Martin Roumagnac – Mulher Perversa / Martin Roumagnac

Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2010: Este Martin Roumagnac – Mulher Perversa é um filme bem fraquinho, bem ruinzinho. Mas tem um ponto de interesse: é o único filme em que Marlene Dietrich trabalhou ao lado de Jean Gabin.

Foi feito na França logo após o final da Segunda Guerra, em 1946; Marlene tinha ficado sem filmar desde Kismet, de 1944, para se dedicar totalmente, ao longo da maior parte de 1944 e o início de 1945, a servir ao Exército americano, visitando as tropas aliadas, fazendo shows para os soldados.

É um melodramão danado. Marlene, divina aos 45 anos de idade, interpreta Blanche Ferrand, uma mulher de passado nebuloso, mas certamente pouco, digamos, cristão, que, quando a ação começa, está vivendo numa pequena, acanhada, provinciana cidadezinha, Clairval. Havia se casado com um morador dali, Ferrand, que morreu. Agora viúva, ela divide com o tio a casa que fica sobre uma loja que vende sementes de plantas e aves, de propriedade do falecido.

Exatamente que pecados ou crimes Blanche cometeu no passado, o espectador só ficará sabendo bem perto do fim da narrativa, mas logo nas cenas e diálogos iniciais entre ela e o tio (interpretado por Jean D’Yd) fica claro que Blanche não suporta aquela vida interiorana, e está louca para sair daquele lugar. Pelo que ela e o tio conversam, os dois estão à espera de alguma coisa envolvendo um cônsul rico, que dará a eles uma estabilidade financeira perpétua.

Os moradores da pequena cidade não gostam dela. Chamam-na de viúva alegre. As mulheres, na verdade, têm inveja da sua beleza e das suas roupas caras.

E então Blanche fica conhecendo Martin Roumagnac (o papel do grande Gabin, à época um dos maiores astros do cinema francês, ao lado de Gérard Philipe), um sujeito extremamente benquisto por todos. Martin tinha trabalhado anos como pedreiro, mas, com a ajuda de um benfeitor, tornara-se um pequeno empreiteiro da construção civil.

Apaixona-se perdidamente por Blanche.

Como o filme é francês, e não americano (em 1946, o Código Hays, o regulamento da autocensura dos estúdios de Hollywood, ainda estava em vigor, e era bem severo), Martin e Blanche trepam no terceiro encontro. Vão fazer um passeio no campo, junto de um lago. É verão, está um dia quente, Blanche-Marlene pede para irem até um lugar onde há sombra; senta-se no chão, em seguida se deita na grama; a saia está um pouco acima dos joelhos, e Martin-Gabin fica ali olhando.

O que primeiro aparece de Marlene são suas pernas

Aqui é preciso de um flashback neste texto. A primeira tomada em que Blanche aparece, descendo as escadas de sua casa para a loja de aves e sementes, mostra antes de mais nada suas pernas.

(Exatamente como aparecem primeiro as pernas de Lana Turner, em O Destino Bate à Sua Porta/The Postman Always Rings Twice, feito naquele mesmo ano de 1946. Exatamente como aparecem primeiro as pernas de Barbra Stanwyck, em Pacto de Sangue/Double Idemnity, feito dois anos antes.)

As pernas de Marlene Dietrich eram uma das coisas mais belas que existiam, eram objeto de adoração de todo mundo que ia ao cinema. No dia em que Blanche e Martin se conhecem, sentados lado a lado numa luta de boxe, ela dá uma cruzada de pernas, a câmara mostra os joelhos, o sapato alto, as meias de nylon – uma preciosidade, naqueles tempos pós-guerra; logo em seguida, ela deixa cair no chão um broche, um trevo de quatro folhas de prata, e Martin o encontra junto dos pés dela, dica para a câmara mostrar de novo as pernas dela, do joelho para baixo.

Mas então, naquela tarde de domingo de verão, está lá Blanche deitada sobre a grama, os joelhos aparecendo, e Martin sentado, olhando para ela. Nuvens negras se formam, prometem uma tempestade, e Martin sugere que os dois se protejam em um celeiro que há ali perto, onde não há ninguém. Dentro do celeiro, Martin não consegue mais se controlar, e avança sobre o monumento. Beijam-se, a câmara desvia sutilmente para um monte de feno.

Na tomada seguinte, estão os dois saindo do celeiro. Martin tira um pedacinho de feno dos cabelos louros de Blanche.

O caso com Blanche é uma fria. Martin vai se dar mal. Todo mundo na cidadezinha sabe disso, o espectador sabe disso – só Martin não sabe.

         “Perdi Gabin como todo mundo perde seus ideais”, diz Marlene

Diz o AllMovie que Martin Roumagnac era a segunda opção dos produtores para reunir o casal Gabin-Dietrich; eles haviam sido convidados para fazer Les Portes de la Nuit, de Marcel Carné, “que francamente teria sido um veículo melhor para eles”.

Está certo o AllMovie. Na verdade, qualquer outro projeto teria sido melhor para eles. Martin Roumagnac é de fato bem fraquinho.

Um dia alguém deveria filmar a história de amor de Marlene Dietrich e Jean Gabin.

