Jogo de Cena

Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2010: Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, é um filme fascinantemente, arrojadamente único, peculiar, sui generis. É também, ao mesmo tempo, para a imensa maioria dos mortais, um filme desinteressante, danado de chato, sacal, quase insuportável.

Para estudantes de artes dramáticas, gente diretamente envolvida com o trabalho de ator, a interpretação, dramaturgia, é tão fundamental quanto o ar que exigimos 13 vezes por segundo, como diz a canção de Paco Ibañez.

Para quase todo o resto da humanidade, é de uma chatice atroz.

De maneira estudada, propositada, o diretor Eduardo Coutinho – figura lendária, respeitabilíssima e respeitadíssima, o grande nome da direção de fotografia do cinema brasileiro, documentarista de primeiríssima linha – optou por não facilitar a vida do espectador. Quem entrar num cinema ou colocar o filme no DVD sem ter lido previamente sobre o que é Jogo de Cena poderá levar algum tempo até perceber de que se trata.

Temos o nome do filme, Jogo de Cena – na verdade, jogo de cena, em minúsculas. Em seguida, ocupa a tela um anúncio:

“Convite. Se você é mulher com mais de 18 anos, moradora do Rio de Janeiro, tem histórias para contar e quer participar de um teste para um filme documentário, procure-nos. Ligue a partir de 17 de abril (10h às 18h) para (tais números de telefone).” Ao lado do texto, um aviso: “Vagas limitadas”.

Isso aí – um anúncio chamando pessoas comuns para participar de teste para um filme –, isso já vimos, isso é velho, isso já foi feito, e vou falar disso mais tarde. Mas da forma como Eduardo Coutinho fez, não. É inédito – único, peculiar, sui generis.

A câmara segue uma pessoa escada escura acima, rumo ao palco de um teatro. A moça se senta de costas para a platéia, as poltronas vermelhas do teatro vazias atrás dela, ela olhando para a câmara, por sua vez colocada de frente para a platéia. É uma jovem bonita, que começa a falar animadamente para a câmara, contando que seria difícil imaginar que ela, negra, sem muito estudo, pudesse virar atriz.

Nenhum letreiro diz ao espectador quem é aquela pessoa. Quem, como, onde, quando, por quê – essas informações básicas, isso é para jornal, não é para filme.

         Feito com o propósito, a deliberação de não explicar nada

Ué, mas isso aqui não é um documentário? Um documentário não precisaria contar para o eventual espectador o que está acontecendo?

Jogo de Cena não explica nada, nadinha, necas de pitibiribas, merreca alguma para o pobre coitado do espectador.

Tá lá a moça que o espectador não sabe quem é falando, falando, falando para a câmara.         

Bonita, a moça. Muito bonita. Fala bem, é expressiva. A história dela… Bem a história dela não tem propriamente nada demais, nem de menos. É a história de uma jovem pobre que queria fazer teatro.

Há cortes, bons cortes. O montador é competente. O iluminador é competente. O diretor de fotografia é competente – claro, é um filme de Eduardo Coutinho. Temos a desconhecida em primeiro plano; temos a desconhecida em plano americano – atrás dela, as poltronas vermelhas de um teatro vazias. E ela fala.

Corta, e aparece outra moça. Mesma situação – primeiro plano, plano americano, atrás dela as poltronas vermelhas de um teatro vazias. A moça sem nome fala, conta uma história de vida, uma história triste, que envolve um filho que teve quando era adolescente, outro filho de outro pai quando ela estava mais velha; o filho nasce doente, morre. Uma grande perda. A moça é bonita, expressiva, fala bem, conta uma história triste.

Corta, e aparece uma terceira moça. Quem vê TV, quem repara, os brasileiros que estão atentos ao que rola na TV e no cinema identificam: péra lá, a terceira moça é a Andrea Beltrão, pô! E então Andrea Beltrão fica falando, e falando, e aí repete uma frase que havia sido dita pela moça anterior.

Epa! Ah, então é isso, né? Então o que estamos vendo é alguém, uma pessoa comum, contando sua história de vida, e depois uma atriz repetindo aquela história, interpretando aquela personagem?

Com aí uns 15 minutos de filme, cai a ficha (para quem não leu sobre o filme antes de vê-lo, é claro): mestre Eduardo Coutinho está fazendo o primeiro documentário da história do cinema em que atrizes desnudadamente demonstram como é o processo de interpretação!

Pô, genial, sensacional, maravilhoso, um brilho!

         Dá para criar disciplinas nas escolas para estudar Jogo de Cena

Insistindo: para os estudantes da EAD, a respeitada Escola de Arte Dramática da USP, para os alunos de todo e qualquer curso de interpretação, Jogo de Cena deve ser uma absoluta maravilha. Mais que isso: deve ser imprescindível. Seguramente deve dar para criar uma disciplina de uns alguns semestres para fazer a exegese de Jogo de Cena, a cuidadosa análise de cada gesto de cada uma das atrizes que reinterpretam as tristes histórias reais das mulheres que atenderam ao chamado daquele anúncio citado lá em cima. Marília Pêra, atriz extraordinária, discorre sobre o choro, a lágrima, a diferença entre a lágrima de um ser real e a lágrima de um ator.

