Imitação da Vida / Imitation of Life

Nota: ★★½☆

Anotação em 2010: Imitação da Vida, de 1959, foi o último filme da carreira de Douglas Sirk, o diretor que passou para a história como o rei do melodrama. Ao rever o filme agora, meio século depois que ele foi feito, é impossível deixar de constatar: Imitação da Vida envelheceu.

Tinha visto o filme quando bem garoto, aos 13 anos (foi no dia 4 de setembro de 1963, no Cine Candelária, na Praça Raul Soares, em Belo Horizonte, segundo conta meu primeiro caderninho de cinema), e ele me impressionou demais. Pelo que tenho anotado, depois daquela vez só vi um pedaço dele, na TV, zapeando, em 2000 – e, no entanto, me lembrava muito bem de quase tudo, da maioria dos pequenos detalhes.

É, ainda hoje, um filme poderoso. Mas inegavelmente envelhecido, datado. É tão absolutamente datado quanto os penteados e os vestidos de Lana Turner. O estilo, a narrativa, a forma de apresentar as seqüências, a estrutura de cada seqüência, a forma de ligar uma à outra, as atuações, os diálogos – tudo, absolutamente tudo me pareceu envelhecido, datado.

Há diversos momentos do filme que fazem lembrar novela de TV, ou seriado ruim de TV. Dallas. Qualquer novela da Rede Globo. Soap opera – coisa menor.

Nada, em princípio, contra a TV. A BBC faz séries e filmes impecáveis, assim como a HBO.

Imitação da Vida me pareceu hoje o exemplo de uma fórmula velha de fazer novela de TV.

         Muitos anos na vida de pessoas não especialmente fascinantes

Talvez a responsabilidade maior seja de Fannie Hurst, do romance de Fannie Hurst no qual o filme se baseia.

Acho que seria importante falar de Fannie Hurst, mas, para que esta anotação fique um pouquinho mais compreensível, é preciso falar primeiro da trama, da história.

Imitação da Vida (o filme; não li o livro) conta a história de duas mulheres, duas mães sem marido que criam sozinhas suas filhas, na Nova York dos anos 40 e 50. É daquelas narrativas que não se apegam a um momento específico – ao contrário, acompanham a vida dos protagonistas ao longo de uma década inteira. Não se concentra – espalha-se.

Momentos específicos, momentos decisivos, momentos cruciais costumam dar boas narrativas, bons filmes. Douglas Sirk fez um filme magistral pegando um momento específico da vida de uma mulher viúva, bem de vida, que acontece de ter um caso de amor com uma pessoa de classe social inferior, um jardineiro – Tudo o Que o Céu Permite/All that Heaven Allows, de 1955, é um belíssimo melodrama. Tão belo, tão triste, tão chocante, que inspirou o talentoso Todd Haynes a fazer uma homenagem a ele, em Longe do Paraíso/Far From Heaven, de 2002.

Narrativas sobre muitos anos ao longo da vida de personagens que não são particularmente fascinantes, especiais, em geral precisam de autores mais próximos do genial, do brilho. E Fanny Hurst não é propriamente um Tostói, um Dostoiéviski, um Machado, um García Márquez, um Fitzgerald.

Então, Imitação da Vida acompanha as trajetórias de Lora (Lana Turner) e de Annie (Juanita Moore), desde o momento em que elas se conhecem, numa praia de Conney Island, em 1947, até 1958, ou ainda além. As duas haviam chegado a Nova York pouco tempo antes do momento em que se conhecem, as duas são viúvas, cada uma das duas tem uma filha.

Lora tinha trabalhado como atriz em sua cidadezinha do interior, e sonha em se firmar na cidade mais competitiva do mundo; Annie não tem onde cair morta. Conhecem-se por acaso – suas filhas estão brincando na praia, Lora se desencontrou de Susie, e quando finalmente a acha ela está perto da garotinha Sarah Jane e de sua mãe, Annie. Annie se oferece para trabalhar para Lora em troca de um teto, o quartinho de empregada, e de comida, mais nada; Lora a princípio não quer, não tem dinheiro para comprar comida direito nem para ela mesma e para Susie, mas acabam vivendo as quatro juntas num pequeno apartamento do Brooklyn.

Os anos vão se passar; eventualmente Lora vai se transformar numa famosa atriz de teatro e depois de cinema.

Não há propriamente um grande drama, uma grande história – ou quase. São histórias de vidas não especialmente fascinantes, em que cada passo acontece de virar um pequeno drama.

“Tudo vira um drama”, exclamou do meu lado a Mary, que, ao contrário de mim, não tinha visto Imitação da Vida quando era criança ou adolescente.

Talvez esta seja a melhor definição do filme. É uma narrativa em que tudo, cada pequena coisa, vira um grande drama.

Personagens que não são especiais em absolutamente nada – a não ser pela fantástica capacidade de transformar tudo, cada pequena ou grande adversidade, em drama.

