Direito de Amar / A Single Man

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Tem sido bastante incensado, parece, este filme, a estréia na direção de Tom Ford. Merece. É um belo, triste drama sobre perda. O visual é apuradíssimo, de imensa beleza. Tem uma trilha sonora estupenda, e uma atuação brilhantíssima de Colin Firth.

É impossível não comentar o óbvio: que talento tem esse Tom Ford, para, sem experiência anterior alguma no cinema, estrear com um filme tão bom, com essa beleza visual encantadora. O roteiro é dele e de David Searce, baseado numa novela de Christopher Isherwood – o autor de Goodbye to Berlin, que reúne contos que deram origem ao musical e depois ao filme Cabaret.

Nunca tinha ouvido falar em Tom Ford antes de ver este filme. Falta de cultura geral é isso aí. O cara – nascido no Texas em 1961 – é um grande nome no mundo da moda. Vejo agora na Wikipedia que ele foi diretor de criação da Gucci e depois também da Yves Saint Laurent, duas das maiores grifes mundiais de roupas masculinas. Em 2005 criou sua própria empresa, que leva seu nome. No mesmo ano, criou uma produtora de cinema, Fade to Black, e em 2009 concluiu este A Single Man.

(Belo nome ele escolheu para sua produtora, fade to black. Lembrando: to fade – desaparecer gradualmente, enfraquecer, murchar, perder a cor. Fade-out, no cinema – termina uma tomada, durante alguns segundos a tela fica negra, até que, fade-in, entra a nova tomada. Como o final de um capítulo e o começo de um novo. Grandes montadores transformam essa coisa singela num belo efeito narrativo. Fade to black – beleza de imagem. Há até uma música que usa a expressão – não consigo me lembrar qual é, mas acho que é de Mark Knopfler. Sim, chama-se mesmo “Fade to Black”, é do disco de 1991 do Dire Straits, On Every Street – bela e triste.)

         Um único dia na vida de George, um triste professor

O filme tem tido uma carreira de sucesso. Participou da mostra competitiva de Veneza, colecionou 14 prêmios em diversos festivais e teve outras 23 indicações. Colin Firth, esse grande ator inglês que andou fazendo muitas comedinhas românticas, inclusive porcarias como Hope Springs – Um Lugar para Sonhar, teve uma bela chance de interpretar um personagem denso, em um drama pesado, e soube aproveitá-la: foi indicado para o Oscar, o Globo de Ouro, o Independent Spirit Award, o prêmio do Sindicato dos Atores; ganhou o Bafta e o Volpi do Festival de Veneza.

Firth está de fato extraordinário, brilhante, no papel de George Falconer, um inglês radicado na Califórnia, professor de literatura numa universidade, que perde o companheiro após 16 anos de casamento.

Toda a ação do filme se concentra em um único dia na vida de George, uma sexta-feira no final de 1962. Já se passaram oito meses da morte de Jim (Matthew Goode), mas o peso da perda ainda é imenso. George acorda nesse dia após mais um pesadelo em que vê um carro acidentado no meio da neve e Jim caído, morto, enquanto George se aproxima dele e dá um beijo em seu rosto.

Aquela sexta-feira na vida de George vai sendo mostrada ao espectador entremeada pelas lembranças que ele tem de Jim e da vida a dois, que surgem a cada momento. Uma das primeiras dessas lembranças é a do dia em que George estava sozinho em casa e recebeu o telefonema de um primo de Jim, relatando o acidente e a morte – Jim havia ido visitar a família em Denver, Colorado. Ouvimos o diálogo enquanto a câmara focaliza o rosto de George em primeiro plano. À dor imensa da perda do grande amor, alia-se a frustração, a impotência, a indignação por ser avisado de que ele não será admitido nas cerimônias fúnebres. A família de Jim não admite a homossexualidade do filho.

A atuação de Colin Firth nessa seqüência é brilhante, sensacional, espetacular. Assim como em todo o resto do filme.

Também está muito bem a sempre competente Julianne Moore, como Charly, a vizinha e grande amiga de George – no passado, lá atrás, quando ainda viviam em Londres, chegaram a ter um caso. Charly agora se sente inútil, com a vida vazia, e tem uma queda por gim, a bebida inglesa por excelência de quem não gosta propriamente do sabor, mas do efeito do álcool.

