Forasteiros em Nova York / The Out-of-Towners

Nota: ★½☆☆

Anotação em 2010: Até onde eu saiba, este Forasteiros em Nova York/The Out-of-Towners é um dos filmes mais obscuros, menos importantes das carreiras tanto de Jack Lemmon quanto de Neil Simon. Tanto o grande ator quanto o respeitado dramaturgo e roteirista fizeram bons filmes, e, portanto, ser dos menos conhecidos da carreira de cada um deles não significa necessariamente que o filme seja um horror.

A rigor, a rigor, o filme é bem ruim. Não tinha visto na época – ele é de 1969 –, e confesso que, com uns 10, 15 minutos, pensei seriamente em parar de ver. Mas não parei, não paramos, vimos até o fim, Mary e eu (e Mary é bastante menos paciente, ou louca, ou as duas coisas, que eu). E quer saber? Apesar de ser um filme bem ruim, tem uma ou duas coisas interessantes.

Lelouch disse várias vezes que só há duas ou três histórias na vida – o resto são variações em torno daqueles mesmos temas. Claro, é uma frase, uma boutade, mas carrega grande dose de verdade. O cinemão americano nos diz que existe a história de gente da cidade grande que vai pro interiorzão bravo, e existe a história de gente do interiorzão bravo que vai pra cidade grande. Dois milhões e trezentos e cinqüenta mil filmes americanos nos contam essas duas histórias.

Dentro de cada um desses dois subgêneros, há de tudo. Há os que vão e se dão mal, mas persistem no erro. Há os que vão e se dão primeiro bem, e depois percebem que fizeram uma grande asneira. Há os que vão e não se dão tão bem, mas persistem – quem sabe um dia as coisas ainda poderão melhorar?

Pode-se falar do tema chegando-do-interior-para-a-cidade-grande-demais de variadas formas. Pode-se mostrar isso como um imenso, amargo drama – como, por exemplo, John Schlesinger fez em Perdidos na Noite/Midnight Cowboy, o caipirão chegando a Nova York achando que vai se dar muito na vida como um feliz puto à venda para mulheres mais velhas. Pode-se contar essa história como um imenso dramalhão – como Douglas Sirk fez em Imitação da Vida, em que duas mães solitárias vindas do interior enfrentam a barra de criar suas filhas na capital do mundo. Robert Mulligan, um grande diretor muitíssimo menos reconhecido do que mereceria, mostrou a luta maluca dos que vão, chegam, não vencem, mas mesmo assim insistem em ficar, no triste A Taberna das Ilusões Perdidas/The Rat Race.

         Saindo de Nova Iguaçu para Ipanema, de Osasco para os Jardins

Agora há pouco, neste ano de 2010, um sujeito de que nunca tinha ouvido falar, Shawn Levy, fez um filme chamado Uma Noite Fora de Série/Date Night, em que os personagens interpretados por Steve Carell e Tina Fey vão passar uma noite de sexta-feira em Manhattan, a ilha que é o umbigo do capitalismo. Os personagens são gente boa que trabalha e vive ali do lado de Nova York, em Nova Jersey – mas Nova Jersey é sempre apresentada como assim uma espécie de Guarulhos, ou Osasco, piorada, na comparação com a fascinante, belíssima Nova York, e então talvez a comparação melhor fosse Nova Iguaçu em relação ao Rio de Janeiro.

E então os personagens de Steve Carell e Tina Fey atravessam uma ponte, chegam de Osasco-Guarulhos-Nova Iguaçu-Duque de Caxias àquela maravilha que é Manhattan, que, meu, é umas 200 zilhões de vezes mais sensacional que Copacabana, Ipanema, Leblon, Higienópolis e todos os Jardins juntos, porque tudo isso aqui é terceiro mundo, e Manhattan é apenas e tão somente o umbigo do mundo, a capital do Sistema Solar… e se ferram. São assaltados, vão parar na polícia, a polícia não quer saber deles, são perseguidos por bandidos violentos – vivem o pior inferno possível, mas, no fim, acham tudo muito legal, porque saíram de Nova Jersey-Nova Iguaçu-Osasco e tiveram uma noite extraordinária em Manhattan, o umbigo do mundo.

Pois muito bem. Uma Noite Fora de Série/Date Night é, confessadamente, uma variação 2010 de um filme de Martin Scorsese dos anos 80, After Hours. Quando vi Uma Noite Fora de Série, me lembrei que tinha lido em algum lugar a frase: é uma citação, é uma homenagem a After Hours.