“Conheci Jean Gabin quando ele chegou a Hollywood”, ela conta, na sua bela autobiografia. “Tinha fugido da França ocupada. Como sempre acontecia nesses casos, fui requisitada para ajudá-lo a se adaptar em sua nova vida. Minha tarefa consistia em falar em francês, traduzir, arranjar café e baguetes, etc. Fiz tudo isso também para René Clair. Mas Gabin precisava representar em inglês. E decidiu aceitar o desafio. Portanto, ensinei-lhe inglês.”

Marlene fez uma autobiografia um tanto “impressionista”, se é que posso usar o termo: não é um relato objetivo, preciso, estruturado em ordem cronológica, preocupado com os fatos. Baseia-se mais nas suas sensações, nas impressões. Não revela abertamente as suas muitas aventuras afetivas e sexuais. Fala de Gabin ao longo de umas 15 páginas.

“Desamparado, Jean Gabin agarrava-se a mim como um órfão à sua mãe adotiva, e eu gostava de cuidar dele com carinho, dia e noite.”

Ela conta que Gabin decidiu deixar os Estados Unidos e ir lutar contra os nazistas. “Queria lutar. Entendia muito bem essa vontade. Eu era sua mãe, sua irmã, sua amiga – e muito mais. Acompanhei-o a um porto secreto perto de Nova York, onde ele embarcou num contratorpedeiro para o Marrocos.”

O navio afundou; Gabin sobreviveu ao naufrágio, foi parar em Casablanca, acabou se juntando a uma divisão de blindados do Exército americano; Marlene também servia o Exército, no entretenimento das tropas. Encontraram-se uma vez perto do front. Estavam juntos quando a guerra na Europa acabou, em maio de 1945. Foram, ambos, condecorados.

“Em 1946, voltei para a França a fim de fazer um filme, Martin Roumagnac, com Gabin”, conta ela. “Não foi um bom filme, apesar de todos nós termos sido arrebatados pelo roteiro. (…) Gabin ensinou-me a concentrar as palavras, pois eu não devia falar um francês culto. Ele se sentava ao lado da câmara e corrigia-me com infinita paciência. Como George Lacombe, o diretor, só se expressava em sons ininteligíveis, Gabin assumira dizer-me o que eu tinha que fazer.”

“Jacques Prévert, o autor de ‘Les Feuilles Mortes’ (uma canção que eu cantaria num filme, mas cujo papel recusei), irritou-se e escreveu uma péssima crítica sobre o filme. Martin Roumagnac foi um fracasso. Os nomes Jean Gabin e Marlene Dietrich não foram suficientes para atrair os espectadores ao cinema. Fiquei deprimida, Gabin permaneceu sereno.”

Deveria parar por aqui, já que ela já disse o que tinha a dizer sobre o filme, mas o texto de Marlene é tão agradável, tão elegante, que transcrevo um pouco mais:

“Amava-o como uma criança. Era ameno, sublime, possuía todas as qualidades que uma mulher busca em um homem. Uma criatura ideal, como a que aparece em nossos sonhos. Perdi-o como todo mundo perde seus ideais, mas só bem mais tarde, quando voltou a morar na França. Eu era para ele apenas uma companheira de estrada que se abraça afetuosamente. Meu amor por ele continuou forte, imperecível. Jamais pediu-me para prová-lo. Assim era Gabin.”

Então é isso. Martin Roumagnac de fato é um filme que, a rigor, só deve ser visto por quem é fã de Marlene, ou de Gabin. Mas quem é que pode gostar de cinema e não ser fã de Marlene e de Gabin?

Martin Roumagnac – Mulher Perversa / Martin Roumagnac

De Georges Lacombe, França, 1946

Marlene Dietrich (Blanche Ferrand), Jean Gabin (Martin Roumagnac), Daniel Gélin, Margo Lion, Marcel André, Michel Ardan, Jean D’Yd

Roteiro Pierre Very

Baseado no livro de Pierre-Rene Wolf

Fotografia Roger Hubert

Música Marcel Mirouze

P&B, 115 min

Produção Alcina. DVD Imovision

*

Título nos EUA: The Room Upstaris

Um Comentário

  1. Postado em 19 janeiro 2016 às 1:58 am | Permalink

    alguém poderia me dizer o final do filme ,o cd que comprei falta o último minuto do filme,vi até quando foi inocentado pela morte da Dietrich obrigado. resposta no meu e-mail

5 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Inferno nº 17 / Stalag 17 em 10 janeiro 2011 às 3:53 pm

    […] Holden como protagonista. Von Stroheim, é sempre bom lembrar, foi o cineasta que transformou Marlene Dietrich em […]

  2. […] verdade que não me lembrava de mais nada da trama – lembrava, claro, que era com a dupla Jean Gabin e Alain Delon, o grande astro veterano e a jovem estrela então em ascenção meteórica. E […]

  3. […] das muitas coisas fascinantes deste filme é que ele reúne pela terceira vez Jean Gabin e Alain Delon – Jean Gabin, o monstro sagrado, o ator mais respeitado e admirado da França nos […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 24 maio 2011 às 3:20 am

    […] Martin Roumagnac – Mulher Perversa / Martin Roumagnac (1946) […]

  5. […] muita coisa fora do lugar, que dá uma sensação de não muito bem cuidado. O pai, Georges (Marcel André), é um inventor – está sempre trabalhando na tentativa de criar um fuzil submarino –, que […]

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