         Um visual meticulosamente bem cuidado, uma trilha belíssima

Todo o visual do filme é meticulosamente bem cuidado, uma coisa detalhista, rica e bela que seria de se esperar de um profissional que passou a vida trabalhando com moda. Quando George sai com seu carro de sua casa espetacular em Glendale, para ir para a escola em que leciona, há seqüências em câmara lenta, em que ele e o espectador vão vendo as belas casas da vizinhança, os garotos dos vizinhos brincando.

Há volta e meia super-hiper-grandes close-ups, como da boca cheia de batom vermelho vivo de uma secretária de George na escola. Em algumas tomadas, a cor vai se esmaecendo até desaparecer por completo e virar preto-e-branco – fade to black-and-white. Em outras, o diretor de fotografia faz ajustes na luminosidade, sem interromper, sem cortar.

Ao visual suntuoso e à interpretação maravilhosa de Colin Firth se soma a trilha sonora, de um compositor de quem nunca tinha ouvido falar, Abel Korzeniowski. As melodias são belíssimas, chegam como ondas do mar, uma série de acorde após outra, interpretadas por um conjunto de cordas. Faz lembrar Philip Glass – é de uma beleza extraordinária.

Abel Korzeniowski, como o sobrenome indica, é polonês da Cracóvia, onde nasceu em 1972. Já compôs para filmes realizados na Polônia e nos Estados Unidos. Vejo que é dele a trilha sonora de um belo e sombrio filme passado na Rússia pós desmanche do império comunista, Pu-239.

         “Colin Firth, um dos atores mais talentosos de sua geração”

Os números do Box Office Mojo indicam que o filme foi bastante rentável. Custou pouco, pouquíssimo, para os padrões americanos – US$ 7 milhões, e já rendeu, em nove meses, desde sua estréia em dezembro de 2009, US$ 23 milhões. Não é uma grande bilheteria, e nem seria de se esperar que estourasse nas bilheterias um drama sério, adulto, para adultos. Mas já mais do que se pagou e deu lucro para um sujeito que propriamente não precisa ganhar dinheiro com cinema.

Vejo que o AllMovie elogia o filme – dá 4 estrelas em 5 –, mas aponta como um senão aquele excesso de preciosismo com o visual que citei acima. Interessante. Ando cada vez mais encantado com as narrativas suaves, clássicas, sem grandes arroubos, sem o que chamo de fogos de artifício do diretor, mas os cuidados com o visual que Tom Ford adota no filme não me incomodaram nem um pouco. Ao contrário, me parecem que resultaram numa grande beleza.

Ao final, a crítica do AllMovie se volta para a interpretação de Colin Firth: “A Single Man oferece provas de que Ford terá uma carreira no cinema, se quiser, mas é sobretudo memorável por dar ao criminosamente sub-apreciado Colin Firth a chance de comprovar que é um dos atores mais talentosos de sua geração.”

Está certíssimo: Colin Firth merece todos os louros possíveis e imagináveis. Seu trabalho é esplendoroso.

Direito de Amar/A Single Man

De Tom Ford, EUA, 2009

Com Colin Firth (George Falconer), Julianne Moore (Charley), Nicholas Hoult (Kenny Porter), Matthew Goode (Jim), Jon Kortajarena (Carlos), Paulette Lamori (Alva), Ryan Simpkins (Jennifer Strunk), Ginnifer Goodwin (Mrs. Strunk)

Roteiro Tom Ford e David Scearce

Baseado em novela de Christopher Isherwood

Música Abel Korzeniowski

Fotografia Eduard Grau

Produção Fade to Black Productions, Depth of Field. DVD Paris Filmes. Estreou em São Paulo 5/3/2010

Cor e P&B, 99 min

***

Título em Portugal: Um Homem Singular

13 Comentários para “Direito de Amar / A Single Man”

  1. Caro Sérgio,
    quero muito ver o filme. Apenas à propósito de Colin Firth, lembro-me dele em “O Paciente Inglês”. Toda a atenção é voltada para Ralph Fiennes, Juliette Binoche e Kirstin Scott Thomas. Todos estão brilhantes. Porém, nenhum homem traído no cinema poderia ser melhor interpretado. Sua contenção durante todo o filme e sua reação trágica final são memoráveis! Eu o adoro! Posso estar errada, mas a gente aguenta um ator bom num filme fraco, mas jamais o contrário.

