Não Somos Anjos / We’re No Angels

Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2010: Este Não Somos Anjos, feito em 1989, é um fenômeno. Raras vezes na história tanta gente de talento e respeito se reuniu para fazer um filme tão absolutamente idiota.

O diretor é o irlandês Neil Jordan, que eu pessoalmente acho bastante irregular, mas é celebradíssimo, vencedor de um Oscar (pelo roteiro original de Traídos pelo Desejo/The Crying Game, de 1992) e de 31 outros prêmios, fora 29 outras indicações.

O elenco tem dois dos melhores atores do cinema americano das últimas décadas, Robert De Niro e Sean Penn, mais uma das grandes estrelas, Demi Moore, e, de quebra, o ótimo John C. Reilly, mais James Russo e Ray McAnally.

O roteiro se baseia numa peça francesa, La Cuisine des Anges, a cozinha dos anjos, de Albert Husson, que já havia sido a origem de um filme homônimo, Não Somos Anjos/We’re no Angels, dirigido em 1955 pelo grande Michael Curtiz, o autor de Casablanca, e estrelado por Humphrey Bogart, Peter Ustinov, Aldo Ray, Leo G. Carroll e Joan Bennett.

No original e no filme de Michael Curtiz, três prisioneiros  conseguem escapar da Ilha do Diabo, junto da Guiana Francesa, às vésperas do Natal, acabam invadindo a casa de uma família e – surpresa! – se tomam de amores por ela.

Para criar uma nova trama a partir da idéia básica da peça, os produtores chamaram nada menos que David Mamet, grande, brilhante dramaturgo, roteirista e diretor. Se de Neil Jordan eu, pessoalmente, desconfio um pouco, de David Mamet sou fã de carteirinha.

Como se não bastassem todos esses nomes já mencionados, ainda tem mais um: George Fenton, um dos grandes compositores do cinema nas últimas décadas, autor de lindíssimas trilhas para diversos filmes importantes (Ligações Perigosas, O Pescador de Ilusões, Terra das Sombras, Terra e Liberdade), compôs a música.

Um insulto à inteligência do espectador

Com uns 15 minutos de filme, já dava para ter certeza plena: o filme é uma absoluta porcaria. Nada funciona, é tudo ruim, grotesco, imbecil – é um insulto ao currículo de tanta gente boa envolvida na produção, e, em especial, um insulto à inteligência do espectador. Poderíamos perfeitamente ter parado de ver, com a tranqüila certeza de que não estaríamos perdendo nada que prestasse. Acabamos vendo até o fim – e tudo só vai ficando mais bobo, a mesma piada sem graça se repetindo de novo e de novo e de novo.

Como explicar esse fenômeno?

Bem, não sei haveria alguma explicação. Mas, se houver, não sou eu que vou saber dar. Nunca soube interpretar fenômenos.

Boa parte da culpa, acho, é do próprio Mamet. Não sei como, mas ele conseguiu criar uma trama idiota, babaca: dois dos três fugitivos, os interpretados por De Niro e Penn, acabam sendo confundidos por padres famosos, autores de importante livro, e são recebidos como heróis num mosteiro numa cidadezinha americana junto da fronteira do Canadá, nos anos 30, no fundo da Grande Depressão. A piada – os bandidos fugitivos são instados a fazer alguma declaração ou oração, não sabem o que dizer, acabam dizendo uma asneira qualquer e todos os religiosos babam como se aquilo fosse expressão de grande sabedoria – não tem graça alguma, devido à total falta de sentido, de lógica, de verossimilhança. Mas é repetida umas trocentas vezes.

A personagem da mulher interpretada por Demi Moore não tem qualquer sentido, não se sustenta, é uma caricatura.

A rigor, tudo, no filme, é uma grotesca caricatura.

Mas a caricatura mais grotesca de todas é a que De Niro cria. De Niro passa o filme inteiro com uma careta babaca esculpida no rosto.

Como é possível que um ator com o talento de De Niro, o cara que fez Taxi Driver, O Touro Indomável, A Missão, Coração Satânico, tenha se permitido ser tão ridículo? Como é possível que o diretor Neil Jordan, que afinal de contas é experiente, testado, tenha permitido aquilo?

Não dá pra saber. Mistério neste mundo de mistérios – embora o maior mistério seja haver mistérios, como diz Renato Teixeira.

Consternant, lumbering e lugubrious

Algum fanático anti-religioso pode até enxergar no filme uma saudável gozação das crenças católicas. Bobagem. Para fazer crítica é preciso alguma inteligência – coisa de que o filme passa muito longe.

