Distúrbios do Prazer / Downloading Nancy


Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2010: Pessoas saudáveis, sem atração particular por loucuras, obsessões, perversões, profundas e irreprimíveis infelicidades, não deveriam nem chegar perto deste Distúrbios do Prazer.

Mary, por exemplo, não quis saber. Pegamos o filme por causa de Maria Bello, uma boa atriz, figura interessante, e porque era lançamento. Com menos de dez minutos, Mary, que além de saudável é inteligente, sugeriu o uso da tecla stop. Eu, como sou doido e além disso inventei um site sobre filmes, voltei a ele mais tarde – mas confesso que o vi com o auxílio de outra grande tecla, a de fast forward.

Ele é daquele subgênero que chamo de “Podendo-Complicar-a-Narrativa,-Por-que-Simplificar?” Fica num vai e vem no tempo sem qualquer sentido, sem qualquer explicação, a não ser parecer melhor do que é, dar a impressão que tem algo a dizer. E pertence também a um outro subgênero que tem muitos apreciadores, os fãs de David Lynch e David Croneberg não me deixam mentir, o “Sensacional disputa para ver quem cria os personagens mais abjetos, desagradáveis, insanos, repelentes de toda a historia”.

O filme se vende como sendo “inspirado em fatos reais”. A expressão em geral indica que, com base em um ou outro fato real, criou-se uma trama ficcional cheia de acontecimentos bem distantes do que aconteceu na realidade.

E a trama inclui: abuso sexual de criança por parente; caso agudo de masoquismo; auto-flagelação e flagelação por terceiros – com giletes, pontas de cigarro; pacto suicida. Há muitas cenas com aquela explicitude de que o cinema não consegue mais se ver livre.

De fato, para quem gosta, deve ser um prato cheio.

         Atores pessimamente dirigidos

Todos os atores estão pessimamente dirigidos, como se estivessem numa competição para ver quem consegue ser mais exagerado que o outro, quem mais consegue o over do over do over. A fotografia, assinada pelo australiano que trabalha em Hong Kong Christopher Doyle, também procura o over, com excessos de luminosidade, para ficar diferente do padrão.

O iMDB informa que Holly Hunter, William Hurt, Radha Mitchell e Stellan Skarsgård foram procurados pelos produtores para participar do projeto. Para o bem de suas carreiras, desistiram. Maria Bello, uma atriz que tem demonstrado não ter medo de pegar papéis arriscados, ousados, difíceis, aceitou. Não creio que sua carreira tenha ganhado nada por isso.

Foi a estréia na direção do sueco Johan Renck. Antes, ele havia feito videoclips para Madonna e Kylie Minogue. Tem muito que aprender na vida, o rapaz – se é que vai aprender algo algum dia.

Talvez haja aí exagero meu, ou má vontade, ou obtusidade. Talvez espectadores saudáveis, não fascinados por sado-masoquismo, fiquem tocados pela profunda, insanável infelicidade de Nancy, a pobre protagonista interpretada por Maria Bello. Pode ser. Mas, para mim, para ficar tocado por um personagem é preciso que ele de alguma maneira atraia, seduza, conquiste o espectador, que estabeleça com o espectador algum tipo de empatia. E, a meu ver, o diretor Johan Renck não consegue isso em momento algum – até porque nem é isso o que aparentemente ele pretende. O que ele pretende, foi o que me pareceu, é chocar, assombrar, ousar, causar polêmica.

         A confirmação

Na hora de botar o post no ar, e encontrar o cartaz do filme para ilustrá-la, vi que a frase de marketing, a tagline, confirma o que eu disse ao final da minha anotação, que a intenção do filme é chocar, causar polêmica: “O filme mais controvertido que você verá este ano”.

Nada. É um dos piores que você verá este ou em qualquer ano.

Distúrbios do Prazer/Downloading Nancy

De Johan Renck, EUA, 2008

Com Maria Bello, Jason Patric, Rufus Sewell, Amy Brenneman

Roteiro Pamela Cumming e Lee Ross

Fotografia Christopher Doyle

Música Krister Linder

Produção Tule River Films.

Cor, 102 min

Bola preta

6 Comentários

  1. Augusto
    Postado em 14 junho 2010 às 11:07 pm | Permalink

    O filme pode até não ser bom, mas pelo que li, vc não entendeu nada do filme, também não é para qualquer um mesmo. Nancy não é simplismente uma pessoa sado-masoquista, ela provavelmente possui um transtorno de personalidade, conhecido como borderline ou froteiriço. Inclusive conheço uma história real muito semelhante à do filme, e como psicologo, vejo q o filme é bem condizente com a realidade.

  2. jordan
    Postado em 23 junho 2010 às 1:19 am | Permalink

    realmente em se tratando de filmes volte a ver xuxa e os duendes …ou john ford …vc n vai encontrar problemas … o roteiro é bem linear … vc n entendeu o file mesmo … o augusto tem razão obs; pqq o titulo do filme é downloading Nancy ? vc n sabe …!!

  3. Andre Rodrigues
    Postado em 13 julho 2010 às 2:39 am | Permalink

    Filme denso, angustiante, mas muito bem conduzido. Não considero um filme excelente, mas eh um bom filme sim. A propósito, não eh preciso ser um criminoso, vampiro, marginal, psicopata, etc, para gostar de filmes com esses personagens. Vc começa seu post sugerindo ‘as pessoas “saudáveis” se manterem longe da película…

  4. Savanah
    Postado em 1 novembro 2010 às 10:42 pm | Permalink

    Eu vi o filme, sou uma pessoa saudável, esportista, terapeutizada e amei o filme. Acho que este você não entendeu nada do filme. É uma história pra lá de plausível. Muito mais comum do que se imagina. Mostra como as pessoas podem atingir um nível de relacionamento complexo, afetivo-dependente, sem saída, retrata relacionamentos doentios,um filme intrigante! Eu gostei da direção e o clima criado pelo filme é aquele que deveria ser feito mesmo: um clima que mostra o nível depressivo, decadente e mórbido dos relacionamentos entre estas pessoas que o filme retrata. Eu acho que se você ficou chocado com isto talvez devesse ficar nos filminhos infantis do Walt Disney.

  5. Luciana
    Postado em 11 setembro 2011 às 8:25 pm | Permalink

    Tb gostei muito do filme e acho que vc não o entendeu. Muito real e intrigante. A vida muitas vezes como é, sem a perfeição de vida que muitos filmes tentam nos mostrar. É o outro lado, quando as coisas não são um mar de rosa e a pessoa fica perdida. Cada um se perde de um jeito. Sei lá. Eu gostei e recomendo o filme.

  6. Ivan
    Postado em 29 maio 2012 às 10:51 am | Permalink

    O que sería do amarelo se não fôsse o azul.
    Todos têm o direito de ter sua opinião.
    E,a minha, vai ser a primeira a discordar das
    que aqui estão.
    Será que alguém pode ser bom no ruím??
    Se alguma coisa foi boa nesta ruindade, foi a
    Maria Belo. Por isso que ela é muito boa atriz. Foi boa no ruím, no bom então … por ela , vi esta coisa.
    Realmente a intenção é só chocar. Mas, deu foi nojo de ver tanta flagelaçao.
    Fatos reais ou não, este filme,( vi ontém) é uma doideira total, verdadeiro lixo, que nem
    a Maria salvou.

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