Ilha do Medo / Shutter Island

Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Ilha do Medo, o quarto encontro de Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, é um belo filme. É uma ótima trama sobre violência e insanidade; o clima é envolvente, assustador, e o visual é fantástico, sensacional.

As seqüências, já na primeira meia hora de ação, em que o personagem de DiCaprio tem pesadelos horrorosos, são das mais belas e impressionantes que já vi. Fellini, um mago em criar seqüências oníricas, aplaudiria de pé – e morreria de inveja.

O que vemos bem no início da narrativa é o seguinte: uma dupla de agentes federais, Teddy Daniels (DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo), está chegando a uma ilha, a Shutter Island do filme original, onde funciona um hospital psiquiátrico para criminosos perigosos, condenados por crimes executados com especial crueldade. Uma mulher, uma das presas-pacientes, Rachel Solando, havia desaparecido de seu quarto, apesar das muitas e severíssimas medidas de segurança do local, e as buscas pela ilha até então tinham sido infrutíferas.

Estamos em 1954, conforme informa um letreiro bem no início da ação.

         Teddy, o personagem de DiCaprio, está um trapo

O filme abre com Teddy passando mal no navio que o leva à ilha. Vomita, lava o rosto, está mal, muito mal – sua aparência é de um trapo. Seu parceiro na missão, Chuck, ao contrário dele, está bem composto, gravata certinha, roupa impecável. Teddy diz a Chuck que é enjôo, ele não suporta viagem no mar.

Os dois não haviam se visto antes; foram designados para a missão, e acabam de se conhecer. Embora os dois sejam agentes federais, Teddy é o chefe da equipe – Chuck o chama o tempo todo de boss, chefe, patrão. (Eles usam a expressão federal marshal; não usam federal agents, como normalmente se ouvem os agentes do FBI se chamarem.)

São recebidos no pequeno porto da ilha – o único lugar pelo qual se chega e se sai dali – por um sujeito grandalhão que se apresenta como vice-diretor de segurança do hospital-presídio, McPherson (John Carroll Lynch), e pede que eles forneçam suas armas. Teddy protesta, diz que é agente federal em missão, mas McPherson cita lá um código segundo o qual todos os visitantes devem entregar suas armas. Entram todos num jipe que os levará a um dos prédios da ilha – e aí Scorsese e seu fotógrafo Robert Richardson dizem um oi para o espectador: a câmara pega um plano geral da ilha, o jipe correndo numa pequena estrada, pequenininho, lá longe, e zoooooom – aproxima-se de novo do jipe onde vão nossos protagonistas.

Dei rewind para ver a tomada de novo, e depois mais uma vez. É estonteantemente bela.

Na verdade, esse zoom magnífico já era o segundo oi que Scorsese berrava para o espectador. Nas tomadas da chegada do navio ao pequeno píer, quando vemos as primeiras imagens da ilha, a trilha sonora já havia nos avisado que este é um filme de Scorsese, um diretor apaixonado por cinema, por filmes, profundo conhecedor do métier, e capaz de fogos de artifício para lembrar a todo momento à platéia que aquilo é um filme, não é a realidade.

São acordes fortes, violentos, assustadores; fazem lembrar os apitos de um navio quando chega ao porto, mas são ao mesmo tempo melódicos, musicais – e gravíssimos, daqueles de acordar o subwoofer do aparelho de som e fazer tremer os vidros próximos, lancinantes, apavorantes.

         Ben Kingsley compõe seu personagem como médico e monstro

O vice-diretor McPherson vai levar Teddy e Chuck à presença do dr. Cawley, o psiquiatra que dirige o hospital. O dr. Cawley é interpretado pelo extraordinário Ben Kingsley, que compõe um personagem ao mesmo tempo aterrador e suave, um médico e monstro simultaneamente. O dr. Cawley explicará aos agentes federais que Rachel Solando está ali porque matou os três filhos – afogou-os em um lado; é insana, louca, mas muito inteligente, e se recusa a aceitar o fato de que está em um hospital psiquiátrico para presos perigosos; para ela, aquilo ali é a casa dela, e os outros pacientes-prisioneiros, os enfermeiros, são leiteiros, jardineiros, entregadores de mercadorias.

Depois o psiquiatra leva Teddy e Chuck ao cubículo de onde Rachel fugiu – um lugar sem janelas, com a porta trancada por fora. Ou seja: um lugar de onde não dava para fugir.

Estamos aí com uns 15 minutos dos 137 de duração do filme. A partir daí, a trama ficará mais e mais complexa e aterradora. Scorsese não faz apenas suspense, neste filme lúgubre, apavorante: faz terror, um terror psicológico denso, como o de O Iluminado, do mestre Kubrick.