Já me alonguei demais numa anotação sobre filme tão vagabundo. Vou a outras opiniões rapidinho, por desencargo de consciência. Vai ver que tem gente que adorou.

Ufa: Leonard Maltin dá 1.5 estrela em 4, e usa uns adjetivos que vou ter que catar no dicionário. Lumbering, dimwitted (essa até que dá pra sacar – wit é inteligência, dim deve funcionar como sem, não possuidor), lugubrious. Olhe, é isso aí – mesmo antes de ver exatamente a acepção dos adjetivos, já concordo: eta filmezinho lumbering, dimwitted e lugubrious.

“Desajeitada comédia sobre uma dupla de condenados estúpidos que inadvertidamente escapam da prisão e encontram refúgio fazendo-se passar por padres em visita a um santuário próximo. De Niro, que também foi produtor executivo, faz caretas como nunca antes. Bela direção de arte não consegue compensar o roteiro lúgubre de David Mamet, ‘sugerido’ pela peça que já havia sido filmada em 1955.”

Não é sempre que concordo com as opiniões de Leonard Maltin, mas acho que desta vez ele acertou em cheio. E lugubrious, obviamente, é lúgubre – belo adjetivo para este que é certamente o pior texto que Mamet já cometeu em toda a sua vida.

Já Rober Ebert, que admiro muito, vai na contramão. Dá 3 estrelas em 4, e elogia as caretas dos dos grandes atores. Diz que na verdade os dois personagens centrais estão fugindo é de um filme dos anos 30 sobre prisões.

Como deu empate, recorro ao Guide des Films de Jean Tulard. Hêhê: ele mata em uma frase só, depois de uma rápida sinopse. “Jordan + Mamet + De Niro – um filme consternador, apesar de tais créditos e Demi Moore no auge”.

O que é verdade: o personagem que ela interpreta não faz sentido, e a câmara do diretor Neil Jordan não pára muito sobre ela, mas Demi Moore está no auge da beleza.

Um filme consternador. Consternant, lumbering e lugubrious. Em suma, idiota.

Não Somos Anjos/We’re No Angels

De Neil Jordan, EUA, 1989

Com Robert De Niro (Ned/padre Reilly), Sean Penn (Jim/padre Brown), Demi Moore (Molly), Hoyt Axton (padre Levesque), Bruno Kirby, Ray McAnally, James Russo, Wallace Shawn, John C. Reilly

Roteiro David Mamet, baseado na peça La Cuisine des Anges, de Albert Husson, e no filme We’re no Angels, de Michael Curtiz, roteiro de Ranald MacDougall

Música George Fenton

Produção Paramount. DVD Paramount

Cor, 106 min

1/2

Título em Portugal: Ninguém é Santo. Título na França: Nous ne Sommes Pas des Anges

3 Comentários

  1. Matheus
    Postado em 26 novembro 2010 às 2:08 pm | Permalink

    Não importa o quanto se ganhe, sempre se quer mais dinheiro, para trocar o carro, a mansão em Beverly Hills..sei lá, logo, se pagar bem…..

  2. WILSON
    Postado em 5 setembro 2012 às 1:54 pm | Permalink

    UM ÓTIMO FILME, GOSTARIA DE TER EM MINHA COLEÇÃO MAS ONDE COMPRAR

  3. severina lima
    Postado em 19 junho 2013 às 12:25 am | Permalink

    adoro este filme gostaria de assiti-lo

5 Trackbacks

  1. […] tantos outros diretores das Ilhas Britânicas que viriam depois – Ridley Scott, Stephen Frears, Neil Jordan, Alan Parker, Joe Wright –, Schlesinger trançou entre o cinema inglês e o americano. Seus […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Jogo de Poder / Fair Game em 22 julho 2011 às 3:02 am

    […] era casada com um diplomata extremamente experiente, Joseph Wilson IV (o papel de Sean Penn), já fora do serviço público, trabalhando por conta […]

  3. […] é interpretada por Demi Moore – e, credo em cruz, como era esplendorosamente, faiscantemente linda a jovem Demi Moore, então […]

  4. […] Barbican Centre, em Londres), jamais me esqueci da frase dita por Harry para o grande amigo Jess (Bruno Kirby), que está para se casar com a grande amiga de Sally, Marie (Carrie Fisher): – “Anotem seu […]

  5. Por 50 Anos de Filmes » Byzantium em 17 novembro 2017 às 1:13 pm

    […] de Saoirse que me dispus a ver Byzantium, uma co-produção EUA-Inglaterra-Irlanda dirigida por Neil Jordan. Pretendo ver absolutamente todos os filmes que essa moça fizer. Mesmo se a princípio não me […]

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