Diário Proibido / Diario de una Ninfómana


Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2010: Este Diário Proibido oscila entre um tom feminista, de defesa das mulheres em um mundo ainda machista, cinco décadas depois de tantas conquistas do feminismo, e um filme de sacanagem pura e simples, que tenta exibir uma casquinha de seriedade para esconder o que de fato é.

É artesanalmente bem feito – embora com uma estética limpinha demais, algo próximo a uma dessas bem feitas produções da Rede Globo, em que todos os cenários são imaculadamente limpos, sem uma poeira, uma mancha qualquer, sem sinal de vida real, e as roupas demonstram que acabaram de sair do departamento de figurino, sem qualquer indício de que foram usadas antes por alguma pessoa de verdade.

Poderia ter apertado a tecla stop com uns 15 minutos de filme, mas acabei vendo até o fim, por curiosidade, e também – confesso, sem vergonha – porque a atriz principal é bastante bonita. Belén Fabra, chama-se ela.

Poderia também não perder tempo escrevendo sobre ele – mas o filme existe, está lá na plateleira de Cinema Europeu da locadora, passei mais de uma hora e meia vendo, tenho um site/blog sobre filmes.

Então vamos lá.

         No prólogo, um diálogo com a avó, interpretada por Geraldine Chaplin

O filme tem um prólogo, uma seqüência de abertura antes dos créditos iniciais. Uma grande casa no alto de uma montanha, de frente para um vale e outras montanhas; veremos depois que o lugar não é distante de Barcelona, embora as duas mulheres que estão nos jardins da casa, diante de belíssima paisagem, falem em francês. Deve ser um lugar perto dos Pirineus, próximo à fonteira entre Espanha e França.

Uma mulher jovem, bonita – veremos que é Valérie, Val, o papel de Belén Fabra – conversa com sua avó, interpretada por Geraldine Chaplin.

Val: – “Você teve alguma paixão antes de Pepe?”

Avó: – “Seu avô foi o único homem da minha vida. Casei com ele porque não havia outra coisa a fazer, mas aprendi a amá-lo. Na época diziam que uma mulher sem profissão só tinha duas opções: o casamento ou a prostituição. O que dá no mesmo, não é?”

Val: – “E se pudesse recomeçar? Pepe seria o único homem da sua vida?”

Avó: – “Não. Se pudesse recomeçar, ia transar até não mais poder.”

Val: – “Todos deveriam pensar assim. Se um homem transa muito, é um super-macho. Se é uma mulher, é uma vadia. A igualdade dos sexos!”

Avó: – “Não importa o que digam. Se as pessoas falassem menos e transassem mais, tudo seria melhor.”

Val e a avó entram para a gigantesca casa para comer uns mariscos, corta, e vemos uma garotinha transando com um garotinho, enquanto a voz de Val narra:

– “Perdi a virgindade no dia 17 de julho de 1993, às 2 horas e 46 minutos da madrugada. (Enquanto os garotinhos começam a transar, o rádio toca “Tous les Visages de l’Amour”, com o autor, Charles Aznavour.) Foi durante umas férias, aos 15 anos. Lembro que não senti nada.”

E o diretor Christian Molina mostra toda a cena, com close-up nos peitinhos da Val de 15 anos e da mão de Édouard se enfiando sob a calcinha dela, e toda a trepada adolescentemente rápida. E, enquanto a voz de Val vai nos explicando que, depois dessa rapidinha, ela voltou ao quarto para comer Édouard, vamos vendo diversas tomadas de Val trepando com um, com outro, com outro, com outro, com outro… e os créditos iniciais informam o título original, Diario de una Ninfómana.

         Belén Fabra faz uma garotinha de 15 anos e uma mulher de 29

O que raios terá feito os distribuidores brasileiros do filme transformarem Diário de uma Ninfomaníaca em Diário Proibido? Um pouquinho de pundonor, de pudicícia? Receio de que as platéias brasileiras, mui pudicas, fugissem de um título assim explícito? Teriam os distribuidores brasileiros tentado esconder, como o próprio diretor Christian Molina, a real intenção do filme? Ou teriam achado que a sugestão é mais chamativa que a explicitude?

Vai lá saber.

Euzinho dei pausa e vim checar no iMDB o nome das atrizes que interpretavam Val – a de 15 anos e a de 28 anos. Não costumo fazer isso, interromper um filme para checar uma informação, mas fiquei curioso. O iMDB informou que é apenas uma atriz, a mesma Belén Fabra. E isso é impressionante, é fantástico; pode ser um filme de sacanagem, mas eles souberam criar duas caras extremamente diferentes para as idades extremamente diferentes de Val.

Belén Fabra nasceu na Catalunha, em 1977 – estava, portanto, com 31 anos quando fez o filme. É impressionante como o rosto dela, nas seqüências da Val adolescente, é o rosto de uma garotinha. A atriz começou a carreira em 2000; participou de vários episódios de séries para a TV, e também de alguns filmes, inclusive um do badalado Vicente Aranda, Canciones de amor en Lolita’s Club, de 2007. Depois deste filme aqui, já fez mais dois, um deles com o mesmo diretor Molina.

