Garota Fantástica / Whip It

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Estreou bem na direção Drew Barrymore, essa mulher que acumulou em parcos 35 anos de idade mais experiências do que uma dezena de pessoas longevas e de vida intensa. Garota Fantástica é um bom filme – gostoso, simpático, bem feito.

Não é um grande filme, nem pretende ser – ao contrário, é claramente despretensioso, leve. Uma diversão, embora fale de temas sérios, as barras da adolescência, as relações familiares.

A protagonista da história é uma garota de 17 anos de idade, Bliss, que vive em Bodeen, uma pequena cidade do Texas. É de uma família de classe média bem média; a mãe, Brooke (a sempre boa Marcia Gay Harden), dominadora, mandona, quer porque quer que Bliss siga seus passos e participe de concursos de beleza, seja fina, educada – em suma, careta e convencional, conforme a própria personagem dirá mais para o fim da narrativa, como uma moça dos caretas e convencionais anos 50.

E Bliss detesta tudo aquilo, as formalidades, o convencionalismo, a caretice dos concursos de beleza. É inteligente, ágil, bem informada; veste-se da forma mais desmazelada possível; não tem a mínima idéia do que quer fazer na vida, mas tem a absoluta certeza de aquilo – ser bonitinha, educadinha, bem vestidinha – é tudo que ela não quer.

Bliss é assim muito parecida com a personagem Juno, do delicioso filme do jovem Jason Reitman sobre gravidez na adolescência e sobre o que é ser adolescente nos dias de hoje nos Estados Unidos.

No papel de Bliss está Ellen Page (em primeiro plano, no centro, na foto abaixo), a Juno do outro filme – uma atriz tão mignon no corpo quanto superlativa, um gigantesco talento. Foi uma escolha acertadíssima. Não poderia haver atriz mais perfeita para o papel – até porque ela está um tanto repetindo o mesmo tipo que já fez em Juno e também em Vivendo e Aprendendo/Smart People.

Por puro acaso, num dia em que vai com a mãe e a irmãzinha mais nova fazer compras em Austin, a cidade grande perto da sua minúscula Bodeen, Bliss pega um panfleto que anuncia um jogo de roller derby. Sua vida vai mudar completamente a partir daí: às escondidas, sem dizer nada aos pais, Bliss passará a viajar freqüentemente de Bodeen para Austin, onde é recebida por um time de roller derby – um bando de garotas muito doidas, muito mais parecidas com Bliss do que as moças que concorrem com ela nos concursos de beleza indicados pela mãe. 

É um jogo que exige força física, e Bliss – exatamente como Ellen Page, que dá vida a ela – é um tipo pequenininho, mignonzinha, magrelinha. Mas Bliss vai compensar a falta de força física com outro atributo fundamental do esporte, a velocidade.

         Mas que cazzo vem a ser roller derby?

Tá legal, mas… roller derby? Que cazzo vem a ser roller derby?

Pois é. O eventual leitor que conhecer tudo sobre esse esporte que me perdoe, mais eu jamais tinha ouvido falar disso na vida, nem Mary, nem, imagino, 99% das pessoas que nasceram fora dos Estados Unidos, ou talvez mais exatamente fora do Texas.

Parece que é uma invenção do Texas. Pelo menos há um diálogo no filme que indica isso.

É mais ou menos assim: temos uma pista oval, como na Fórmula Indy. Dois times de mulheres ficam rodando naquela pista oval, de patins. Não entendi muito bem as regras (jamais fui capaz de entender como funciona o beisebol, nem o futebol americano, quanto mais o roller derby), mas tem a ver com velocidade, com ultrapassar os outros. Cada adversária ultrapassada é um ponto. Só que um time pode tentar bloquear as jogadoras adversárias, ou atingi-las com ombradas poderosas – ou outras jogadas ainda mais pesadas.

Uma mistura assim de corrida sobre patins com um pouco de luta livre e futebol americano. Com liga, times organizados, torcida fanática, campeonato, troféus. Uma genuína mania americana. 

Este é o roller derby. Algo um tanto diferente dos concursos de beleza que Brooke, a mãe de Bliss, tanto adora.

As moças que se dedicam à prática do esporte parece que participam de um concurso de feiúra. Vestem-se de maneira espalhafatosa, usam maquiagem carregadíssima, têm um estilo puxado para o punk mais punk, um metaleiro agressivo.