         Movimentos suaves da câmara, pesadelos que invadem a realidade

Não vai haver spoiler algum nesta anotação. Mas é preciso registrar um pouco do que acontece já na primeira meia hora de filme para justificar a afirmação que fiz lá em cima, de que as seqüências com os pesadelos horrorosos de Teddy são das mais belas e impressionantes que já vi.

Já neste início da narrativa, Scorsese mostra ao espectador que Teddy é perseguido por lembranças profundamente traumáticas de horrores que presenciou na Segunda Guerra Mundial, encerrada nove antes, e da perda de sua mulher, Dolores (Michelle Williams), morta num incêndio em sua própria casa.

Scorsese mistura, em imagens de uma beleza assustadora, chocante, elementos da guerra, a esposa morta, com as situações vividas agora pelo personagem. Toda a seqüência em que Teddy e Chuck visitam pela primeira vez a magnífica mansão em que vive o psiquiatra Cawley é de fazer babar qualquer pessoa que gosta de cinema. O toca-discos toca uma composição erudita; Chuck pergunta se é Brahms, a câmara vai avançando num suave travelling para a frente, Teddy diz que é Mahler, e uma voz confirma. A câmara, como se fossem os olhos de Teddy, continua avançando para a frente, para a esquerda, onde há uma poltrona de espaldar alto, de onde saiu a voz confirmando que, sim, é Mahler – e a câmara leva um tempo para mostrar ao espectador que a voz veio do personagem interpretado por Max Von Sydow, o veterano extraordinário ator de tantos filmes de Ingmar Bergman. Ele interpreta outro psiquiatra, o dr. Naehring.

O dr. Naehring terá uma confrontação verbal dura com o agente federal Teddy. De repente, Teddy começará a falar em alemão. Os horrores da guerra, a lembrança da esposa morta, imagens belíssimas e violentas invadem a bela e grande sala de estar.

Se o filme acabasse aí, sem que ficássemos sabendo nada do resto da trama, já teria valido a pena.

         Robbie Roberston, que fez a trilha, trabalha com Scorsese há 35 anos

Nos créditos finais, não há menção à autoria da trilha sonora – e a trilha sonora, como já falei, é impressionante desde o início do filme. O crédito que aparece é “supervisão musical de Robbie Robertson”.

Robbie Robertson ficou famoso como roqueiro: era o guitarrista e compositor do grupo The Band, um conjunto lendário que existiu entre 1958 e 1976. Foi The Band que acompanhou Bob Dylan na sua passagem do folk para o rock, na turnê de 1965 e 1966. Trabalharam juntos em vários discos do compositor; em 1974, depois de uma excursão através dos Estados Unidos, foi lançado o disco duplo Before the Flood, assinado por Bob Dylan/The Band – uma gravação histórica. (Ezequiel Neves provavelmente diria “seminal”. Na verdade, The Band é um conjunto seminal.)

O conjunto fez um grande show em 1976 para anunciar sua própria dissolução, convidando um monte de grandes nomes do rock, do folk e do pop. O show, que virou um disco triplo, foi filmado por Martin Scorsese e lançado nos cinemas com o título de The Last Waltz, a última valsa.

Scorsese e Robertson, portanto, trabalham juntos há uns 35 anos. Robertson fez a trilha sonora de Touro Indomável/Raging Bull, O Rei da Comédia/The King of Comedy e A Cor do Dinheiro/The Color of Money. Voltaram a trabalhar juntos agora. Mas Roberston, pelo visto (e ouvido) não quis compor novos temas para o filme. Ele e o diretor optaram por fazer como Kubrick fez em vários de seus filmes, 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica, De Olhos Bem Abertos: usaram composições já existentes, de diversos autores, na maior parte eruditos, mas também populares. Pelo que mostram os créditos finais, apenas dois temas de autoria do próprio Robbie Robertson foram incluídos na trilha.

Fez uma beleza de trabalho, o veterano compositor, guitarrista, roqueiro canadense, nascido em Toronto em 1943. Uma beleza de trabalho.

         Denis Lehane, garoto de muito talento – e muita sorte

O mesmo se pode dizer do jovem Dennis Lehane, nascido em Dorchester, perto de Boston, em 1965, o ano em que Dylan e The Band irritavam os puristas do folk e recebiam vaias sonoras tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra. Fez um belo trabalho, o garoto – e como tem sorte, esse Lehane. Seu livro de 2001, Mystic River, foi filmado por Clint Eastwood, em 2003 – aqui teve o título de Sobre Meninos e Lobos. Belo livro, belo filme. Em 2003 foi lançado Shutter Island, que deu origem ao filme de Scorsese. Ser filmado por dois dos maiores cineastas do mundo é muita sorte – ou muito talento e muita sorte ao mesmo tempo.

Outro livro de Lehane, Gone, Baby, Gone, de 1998, também foi filmado: Ben Affleck, ator de talento, que trabalha demais e fez muita coisa ruim, além de muita coisa boa, fez a partir do livro um bom filme, em 2007, com seu irmão Casey Affleck no papel central e Morgan Freeman e Ed Harris em papéis menores.