  2. Colin Firth é de fato um grande ator. Mas não vi nesse filme nada senão o trabalho dele. Achei frio, e achei a direção do diretor Tom Ford muito maneirista, deliberadamente “artística” demais. Isso dá, por vezes, em filmes rígidos e empostados, com ares de álbum fotográfico chique, agônico (e o filme é agônico, depressivo de fato). Creio que é muito difícil, para o público em geral, masculino em particular, partilhar das dores de um personagem homossexual colocado no centro da trama. O filme acaba tendo apelo apenas para o ghetto a que se destina. Há, no entanto, filmes assim que dão muito certo, como “O beijo da mulher-aranha”, de Babenco. Mas Babenco é um diretor muitíssimo superior a esse Ford.

  3. Apreciei muito este filme, afinal ainda se fazem filmes de grande qualidade nos EUA.
    E aproveito para dizer que este filme não é sobre homessualidade, mas sim sobre o sofrimento pela perda de uma pessoa amada – pode ser pai, filho, irmão, amamte, amigo, etc., independentemente do sexo.
    E o filme não se destina a nenhum ghetto, se assim fosse não teria a recepção que teve.

  4. Só quero dizer que não deve haver por aqui nenhum comentário meu que não leve um ou mais erros de escrita; o de cima leva dois.
    Eu bem olho antes de postar mas não vejo nada!
    Que vontade de dizer uma bujarda!

  5. Perdi quando passou nos cinemas, por dificuldades minhas. Quando apareceu o DVD, dixei um pedido onde costumo comprar, mas era raro e não tive sucesso. Agora, eu que malho tanto a NET, tive o prazer de assisti-lo. Maravilha, é todo precioso. Sou admiradora do Colin e ele se superou neste filme. Sabe como é guardar para ver outra vez? Foi o que fiz com meu velho videocassetes. Estou garantida até comprar o DVD. Como é maravilhoso o cinema…

  6. Querido Sérgio, vi esse filme na época em q foi lançado e, como toda mulher, o romance entre os personagens me encantou, apesar de ser entre dois homossexuais, o que para mim não faz a mínima diferença, pois para mim amor é amor, não tem sexo. Também fiquei condoída da situação do Colin Firth, sem poder se despedir do companheiro de tantos anos por causa da hipocrisia da família que não assume a homossexualidade do filho, como vc fez questão de frisar. Fiquei até com vontade de revê-lo, pois filmes q me emocionam gosto de ver novamente, é tão difícil um filme q mexe com os sentimentos da gente e que deixam a sua marca!
    Engraçado dizerem q ele foi endereçado ao gueto homossesuxual, eu não o sou e, no entanto, ele me comoveu tanto.Nesse ponto concordo com o Francisco Lopes. E que erros de ortografia vc cometeu no seu comentário q me passaram desapercebidos?O que é bujarda? Vc e seus termos intrigantes!
    Um beijão
    Guenia Bunchaft
    http://www.sospesquisaerorschach.com.br

  7. Guenia, querida, concordo plenamente com você: o romance entre os dois personagens é encantador – não importa absolutamente nada que sejam do mesmo sexo. E concordo de novo com você: é um filme de fato emocionante.
    Concordo também com meu prazado amigo José Luís quando ele diz (de maneira semelhante ao que você mesma diz) que “este filme não é sobre homossexualidade, mas sim sobre o sofrimento pela perda de uma pessoa amada”.
    Me assustei quando você se referiu a erros de ortografia no meu texto.
    Quem fala de erros de ortografia é o José Luís, referindo-se ao comentário anterior que ele havia feito.
    E quem fala bujarda não sou, e sim o José Luís. Veja só: “Em Portugal esta palavra refere-se a algo de errado/estúpido/impróprio dito por alguém, geralmente em voz alta, na altura errada e junto de pessoas que seria bem preferível não terem ouvido.”
    Um grande abraço.
    Sérgio

  8. Sérgio, é q o José Luís escreveu duas vezes e pensei q a segunda era sua resposta. Mas na sua resposta a mim tem um erro de digitação hehehe. Eu também erro, acabei de ver q o comentário q fiz a outro filme, Procura-se Amy, tem pelo menos um erro de digitação, mas o mestre(você) tem q ser perfeito e dar exemplo p os simples mortais q somos nós. Brincadeirinha.
    Guenia Bunchaft
    http://www.sospesquisaerorschach.com.br

  9. Revi o filme há dias e fiquei encantado com a banda sonora de Abel Korzeniowski em que eu não tinha prestado muita atenção. É uma maravilha, inspiradíssima.

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