         Quando tudo é drama, é difícil realçar do que é de fato terrível

Na verdade, de fato, a rigor, existe, sim, um grande drama, em Imitação da Vida. Era a razão pela qual o filme havia me impressionado tanto, quando era garoto, o motivo pelo qual o guardei na memória por mais de quatro décadas. O grande drama, a grande questão é o racismo.

O grande drama de Imitação da Vida é que Sarah Jane, a garotinha filha de Annie, tem a pele branca, mas Annie é negra, e, pela lógica perversa da sociedade americana do passado, quem tem uma gota de sangue negro é negro, mesmo que sua pele seja branca.

É a mesma lógica perversa usada hoje no Brasil racialista do lulo-petismo para definir as pessoas: quem tem uma gota de sangue negro e se declarar negro merece uma ajudazinha, um descontinho na hora de fazer o vestibular, na hora de arranjar um emprego.

Mas vamos em frente. De volta ao filme.

A pele de Sarah Jane é branca, mas ela tem vergonha de ser negra, de sua mãe ser negra. Tem vergonha de dormir no quarto dos fundos. Susie, dois anos mais nova que ela, oferece para ela uma boneca novinha que acabou de ganhar da mãe que não tem dinheiro para nada, mas Sarah Jane detesta aquela boneca, porque ela tem a pele negra.

E isso quando ela é criança. Quando chega aos 18 anos, interpretada então pela bela Susan Kohner (a Susie de 16 aparece na pele de Sandra Dee), tudo fica muito pior ainda.

Imitação da Vida me pareceu hoje um filme menor, envelhecido, datado, em grande parte porque ele não se define claramente. Não é um filme sobre racismo – é um filme sobre vidas normais de gente que transforma tudo em drama, inclusive o drama imenso que é o racismo.

Quando tudo, absolutamente tudo, é drama, não se consegue realçar o que é realmente dramático.

A denúncia do racismo, essa doença infernal, das piores que a humanidade teve o talento de inventar, se perde entre tanto drama dos personagens do filme – gente que não consegue viver sem transformar tudo em drama.

Uma das cenas mais violentas, mais fortes, mais impressionantes de Imitação da Vida, da qual eu me lembrava perfeitamente, que tinha me marcado para sempre, agora me pareceu improvável. Uma manifestação tão absurda de racismo no Village, em 1958? Se fosse em qualquer Estado do Sul, até mesmo no final dos anos 60, ou até dos 70, seria crível. No Village, em 1958? Meu, o Village, em 1958, era a coisa mais avançada, mais progressista, mais anti-racista que existia naquele país maluco.

Uma curiosidade: nessa seqüência impressionante a que me refiro, o agressor, o brutamontes racista, idiota, é interpretado por Troy Donahue. É uma pequena ponta. Nos anos seguintes, esse ator de talento tão limitado quanto boa pinta seria o protagonista de vários filmes de sucesso na época, o mais conhecido dos quais é o açucaradíssimo Candelabro Italiano/Rome Adventure.

         É um filme pró-mulher, e por isso até avançado para a época

Sim, Imitação da Vida é um filme pró-mulher, um filme feminista, um filme até avançado, se considerarmos a época em que foi feito e a época que ele retrata. Tanto Lora quanto Annie são mulheres que levam suas vidas com coragem, brio, força – sozinhas para criar suas filhas, num mundo machista. Cada uma escolhe seu caminho, mas nenhuma delas depende de um homem para viver, para sobreviver. E quando Steve (John Gavin, aquele ator bonitinho e fraquinho), o jovem fotógrafo boa pinta que as duas conhecem na seqüência inicial, na praia de Conney Island, tenta se arvorar em dono do destino de Lora, ela dá-lhe um chute na bunda, muitíssimo bem dado.

Avançado, progressista, pra frente no desenho da vida de Lora independente dos machos, o filme no entanto se mostra atônito e atonitamente perdido ao discutir o racismo, a questão mais importante que ele mesmo levanta. É aquilo que falei numa boa frase: quando tudo, absolutamente tudo, é drama, não se consegue realçar o que é realmente dramático.

         Dois romances de Fannie Hurst viraram dramalhões da Universal

Fannie Hurst. Na distantérrima adolescência, vi dois filmes baseados em livros de Fannie Hurst que me impressionaram demais – este aqui e também Esquina do Pecado/Back Street. Os dois filmes têm várias coisas em comum, além de se basearem em livros de Fannie Hurst. São, os dois, refilmagens – Imitação da Vida havia sido feito em 1934, por John M. Stahl, com Claudette Colbert no papel principal, e Back Street havia virado filme em 1932, também dirigido por John M. Stahl, com Irene Dunne no papel principal, e de novo em 1941, dirigido por um tal de Robert Stevenson, mas com grandes nomes no elenco – Margaret Sullavan e Charles Boyer. A versão que vi garoto em Belo Horizonte foi a de 1961, dirigida por David Miller, com Susan Hayward no papel central e exatamente o mesmo John Gavin como o seu amante.