Como há grande necessidade de criar disciplinas no currículo das faculdades, dá para criar uma matéria inteiro sobre Estudando Lágrimas, em três, talvez até quatro semestres.

Fernanda Torres também fala sobre lágrimas – então talvez a matéria Estudando Lágrimas possa ocupar seis semestres. Os professores conseguem mais salário por mais tempo. Os atentos alunos aprendem um pouco mais.

         Fora do Rio de Janeiro, alguém entenderá Jogo de Cena?

Me questiono sobre a validade deste fantástico curso de dramaturgia em algum outro lugar que não seja o Rio de Janeiro. Os estudantes, digamos, da Geórgia, ou da Romênia, ou do Líbano – países que fazem belíssimos filmes -, como eles vão saber quem está contando sua história real, quem são as atrizes que estão interpretando as falas teoricamente reais das histórias teoricamente reais? Se não há legendas, não há informação, uma atriz libanesa poderá achar que Fernanda Torres é documentário, e que a moça que ela interpreta está interpretando a história que ela conta…

         Mais de meio século antes, a mesma idéia

O filme fascinantemente, arrojadamente único, peculiar, sui generis, do mestre Eduardo Coutinho tem antecedentes. Ninguém – com a exceção de Lula, é claro – é capaz de reinventar a roda.

Em 1951 (eu estava com um ano de idade, mestre Eduardo Coutinho, com 18), Luchino Visconti mostrou, em Belíssima, um estúdio de cinema que publicava um anúncio procurando uma criança para ser estrela de um filme a ser produzido. Visconti, como Eduardo Coutinho, é mestre – mas Belíssima é um filme horrroso.

Dois anos depois de Belíssima, Visconti, Rossellini e mais três diretores fariam Nós, as Mulheres/Siamo Donne, a partir de uma idéia do roteirista Cesare Zavattini: um filme em episódios mostrando grandes atrizes interpretando a si próprias. Um dos episódios, o dirigido por Alfredo Guarini, é um repeteco da idéia que originou Belíssima: um estúdio procura uma atriz para um de seus próximos filmes, e centenas de mulheres acorrem até lá com o sonho de se tornar estrela de cinema.

Quarenta e dois anos depois, em 1995, o cinema iraniano da década em que os aiatolás permitiram alguma moderação usou de novo a idéia: em Salve o Cinema/Salam Cinema, o cineasta Mohsen Makhmalbaf criou um concurso para selecionar atores, e filmou a loucura que aconteceu a partir daí.

E aí então, em 2007, chegou aos cinemas Jogo de Cena. Um anúncio, gente que se candidata a contar sua história. Um filme fascinantemente, arrojadamente único.

Todos os candidatos a ator/atriz deveriam ver este filme. O resto da humanidade ficaria melhor se passasse longe dele. Para quem não é candidato a ator, é chato que nem aqueles filminhos que os consultores mostram nas empresas, tentando motivar os funças a trabalhar melhor. E tão útil para a humanidade quanto a décimo-bilionésima tese de mestrado sobre a obra de Shakespeare, apresentada na Faculdade de Letras de São José do Pito Aceso, por um estudante aprovado pelas cotas e subsidiado, é claro, com bolsa federal, ou seja, financiado por nós, os babacas que pagamos impostos.

Ah, sim: o filme foi financiado pela Petrobrás.

Jogo de Cena

De Eduardo Coutinho, Brasil, 2007

Com May Sheyla, Gisele Alves Moura, Andréa Beltrão, Débora Almeida, Fernanda Torres, Sarita Houli Brumer, Marília Pêra, Lana Guelero, Jeckie Brown, Maria de Fátima Barbosa, Alela Gomes Vieira, Maria d’Élia, Claudiléa Cerqueira de Lemos

Fotografia Jacques Cheuiche

 Produção Matizar, VideoFilmes

Cor, 105 min

*

3 Comentários

  1. Eduardo
    Postado em 6 outubro 2010 às 12:19 am | Permalink

    Seria bom ler alguns livros sobre documentário antes de escrever alguma coisa.

  2. Danilo Vicente
    Postado em 30 outubro 2010 às 1:21 am | Permalink

    Sergio, veja que interessante. Gostei muito! Claro, li a sinopse antes. E sou brasileiro. E creio que você te razão sobre estes pontos, mas, como cumpri os dois requisitos, gostei.

    Edifício Master, do mesmo Coutinho, eh melhor.

  3. Patrício
    Postado em 23 setembro 2011 às 2:51 am | Permalink

    Nunca vi tanta idiotice escrita por um crítico de cinema. Essa critica superou todas. E mostra que seu conhecimento sobre documentário ou é limitado ou não existe. Têm uns carinhas chamado Comolli ou Silvio Da-rin entre outros que você deveria ler para depois fazer criticas sobre esse gênero.

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