         Uma pitadinha de feminismo, enxurradas de cenas pornôs

O roteiro, assinado por Cuca Canals, se baseia num livro autobiográfico de Valérie Tasso – não mudaram o primeiro nome da personagem real que inspirou o filme. Os cartazes do filme dizem o livro foi um best-seller na Espanha.

Sim, mas e a história, a trama, o filme? O que acontece?

Bem, depois daquele prólogo com diálogo feminista, e dos créditos iniciais que demonstram o que diz o título original, ou seja, que veremos a história de uma ninfomaníaca, acompanharemos Val, de volta a Barcelona, no seu dia-a-dia de trabalho de dia e muita trepação à noite, com diversos parceiros.

Depois haverá um período de conto de fadas que… – não, não, spoiler, não; não tem sentido contar o que acontece.   

E depois se seguirão algumas histórias previsíveis, outras nem tanto, um diálogo pretensamente feminista aqui e ali, e muita trepada.

O currículo desse tal Christian Molina não é dos melhores. A rigor, é dos piores. Fez alguns filmes que, pelo jeito, são slasher, aquele tipo de terror sanguinário para adolescentes.  

         Parece feminista, mas é uma visão danada de machista

Vou atrás de outras opiniões.

Não precisei ir longe. A resenha do AllMovie – assinada por Natan Southern – já basta. Me lava a alma: me prova que não estou louco, nem virei um moralista chato. Ele começa falando dos filmes importantes dos anos 1990 e 2000 que foram fundo no papel desempenhado pelo sexo nas vidas das pessoas, psicológica e emocionalmente, como Perdas e Danos, de Louis Malle, por exemplo, ou Intimacy, de Patrice Chéreau. (Poderia ter citado Império dos Sentidos, ou O Último Tango em Paris, mas talvez seja muito jovem.) E aí crava: “o drama erótico de Christian Molina gostaria desesperadamente de ser incluído naquele grupo de filmes, mas, infelizmente, representa uma tentativa feia e pretensiosa de pertencer ao subgênero”.

E depois diz, acertadissimamente, que, embora baseado no livro de uma mulher, o filme, dirigido por um homem, mostra mesmo é uma visão a rigor chauvinista, machista das relações humanas. “O filme pretende funcionar como uma parábola feminista sobre a libertação, mas, na verdade, o material parece construído como uma fantasia machista de como a mulher moderna ideal deveria pensar e agir.”

É exatamente isso.

Ah, sim, mais duas coisinhas. Uma é apenas um detalhinho: há uma personagem trágica, Cindy, uma puta de luxo, cujo filho mora perto do Rio de Janeiro; o filme não explicita, mas indica que Cindy é brasileira – como se sabe, há muitas brasileiras que se prostituem na Espanha.

A outra coisa é um lamento: pobre Geraldine Chaplin, essa figura legendária. Tudo bem que ela tem uma relação forte com a Espanha, viveu lá, foi casada com Carlos Saura, trabalhou no cinema espanhol – mas, cacilda, poderia perfeitamente ter passado sem o embaraço de ter trabalhado num pornô falsamente não-pornô.

Diário Proibido/Diario de una Ninfómana

De Christian Molina, Espanha, 2008

Com Belén Fabra (Val), Leonardo Sbaraglia (Jaime), Ángela Molina (Cristina), Geraldine Chaplin (a avó), Pedro Gutiérrez (Hassan), Llum Barrera (Sonia), Judith Diakhate (Cindy)

Roteiro Cuca Canals

Baseado em livro de Valérie Tasso

Fotografia Javier G. Salmones

Música Roque Baños

Produção Canonigo Films, Filmax

Cor, 95 min

*

Título em inglês: Diary of a Nynphomaniac

Um Comentário

  1. Cláudia M.
    Postado em 12 março 2012 às 12:24 am | Permalink

    Sérgio, esse filme é tão trash, mas tão trash que eu fico com vontade de rir com a cafonice das cenas!!! Péssimo!!! hahahah

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Princesas em 30 novembro 2010 às 1:29 pm

    […] o contrário de um outro filme espanhol da mesma época que também tratade prostituição, Diário Proibido/Diario de una Ninfómana, que até tenta disfarçar, mas não consegue esconder que é puro pornô, pura apelação. Nesse […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Americano em 29 janeiro 2013 às 6:28 pm

    […] recebido por Linda (o papel de Geraldine Chaplin, e no filme não há coincidência alguma com o fato de a atriz ser filha de Charlie e ex-senhora […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Elas / Elles em 22 março 2013 às 1:59 pm

    […] Elles é o exato oposto, por exemplo, dos espanhóis Dieta Mediterrânea e Diário Proibido, que são pornôs apenas levemente disfarçados. Malgoska Szumowska mostra tudo com a mais absoluta […]

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