         O filme famoso de Scorsese é uma variação deste aqui

E então, finalmente, chego ao ponto. Ahá – parecia que eu não chegaria jamais ao ponto hora alguma? Pois chego.

After Hours, que Martin Scorsese, gênio americano, tido hoje como um dos melhores cineastas do mundo, bebeu de canudinho direto em Forasteiros em Nova York.

A trama é exatamente a mesma: uma longa noite de loucuras de gente careta na grande, louquíssima loucura que é a grande metrópole.

Bingo, Claude Lelouch! A vida só tem duas ou três histórias.

Forasteiros em Nova York, como explicita o título, é sobre gente do interiorzão bravo que vai pra cidade grande. Um casal de uma pequena cidade de Ohio, George e Gwen (Jack Lemmon e Sandy Dennis), embarca num vôo rumo ao aeroporto JFK numa tarde; na manhã seguinte, às 9 horas, George terá a entrevista final com o presidente da empresa em que trabalha – uma empresa que vende plásticos – antes de assumir, na sede, na capital do mundo, o cargo de vice-presidente de vendas. Já foi escolhido, a entrevista é mais uma formalidade. A empresa fez reserva para o casal no finíssimo Waldorf-Astoria, e George reservou mesa no finíssimo Four Seasons para o jantar.

Era para ser a noite mais gloriosa da vida do casal interiorano. Vai ser o inferno, o horror do horror. Tudo, absolutamente tudo vai dar errado.

O filme chega a ser irritante por dois motivos básicos, na minha opinião. Primeiro, porque o personagem de George é chato demais. Neil Simon exagerou na caracterização do americano médio imbecil, panaca, todo certinho, todo careta, obcecado com a ascensão na firma, obcecado com a noção de que vai processar todo mundo que não respeitar seus direitos de consumidor.

A personagem de Gwen é igualmente exagerada e esquemática: parece não ter vida própria, opinião pessoal; é a serva do marido, o senhor do universo; faz tudo para não contrariá-lo, irritá-lo. E Sandy Dennis – uma mulher interessante, atriz de grande talento no teatro e no cinema, que nunca chegou ao estrelato, mas teve bons papéis, como em Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?, de Mike Nichols, que lhe deu o Oscar de coadjuvante em 1967 – está perfeita no papel. Para mim, Sandy Dennis engoliu o grande Jack Lemmon neste filme.

O segundo motivo pelo qual o filme fica irritante é o exagero e a repetição de coisas dando errado na viagem do casal. É a Lei de Murphy elevada à enésima potência.

Apesar de tudo, dos defeitos todos, o filme acabou ganhando minha simpatia por causa da moral da história: cidade grande, metrópole, umbigo do mundo? Nada – muito melhor a vida simples no interiorzão.

***

Verdade que gostar dessa moral é um indicativo de uma contradição pessoal, já que, quando garoto, optei pela maior cidade do país, e, embora tenha passado décadas sonhando com a possibilidade da aposentadoria numa cidade pequena, longe deste insensato mundo, continuo firme em São Paulo, e não penso mais em sair daqui. Mas essa é outra história.

         “Torturante roteiro”

Para registrar uma outra opinião: Leonard Maltin desceu a ripa no filme. Deu 1.5 estrela em 4, e malhou: “Torturante roteiro de Neil Simon sobre o estupidamente teimoso Lemmon e mulher Dennis tendo tudo imaginável dando errado numa viagem a Nova York. Mais aflitivo do que engraçado, com os personagens centrais curiosamente antipáticos.”

E a rigor está certo o Maltin. No entanto, o filme teve duas indicações para o Globo de Ouro – atriz para a ótima Sandy Dennis e ator para Jack Lemmon. E Neil Simon ganhou o prêmio de melhor roteiro original do Sindicato dos Roteiristas, o Writers Guild of America.

A história de Neil Simon seria refilmada 29 anos depois, em 1999, com Steve Martin e Goldie Hawn nos papéis centrais. O diretor foi um tal de Sam Weisman; o título do filme original foi mantido.

Forasteiros em Nova York/The Out-of-Towners

De Arthur Hiller, EUA, 1970

Com Jack Lemmon, Sandy Dennis, Sandy Baron, Anne Meara    

Ann Prentiss, Graham Jarvis, Ron Carey

Argumento e roteiro Neil Simon

Música Quincy Jones

Produção Paramount, Jalem Productions

Cor, 97 min

*1/2

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