Tá com tudo, o rapaz.

         O maior sucesso de bilheteria na carreira de Scorsese

Segundo a Wikipedia, a Paramount programou inicialmente o lançamento de Ilha do Medo nos Estados e Canadá para o início de outubro de 2009. Depois resolveu adiar a estréia, que acabou acontecendo lá em 19 de fevereiro de 2010, e no Brasil em 12 de março.

As razões da indústria estão muito acima da minha capacidade de compreensão, mas o fato é que o filme ainda estava em cartaz nos cinemas de São Paulo em junho e julho de 2010 quando foi lançado também em DVD.

Teve um orçamento de US$ 80 milhões – não é muito, para uma produção cara, envolvendo tantos atores importantes (além de todos os já citados, ainda há a ótima jovem inglesa Emily Mortimer e a ótima e experiente americana Patricia Clarkson). Entre a estréia em fevereiro e o final de julho, o filme rendeu US$ 128 milhões nos EUA e US$ 166 pelo mundo. Esse total de US$ 294 milhões o transforma no filme de Scorsese que já obteve maior bilheteria, em todos os mais de 40 anos de carreira do grande diretor, segundo informa o Box Office Mojo. Mais, portanto, que as três outras parcerias entre Scorsese e o fenômeno de bilheteria Leonardo DiCaprio – Gangues de Nova York, de 2002, O Aviador, de 2004, e Os Infiltrados, de 2006.

E o fato de ter estreado já em 2010 permitirá que o filme concorra ao Oscar e ao Globo de Ouro no início de 2011.

Não interessa se vai ganhar alguma coisa. Não importa. É um grande filme.

Ilha do Medo/Shutter Island

De Martin Scorsese, EUA, 2010

Com Leonardo DiCaprio (Teddy Daniels), Mark Ruffalo (Chuck Aule), Ben Kingsley (Dr. Cawley), Michelle Williams (Dolores), Max von Sydow (Dr. Naehring), Patricia Clarkson (Rachel),Emily Mortimer (Rachel), Jackie Earle Haley (George Noyce), John Carroll Lynch (McPherson)

Roteiro Laeta Kalogridis
Baseado no livro de Dennis Lehane

Fotografia Robert Richardson

Direção musical Robbie Robertson

Produção Paramount Pictures, Phoenix Pictures. Lançado em São Paulo em 12/3/2010.

Cor, 137 min

***1/2

6 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 20 outubro 2011 às 2:01 pm | Permalink

    Gostei imenso deste filme, para mim o melhor de Martin Scorsese dos últimos anos.
    É mesmo excepcional e deixou-me agarrado à cadeira durante todo o tempo, sempre sem imaginar o que viria seguir.
    Muito bem escrito e muito realizado. Scorsese é mesmo um mestre.
    Dele também vi (revi) há poucos dias “A Última Paixão de Cristo” também excelente.

  2. Jocélio
    Postado em 25 novembro 2012 às 12:43 am | Permalink

    Não existe a figura de Delegado em nenhuma polícia dos EUA. A resenha inova e acaba distorcendo um fato importante.

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 25 novembro 2012 às 3:26 pm | Permalink

    Agradeço ao autor do comentário acima pela gentileza de ter feito a correção. Eu havia usado a expressão “delegados federais”, já que, como anotei no começo do texto, os personagens usam a expressão “federal marshals”, e não “federal agents”. Como uma das acepções da palavra marshal é “representante da autoridade federal”, e nos westerns os marshals são tratados como delegados, cometi o erro. Que já corrigi.

  4. DELAGADO
    Postado em 26 novembro 2012 às 8:23 am | Permalink

    Na verdade não existe o cargo delegado policial em nenhum outro país. Existe sim representante da autoridade policial, mas no resto do mundo esse representante é qualquer policial em cargo de chefia.

  5. Paulo
    Postado em 25 Março 2013 às 1:05 am | Permalink

    Se o filme pretende ser levado a sério, seria bom se informar a respeito da existência do cargo de delegado no FBI…

  6. amaral milhomem
    Postado em 22 Maio 2013 às 2:13 am | Permalink

    Leonardo de Caprio em dois filmes incriveis naquele ano: A Origem e A Ilha do Medo. Nao entendo como perderam pra O Discusso do Rei, que e muito bom mas o Nollan e o Scorcese sao simplesmente demais, mais do que inesqueciveis. Naquele ano teve ainda A Rede Social e o remake de Bravura Indomita. Grande ano hein? A Ilha do Medo e o que considero filme perfeito: ate hoje discuto com amigos sobre ele. Isso e que pra mim serve de parametro para avaliar uma obra de arte de perfeita. Pena que filmes assim andam raro ultimamente, e talvez ate antigamente.

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