Todas usam nomes de guerra, apelidos – e os apelidos das moças, assim como os nomes das equipes, são deliciosamente engraçados, muitos deles fazendo jogo de palavras com ícones da cultura pop americana. Então há Bloody Holly, alusão ao roqueiro texano Buddy Holly, que influenciou demais o som dos Beatles no princípio de carreira. Tem Eva Destruction, que faz lembrar “Eve of Destruction”, uma canção de protesto óbvia demais dos anos 60. Tem Iron Maven (interpretada por uma Juliette Lewis enfeiada), tirado, claro de Iron Maiden, o grupo de rock pauleira.

A franzinha, mignonzinha Bliss vai virar, no mundo do roller derby, Baby Ruthless – um trocadalho do carilho, mistura de Baby Ruth, o lendário jogador de beisebol, com ruthless, impiedoso, cruel.

Como no futebol americano, o roller derby tem uma série de jogadas ensaiadas, que o técnico Razor (Andrew Wilson), figura engraçadíssima, tenta ensinar às suas jogadoras. Uma dessas jogadas ensaiadas chama-se chicote – daí o título original do filme, Whip It.

         A autora do livro e do roteiro foi estrela desse estranho esporte

A garota Drew Barrymore conseguiu, ao mostrar aquele estranho mundo do roller derby e suas personagens, a leveza, a graça de outros bons filmes americanos sobre esportes, como Sorte no Amor/Bull Durham ou Uma Liga Muito Especial/A League of Their Own, ambos sobre beisebol. Há ótimas piadas, ótimas sacadas, os personagens são gostosos, todo o elenco está ótimo.

Como prova de maturidade, Drew se escalou para um papel até importante, mas pequeno – ela faz Smashley Simpson, uma das jogadoras da equipe, uma garota zonza, avoada, meio bobona, mas sempre muito alegre. Achei fascinante isso, ela ter se dado um papel secundário em seu próprio filme de estréia na direção.

O roteiro é de uma moça chamada Shauna Cross, autora do livro em que o filme se baseia. Shauna Cross fala de cátedra: ela foi uma estrela do roller derby, segundo vejo no AllMovie.

Aproveito para dar uma sapeada na internet atrás de informações sobre o roller derby. A Wikipedia tem um imenso verbete sobre ele. E, ao contrário do que eu imaginava e escrevi lá em cima, o esporte não é mais restrito ao território americano, onde nasceu, cresceu e se desenvolveu. Hoje, segundo a Wikipedia, há mais de 500 ligas femininas em 16 países, e mais um número crescente de ligas masculinas e de juniores.

         Na trilha sonora, “Domingo no Parque” e uma sátira a “Jolene”

Dois detalhinhos sobre a trilha sonora, que inclui umas 20 canções populares. Numa determinada cena, ainda no início do filme, ouve-se ao fundo… “Domingo no Parque”, na gravação original de Gilberto Gil! Absolutamente fantástico! Globalização é isso aí.

O segundo detalhinho é que outra das cerca de 20 músicas que ouvimos no filme é “Jolene”, uma canção-dor-de-cotovelo de Dolly Parton que deixa no chinelo Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. Na música, a cantora-narradora pede para a rival, Jolene, deixar seu homem em paz; diz que Jolene é muito mais bonita que ela, pode ter qualquer homem que quiser, então pelamordedeus vá atrás de algum outro. (O YouTube tem Dolly Parton cantando a música, um show de deliciosa breguice.) A roteirista e a diretora criaram uma seqüência pândega com a canção trágica: a música toca no rádio enquanto Bliss e sua maior amiga, Pash (Alia Shawkat, ótima), estão trabalhando, numa lanchonete, e as duas criam uma nova letra, Bodeen (a pronúncia das duas palavras é muito parecida), em que falam mal de sua pequena cidade e pedem para sair dali e ir para qualquer outro lugar do mundo.   