Imitação da Vida 1959 e Esquina do Pecado 1961 tiveram, além do mesmo bonitinho e ruinzinho John Gavin no principal papel masculino, o mesmo produtor, Ross Hunter, no mesmo estúdio, a Universal. São, os dois, gigantescos melodramões. Imitação da Vida trata de mãe quase solteira criando filha sozinha, homens avançando em cima dela, ela tendo que agüentar a barra. Esquina do Pecado trata de uma coisa mais comum ainda – a outra, a mulher da vida do cara, mas que chegou depois que ele já havia pronunciado ao pé da altar as juras eternas. Nos dois, as mulheres trabalham, trabalham, e sobem, e ascendem, e ficam ricas – e era muito bom mostrar isso, naqueles tempos pré-históricos, pré-Betty Friedan, pré-explosão do feminismo. Era muito bom.

Imitação da Vida tem Lana Turner, Esquina do Pecado tem Susan Hayward – duas grandes atrizes da época de ouro de Hollywood, do cinema dos estúdios. Coisas antigas.

Gostaria de rever Esquina do Pecado – deve ser uma gigantesca droga, mas gostaria.

O diretor David Miller, que fez Esquina do Pecado, é quase um joão-ninguém, um nada, parece. Douglas Sirk é um grande cineasta – tenho o maior respeito por ele, e, muito mais que isso, ele tem o respeito generalizado da crítica –, mas a verdade é que este Imitação da Vida, embora seja um dos mais conhecidos, não é um de seus melhores filmes.

         Um autor voltado para a família, que é onde acontecem as maiores tragédias

Douglas Sirk na verdade era Hans Detlef Sierck, nascido em Hamburgo em 1900 filho de pais dinamarqueses. Saiu da Alemanha nos anos 30, durante a ascensão do nazismo; filmou na França, na Holanda, e foi parar na Meca, no centro gravitacional do cinema, onde em 1941 fez O Capanga de Hitler. Mas sua praia não era a política – era a família, onde as tragédias maiores ocorrem. Fez belos, amargurados filmes sobre famílias infelizes, pessoas infelizes. Não sei por que parou de filmar em 1959, depois de fazer este filme aqui, mas vejo que, em 1967, em entrevista ao Cahiers du Cinéma, disse: “Meu ideal é a tragédia grega, em que tudo se passa em família, num mesmo lugar. E essa família é idêntica ao mundo, é o símbolo deste mundo.”

Fico aqui achando com meus botões que, de alguma maneira, o dinamarquês-alemão-americano Douglas Sirk deve ter procurado o seu colega Luchino Visconti – italiano e homossexual, conde e marxista – para discutir sobre família e decadência moral. Era o grande tema dos dois cineastas

Não quis ficar no país onde se refugiou. Voltou para a Europa, mas não fez mais filmes lá, a não ser uns três curta-metragens. Morreu em 1987, quase 20 anos depois de ter feito Imitação da Vida. Espero que tenha curtido bem sua aposentadoria, esse período da vida em que a gente já chutou todos os baldes e pode fazer o que bem entender.

         “Romances que não vão durar dez anos”

Sobre a escritora Fannie Hurst, 1889-1968, vejo agora uma frase atribuída a F. Scott Fitzgerald, 1896-1940 – e as datas são chocantes. Nasceram na mesma época; o cara viveu 44 anos, a moça viveu 79.

Não sei se o grande, maravilhoso, fraco, bêbado, auto-destrutivo, genial, brilhante, tão apaixonado pelos ricos e por todo o glamour besta da vida vã, tão grande e tão bobo Francis Scott de fato falou a frase, mas que ela é boa, é. Francis Scott, o brilho que foi tão imbecil que morreu de tanto beber aos 44 anos de idade, teria dito que Fannie Hurst era um dos vários autores americanos que “não estavam produzindo um conto ou romance que vai durar dez anos.”

Pobre, grande Francis Scott. O cinema nunca soube traduzi-lo bem. Mas seus belíssimos textos dele vão durar para sempre.

Alguém hoje procuraria um livro de Fannie Hurst para ler? Fannie Hurst – quem é mesmo?

Imitação da Vida/Imitation of Life

De Douglas Sirk, EUA, 1959

Com Lana Turner (Lora Meredith), John Gavin (Steve Archer), Sandra Dee (Susie), Juanita Moore (Annie Johnson), Susan Kohner (Sarah Jane), Robert Alda (Allen Loomis), Mahalia Jackson (como ela mesma), Troy Donahue (Frankie)

Roteiro Eleanore Griffin e Allan G. Scott

Baseado no romance de Fannie Hurst

Fotografia Russell Metty

Música Frank Skinner

Produção Ross Hunter, Universal Pictures. DVD ClassicLine

Cor, 124 min

R, **1/2

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