirável, é esse homem que ‘prefere a idéia do amor ao amor’. Para seu primeiro filme, Gilles Mimouni realiza um thriller romanesco muito habilmente construído em que o passado volta por assimilações, por similaridades, em uma narrativa estilhaçada. No entanto, acontece que ele se perde nos dédalos deste labirinto (…); o filme teria ganho se fosse mais conciso.”

O AllGuide diz que a trama do filme é mais emaranhada do que uma teia de aranha rasgada – o que me parece uma bela frase, bem adequada ao filme.

Mas porém todavia contudo no entanto, o filme levou o Bafta de melhor filme em língua estrangeira! Como diria o Obelix, batendo o nó dos dedos na testa, esses bretões são uns neuróticos!

Não só os bretões, mas também os gauleses. O filme teve duas indicações ao César: melhor primeiro trabalho para o diretor Mimouni e revelação de atriz para La Bellucci. Um prêmio um tanto esquisito para uma atriz que, antes, já havia feito dez filmes – inclusive uma pequena participação no Drácula que Francis Ford Coppola insiste em dizer no título que é de Bram Stoker mas é também Coppola puro.

O Apartamento/L’Appartment

De Gilles Mimouni, França-Espanha-Itália, 1996

Com Romane Bohringer (Alice), Vincent Cassel (Max), Monica Bellucci (Lisa), Jean-Philippe Ecoffey (Lucien), Sandrine Kiberlain (Muriel) 

Argumento e roteiro Gilles Mimouni (e vários outros)

Fotografia Thierry Arbogast 

Música Peter Chase

Produção Cechi Gori Group, IMA Films, Studio Canal

Cor, 116 min

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