         Elogios do AllMovie: um filme que não se leva muito a sério

Vejo que o AllMovie teve uma impressão do filme bem parecida com a minha e de Mary. Na crítica assinada por Cammila Albertson, o grande site diz: “Para seu primeiro filme como diretora, a atriz Drew Barrymore escolheu um bom projeto. Whip It tem toneladas de diversão – um filme sobre o rito de passagem da adolescência para a maturidade com um monte de coração, e uma vibração benigna de poder feminino que nunca se leva muito a sério. Dá para a gente perceber que este é provavelmente o tipo de filme que a própria Barrymore gostaria de ver quando tinha 17 anos – e provavelmente muitos de nós, nossos adolescentes internos de 17 anos, também se divertirão muito.”

E depois conclui: “Whip It também de beneficia de uma boa construção, e uma deliciosa coleção de coadjuvantes, como Kristen Wiig, Zoe Bell, Eve, Juliette Lewis e a própria Barrymore, num papel notavelmente pequeno. O resto do elenco ajuda a enfeitar a história com uma ou duas idéias sobre o crescimento e a procura daquilo que cada pessoa sabe fazer. Mas, de novo, o filme nunca tem um tom mão pesada – isso aqui não é arte fina, nem está tentando ser. Tendo em vista que Whip It quer apenas ter um lugar bom entre os filmes agradáveis sobre adolescentes, é um grande sucesso.”

         Se Hollywood fosse uma realeza, Drew seria princesa

Esta anotação já está grande, desproporcional à importância do filme, mas é preciso falar, nem que seja um pouco, de Drew Barrymore, porque é o primeiro filme dela como diretora, porque ela é uma atriz gracinha e porque sua vida tem mais drama e ação do que várias peças de teatro russas juntas.

Se Hollywood fosse uma realeza, fosse São Petersburgo em 1860, Drew Barrymore seria uma das nobres mais importantes, uma princesa da mais alta linhagem. Ela é neta de John Barrymore (1882-1942), um dos maiores astros do cinema americano nas décadas de 1920 e 1930. John, que interpretou Hamlet no teatro em Londres e Nova York, descendia de uma família de atores, e era irmão de dois outros atores famosos de seu tempo, Lionel e Ethel Barrymore.

Drew, nascida na Califórnia em 1975 – o mesmo ano da minha filha Fernanda –, já estava diante das câmaras aos nove meses de idade, fazendo seu primeiro comercial, e sua estréia, num filme de televisão, Suddenly Love, ocorreu quando ela tinha dois anos. Tinha sete quando interpretou a adorável Gertie em E.T., o Extraterrestre, o monumental sucesso de Steven Spielberg de 1982 que vi pela primeira vez com uma não menos adorável Fernanda ainda de cachinhos claros.

Começou a beber com nove anos, e logo passou para drogas mais pesadas.

Quando se dizia que sua carreira estava acabada, que era uma has-been, antes que ela chegasse aos 18 anos, internou-se, curou-se, limpou-se. Contou seu inferno particular numa autobiografia, Little Girl Lost, menininha perdida. Deu a volta por cima, tem feito filmes de razoável sucesso comercial, como as duas novas versões de As Panteras. Brilhou num dos admiráveis filmes de Woody Allen quando ele recobrou a alegria de viver depois de se livrar de Mia Farrow, Todos Dizem Eu Te Amo. Brilhou mais ainda no barra pesada Grey Gardens.

Aos 34 anos de idade, depois de ter vivido o que muita gente não vive em cem, faz seu primeiro filme como diretora. E mostra que tem talento.

Delícia de Drew Barrymore.

Garota Fantástica/Whip It

De Drew Barrymore, EUA, 2009

Com Ellen Page (Bliss Cavendar), Marcia Gay Harden (Brooke Cavendar), Kristen Wiig (Maggie Mayhem), Drew Barrymore (Smashley Simpson), Juliette Lewis (Iron Maven), Jimmy Fallon (“Hot Tub” Johnny Rocket), Alia Shawkat (Pash Amini), Eve (Rosa Sparks), Zoe Bell (Bloody Holly), Ari Graynor (Eva Destruction), Eulala Scheel   (Shania Cavendar), Andrew Wilson (técnico “Razor”) 

Roteiro Shauna Cross, baseado em seu livro

Fotografia Robert Yeoman

Música Section Quartet

Montagem Dylan Tichenor

Produção Flowr Films, Rye Road Productions, Vincent Pictures

Cor, 111 min

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Título em Portugal: Sobre Rodas

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